Pequenas coisas

19.2.21

Sou sempre a última a sair da cama. Ouço o Nicolau nas aulas, o Isaac a acordar ruidosamente (tal como continuará pelo dia fora), o Jaime na cozinha a fazer sumo e café, ou a tirar a louça da máquina, ruidosamente, e penso no que tenho para fazer. Quando acontece, como hoje, de ter de ir a algum sítio, neste caso ao dentista, significa que tenho de lavar o cabelo e pensar no que vestir. E assim, ir ao dentista, uma consulta só para confirmar que está tudo bem, passa a ser a coisa mais importante que tens para fazer. E já que te vestiste e lavaste o cabelo passas no teu trabalho, a caminho de casa, e ajudas a fazer reposição de stock na vinharia, consideras lavar os vidros da montra, mas vai chover no fim-de-semana, é melhor deixar para depois, e confirmas encomendas. Depois guardas umas wafer da Paupério para os miúdos e uma garrafa de vinho para ti e regressas a casa.

Mas, normalmente, quando acordo e penso no que tenho para fazer são só pequenas coisas - as refeições, talvez secar roupa no aquecedor, ou na lavandaria, fazer uma caminhada, mandar mensagem à Catarina por causa da psicóloga e estar aqui em casa para o que acontecer. Claro que há a humidade dos tectos para lavar, o site para actualizar, os TPC dos miúdos para controlar e mil coisas para ler e escrever, mas isso não é urgente. 

E é urgente o quê, afinal? Viro-me para o outro lado e penso no poema de Eugénio de Andrade, mas não sei de cor. 

Desculpas

13.2.21


Como quase todos os pais não consigo deixar de estar preocupada com o tempo que os meus filhos passam em frente a um ecrã, sem ser para assistir às aulas. E se por um lado me parece justo que nos intervalos joguem com os amigos, ainda que virtualmente, por outro fico em estado de choque quando ouço o mais novo a pedir à Siri da Google para contar uma piada e a perguntar-lhe se está feliz.

Apesar de achar que a geração digital não está perdida e que, muito provavelmente, os humanos desenvolverão umas competências e perderão outras, tentámos adiar ao máximo que eles usassem dispositivos tecnológicos, mas tenho a certeza que teria sido melhor adiar muito mais. Porque, sempre que os vejo na praia a brincar, ou a caminhar na serra, tenho a certeza que essa é sempre a melhor forma de passar o tempo.

Mas, por estes dias, estamos ainda mais fechados em casa porque, além da chuva, um tem aulas de manhã e outro tem aulas de tarde. Bem tento que leiam, sem sucesso, e tento convencer-me que ainda estão a tempo de descobrir o grande prazer da leitura, mesmo sabendo que é pouco provavél que esta seja uma geração leitora. Mas, depois leio sobre Platão considerar, no século IV a.C., que a escrita destruia a memória - «Se os homens aprenderem a escrever, tal implementará o esquecimento das suas almas; deixarão de exercitar a memória, pois passarão a depender do que está escrito»*- e quando olho para tudo o que a humanidade conseguiu fazer nos séculos seguintes, sossego. 


*Uma História da Leitura, Alberto Manguel, Editorial Presença, 1998

Amar demais

10.2.21

Eu acho que sei o que ela sente, porque já tive aquela idade, porque me identifico com as inseguranças, a angústia e a arrogância das escolhas que ninguém compreende. Mas eu não sou ela, lembram-me muitas vezes. Mas a empatia é precisamente isso, pôrmo-nos no lugar do outro, digo. E estar no lugar do outro não é olhar para o que se passa com os nossos olhos, é com os olhos desse outro, ouvi. 

Certo. Não posso ser eu com os olhos dela, nem ela com os meus olhos; não pode ser o meu coração no peito dela, nem o dela a misturar-se com o meu, como quando batiam juntos. Não? 

Amar demais é pior para quem ama, ou para quem é amado?

De ressaca

8.2.21
Evito escrever alcoolizada e quando o faço tenho em conta, ou tento, aquela máxima do Hemingway de escrever bêbeda e editar sóbria, mas ontem não só escrevi um post embriagada, como o editei e partilhei no facebook. Um telemóvel nas mãos de uma bêbeda é um perigo, que o digam as minhas amigas que levam comigo no whatsapp!
Bom, mas hoje é segunda-feira, dia habitual de ressaca, e as crianças estão na escola. Em casa, mas na escola. Quer dizer, uma delas estás em casa, casa, porque as aulas já terminaram. E eu não sei se ainda são efeitos dos exageros de ontem, mas não consigo deixar de ficar impressionada com a forma como professores e alunos fazem, aparentemente, isto funcionar. 

Ter filhos é, para uma grande parte das pessoas (espero), uma escolha

7.2.21

É a primeira vez que estou a usar o telemóvel para escrever no blog, porque se não o fizer agora sei que, muito provavelmente, não vou ligar o computador para o fazer. 

