Li o Monte dos Vendavais na mesma semana em que saiu o filme da Emerald Fennell. Não tinha a certeza de o ter lido, apesar de ter a história muito presente, talvez por causa do filme de 1992. Tanto que no momento em que Mr. Lokwood está a dormir na cama que fora de Catherine e sonha que parte o vidro para calar o abeto ''a embater na janela da gelosia, impelido pelo vento forte que soprava, ululante'', e uma mão agarra-lhe o braço comecei a ouvir na minha cabeça a música da Kate Bush.
Seja como for, comprei a edição da Relógio D'Água, porque continuo com todos os meus livros dentro de caixotes e li-a em poucos dias. Não vou estar aqui com dissertações sobre o livro, porque não faltam opiniões e críticas sobre esta obra intensa e perturbadora, mas apeteceu-me opinar sobre o filme, que a minha filha ''obrigou-me'' a ir ver. Foi ela, aliás, que me apresentou a Fennell, primeiro com Saltburn e depois Uma Miúda com Potencial e me falou da catrefada de haters que a realizadora tem.
Fui, então, ao cinema com a certeza de que iria ver uma versão de O Monte dos Vendavais muito diferente da que já tinha visto (e que mal recordo, na verdade) e que este filme da Fennel teria muito pouco a ver com a história do livro. E, sim, confirmaram-se ambas as certezas, mas isso não significa que não seja um filme que vale muito pena ver. Primeiro, porque apresenta alguma ideias do livro que não me tinham ocorrido, como o papel da Nelly na vida das personagens. Eu vi-a sempre como uma governanta que está a contar a versão dela da história, é certo, e é óbvia a influência dela sobre os protagonistas, mas nunca a vi como a ''vilã'', como a chamou a minha filha e como foi retratada no filme. Depois, claro, há toda a carga sensual e sexual, que nunca é assumida no livro e que, no filme, serve para explicar não só a obsessão de Heathcliff e Catherine como a relação de Heathcliff e Isabella. Mesmo que se trate de uma ''sensualidade grotesca e boçal de burlesco adolescente que faz lembrar Benny Hill'', como descreveu Jorge Mourinha, no Público, não deixa de ser uma perspetiva interessante, a meu ver. Também me pareceu muito interessante a personagem do pai e do irmão de Cathy ser a mesma, no filme, bem como outros detalhes que não correspondendo ao que Emily Brontë escreveu foram bem trabalhados. Depois há a banda sonora considerada por muita gente, ou pela gente que eu vou lendo, a melhor coisa do filme. Não conhecia Charli XCX, não fiquei com uma vontade por aí além de conhecer, mas a banda sonora é impactante.
Quanto à escolha bastante criticável dos atores acho, honestamente, que era indiferente, ou talvez tenha só gostado de ver a Margot Robbie e o Jacob Elordi juntos independentemente de representarem as personagens de Brontë, porque aquilo que Cathy e o Heathcliff são não é representável. É como diz Hélia Correia no prefácio: ''Esta paisagem [North York Moors] é o que se esconde no tema íntimo de Wuthering Heiths. Uma dissolução da Natureza e uma dissolução do indivíduo, o todo, uno e confuso, que é anterior ao sexo e à mortalidade''. Cathy e Heathcliff não são um par romântico, são outra coisa que não se consegue explicar, mas não me choca vê-los como Emerald Fennel os vê.
Saí do cinema com vontade de ler o livro e ver o filme, outra vez.
