Dia #21

2.4.20
Hoje foi dia de limpar a casa. Não preciso de dizer mais nada, pois não?
Sim, não arrastei a cama para aspirar, nem limpei o pó, ou lavei a parte de fora das sanitas (cujos autoclismos não funcionam), desde que começou a quarentena. E não tem nada a ver com a falta de tempo, pelos vistos. É a mesma falta de vontade de sempre.
As tarefas domésticas são divididas, obviamente, mas cada qual investe o seu tempo naquilo que acha necessário e fundamental para o bom ambiente familiar. Funciona? Sim, quase sempre.

Dia #20

1.4.20
O Nicolau perguntou-me se eu ainda era jornalista e eu disse que sim. Se ainda tenho a actividade aberta nas finanças, acho que posso dizer que sim, apesar de saber que não sou.
Procuro manter-me informada, como toda a gente, e continuo a confiar em alguns meios de comunicação, mas mesmo estes nunca me pareceram tão obsoletos como me parecem agora. Ou, talvez esteja a questionar tudo em demasia.
Fiz uma máscara facial com aloe vera, mel e açafrão e, quando saí para fazer a caminhada, apanhei flores num descampado. Também escrevi uma carta para a Bea.
Ia começar a fazer o jantar, arroz de marisco, mas acabou o gás. Enquanto espero pela botija, acho que vou beber um copo de vinho.

Cartas da Póvoa #3

1.4.20
Querida Bea,

Ao longo deste ano em que estiveste afastada de nós, pensei várias vezes escrever-te mais uma carta, mas depois nunca sabia o que queria, ou o que devia, dizer.
Agora sei. O que quero dizer, pelo menos. Convenhamos, um ano e um mês é tempo suficiente para pensar no que nos aconteceu.
Eu não sei, ainda, o que aconteceu, da última vez que abordamos o assunto pediste para falarmos noutra altura, nem sei se alguma vez vou saber. O que me fez escrever-te hoje, foi ter acordado a cantar Suede, ''The 2 Of Us''.
É estranho lembrar-me de ti sempre que ouço esta banda, porque nunca a ouvimos juntas e também por não ser uma daquelas pessoas que tem uma banda sonora para tudo. Bem, talvez tenha o David Bowie como banda sonora dos meus anos de liceu, mas não sei se era por precisar disso, ou se por saber que fazia parte.
Acho que foi numa viagem de carro que eu e o Jaime fizemos com os miúdos e ele pôs o ''Dog Man Star'', no leitor de CDs. Quando começou a ''Still Life'', desatei num pranto nunca visto. Eu só conseguia pensar em ti, e em como podia continuar a viver sem te ter na nossa vida, e o Brett Aderson a gritar ''But it's still, still life/But it's still, still life/But it's still, still life''. Enfim, o que vale é que os miúdos acharam que eu estava muito emocionada com a música e ainda hoje me gozam com isso.
Então, hoje acordei a cantar ''Lying in my bed./Watching my mistakes...'' e pensei se também estarias deitada na tua cama a pensar nos teus erros. Quer dizer, a cama onde estás deitada por estes dias é, muito provavelmente, um erro por si só, mas a vida é tua, as escolhas são tuas, como sempre te disse.
Não quero estar, nem tenho estado, a fazer juízos de valor sobre as tuas opções. Só queria fazer parte da tua vida, saber o que sentes, que planos tens para o futuro, sobretudo agora, quando o futuro parece cada vez mais distante.
Mas isso já sabes. O que quero dizer-te é que tenho muita pena que não nos queiras na tua vida, porque estás a perder a oportunidade de passar bons momentos com pessoas realmente espectaculares. Até podias não gostar muito de nós enquanto família, mas, caramba, o que nos divertimos juntos!!!
Agora, ainda antes do Covid-19, temos andado mais preocupados, mais ocupados e estamos mais cansados, mas ainda somos espectaculares. Podes ter a certeza.