A sério que foi preciso o teletrabalho para perceberem quanto do vosso tempo dedicam a ser pais e a trabalhar, e a dificuldade que é conciliar isso tudo? 

É claro que podemos ser ricos (ou viver em países de terceiro mundo) e ter amas, mas quando tudo falha, i.e., o Estado, temos de ser pais. Olha que estranho, mas não foi para isso que tivemos filhos, para sermos pais deles? (Eu gostava que houvesse outro termo que dissesse respeito à maternidade e paternidade, como um só, mas na nossa língua não existe, pois não?)

Música cósmica

5.2.21







Estava a ouvir a teoria do físico Michio Kako, no documentário sobre o cérebro, em que ele dizia que a música é o único paradigma rico o suficiente para explicar a vasta diversidade de matéria que temos no Universo, correspondendo cada partícula subatómica a uma nota musical, numa pequena corda vibratória. E, sendo a física as harmonias que podemos tocar nestas cordas e a química a melodia que resulta das cordas que interagem entre si, o que é a mente de Deus (Aquele que terá criado a matéria)? - perguntou ele. 

Albert Einstein procurou esta resposta, a teoria final, toda a vida. Nunca a encontrou, porque ''a mente de Deus é a música cósmica a ressoar através do Universo'' e não há fórmulas que o expliquem. Isto já sou a subentender.

Isto tudo para dizer que a seguir a ouvir esta bela teoria recebi os horários das aulas online dos meus filhos e espero muito que os professores deles ouçam a mesma música cósmica que eu. 

Colorir

3.2.21


Eu sei que muitas pessoas, a maioria talvez, nunca acreditaram que esta pandemia viesse transformar a sociedade. Eu cheguei a pensar que sim, que era impossível não se reparar que há outras formas de encarar o trabalho, que a escola pode ser diferente, que a mobilidade nas cidades pode ser reestruturada, mas o primeiro confinamento acabou, voltou quase tudo ao normal, e veio o segundo confinamento.

E aquilo que posso concluir é que, por mais contraditório que possa parecer, é muito pior confinar no Inverno do que na Primavera. De resto, não me apetece pensar. Apetece-me dormir e colorir os desenhos do Nicolau. E mandalas. 

Duas vidas

2.2.21

Sugeri ao Jaime que visse o filme a Face do Amor e, antes de ele adormecer no sofá, perguntei se não se sentia reconfortado com a ideia de termos um sósia. Ele disse que não, nem por sombras. Já eu gosto mesmo da ideia de haver outra pessoa no mundo igual a mim, como se fosse possível vivermos duas vidas na mesma vida, como no filme do Kieslowski. E mesmo que só sejemos iguais fisicamente, gosto de a imaginar a viver na Nova Zelândia, ou algures no Golfo Pérsico. Provavelmente chama-se Ava e está, neste momento, a beber um chá à porta de casa, ou numa esplanada, a sentir o sol na cara. E a sorrir, claro.

O mesmo dia

29.1.21

Os dias sucedem iguais. Nenhum é igual ao outro, mas todos parecem o mesmo. Estou farta disto, como a maior parte das pessoas, e sei que tenho de procurar ondas de confortabilidade para não ceder ao desalento. Encontro-as na chuva miudinha na cara, em falas de filmes - ''sabes que dizem que todos nós temos um sósia algures'' -, em artigos nos jornais - ''corpos que já foram desejados, já se reproduziram, são a humanidade que ali está'' -, nas aulas de yoga e nas bolachas que o Jaime me compra, as mesmas de 2008. Também comíamos tâmaras, agora é raro. 

Temos de comprar ketchup

25.1.21

Antes do almoço estivemos a definir as tarefas de cada um para os próximos dias e quando me apercebi que ainda não passou uma semana, foi só um fim-de-semana mais um dia, ia tendo um ataque.

Mas, bom, é preciso fazer alguma coisa, sobretudo depois destes resultados eleitorias. Por isso comecei a conversa da divisão das tarefas com um discurso inspirador, do tipo, eu achava que nós podemos ser felizes a fazer o que gostamos, a viver de acordo com os nossos ideais sem nos preocuparmos com o que os outros fazem, ou pensam, mas enganei-me. Temos de trabalhar, de nos esforçar para sermos, pelo menos, parecidos com os outros para os impedir de chegar a estes extremos. Ou seja, não vamos conseguir mudar o mundo ficando fora dele. O Jaime riu-se, mesmo que negue, e as crianças disseram que não perceberam nada. Quer dizer, o mais velho ainda perguntou se eu pensava mudar o mundo a vender vinho, o que mostra que, além de se achar um engraçadinho, estava a perceber o que eu queria dizer.  

A divisão de tarefas correu bem, não obstante, e só houve discussão quanto à escolha das refeições, mas depois de perceberem que a comida encomendada só pode vir de restaurantes que tentam sobreviver no meio desta pandemia, um escolheu sushi e o outro hambúrgueres feitos em casa - ''Mas têm de comprar ketchup'', disse.