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Balanço

23.8.18
Está a chegar ao fim mais um ano. Eu sei que não sou a única pessoa a considerar que o ano começa em Setembro, por causa do ano lectivo. E não, não é (só) por causa dos filhos em idade escolar. Desde que vou à escola sinto essa divisão do calendário.
Portanto,  seguindo esta ordem de ideias, acho que posso dizer que este foi um ano complicado (ou filho da puta, como lhe chama o Jaime): um acidente quase mortal, a filha adolescente que deixou de poder contar com a pessoa que lhe garantiu apoio para terminar o secundário em Lisboa, uma operação de urgência e a única pessoa da família com rendimento fixo ficar sem emprego é capaz de ser uma mistura de acontecimentos suficientes para comer uvas passas e pedir desejos de ano novo com a mesma voracidade com que o nosso mais novo come chocolates.
Curiosamente não consigo ver o ano que está a terminar como mau. E isto é quase irritante (eu tenho um fraquinho por pessoas boémias e com adições, por isso as pessoas Zen sempre me irritaram um bocadinho), mas estarmos todos aqui e juntos (eu sei que para ti não é tão bom quanto para mim, Bea, mas deixa-me usufruir mais um bocadinho, sim?) é o fim d' ano perfeito.
Melhor do que isso é estarmos juntos e a reinventar uma nova vida. Ou seja, está tudo bem.
2017/18 foi, aliás, o ano em que tudo voltou ao normal: Portugal ficou em último lugar na Eurovisão, o FCP foi campeão, fizemos uma pequena viagem, sob temperaturas inumanas, ao mundo dos neandertais (que copulavam com denivosanos, mas isto fiquei a saber depois), a Madonna mudou-se para Portugal e está frio na Póvoa, em Agosto.

Caiu uma tristeza em mim

22.2.18
Ontem, não sei se a sonhar se acordada, estava em Díli. Foi tão real a visão da rua da nossa casa, das buganvílias a sair pelas grades, das motas a circular, dos alunos da escola do Farol a comerem no passeio, que me assustei. Abri muito os olhos e pensei que se calhar o Jaime estava finalmente em Timor, depois de uma viagem atribulada, e que eu conseguia ver o que ele via. Não foi nada disso, claro.
Depois, "caiu uma tristeza em mim", foi como lhe descrevi o meu estado, não sei se por estarmos outra vez longe um do outro, se por sentir falta de Timor. 
Com este recomeço em Portugal, e tudo o que isso tem implicado, não tenho pensado muito no que ficou para trás. Penso nas pessoas, no cão, na força daquela natureza que vai ficar para sempre entranhada em mim, mas agora estou aqui. E estou bem. 
Mesmo assim, "caiu uma tristeza em mim", ainda antes do Jaime me descrever como foi entrar em nossa casa com a árvore de Natal por desfazer, porque os miúdos queriam que eu a visse quando chegasse, com os desenhos deles nas paredes, os brinquedos no quarto e as nossas roupas penduradas. 
Gostava mesmo de perceber como é possível termos tantas casas. Casas realmente habitadas por nós, ou partes do nós. Também gostava de perceber a matéria da terceira classe, ou melhor, do terceiro ano, mas não se pode ter tudo, não é? (eu sei que parece mas não é uma pergunta de retórica)
"Caiu uma tristeza em mim" e por isso não fiz nada do que queria, ou precisava de fazer. Bem, fiz o bolo de iogurte com raspa de limão para a lição 100 das turmas deles e não me esqueci de o levar para escola, pus a lavar e estendi dezenas de máquinas de roupa para aproveitar o sol e fiz quiche para não deitar fora os cogumelos murchos. Mas ainda não fui assistir a uma mesa do Correntes d' Escrita, não mudei o header do blog, não dei seguimento às histórias começadas.
As tristezas podem cair ou ficar lá onde costumam estar que eu, pelos vistos, não deixo de fazer listas.