Dia #19

31.3.20

Fui levar umas coisas a casa da minha mãe e não foi o drama que estava à espera. Sem beijos, nem aproximações desnecessárias, tudo com muita naturalidade. Na verdade, nunca fomos muito de manifestações de afecto e talvez não sejamos tão próximas como pensava, ou gostava, não sei. Não quis ir ao quarto ver a minha avó, que já não anda há um par de anos, nem fala há uns meses.
Depois do almoço estivemos a trabalhar nas burocracias da vinharia, que é a parte menos divertida do negócio. Bom, limpar os vidros daquela montra e lavar o chão também não é propriamente entusiasmante, mas é mais tolerável. Quer dizer, depende dos dias!
Como queremos evitar que as crianças passem muito tempo a olhar para ecrãs, o Jaime foi buscar a caixa de ferramentas, que é assim uma mania que me ultrapassa, este fascínio por ferramentas. Temos coisas que acho que nunca foram usadas, só porque o Jaime achava giras, ou úteis, sei lá eu. Enfim, eles também não ficam indiferentes àquela parafernália e, portanto, foi uma bela tarde de marteladas e objectos a serem lixados.
O que me valeu foi ter tido o melhor momento da quarentena, até agora: o pão com doce de kiwi da Dora e a infusão da felicidade que ela enviou pelo Jaime, aquando da entrega da encomenda de vinho.
Nunca pensei que uma infusão pudesse saber-me tão bem como um copo de vinho! E aquele doce, então, nem sei o que dizer.

P.S acabei de ter a primeira conversa online, desde que isto começou, com uma amiga de longa data e foi tão bom (isto hoje está a ser um dia em grande)!! Para muita gente pode ser estranho, mas eu não gosto particularmente de falar com pessoas no computador, ou no telefone. Mesmo nos dois anos em que vivi em Timor devo ter feito duas chamadas skype. Parece que até isso a quarentena está a mudar!

Dia #18

30.3.20
Tenho a sensação que passei o dia entre o computador e o sofá, com os miúdos a andar, ou a gritar, por aqui. Não foi inteiramente assim, mas sabemos que é mais importante a forma como interpretamos os factos, do que o factos em si.
Depois de ter tratado das encomendas, que o Jaime foi entregar ao Porto (confirma-se que foi melhor ter ficado, é unânime que não teria conseguido evitar chorar), deixei-os comer a massa com pesto no sofá, enquanto comi uma sandes de salmão fumado; joguei Ping Pong na mesa de jantar; recomecei a camisola que desfiz ontem; tratei de ferimentos e ajudei a preparar lanches.
Ainda assim parece que passei o dia entre o computador e o sofá, com os miúdos a andar, ou a gritar, por aqui.
Até quando as segunda-feiras vão ser segundas-feiras?

Dia #17

29.3.20
Por causa dos miúdos terem andado a brincar com a roupa de recém-nascidos sonhei que aquele body do Isaac estava a ser usado como pano do pó, para grande desgosto do Jaime.
Decidi plantar batatas num vaso e cebolinho noutro e apeteceu-me muito voltar a ter um jardim. Podemos sempre mudarmo-nos para o Porto, já que o nosso apartamento tem quintal, e fechar esse capítulo de uma vez por todas!
Os miúdos começam a acusar o aborrecimento de estarem fechados em casa, a minha esperança é que se fartem dos ecrãs de uma vez por todas e comecem a fazer outras coisas. Nem que seja dar banho a todos os peluches e fazer provas cegas de comidas, quando ninguém quer comer.
Amanhã temos entregas de vinho no Porto e algumas amigas aproveitaram para fazer encomendas. Fiquei encantada com a possibilidade de rever pessoas que adoro, mas depois lembrei-me da distância social e achei melhor evitar fazer figuras tristes.
Não interessa, ''vamos ficar todos bem'', como diz no desenho com um arco-íris pendurado na varanda que se vê da fila para o supermercado. E acreditar nisso é tudo o que importa, agora.

Dia #16

28.3.20
Ao sábado a vinharia está aberta e como o Jaime teve de sair para fazer entregas e recolher um frigorífico usado, eu fiquei lá.
Atendi quatro pessoas de manhã e todas cumpriram as regras de segurança, mas não pude deixar de notar que há quem tenha vontade de conversar, ou mais vontade do que habitualmente.
Soube-me bem pentear o cabelo e vestir uma roupa para ir trabalhar, apesar de sentir-me ligeiramente nervosa. Por isso, achei melhor levar comigo a Mungoche, poucas coisas relaxam-me tanto como tricotar.
O Jaime está sempre a dizer que quando isto acabar - a quarentena e suas consequências - vai estar tudo pior. Eu quero acreditar que vai estar melhor em muitos aspectos, ou nos que interessam, pelo menos. Mas, claramente, sou uma pessoa com fé.
Os rapazes ficaram sozinhos, antes e depois do almoço, e quando cheguei convenci-os a preparar um lanche no nosso pequeno pátio. Comeram rápido, discutiram a selecção musical e voltaram para os ecrãs.
O mais novo é o que se aborrece mais facilmente. Passa a vida a dar banho ao Panda. Eu percebo completamente o bem estar que um banho pode trazer (se não fossem as alterações climáticas era capaz de usar e abusar desta terapia), mas isto de dar banho a alguém (ou coisa) é outro nível, que eu ainda não atingi. Quer dizer, eu gostava de lhes dar banho quando eram bebés, porque a seguir adormeciam e eu podia desligar durante umas horas, mas não é isso que acontece neste caso.
Daqui a uma semana faço 47 anos e só me lembrei disso, porque o nosso obsessivo compulsivo dos banhos ao Panda, que faz anos daqui a um mês, não fala de outra coisa, isto é, do seu aniversário. Nesta casa (ou neste núcleo de família) fazemos anos todos no mesmo mês, menos o Isaac, e apesar de Abril ter sido um mês atípico nos últimos dois anos, este ano ultrapassa tudo.
Mas ainda estamos em Março e é preciso viver um dia de cada vez.

