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Lisboetas

16.10.17

No laboratório, no rés-do-chão de um prédio residencial.
- "É a primeira vez que vem cá?"
- "Sim, não fazia ideia de que havia aqui um laboratório"
- "Há que anos! Eu já trabalho aqui há 41 anos, por aí já vê. E eu também vejo como estou velha, minha nossa, como é possível?"
- "Realmente 41 anos é muito tempo, mas não é caso para dizer que está velha"
- "Ai, estou, estou, noto quando caminho. E de manhã quando ponho os pés no chão a sair da cama, parece que me estão a espetar facas. Ainda ontem comentava com o meu marido o que fazíamos antes e o que fazemos agora (suspiro)".

No ecoponto.
Ponho uma garrafa no vidrão. Tiro as embalagens e depois o papel de um saco de plástico, daqueles grandes que se pagam no supermercado.
Uma senhora está a revirar um caixote de lixo.
- "Desculpe, vai precisar desse saquinho"
- "Não, por caso não vou precisar, quer ficar com ele?"
- "Já viu este cortinado? já não se fazem cortinados destes"
- "Hoje em dia deitam-se fora coisas em muito bom estado", digo, enquanto abro o saco para ela guardar a cortina.
- "É mesmo, este vou aproveitar"
- "Claro, faz bem. Até logo"
- "Até logo e obrigadinha".

No cabeleireiro.
- "Ai não me diga, vive em Timor há quanto tempo?"
- "Há dois anos"
- "Em que parte?"
- "Em Díli"
- "Mas o nível de vida não é muito caro? Eu pergunto, porque o meu marido recebeu uma proposta para ir para lá trabalhar mas uns amigos nossos, que tinham lá estado, disseram que não valia a pena ir para ganhar 2.500 euros"
- "Sim, não é muito barato para os estrangeiros, sobretudo porque as casas e as viagens são caras, mas depende muito das motivações de cada um, do que se procura ao sair do nosso país"
- "Pois... e o que faz lá?"
- "Nada".

Sobreviver

7.9.17
Estava no hospital quando me disseram: "Aqui em Timor, Agosto é considerado um mês de azar". Fez todo o sentido, mas fiz questão de pensar que para mim Agosto vai ser sempre um mês de sorte. Afinal, foi em Agosto que sobrevivi a um acidente de carro.
E agora até podia falar sobre o que significa isso de sobreviver a um acidente. Pensei em muitos momentos - por exemplo no avião ambulância, deitada numa maca com o cabelo cheio de sangue - que escreveria sobre isso quando me sentisse melhor.
Mas agora que me sinto melhor e depois de ter tido uns sonhos/delírios com figuras que me pareceram mitológicas, ainda que o nome que recorde seja Malaxandra, o que na verdade pode ter origem no verbo malaxar, que significa amassar, como o que se passou no acidente, o que só pode querer dizer que o meu inconsciente está sempre à procura das palavras certas e já não sei o que ia dizer a seguir.
Ah, já me lembrei. Agora que me sinto melhor apercebo-me que aquilo que procuro instintivamente é sentir-me bem, isto é, o mais confortável possível. Passo os dias a fugir da dor, a evitar o calor, a matar a fome, a dar descanso ao corpo. Lembrei-me da minha avó e de como temos tido dias parecidos. Lembrei-me também que é exactamente assim que nos sentimos quando respiramos pela primeira vez.
Enfim, uma pessoa quando se dedica a pensar fica boquiaberta com a basicidade da existência.

O que se passa com as árvores?

16.8.17
Não sei se é por Mercúrio estar retrógrado, ou se é por ser Agosto, esse mês terminal, como em tempos defini, mas parece que a vida está suspensa. Fazemos as mesmas coisas de sempre, sentamo-nos a comer, saímos para comprar água e detergente da roupa, falamos sobre o futuro, enquanto não é formado um novo Governo, sacudimos a areia dos pés antes de entrar no carro, ficamos indignados com a marcação da leitura da sentença do português e da mulher, retidos em Timor há três anos, chocados com a morte de três pessoas num acidente, causado por uma árvore que caiu em cima do carro em que viajavam (o que se passa com as árvores? 13 mortos e 49 feridos, na Madeira. Três mortos e dois feridos em Manatuto).
Pensando bem, não fazemos as mesmas coisas. Repetimos gestos e convenções para não dar em malucos. Seguimos em frente, mesmo quando no início da estrada está o sinal com a fita branca e as cadeiras já estão a ser alinhadas para o funeral da criança, mesmo quando os gritos das mulheres ficam a ecoar dentro de nós.