O sítio das coisas preciosas

14.2.18
Há uns anos escrevi um conto que se chamava "O sítio das coisas preciosas" (e eu que achava que até tinha jeito para títulos!). Lembrei-me dele porque em conversa com uma amiga da Bea, que vive na mesma casa desde que nasceu, apercebi-me que até sair de casa também vivi sempre na mesma, excepto quando foi deitada abaixo para ser construída uma melhor.
Depois comecei a contar as casas onde já viveram os meus filhos e desisti a meio. Virei costas à angústia que vinha instalar-se e ouvi a poupa que frequentava o quintal da casa provisória onde vivemos até a outra ficar pronta.
Lembro-me desse período, que durou uns dois anos, nem isso, como um dos mais felizes da minha infância, mas não foi essa a casa que incluí no tal conto.
Não há como saber o que levarão eles da infância, pois não?

"Na casa havia escadas. As escadas de fora e as de dentro. As de fora, em cimento, davam para um pequeno patamar com três portas: a da sala, a da cozinha e a da retrete. As de dentro, em madeira, ligavam a cozinha ao coberto. Todos os que viviam na casa tinham caído nas escadas de dentro. Nunca ninguém se aleijou.
A casa tinha uma sala, dois quartos e a cozinha, em cima. Em baixo, o coberto com os teares e os farrapos.
Havia sempre caruma, porque era preciso acender o lume para aquecer água e cozinhar.
Caruma e pinhas.
Havia também os copos da cristaleira e as cobertas de pôr à janela quando passa a procissão.
E havia canteiros com flores: dálias, malmequeres e cravos. As flores eram para o cemitério.
Havia a pá para tirar a borralha.
E um secador do cabelo. Não havia banheira, porque nem sequer existia um quarto de banho, mas havia um secador de cabelo. Ela detestava que a mãe lhe secasse o cabelo com o secador, porque lhe queimava as orelhas. Isto antes de lhe cortar o cabelo curto.
Em casa havia ainda muitos baldes, bacias e cântaros.
E um pipo com vinho dentro, que saía por uma torneirinha. Às vezes não tinha vinho.
Ao lado da casa estava o anexo, onde viviam a tia e as primas. Em cima do anexo secava o milho.
Um dia chegaram os camiões e os caterpillars e outros que não sabia o nome para deitarem a casa abaixo.
Ela chorou. A mãe disse que era para construírem uma casa melhor, mas ela não queria uma casa melhor. Queria aquela."

Contaminação

8.2.18
Em boa verdade não sou assim tão boa a mudar de vida. A mudar de casa, de país, de cidade e de rotinas sim, mas isso é mais acrescentar do que mudar, acho eu.

Podia era estar sempre como estou agora, com o Jaime em casa grande parte dos dias, os dois sentados frente a frente, cada qual no seu computador. "Já viste que o Álvaro Lapa vai estar em Serralves"?- pergunta ele. "A sério, quando?"- pergunto eu e depois mandamos sms à Bea e depois segue cada qual com os seus afazeres, não sem antes ir buscar o catálogo de uma outra exposição, a do Alvess, que vimos nesse museu, em 2008, e que nos pareceu espectacular.
E a vida parece perfeita até a rádio passar a música errada, ou o Jaime espirrar. Além de fotofobia, parece que sofro de misofonia.

Quanto aos afazeres dele não sei, os meus ficaram adiados mais um pouco, porque a seguir lembrei-me da exposição "Em viagem 70-76" de Robert Rauschenberg, que vi em 2007 e sei a data de cor, porque nesse ano fiz algumas reportagens giras no Museu de Serralves e porque logo a seguir a ter visto Rauschenberg no Porto encontrei-o em Nápoles, no Museu de Capodimonte. Não sei se foi esta coincidência, ou se a exposição em Itália era mesmo espectacular, sei é que nunca mais me esqueci daquele "Parsons Live Plants Ammonia", entre as cenas de consumismo do século XVII de Joachim Beuckelaer.

