Pronta para o Outono

9.9.20

Estava a ler sobre Marie Bashkirtseff e a sua incessante busca pela fama, mas a personagem feminina que mais me tem intrigado é a Louisa Durrell. A forma como esta mulher vive a maternidade é, para mim, absolutamente enternecedora, depois há o problema com a bebida, que na série é mencionado muito ao de leve, e tendencialmente simpatizo com mulheres que têm problemas de álcool, não sei se é muito evidente.

Também há os casos amorosos com o Sven, o Hugh e o Spiro, mas há mais qualquer coisa que me deixa vidrada na personagem, ao ponto de querer saber mais sobre a vida da verdadeira Louisa e a procurar identificar-me com ela. Já tinha saudades de uma pequena obsessão. Acho que estou pronta para o Outono, portanto.

Intranquilidade

27.8.20


Todos os problemas com a idade, ali a partir dos 35, são uma parvoíce comparados com a proximidade dos 50 (aos 70, se ainda estiver viva, vou rir muito disto, eu sei), que é quando nos vemos num corpo que não reconhecemos como nosso.

Além de estar como o Sérgio Godinho - ''Dói-me o joelho/ Dói-me parte do antebraço/ Dói-me a parte interna/ De uma perna/ E parte amiga/ Da barriga/ Que fadiga'', tenho partes do corpo sobredimensionadas para praticamente todo o meu guarda-roupa. E não é aquela coisa de ter uns quilos a mais, ou não é só, é mais do que isso. É como se estivesse a transformar-me numa pessoa de...quase 50 anos (AUCH!!). E isso até nem seria mau (haja saúdinha) se na minha cabeça eu fosse uma pessoa de quase 50 anos. Ou se, pelo menos, quisesse ser. 

Há muitas vantagens em ser uma pessoa de quase 50 anos. Supostamente estamos reconciliadas com os erros do passado, perdoamos a quem tínhamos de perdoar, deixámos ir o que tinha de ir e sabemos a quem queremos dedicar o nosso tempo. Só que não. 

Há sempre uma inquietude a perseguir-me, por isso soube mesmo bem quando ela me disse, citando Adèle Van Reeth, "que sejamos sempre atingidas pelo dardo da intranquilidade".

A seguir perguntei-lhe se se lembrava de termos comentado o filme Antes da Meia-Noite, porque tinha-o revisto na televisão e não me lembrava o que me tinha desagradado. Depois ocorreu-me que deve ter sido por a Celine se ter tornado uma mãe como nós. Seja como for, tenho a impressão que achei piada ao filme quando estreou, mas gostei mais de o rever.

A Celine tinha 41 anos, o que quer dizer que se fizerem outro Antes... ela terá 50 anos. Acho que vou enviar um e-mail ao Richard Linklater com umas sugestões. É mais uma daquelas ideias para juntar à do episódio do Odisseia e ao argumento de um livro de Amin Maalouf.

Se bem que, a avaliar pela forma como tentei explicar aos miúdos a diferença entre ácido e azedo, a minha capacidade para explanar está uma desgraça. 

Acepipes

19.8.20

Eu sei que concordei com o Javier Marías (no post anterior) sobre não ser preciso andarmos tão sedentos de experienciar coisas, porque estar vivo é suficiente. Mas há que saber/conseguir viver, digo eu, e parece-me que ultimamente não tenho sabido. 

Por razões que nem sempre consigo explicar gosto de culpar a Póvoa por isso, pela minha falta de vontade, ou incapacidade, de viver melhor. Melhor comigo mesma, claro. E, no entanto, não me lembro de ter tantos momentos de ''confortabilidade''*, no meio de uma existência quase amorfa. Acontecem quando menos espero, como hoje a lavar um prato de acepipes. É uma palavra bonita, acepipes.


*Há uns tempos estava a fazer festas ao Isaac, enquanto víamos um programa qualquer na televisão, e ele revelou-me, enlevado, que estava a sentir uma onda de confortabilidade a subir-lhe pelas costas e a inundar a cabeça. Ri-me e disse-lhe que sabia exactamente o que queria dizer. A partir daí, a palavra entrou no nosso léxico. Assim como amaciante (do cabelo) e guzas (em vez da exclamação 'estás a gozar'!)