Pão com passas

21.7.17
O título é emprestado da minha To do list. Lá, diz que além de pão com passas tenho de fazer umas revisões de textos, enviar uns e-mails e escrever este post, que já está nos rascunhos há uns dias com: "Foi encontrado um casal congelado e conservado nos Alpes, que desapareceu há 75 anos".
Usar o primeiro item da minha lista foi uma tentativa de desbloqueio que não faço ideia como vai resultar, porque não estou a ver qual a relação entre a notícia do casal congelado, que me fez lembrar o filme 45 Anos, e pão com passas.
Até pus no google Charlotte Rampling + raisin bread e nada. Não há qualquer ligação, aparentemente.
Como não há na compra da fruta dragão, no dia da campanha do CNRT em Díli, a não ser o facto de ter sido eu a comprá-la, de estar com ela na mão e ver passar os barcos com as bandeiras do partido do Xanana rumo a Tasitolu.
Como não há na ausência de prémio na raspadinha Futu Manu (luta do galo), logo a seguir a saber que a minha avó estava a ser operada no Hospital de S. João.
Ou o meu cão gostar de bolachas Maria, ao ponto de as enterrar cuidadosamente com o focinho, e as anonas ficarem podres antes de amadurecerem.
Quer dizer, estou eu a comprar a fruta e a ver a caravana no mar e a raspar a Futu Manu e a ouvir a minha mãe e a dar bolachas ao cão e ver as anonas pretas e daqui a pouco a fazer pão com passas. Sou eu a ligação entre isso tudo.
Uma pessoa, realmente, precisa de chegar a velha para compreender os filósofos.

P.S no filme "45 anos", o casal que está prestes a celebrar 45 anos de casamento vê a sua vida ensombrada por uma carta que dá conta do aparecimento do corpo da antiga namorada de Geoff, que morreu tragicamente ao cair numa fissura de um glaciar na Suiça, em 1962. 

Cartas de Díli #5

9.7.17
Querida Bea,

Esta carta se calhar vai ser mais curta do que as anteriores, porque estou cansada. Podia continuar a adiar escrevê-la até me sentir com mais energia, ou com as ideias mais claras, mas estou convencida que obrigar-me a manter uma periodicidade é importante.
Estou a meio de uma semana diferente, e intensa, de trabalho com o workshop de jornalismo para crianças e devo dizer que tem sido uma experiência e tanto.
Quando me perguntam como está a correr eu não sei bem o que responder, porque para mim está a ser muito interessante e frustrante ao mesmo tempo.
Primeiro, porque trabalhar com crianças, mesmo não sendo uma novidade, é sempre um desafio. E depois, é muito complicado ver todo o potencial daqueles miúdos e não saber como convencê-los a usar essas capacidades, porque nem eles sabem que as têm.
Há ali miúdos incríveis, que desenham como nunca vi, que riem como nunca vi, que choram, que se controlam, que se esforçam e lutam como sabem.
Só passaram três dias (apesar de me parecerem três semanas) mas já sei de cor quase todos os nomes, mesmo que os pronuncie incorrectamente, já consolei birras de cansaço, já pus pensos em feridas, já sanei conflitos e já dei abraços de mimo (sim, sem pedirem, imagina).
Além disso, acho que começam a ter uma ideia da estrutura de uma notícia. Não sabem escrevê-la, ainda, ou não todos, pelos menos, mas sabem o que é o título, a legenda da foto e que o texto deve responder às perguntas Quem? O Quê? Onde? Quando? e Porquê?
Não tenho a certeza se o orgulho com que me mostram os resultados é por terem concluído a tarefa pedida, ou por sentirem que aprenderam qualquer coisa. Suponho que na cabeça deles uma coisa implica a outra, mas sabemos que nem sempre é assim.
Por outro lado, os teus irmãos, que passam as manhãs no "Summer Camp" e as tardes em casa com a Domingas estão no pico da carência afectiva, tipo, ao ponto de irem para debaixo do coqueiro que é o único sítio da casa para onde não podem ir, porque nesta altura estão sempre a cair cocos.
Não te rias (sim, estou mesmo a ver-te gozar comigo), há mais casos de mortes com cocos na cabeça do que com ataques de crocodilos, lembras-te? Ainda por cima, desde que estou cá só vi um crocodilo, contra três cocos que me acordaram a meio da noite a cair no chão.
Não é que a estatística me interesse por aí além, enquanto disciplina, mas eu guardo uma lista de formas de morrer surreais e nem imaginas as coisas absurdas que acontecem.
Entretanto, a semana acabou e não te enviei a carta. Depois do terceiro dia de trabalho fiquei doente, com tosse, mas o ben-u-ron resolveu a coisa e sobrevivi à primeira semana. Agora, estou mais ou menos em pânico com a que começa amanhã.
Também já dei por mim a pensar que vou sentir a falta deles. São quase todos irritantes e maravilhosos na mesma proporção.
Enfim, é bem possível que esta experiência esteja a ser a mais intensa desde que estou em Timor, porque mexe com o meu lado mais ingénuo. Aquele que olha para estas crianças, que são o futuro deste país, e acredita que pode fazer alguma diferença com as palavras.