Eu fui à procura das obras no google, porque não me lembro se tirei fotos, provavelmente não era permitido, e eu sou muito bem mandada nos museus, mas mesmo que tenha tirado perdi-as.
A pesquisa não foi tão fácil como pode parecer, e foi muito mais demorada do que seria desejável, mas ajudou-me a perceber uma coisa. A contaminação que a curadoria desta exposição procurou é a mesma que quero para a minha vida. E isto não é assim tão filosófico-artístico como parece.
É só a constatação óbvia de que é tão melhor quando as pessoas têm tempo. Para estar, conversar, trocar ideias. Para se contaminarem umas às outras.

A casa nova

4.5.17

O tio Abel começou a podar a sebe de buganvílias. Acho que lá para Junho deve terminar. Não por causa do tamanho da sebe, que até é grande, mas porque vai podando aos bocadinhos, uns dez minutos por dia. Depois senta-se a olhar para o infinito. Aprecio-lhe sobremaneira esta forma de passar os dias. Há quem precise de fazer workshops e retiros para conseguir fazer isso, note-se. E, afinal, é muito simples: Um salário para os bens essenciais, um sítio para esticar o corpo durante a noite e tempo livre.
Pelo menos é o que parece visto de dentro da casa com cinco divisões mais a sala e a cozinha. E um closet. Não sei se o tio Abel consideraria um closet um bem essencial. 
Parece-me tudo excessivo na nova casa, menos o jardim. Não me importo nada de ter um jardim grande e frondoso, porque os jardins têm mosquitos (e muita fauna em geral) que, juntamente com o calor, são grandes aliados do anti-burguesismo. 

Ora bem

2.5.17
Mudei de casa e até aqui nada de novo, certo?
Quase certo, porque nunca antes tive um jardim assim. Ele tem:

Bananas


Limas (com muita sombra)

Carambolas

Fruta com nome desconhecido (para mim) que termina em nona (que aqui significa amante)


Outro nome desconhecido mas cujo fruto não é apreciado

Papaias

e Cocos
Ah, e o mar está logo ali, ao virar da esquina.

Meu querido mês de Julho

12.7.16
A viagem a Portugal, com uma visita a Amesterdão, mais uma semana sem carregador do computador foram excelentes pretextos para me manter afastada daqui. Não tenho tido vontade de escrever no blog não sei ao certo porquê. Mas tenho de arranjar uma forma de o fazer, porque há coisas sobre as quais tenho mesmo vontade, ou necessidade, de escrever. Os olhos a lacrimejar na sinagoga portuguesa, em Amesterdão, e um encontro casual com uma amiga no sítio mais improvável da capital holandesa é uma delas. O facto de terem cortado o pescoço do meu cão, em Díli, enquanto a minha mãe me sugeria eutanasiar os meus gatos por causa do pêlo e do vomitado espalhados pela casa, e do tanto que isso diz sobre as duas realidades em que vivo, é outra.
Mas há mais. Haveria muito a dizer sobre os braços magros da minha avó e da pele tão transparente que deixa à mostra a vida a correr-lhe nas veias. Sobre  o reencontro com algumas das minhas amigas, ou o sabor do feijão verde que acompanha as batatas e a pescada cozida. Sobre a temperatura amena do meu país, nesta altura do ano, e a água gelada do mar da Costa Nova. Sobre a coach mental do Éder, a traça pousada no rosto do Ronaldo e as notícias que me chegam de Díli a respeito dos festejos da vitória de Portugal. Sobre o tratado filosófico que é uma viagem pelas estradas nacionais, ou o tão em voga mindfulness que consigo atingir enquanto subo as centenas de degraus do monte da minha aldeia. Sobre o quão mais fácil é viver no mesmo fuso horário que as nossas pessoas.
Talvez um dia destes eu consiga vir aqui escrever sobre isto tudo, ou talvez não escreva e pronto. Precisar de escrever é uma coisa e precisar de público é outra. E nem sempre é fácil distinguir as duas coisas. Acabamos viciados na escrita, na decomposição do nosso sentir, sem termos bem a noção de que o verdadeiro vício é o reconhecimento, mas esse é o drama de todos os exibicionistas, certo? (há quem lhes chame artistas, mas o meu pudor barra modéstia barra insegurança quase doentia não o permite).
Talvez esta fase da minha vida exija um outro tipo de registo, não sei. Vamos indo, vamos vendo. Enquanto isso obrigada a quem está desse lado.