Ainda ontem

11.8.20

Os miúdos foram passar três dias com a irmã, quando nos reencontramos ela perguntou-me se eu ainda escrevia no blog (a sério? bom, na verdade, é melhor que não o leia) e eu pensei que ela ia contar-me o que tinham feito para depois eu escrever sobre isso, ou só dizer qualquer coisa acerca da necessidade de tantas pessoas escreverem sobre parentalidade. Quando lhe respondi que sim, mas que escrevo cada vez menos, ela fez um esgar estupefacto e perguntou: ''Como consegues? É impossível usar o cérebro com eles por perto. É impossível completar um raciocínio!'' .

Sim, é verdade. Quer dizer, não é impossível, mas é realmente difícil, até porque mesmo quando não estão por perto, com as  gritarias, as solicitações constantes e os ruídos dos diferentes dispositivos electrónicos, estão sempre presentes. Como uma pedra no rim. Temos umas horas até ir buscá-los, preparar-lhes as refeições, tratar das roupas, ouvir-lhes os queixumes, mas muitas dessas horas são passadas a adiar o que queremos ou temos de escrever, porque como acabaremos por ter de interromper, mais vale nem começar. Acho que este filme fala sobre isso, mas ainda não o consegui ver.

As crianças são o melhor do mundo, como se sabe, mas também conseguem ser bastante insuportáveis. As minhas, pelo menos. E depois vão à vida delas e nós ficamos sem perceber muito bem como é que isso aconteceu, quando ainda ontem andavam a moer-nos o juízo. 

O Javier Marías tem razão (ele deve estar extasiado por eu lhe dar razão), não precisamos de andar tão angustiados a tentar somar experiências, ''porque no final de qualquer vida mais ou menos longa, por monótona que tenha sido, e anódina, e cinzenta, e sem sobressaltos, haverá sempre demasiadas recordações e demasiadas contradições, demasiadas renúncias e omissões e mudanças, muitas marcha-atrás, muito arriar bandeiras, e também demasiadas deslealdades, isso é garantido.''

Está tudo bem, por enquanto

7.8.20
Tenho tentando manter-me informada sobre o que se passa no mundo através dos meios de informação credíveis, mas vou espreitando outros, claro. Também fiquei comovida com o homem sentado do lado de fora da janela, do quarto do hospital, onde a mãe estava internada com Covid. Também vejo alguns vídeos da explosão em Beirute, mas depois vou ler sobre nitrato de amónio. 
Ocorreu-me, agora, que não tenho lido sobre os refugiados, acho que é por não me chegar nada sobre o assunto nas newesletter que recebo, ou ao mural do facebook. 
Mesmo assim, mesmo filtrando a pouca informação que vou consumindo, não consigo livrar-me da sensação de que o planeta está a fazer uma espécie de purga e, ao contrário do que dizem todas as religiões, não há eleitos. 
Sempre que passo pela fila para a recolha de alimentos, ao lado de minha casa, procuro não pensar na sorte de uns e de outros, ou se o rapaz que martela pedras da calçada é feliz. 
Já não me chateia que as obras na minha rua não terminem. Está tudo bem, por enquanto. Por enquanto, temos mais uma garrafa de vinho para abrir, temos os croissants com queijo da Riba Mar, o cheiro dos nossos corpos nos lençóis lavados, tomate com queijo feta e queijo da Quinta da Pegadinha, os abraços e o riso dos nossos filhos, o jantar sempre à mesma hora, as caminhadas à beira mar, a música na Juke Box, o tricot no saco a tiracolo e os biscoitos de Valongo com café de Timor. 