Férias

28.6.17

Era muito raro chegar ao blog e não saber o que escrever. Agora, acontece-me ficar com a página em branco a pensar se tenho realmente alguma coisa importante para dizer.
Não há nada de muito assinalável a acontecer na minha vida (mas alguma vez houve?). Vejo os meses a ficar para trás no calendário: Maio, fim-de-semana radical; Junho, Calita out, ficha pt, ficha matemática, ficha est. meio, FERIADO, aferição pt, aferição mt, S. JOÃO, Fim da escola do Isaac, Fim da escola do Nicolau. 
A sebe de buganvílias, que o Sr. Abel, afinal, conseguiu podar antes de Maio terminar, mesmo no final, já está exuberante outra vez. 
As férias grandes começaram, o que significa que é Verão (como, se é sempre Verão?) e que esta casa vai ficar virada do avesso. 
Faltam 31 dias para chegar a Bea.

Ser ouvidos

12.6.17

Andei uma semana pelos distritos (um dia escrevo sobre o que é que isso quer dizer, porque só quem vive, ou viveu, em Timor sabe exactamente o que significa), com três timorenses a fazer um levantamento sobre tais - os tecidos tradicionais.
Poupo-vos o chorrilho de frases feitas sobre o sorriso das crianças ranhosas, a hospitalidade das comunidades, a vida simples que parece seguir indiferente a carências várias.
Por um lado, porque eu própria não tenho tenho paciência para ler essas baboseiras, e depois de que serve sentir-me tocada pela vida dos outros quando sei que vou chegar a casa, mais cedo ou mais tarde (aqui é garantidamente sempre mais tarde), e comer o que me apetecer e tomar banho de chuveiro e beber duas garrafas de vinho?
É verdade que eu tenho tendência a reagir emocionalmente em certas situações. Por exemplo, no museu onde trabalhei, tive de me esconder no cockpit do avião a fingir, porque uma das crianças do grupo que eu estava a orientar tinha leucemia. De outra vez cruzei-me com um bebé, filho de uma das mães solteiras que a instituição onde eu trabalhava acolhia, e quando cheguei a casa desatei num pranto tal que ninguém sabia como me acudir.
Não foi o caso nesta minha experiência. Nem mesmo com a avó de 60 anos a amamentar o neto que está a criar, porque lhe morreu a filha.
Senti-me embalada pelas conversas que não entendia. Via as crianças penduradas nas mamas das mães, sentia a subida do leite e sabia que não tinha de amamentar. Que liberdade! não há liberdade maior.
As mulheres respondiam às perguntas, falavam das tradições da comunidade, riam-se,
sempre com crianças a fazer ninho nos colos.
Em todas as casas havia um mar de gente, que come e dorme e faz tudo o que se faz numa casa, mesmo com cortinas em vez de paredes e em vez de portas. A privacidade é muito subvalorizada nesta ilha.
Não me sentei no chão de terra batida, ou no cimento, uma única vez, porque há sempre uma cadeira de plástico para as visitas, e um naperon para a mesa.
Pareceu-me tudo muito familiar, como uma memória.
Depois entrava no carro e seguia sem crianças a querer fazer ninho no meu colo, a perguntar se falta muito, a abrir a janela para vomitar. Que liberdade!
Quando cheguei a casa vi a Elza Soares no computador. É pouco mais nova que a minha avó e é um gosto ouvi-la, como é ouvir as histórias que a minha avó inventa sobre o tráfico de droga em frente à escola primária. Mas já ninguém quer ouvir a minha avó. Eu ouvia a Elza e pensava na minha avó e nas mulheres dos distritos e percebi que é tudo sobre isso, sobre querermos ser ouvidos.