Balanço

19.12.15

Nesta altura do ano é costume fazerem-se balanços e coisas que tal. Eu ando a fazer o mesmo, mas dos últimos oito anos, ou seja, desde que a minha vida levou uma volta até esta nova reviravolta.
As árvores de Natal nas seis casas onde vivemos até agora (falta a de 2009, que foi foi igual à primeira) fazem um bom resumo das nossas voltas.
Feliz Natal.

Às 4h da madrugada

27.8.15
A insónia não é novidade a esta hora da madrugada. Tem sido assim nos últimos dias deste longo mês de Agosto.
Agosto foi sempre o mês mais longo do ano, também isso não é novidade.
O hotel, sim, é novo. Novo para mim, porque o chão gasto e o cheiro a desodorizante deixam claro que de novo tem pouco.
Daqui a umas horas começa a longa viagem que nos levará para a casa nova. Não gosto muito da ideia de passar tanto tempo dentro de um avião, ou melhor, de três aviões, mas todos parecem calmos (e não é só porque estão a dormir) e isso tranquiliza-me.
Lisboa não parece a mesma, sem uma casa a que chamemos nossa, mas soube-me bem o caril de camarão com quiabos e o chacuti de frango, no meu restaurante preferido.
Não sei se já tinha dito que daqui a umas horas começa a longa viagem que nos levará para a casa nova. Não é bem uma mudança de casa como todas as outras, sobretudo com tantas lágrimas misturadas, mas no fundo é isso: vamos mudar de casa.

“Boa noite, não se preocupe. Boa sorte!”

19.8.15
Isto não está fácil. A minha mãe complicou, como sempre, a minha vida. Entrou num processo tal, nas últimas semanas, que se tornou incapaz de cuidar da minha avó (ela culpa a minha avó da vida miserável que tem, eu culpo a minha mãe de complicar a minha vida. Isto é tudo um ciclo, como se sabe).
Depois de arrumar a minha casa em Lisboa, no sentido literal, tenho estado a arrumar a casa da minha mãe nos dois sentidos – literal e figurado. Limpo a merda dos gatos, dos meus e não só, que vivem aqui; limpo a merda das galinhas; limpo a merda das sanitas. Procuro um Centro de Dia para a minha avó e vejo-a pedir à minha mãe, em desespero, que não a abandone.
Desespero com o desespero das duas.
Decido não me deixar abater, já que não é novidade para mim que esta casa tem a capacidade de deitar abaixo todos os filhos da minha mãe, menos (aparentemente) o meu irmão mais novo, que é o que vive mais distante, por enquanto.
Decido não me abater, dizia, e mantenho a ideia de marcar um jantar para me despedir dos meus amigos. No processo das mensagens, via telemóvel novo, isto é, smartfone usado, engano-me num receptor e, depois de corrigir o erro, recebo a seguinte resposta: “Boa noite, não se preocupe. Boa sorte!".
Choro compulsivamente. Não sou de ferro, foda-se!

Eles

25.7.15


Há muitas razões para estar encantada com esta enorme mudança que vamos fazer (e os caixotes à minha espera, dia após dia, enquanto eu invento milhares de coisas mais importantes, tipo fazer vestidos para mim e assim), mas a que mais me entusiasma é o facto de este cenário poder acontecer fora de portas. Ou seja, em vez de andarem a correr nus pela casa como se fossem índios, vão poder ser mesmo índios a correr fora de casa, no nosso jardim com frangipanis e uma papaeira.
Além disso, não terão de falar com o pai através de um computador, ele vai estar ali connosco.
Podíamos fazer o mesmo no Minho, ou no Alentejo, com buganvílias e uma figueira? Podíamos, mas não era a mesma coisa.