As pessoas fixes

1.8.20
Tenho a sensação que devia ler os 10 anos deste blog e escrever sobre isso. Dava um romance, claro, mas aposto que resolvia o assunto em seis mil caracteres. Sou muito sucinta.
Devia escrever mais, como estão sempre a dizer-me, mas esta mania de fazer só o que me apetece...isso e ser sucinta.
Por este andar resumo os próximos 10 anos a três mil caracteres. Devia obrigar-me a registar, ainda que o mundo precise muito pouco de mais opiniões, desabafos e partilhas do quotidiano, mas é como me diziam há uns anos quando me questionava sobre se devia ter mais filhos quando havia tantas pessoas no mundo. ''É preciso que as pessoas fixes tenham filhos, porque se forem só os outros estamos tramados''. Foi o Frederico, não era meu amigo, mal o conhecia, e disse-me isto há mais de 15 de anos. Tive mais dois filhos uns anos depois dessa conversa, mas nunca mais me tinha lembrado dela, até agora. 
Apetece-me cada vez menos escrever aqui, como se nota, mas não podem ser só os outros, os ''não fixes'', a escrever sobre o que lhes apetece, ou sobre o que acham que os outros querem ler. 
Durante o confinamento, ou parte dele, tinha de enviar uma selfie para um dos grupos de amigxs do whatsapp, todos os dias às 15:00h. Já não estamos em confinamento, mas continuamos o exercício (esta foi a minha foto de hoje). Acho que sabe bem saber o que estão a fazer as pessoas fixes.

Substituídos pelo incaracterístico horror

16.7.20

Aquela edição de Os Pescadores foi feita pela Biblioteca Municipal Rocha Peixoto e está à venda na vinharia, desde o último Correntes D'Escritas. E aquele vinho, o Tubarão, é feito a partir das uvas das masseiras (está esgotado, antes que perguntem). Pescadores e agricultores, os poveiros que foram estragados e substituídos ''pela fealdade e pelo incaracterístico horror'', representados num livro e num vinho.
Eu achava que já tinha lido Os Pescadores, como poderia não ter lido? Mas não. Mal li as primeiras páginas soube que era a primeira vez, porque fiquei fascinada com a forma como Raul Brandão vê as pessoas e as paisagens.  
Além disso, não deixa de ser incrível como há 100 anos o escritor já descrevia uma realidade tão actual: ''Como temos o condão de estragar tudo, empobrecemos as populações da beira-mar, para enriquecer meia dúzia de felizes. Cultivar o mar é uma coisa - é o ofício de pescadores; explorar o mar é outra coisa - é o ofício de industriais''.

Posso chorar?

5.7.20
Depois da telescola, um dos grandes desafios enquanto pais tem sido gerir a histeria do Isaac com os jogos online (um deles, claro, há outros, muitos outros, como seria de esperar numa família com três filhos).
Num desses momentos em que ele está a arrancar cabelos e a chorar porque a internet não funciona, ou o telemóvel bloqueou, perguntei-lhe calmamente (sem me descabelar, ameaçar que nunca mais o deixava jogar aquele jogo, ou mandá-lo para a cama indiferente aos gritos de dor, como se o estivesse a torturar) -  Achas mesmo que chorar dessa forma resolve alguma coisa?
- (depois de longa pausa a acalmar-se para conseguir falar) Se eu morrer tu não vais chorar?
- Sabes que sim, vou chorar muito.
- E isso vai trazer-me de volta?
- Não
- E vais deixar de chorar?
- Não
- Então, posso chorar mesmo sabendo que não resolvo nada?

Uma lulik

1.7.20

Às vezes, um gesto, um som, ou qualquer outra coisa leva-me a determinados momentos do passado que julgava esquecidos. Chego a duvidar que tenham existido e penso se não serão imaginação minha. Aconteceu ontem, depois de jantar, enquanto conversava com o Jaime e rabiscava num guardanapo.
Faço isso, parece, de ir rabiscando, passando uns riscos por cima de outros, começar a ver formas e explorá-las. Foi assim que acabei a desenhar uma uma lulik no meio de uma chuva que caía na vertical, num guardanapo (deitei-o fora, por isso não posso mostrar o desenho).
Foi quando vi o desenho que regressei a 2002, ao curso de Direitos Humanos da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Lá estava eu sentada na secretária a rabiscar no caderno enquanto o Joaquim Fidalgo falava, quando a minha colega do lado, uma búlgara de cabelo curto, sussurrou: ''such a nice drawing''.

Acabaram as aulas

26.6.20
Hoje termina, oficialmente, o ano lectivo (na verdade, já o tinha dado por terminado há mais de uma semana) e nunca umas férias escolares foram tão desejadas pelos pais como estas. Ninguém sabe o que vai fazer com as crianças nos próximos dois meses, mas que importa? A escola acabou! YEEEEEEEEEEEEEEEEAH!