O que me preocupa

2.6.17
Eu sei que devia estar preocupada com as provas de aferição e os exames globais e o aproveitamento escolar das crianças e tudo o que possa pôr em causa o sucesso deles no futuro, mesmo que eu não faça a mais pequena ideia do que isso seja, até porque tenho vivido neste engano de que o importante é que tenham saúde e sejam felizes.
Devia estar preocupada com esta dor de lado que me apanha o rim, e talvez o fígado e um bocado do estômago e às vezes o intestino grosso e que aparece e desaparece, mas uma pessoa fica a pensar nisso, porque não vai para nova e nasceu num país onde as doenças são troféus, enormes troféus, cada um mais elaborado e cheio de recocós do que o outro e isto fica entranhado nos genes.
E a paz no mundo, meu deus, devia estar preocupada com a paz no mundo, como as misses do Universo, que é feito delas, já agora? O mundo está a precisar que se faça alguma coisa.
Mas não, não. Eu estou preocupada com os pensos higiénicos que deixei inadvertidamente no balde do lixo da casa de banho e que foram devidamente recolhidos com o restante lixo da casa para serem depositados lá fora, na lixeira que está no passeio, para serem farejados pelos cães que os espalharão na estrada, deixando assim à vista de toda a gente os vestígios da minha feminidade.

Os mundos

23.5.17

Há o mundo lá fora. Com os atentados terroristas. As peças de teatro. Crianças de babete. O chiar dos comboios. Migas de vinho. Velhos tristes. O frio das frinchas. Bodas de prata. Refugiados e outros desalojados. Auto-estradas. Com o futuro sempre no presente. O nevoeiro cerrado. Com os olhos nos olhos nos cafés. E o iodo que vem do mar.
Há o meu mundo. Com o som das vassouras que varrem os quintais. O pássaro que caiu do ninho. O gato que veio da rua e o cão matou. As crianças a cantarem na igreja de Motael. O medo. Sempre o medo (E se eles caem. E se eles se afogam. E se eles ficam doentes. E se eu fico doente. E tu, vais estar sempre aqui?). As papaias sumarentas. Os sorrisos forçados. Os sorrisos verdadeiros.  As crianças a aprenderem que "Ela é feita para apanhar/ Ela é boa de cuspir". E o lixo que vai para o mar.
E há o mundo das redes sociais.

Memórias sensoriais

13.5.17
Com este clima nunca me tinha ocorrido tricotar, mas como pretendemos ir a Portugal no Natal resolvi trazer lãs e agulhas da última vez que lá estivemos.
Um dia destes estava na sala com o ar condicionado ligado (os desta casa funcionam mesmo bem) a montar e contar malhas e ouvi um camião a passar na rua. Nesse momento pensei que estava na casa da rua Maria, em Lisboa. O som lá fora, que me pareceu um eléctrico, a temperatura normal da sala e o tricot criaram esse momento, bastante confuso, devo dizer.
Mas não foi a primeira vez. Já antes, também nesta casa, estava deitada e um carro a apitar na rua fez-me acreditar que era a peixeira que costuma passar de manhã na minha aldeia.
Ficamos sempre com marcas dos sítios, parece. Estranho é as minhas memórias sensoriais não me levarem ao meu Porto.