Acreditem ou não

5.6.15
Vamos mudar de casa outra vez.
Agora que tínhamos encontrado o bairro certo, um apartamento que nos agrada e uma boa escola, decidimos que uma casa térrea com vista para o mar e, talvez, com uma frangipani à entrada poderia ser melhor. Fica do outro lado do mundo mas, como se costuma dizer, o mundo é muito pequeno. São só dois dias de distância, em linha recta pelo céu. E lá, do outro lado do mundo, há outros mundos a descobrir.
Ainda não contei à minha avó.

Ainda a brincar às casinhas

7.10.14
Estou a gostar muito desta brincadeira, porque tenho encontrado verdadeiros achados, mesmo aqui ao lado de casa, que encaixam muito bem nas outras peças.
É o caso das quatro cadeiras que outrora pertenceram ao Hotel Suisso Atlântico, aqui na primeira foto a serem remodeladas.Reparem que nem o incentivo à calendário Pirelli (isso queria ali a Catarina) foi descurado.


De mais duas, como esta aqui em baixo, dos Móveis Olaio.

E ainda este maravilhoso roupeiro escolar que está no meu quarto.

Instalada

24.9.14

Mudei de casa (olha que novidade!), mas não deixei de comer figos. Comi figos numa consistência muito diferente, mas o sabor, o sabor é igual. Juro. Vão lá ver.
Desde que me lembro, queria sair da aldeia onde cresci para experimentar, precisamente, este tipo de coisas: Novas consistências, novos sabores, novas experiências. Conhecer pessoas, conhecer outros costumes, outras vidas.
Há tanto para conhecer em Lisboa, ou melhor, para conhecer em Portugal. No mundo, então, nem se fala! E Timor, tão longe e tão maravilhoso! Tenho ao menos o meu porta-chaves de lá e, aqui ao lado, a Rua Timor. Não é que sejam precisos objectos, ou toponímias para recordar onde se foi feliz, mas gosto destes pequenos símbolos.
Os meninos estão a gostar da escola nova e a menina gosta assim assim da escola velha.
Eu gosto muito desta casa. Só me falta gostar de mais qualquer coisa, além dos gelados, claro, e da miscelânea de línguas que se ouvem nas ruas, e do kebab ali de baixo e do largo e de levar os meninos a pé até à escola.

Mudanças

14.7.14



Por causa destas andanças as minhas alergias estão no auge e o meu humor anda bastante estragado, não mais do que o habitual, dizem certas e determinadas pessoas, mas sabem lá o que é viver comigo 24 horas por dia, ouvir tudo o que penso, ver tudo o que faço, sentir tudo o que sinto e etc. etc.. Ainda esta noite fiz uns quantos exercícios físicos extraordinariamente executados, estava ofegante e orgulhosa de mim própria por ter ultrapassado umas quantas barreiras, mas depois apercebi-me que estava a dormir.
Mas não era disto que eu estava a falar, credo, perdi-me no raciocínio.
Gostava de escrever sobre mudanças como a Helena (e gostava de ter a casa dela, já agora), mas estou a suar e cheia de dores de cabeça o que, como toda a gente sabe, não é o estado ideal para se escrever alguma coisa de jeito.
Bom, continuando, a casa para onde nos vamos mudar não está pronta, portanto as nossas tralhas vão para um armazém e nós, olha, nós vamos para o outro lado do mundo. Vamos viver um mês em Timor. Por esta não esperavam, hein? Pois bem, este blog vai passar a ter posts sobre picadas de mosquitos, praias paradisíacas, bintangs em esplanadas e tal. Um regalo. Mas não se preocupem, temos 40 e muitas horas de viagem para lá chegar e muitos dias com os três miúdos numa terra desconhecida, enquanto o pai trabalha, para relatar. Ou seja, haverá espaço para o meu habitual realismo,chamemos-lhe assim.
Entretanto, temos de ir num instante à Póvoa baptizar os miúdos. Eu sei, eu sei, são demasiadas coisas surpreendentes, mas eu sou mesmo assim, que hei-de fazer? A cerimónia já estava marcada há algum tempo, não se trata de nenhum pré-requisito para viajar, caso alguém esteja a pensar nisso.

