Tarte de chalotas caramelizadas, ervilhas de quebrar, pêssegos grelhados e queijo de cabra, no Bon Vivant.
Estava a ler a entrevista à Manuela de Melo e a gostar tanto das ideias dela e da forma como as apresenta, inclusive a informação sobre o signo do zodíaco - ''Tento não me apaixonar como uma guerreira se apaixonaria pelo que faz. Mas sim, tenho um pouco de guerreira, de obstinada… Sou Carneiro.'' -, que nem me ocorreu que ela tivesse escolhido viver num sítio mais calmo, com outro ritmo de vida, por causa da idade. Juro que a certa altura pensei: ''olha, esta admirável senhora está a viver a vida que eu quero quando chegar aos 60 anos'', convencida de que ela seria uma recém septuagenária (apesar da data de nascimento figurar no primeiro parágrafo). Confesso que aquele fait divers do signo, e por eu também ser carneiro, ascendente balança, já agora (sim, eu sei, revirem os olhos à vontade, eu entendo) ainda me fez gostar mais dela, e imaginei-nos amigas a conversar num dos restaurantes trendy do Porto, a comer quincális e cachápuris. A certa altura enchia-lhe o copo de um vinho arménio e contava-lhe que também tudo o que fiz foi por acaso. Só que o acaso não foi tão simpático comigo como foi com ela. Mas aqui estamos, cada uma com a sua história, e enquanto houver histórias e quem as conte, por aqui continuaremos.
Antes de ler a entrevista tinha lido o caderno de curiosidades da Ana Varga e fiquei bastante interessada na história de Samin Nosra (é escorpião), porque é sempre um conforto ver pessoas a conseguirem atingir aquilo pelo que batalharam e porque as cozinhas de restaurantes conceituados são sempre sítios fascinantes, sobretudo, depois do The Bear (o Carmy também é escorpião). Por causa desta série fiquei com bastante vontade de conhecer Chicago, mas já me conformei com a impossibilidade de conhecer todos os sítios que gostaria. Aliás, se tivesse de escolher cinco cidades que não conheço para visitar ia ter alguma dificuldade, preferia ter um motivo para viajar, uma exposição (esta, por exemplo), um evento único, uma curiosidade, ou um trabalho. Assim, não teria de viver com a responsabilidade da escolha. É melhor não ter de escolher, quando se trata de uma escolha impossível, ou muito difícil. Ia dizer que, afinal, a vida não é nada mais do que uma tremenda quantidade de acasos que no fim batem certo. Mas, não, a vida faz-se das inúmeras escolhas que fazemos todos os dias.
O senhor que me cedeu a passagem no metro, ontem, e que ganha 3,80€ por hora, a trabalhar num restaurante com muito bacalhau na ementa, escolheu não matar a mulher com quem estava casado há 15 anos, quando a apanhou na cama com outro homem. Devia ter-lhe perguntado o signo. Provavelmente era sagitário, como o meu pai, que faz hoje 40 anos que morreu.