Cartas de Díli #2

8.5.17
Querida Bea,

      Já estamos instalados na nossa casa nova. Fica perto do mar e tem um jardim muito bonito. Eu sei que o Jaime já te mostrou a casa no skype, por isso poupo-te os detalhes, menos o dos macacos. Sim, temos macacos, vi-os ontem em cima do telhado e apesar de não apreciar por aí além a espécie, não consegui deixar de ficar enternecida e quase maravilhada a olhar para os dois animaizinhos que se coçavam e nos miravam com igual interesse.
      Depois, fiquei a saber que os macacos mudaram-se para esta zona da cidade quando foram expulsos do jardim de Lecidere . Compreendo-os muito bem, é definitivamente a melhor localização para se viver em Díli.
      A casa tem um quarto de hóspedes com casa de banho e, muitas vezes, imagino que é o teu quarto. Eu sei que não gostas do calor e da lentidão dos dias em Timor mas, acho, haverias de gostar desta casa. Tem uma luz boa e um silêncio justo. Aos domingos de manhã ouvimos a missa da igreja de Motael e o Nicolau a andar de patins na sala.
      Escusado será dizer que ainda não comecei o meu plano de acordar cedo para caminhar junto ao mar, mas eu e os meus planos falhados são um clássico nesta família.
      Além da mudança de casa não aconteceu nada de muito relevante nas últimas semanas. Houve o momento da caixa de legumes da FarmPro (uma ONG que trabalha com agricultores de Ermera e faz entregas a quem subscrever o serviço) que me encheu de entusiasmo, não só por gostar do projecto mas porque é impossível não ficar radiante perante a variedade de verduras: brócolos, couve-flor, espargos, quiabos, rúcula, courgette, beringelas, etc.
      Também tivemos uma manhã fabulosa na praia do Cristo Rei. Estava maré alta e o mar tinha ondas, muitas ondas. Dá para acreditar? E imagina que chegámos a ter um bocadinho de frio quando saímos da água e tudo. Uma maravilha!
      Portanto, uma caixa de legumes e uma manhã de praia foram as coisas que me fizeram feliz por estes dias. Vamos considerar que isso é uma coisa boa, ok? Até porque a caixa de legumes também tinha ovos e morangos e, além disso, eu sou de gostar de coisas simples, como lambuzar-me de papaia e anona acabadas de colher, ver o pôr do sol na areia branca (agora que falo nisso já não vejo um há muito tempo) e estender-me a ler um livro.
      Ah, li o da Isabela Figueiredo, "A Gorda" e lembrei-me de quando a Carla nos perguntou, a mim e à Helena, se sabíamos de alguma casa para emprestar à Isabela para ela conseguir terminar o livro. Foi quando estivemos a três juntas no Porto e o Jaime teve a ideia de usar uma banheira como carrinho de rolamento, na Grande Descida de Carros Artesanais, lembras-te?
      Só mais uma coisa, vai ver o Guardiões da Galáxia 2. Acho que é impossível não gostar, mesmo sem legendas em chinês e bahasa. A banda sonora é soberba.

A casa nova

4.5.17

O tio Abel começou a podar a sebe de buganvílias. Acho que lá para Junho deve terminar. Não por causa do tamanho da sebe, que até é grande, mas porque vai podando aos bocadinhos, uns dez minutos por dia. Depois senta-se a olhar para o infinito. Aprecio-lhe sobremaneira esta forma de passar os dias. Há quem precise de fazer workshops e retiros para conseguir fazer isso, note-se. E, afinal, é muito simples: Um salário para os bens essenciais, um sítio para esticar o corpo durante a noite e tempo livre.
Pelo menos é o que parece visto de dentro da casa com cinco divisões mais a sala e a cozinha. E um closet. Não sei se o tio Abel consideraria um closet um bem essencial. 
Parece-me tudo excessivo na nova casa, menos o jardim. Não me importo nada de ter um jardim grande e frondoso, porque os jardins têm mosquitos (e muita fauna em geral) que, juntamente com o calor, são grandes aliados do anti-burguesismo. 

Ora bem

2.5.17
Mudei de casa e até aqui nada de novo, certo?
Quase certo, porque nunca antes tive um jardim assim. Ele tem:

Bananas


Limas (com muita sombra)

Carambolas

Fruta com nome desconhecido (para mim) que termina em nona (que aqui significa amante)


Outro nome desconhecido mas cujo fruto não é apreciado

Papaias

e Cocos
Ah, e o mar está logo ali, ao virar da esquina.