A formiga e a cigarra que habitam em mim

9.7.14
Ao longo das sucessivas mudanças de casa fui-me livrando de muitas coisas. Os lençóis de flanela foram, talvez, as maiores vítimas desta minimização natural. Mesmo assim guardei dois conjuntos para um inverno mais rigoroso. Nunca os usei. Agora estou ali a olhar para eles, a pensar se os levo para a próxima casa (nunca se sabe quando virá o tal inverno), ou se os mando para a reciclagem.
Ah, e entretanto não temos onde viver, mas isso logo se vê.

Entre Lisboa e o Porto

23.4.14
Uma vez mais adiado o regresso ao Porto, talvez fosse sensato deixarmo-nos de mudanças e ficar nesta casa (com as obras a terminar) até ver. Talvez.
Ou então podíamos ver se arranjávamos uma casa que nos agradasse numa zona de Lisboa completamente diferente das que temos vivido até agora. Talvez.
Escolhida a segunda hipótese e encontrada a casa, fizemos uma proposta e fomos conhecer os proprietários.
Antes disso, e como era cedo, entrei pela primeira vez n' A Vida Portuguesa do Intendente. Encontrei uma amiga que não via há anos, que pelos vistos trabalha lá e conheci a Inês, que me disse que o ideal era isso mesmo: viver entre lá e cá, entre o Porto e Lisboa. Saí da loja mesmo contente com este encontro e reencontro.
Depois, tive uma conversa muito simpática com os proprietário da tal casa e fiquei a saber que ele é organista e ela dirige um coro.
Parece-me evidente que o Universo está-me a dizer, assim tipo aos gritos, VAI, VAI PARA LÁ e nós vamos, claro, se eles não conseguirem vender a casa, que é o que pretendem. Portanto, vamos esperar. E eu acho que começo a aprender a saber esperar (mas estou um bocadinho desesperada com as escolas dos meninos, não saber onde matriculá-los e assim).

Na nova casa velha

6.11.12
Na terceira semana, e ainda sem internet e televisão em casa, posso dizer que as únicas coisas a que ainda não me habituei são: o forno a gás e a banda sonora do marceneiro do rés-do-chão. O forró estou como o outro, até combina com o som da plaina dele e da minha varinha mágica, mas para a Adele não há paciência...
De resto, posso concluir definitivamente que me faz muito mais falta a internet do que a televisão.

A Ponte de Londres Vai Cair

26.10.12
Eu gostava muito de dizer que esta brincadeira foi mesmo gira, que nos divertimos muito e tal e que eles são tão giros, que são, e eu tão espectacular, que sou, mas na verdade isto representa tão somente o desespero.  Ainda há muitas coisas pendentes na nova casa velha: prateleiras para guardar coisas na despensa sem ser a monte e fé em deus; estendal para dentro de casa, porque chove e o cesto da roupa suja veio cheio da outra casa e nesta o estendal é mais pequeno, muito mais pequeno; inventar espaço para carrinho de bebé, triciclo e cadeira para comer (esta coisa de não querermos/podermos comprar muitas coisas, tem as suas desvantagens, porque temos uma bela cadeira de plástico da Pierre Cardin, herdada de sobrinhos, que quase ocupa mais espaço que uma cama), e etc. etc. etc. Além disso, claro, as crianças estão doentes com conjuntivite e afins, desde quarta-feira.
E eu desespero. Desespero, mesmo. E sinto-me mal por isso e por ter um blog tão pessoal (se ao menos soubesse como é que não se tem um blog pessoal...), mas vou fazer o quê? Ah, sim, fazer de conta. Pois, podia fazer de conta, mas isso só mesmo com os pequenos, que merecem e precisam da fantasia.
Por isso, no meio do caos que está esta casa e a minha maravilhosa cabeça, lembrei-me de calçar sapatos aos bichos deles, depois de disputas várias pelo mesmo brinquedo, para dançarem sapateado ao som da música cujo significado me ultrapassa (mas nem tudo tem de ter um significado), "A Ponte de Londres Vai Cair". Eles acharam muita piada, naturalmente, e eu tive de repetir a cena vezes sem conta. E eram, ainda, quatro da tarde...