Dia #15

27.3.20
Nós estamos a enfrentar uma pandemia. É um facto. Temos de ficar em casa para nos protegermos e proteger os outros. Outro facto. Há quem diga, até, que estamos em guerra. Isso já é capaz de ser uma interpretação livre, apesar de haver muitos velhinhos a viver em lares em que, provavelmente, se sentem entrincheirados. E sabemos que há pessoas mais responsáveis do que outras e mais preocupadas com o colectivo do que o individual. Não é de agora.
O hashtag ''stayhome'' é muito bonito, mas quantos de nós têm de sair de casa para trabalhar? Honestamente, choca-me mais o julgamento sumário de tudo e de todos, do que ver velhinhos na rua, como se estivesse tudo normal, ou ver os homens das obras a almoçar juntos numa sombra. E quantas pessoas que se orgulham de ficar em casa utilizaram os serviços das que não ficam, porque estão a trabalhar?
Sim, já sabemos que sair para trabalhar é uma coisa, para passear é outra (espero tanto que esta crise venha reformular a organização do trabalho!). Mas não podemos achar que ficar em casa, com todas as mordomias que o nosso nível de vida e a tecnologia permitem, faça de nós melhores pessoas do que as que têm de sair (se calhar aquilo de não romantizar a quarentena era sobre isto. Eu costumava ser mais perspicaz...).
Sim, já sei, há as que têm de sair e as que saem porque sim e, muitas vezes, também fico perplexa com o número de pessoas na rua. Pior, porque raio saem tantas ao domingo? Será que há muita mais gente com a mesma rotina de trabalho do que supomos? Como não são nossas amigas no facebook, não temos como saber.

Bom, reflexões do dia à parte, tive um belo momento a observar os meus rapazes a ''brincar às bonecas'' com os seus peluches preferidos. Estiveram horas, isto é, uns 40 minutos, a vestir o panda e o cão com as roupas deles de recém-nascidos (finalmente tiveram uma utilidade!) e foi bonito de ser ver. Também comeram 1kg de laranjas, além das refeições normais, e o último dia de aulas foi adiado para segunda-feira.

Dia #14

26.3.20
Tive de ir ao supermercado outra vez, é a segunda esta semana. Não sabia que comíamos tanto! Se isto durar muito mais tempo, mais vale começar a plantar batatas nos vasos e arranjar uma galinha poedeira como animal de estimação. O Nicolau pediu para ir comigo e quando lhe disse que não podia teve um ataque de choro, que estava farto de não poder fazer nada. Depois, fez três tostas mistas na tostadeira que o Pai Natal lhe ofereceu e ficou de bem com o mundo, outra vez.
Logo a seguir ao hospital, o sítio que mais temo é o supermercado. Saio sempre de lá a achar que venho carregada de vírus em todo o lado e quando chego a casa, depois de lavar as mãos, fico a olhar para as compras no saco sem saber como pegar nelas.
Já comecei a tricotar a camisola, pelo meio do sistema solar e de numerais mistos (seja lá o que isso for), e não me lembrei que para a semana são férias da escola, por isso já não vou terminá-la. Nem sei se a termino algum dia, mas é mesmo muito bom voltar às agulhas! Como é possível ter estado tanto tempo sem fazer malha?
Por falar nisso tenho de ir. Preciso de perceber como vou encaixar o José Marías entre o tricot e o copo de vinho.

Dia #13

25.3.20

Sonhei com bolos e doces brancos de romaria e, numa das entregas de vinho, o Jaime foi comprar brownies ao Bom Miolo.
Lavei o cabelo e já não me lembrava que tinha uma juba!
Chegou a encomenda da Retrosaria. Se tiver de continuar a ajudar os rapazes nas tarefas escolares, devo ter a camisola pronta daqui a uma semana.
Improvisei um chili com os restos da carne da bolonhesa e ficou bastante bom.
É uma péssima altura para reduzir o consumo de vinho, por muito necessário que seja.
Os animais, como se vê ali pela Catrina, percebem muito de confinamento.