Trabalhar

27.3.17

Andar a pé em Díli é difícil. Perguntem a qualquer pessoa e todos dirão o mesmo. O calor, o pó, o trânsito e, nalguns casos, o assédio verbal desmotiva qualquer caminhante. Mas eu insisto em continuar a andar pelo meu pé, porque é uma coisa que preciso de fazer, quase como preciso de respirar. Por isso, sempre que possível, isto é, quando estou sem as crianças em casa, que apesar de poderem acompanhar-me, já que têm boas pernas para isso, vão o caminho todo a queixarem-se de tudo e mais alguma coisa, vou a pé ao supermercado. Demoro 20 minutos. 
Nesse percurso cruzo-me quase sempre com o vizinho que vende apostas numa mesa pequena e que me cumprimenta calorosamente com um: "Bom dia senhora, onde vai?" E eu respondo que vou passear, ou vou ao supermercado, ou comprar umas coisas, depende. 
No outro dia, decidi ir tomar o pequeno almoço ao da Terra que é um sítio que tem umas panquecas muito boas e um batido de kefir maravilhoso. Ao passar pelo vizinho fui cumprimentada calorosamente, como sempre, mas desta vez ele perguntou-me se ia trabalhar e eu, automaticamente, respondi que sim. 
Depois de já ter comido as minhas panquecas a simpática funcionária, pergunta-me: "Hoje não trabalha, senhora?" e eu automaticamente respondo: "Não, hoje não trabalho, estou de folga".
Fiquei bastante intrigada por nessa manhã diferentes pessoas quererem saber da minha vida profissional, mas se calhar deu-se uma daquelas coincidências de estarem os dois a aprender português e a palavra do dia ter sido "trabalhar". 
Quando me fui embora, e enquanto caminhava em direcção ao supermercado para tomar café, pus-me a pensar nas minhas respostas, e como automaticamente respondi ao que esperavam ouvir, e depois mais alguém me cumprimentou: "Bom dia, senhora professora".

O acontecimento

14.3.17
A Joss Stone veio actuar a Timor Leste e foi um acontecimento. Pelo menos para as três centenas e meia de pessoas que estiveram no Hotel Timor foi um grande acontecimento, proporcionado por dois moços que conseguiram incluir Díli na Total World Tour da banda (não há-de ser à toa que a empresa de eventos que gerem se chama No Limit).
Eu fui, claro. Não conheço quase nada do trabalho da Joss Stone, mas não ia ficar em casa quando acontece uma coisa rara destas. E gostei, achei que foi uma hora e tal muito bem passada e ainda fiquei a conhecer um bocadinho do novo projecto do Etson Caminha, que actuou no início.
Mas não é a música, nem o acontecimento em si que me traz aqui.
A certa altura a artista refere que tem muita pena por só poder estar 20 horas num país tão bonito, mas em contrapartida pode dizer que já actuou em quase todos os países do mundo. Ou pelo menos foi o que percebi.
Nessa altura pensei, a sério que há expatriados/emigrantes em todos os países do mundo? Sim, porque estes concertos não são para os locais, obviamente. Ou para todos os locais. Depois, fui confirmar por onde andou e vi, por exemplo, que no Laos o concerto foi na embaixada britânica, no Sudão numa escola internacional e no Malawi num centro de convenções.  Fiquei curiosa sobre quantas pessoas assistiram aos concertos dela por esse mundo fora (aqui os bilhetes esgotaram no mesmo dia) e pareceu-me limitado e ao mesmo tempo interessante conhecer o mundo por essa perspectiva.
Ou seja, se não puder desbravar caminhos e viver apaixonada pelo que faço, acho que podia viver como groupi da Joss Stone.

O supermercado

7.3.17

Um dia destes estava a ouvir as histórias fabulosas de um rapaz que trabalha aqui em Timor, na área da agricultura sustentável, e a pensar "meu deus, eu também quero fazer coisas assim, desbravar caminhos nunca antes desbravados, viver apaixonada pelo que faço, descobrir coisas novas sobre o Universo (nesta parte do mundo é fácil isso acontecer)", e depois fui ao supermercado.
O supermercado é o sítio onde vou mais frequentemente, não só pelas razões óbvias, mas sobretudo porque não há assim muito mais onde ir. Sim, isso mesmo. Quer dizer, há um shopping, mas não vamos falar sobre isso, e há a praia, mas como dizia no outro dia um italiano, a viver nesta parte do mundo há alguns anos, o Natal é especial, porque acontece uma vez por ano. Ou seja, quando se pode ir à praia todos os dias, a praia deixa de ser um sítio desejado.
Portanto, eu que sempre odiei supermercados agora passo a vida num. É claro que não é um supermercado qualquer (viste, Jaime, como sou tão simpática?), é o sítio onde quase toda a gente se encontra para tomar café, por exemplo, e é capaz de ser o supermercado com a melhor banda sonora do mundo.
Seja como for, depois da conversa que me pôs a pensar como seria bom desbravar caminhos nunca antes desbravados, viver apaixonada pelo que faço e descobrir coisas novas sobre o Universo fui abastecer a despensa e depois fui almoçar ameijoas e caril de camarão. Ou seja, fui à minha vidinha.
Só que o Universo é essa coisa muito engraçada e agora sempre que vou ao Páteo (Jaime, depois discutimos o preço deste post) olho para o jardim que está na foto e lembro-me da conversa com o tal rapaz, porque foi ele que fez aquilo.
Todos os dias, ou quase todos os dias, olho para aquele jardim e penso "que bom deve ser olhar para uma coisa destas e saber que fomos nós que a fizemos. Assim, tipo, fazer mesmo com as nossas mãos e que é a fazer coisas assim que ganhamos a vida".

P.S deu para perceber que o Jaime trabalha no supermercado, certo?

Bicho de estimação

23.2.17

Eu tinha uma pequena aversão a repteis que aos poucos se foi transformando numa quase relação saudável, desde que passei a viver com tekis dentro de casa.
No entanto, há um (uma?) que me anda a chatear. Eu reparei nele há uns tempo, porque ao contrário dos outros não se esconde sempre que alguém se aproxima. Antes pelo contrário, fica ali a olhar para nós, como se fossemos nós os intrusos. Nem com as duas flashadas que levou para esta fotografia ele se mexeu (será cego?).
Depois, tem um aspecto completamente diferente dos outros. É muito mais escuro e com umas patas mais parecidas com garras do que ventosas. Já andei a tentar perceber de que espécie de lagarto se trata mas não consegui.
Um dia, depois de o encontrar no meio de uns brinquedos dos miúdos, decidimos apanhá-lo e levá-lo lá para fora, só que nesse processo ele ficou sem cauda. Pois, coitadinho e tal, mas deixa lá que ela volta a crescer.
O que eu não sabia é que ia vê-la crescer, porque o bicho voltou para casa e faz questão de se pavonear por aí com a cauda em franco desenvolvimento. Outras vezes encosta-se ao lado da minha secretária e fica a fazer-me companhia como se fosse um animal de estimação.
O Jaime acha que o bicho merece o nosso respeito, no sentido de admiração. Eu acho-o feio. Um feio Almodóvar e só por isso apetece-me gostar dele, só que não consigo. Não confio nele, parece um daqueles seres capaz de tudo para ter atenção, inclusive matar outros tekis. 
Sim, estava um teki morto no chão da sala.

Florista

21.2.17

Todos os dias da semana tenho um arranjo de flores, colhidas no jardim, em cima da mesa da sala de jantar. Todos os dias é um arranjo diferente e cada um mais bonito do que o outro.
A Akita, que veio substituir a Domingas enquanto dura a licença de maternidade, devia ser florista em vez de empregada doméstica.
Todos os dias, excepto aos fins-de-semana, não consigo evitar olhar para a jarra de flores e pensar em todas as pessoas que deviam ser floristas e estão a fazer outra coisa qualquer.

Já está

10.1.17

Ficar muito tempo sem escrever num diário levanta um grande problema: Deve uma pessoa seguir escrevendo, como se não tivesse havido um hiato de tempo? Na verdade, ainda não passou um mês, e não há assim tanta coisa a acontecer num mês, certo? Errado.
A vida numa ilha tropical do sudeste asiático pode ser muito aborrecida, não sei se é por isso que os expatriados bebem tanto, mas ao mesmo tempo parece que está tudo a acontecer. Como se os fragmentos dos dias formassem um todo mais claro. O que até faz sentido, porque os dias passam mais lentos e nesse abrandamento é mais fácil ver a paisagem à volta.
E vejo uma filha quase adulta e um quase recém bebé que vai este ano para a escola primária, que é aquele patamar em que os pais dão por terminada a primeira infância.
Acho que é por isso que este blog deixou de ser o diário desesperado de uma doméstica (sim, é mais giro stay-at-home-mom, mas o glamour nunca foi o meu forte e eu até acho que tentei algumas vezes).
Por isso e porque agora não tenho de limpar a casa, lavar a roupa e secá-la em cima dos aquecedores, limpar a areia dos gatos e levar os miúdos a um jardim para correrem em liberdade. Bem, esta última parte até podia ser uma coisa gira, só que nem por isso. Para mim era uma canseira. Até tinha pesadelos com o mais pequeno a cair daquela girafa do jardim da Estrela.
E até me podem vir dizer que o pior está para vir. Que quando são pequeninos é que é bom. Sim, é bom, de uma forma peculiar, mas também é tremendamente exigente. O que faz com que acredite, talvez erradamente, que a parte difícil está feita. Ou isso, ou comecei a viver naquelas bolhas em que se põe lá dentro o que nos interessa.
É que a bem dizer eu nunca me preocupei tão pouco com a educação deles como no último ano (e até tenho um filho sem vontade nenhuma de aprender o currículo escolar), mas a sensação que tenho é que tudo está a correr bastante bem (sim, eu acabei de escrever isto).
Pois, mas isto não aconteceu durante o mês em que não escrevi aqui, poderão dizer-me. Pois claro que não, isso tem vindo a acontecer.
O que aconteceu no último mês foram as mesmas coisas de sempre. Hoje, por exemplo, acordei tarde, fui mordida por formigas assassinas, porque não reparei que a toalha do banho estava cheia delas outra vez, e depois comi uma panqueca feita no micro-ondas, porque o gás acabou precisamente quando ia começar a fazê-la no fogão.
Mas também aconteceu uma viagem com um reencontro ansioso e uma despedida dramática. Com momentos de contemplação que só as viagens proporcionam e com a sensação (um pouco intensificada pelo fim da leitura do livro "O Grande Bazar Ferroviário", no fim da viagem) de que esta parte da vida já está. Passemos à seguinte.

Querida Mónica

30.11.16
Fotografia possível, com os músicos do projecto Sal de Terra. Não se vê do lado direito o músico português, Paulo Pereira.

Pedi ao Tó Zé para te retribuir o beijinho (posso tratar-te por tu, não posso?) mas depois achei que tinha de vir aqui agradecer-te publicamente.
É que isto de estar a almoçar no Hotel Timor e ser abordada pela Sara para me apresentar um dos músicos do projecto Sal de Terra, que me quer conhecer, porque a mulher dele é fã do meu blog, é uma cena espectacular. A sério, não estou a exagerar. 
Eu estou a almoçar em Díli, num hotel requintado e que não perdeu completamente (nem sei se pretende) o ambiente colonialista. Estou com os meus dois filhos e o Jaime. Estamos com pressa, porque acabamos de chegar de Balibó e o mais novo insiste que quer ir à escola. Como sempre não reparei quem estava no restaurante, não só porque não me interessa, mas também porque vejo mal ao longe e parece-se escusado estar a percorrer a sala com os olhos semicerrados. 
Chegou a minha massada de peixe cheia de coentros (que sabiam a coentros) e o tornedó do Jaime. 
Pouco depois aproxima-se a Sara com o Tó Zé e faz as apresentações e eu, além de incrédula, estava com um carrapito ridículo. Foi tudo tão isto está mesmo a acontecer? que até demorei a perceber que o Isaac estava pendurado em cima do teu marido, como se o conhecesse há anos (ias adorar esta cena, Bea!)
Na verdade, ele é mesmo muito simpático e de fácil conversa mas eu, ao contrário do Isaac, que parecia achar tudo muito natural, não conseguia sair da minha incredulidade. 
Além disso, a espectacularidade deste episódio levou-me ao concerto que os Sal de Terra deram na UNTL (Universidade Nacional de Timor-Leste), nessa tarde, e foi mesmo, mesmo muito bom. 
Obrigada. 
Ah, e agora o Isaac quer toca viola campaniça.