Rejubilemos

14.2.20

Rejubilemos, o sol chegou à Póvoa de Varzim! Jaime, esquece o que disse hoje de manhã, meia a dormir, talvez a Póvoa não seja uma cidade má (reparaste que sublinhei o talvez?).
Bom, é possível que a minha costela celta seja de uma tribo diferente da que predomina nesta geografia, pelo que devia fazer uma regressão, ou outra cena assim new age, para compreender de onde me vem esta animosidade. Pronto, agora vou ter de ir à biblioteca ler sobre celtas e vikings, o google não me ajudou grande coisa nesta matéria.
Mas, dizia, o sol chegou e, sabe-se lá, podemos encontrar um trevo de quatro folhas, ou tropeçar num significado para a nossa vida.

Uma pessoa triste

8.2.20

Dois anos depois de ter regressado a Portugal voltei a sentir-me como antes de sair daqui. Voltei a acordar sem vontade de sair da cama, a ter de fazer um esforço para executar as tarefas mais básicas, a engatar os pensamentos uns nos outros, a ter medo de enlouquecer...
Tem vindo a acontecer, claro, não foi assim de repente, mas percebi claramente que tinha chegado ao mesmo ponto quando dei por mim a ler a entrevista póstuma a George Steiner no El País, a ponderar assinar o Expresso Digital para ver o que Kirk Douglas, ou Issur Danielovitch Demsky, disse aos 100 anos a propósito da sua longevidade, que atribuiu ao amor e às longas conversas com a mulher, Anne Buydens, a fazer scroll down no artigo sobre Dorothy Parker e, por causa disso, ir procurar a Mesa Redonda de Alonquin. Tudo isto sem retirar grande prazer das leituras e com a sensação de que devia estar a fazer outra coisa.
Não tenho feito as caminhadas habituais, deve ser por isso. Fiquei a pensar se os meus filhos olham para mim como uma mãe deprimida, mesmo que não saibam exactamente o que isso significa (nem eu, por acaso) e mandei mensagem à que já tem idade para perceber. Ela respondeu: «Não me lembro em que ponto é que realmente me apercebi disso, até porque durante muito tempo foi só um conceito abstracto, mas sinto que sempre tive a noção que eras ''triste''».
Pronto, se calhar eu sou uma pessoa triste, com muitos momentos de alegria e outros de grande alegria. Não há-de vir grande mal ao mundo por causa disso.

O que vai ser o comer

30.1.20
Passou uma música na Radar a louvar a rotina, uma rotina em particular, pareceu-me. Achei piada ao ritmo e à letra mas quando a Inês Meneses falou no Sambado já não ouvi (eu faço parte do grupo das pessoas que não aprecia trabalhar e ouvir música ao mesmo tempo).
Depois, as horas foram passando e eu fui dando por mim a pensar onde comprar o peixe para o jantar, na logística para ir buscar o Nicolau à escola e outras coisas mundanas. Troquei mensagens com o Jaime sobre o jantar, enquanto tratava do almoço do Isaac, e fiquei deveras perturbada com esta minha obsessão do que vai ser o comer.
Na verdade é mais uma obsessão do pequeno lá de casa do que minha. Sempre que o vamos buscar à escola a primeira pergunta que faz é: ''o que vamos jantar?'' Depois compara com o que almoçou e reclama, ou rejubila consoante a ementa apresentada.
Nunca mais me esqueci do dia em que lhe disse que o jantar era strogonoff, o que lhe agradou imenso, mas depois recusou-se a comer, porque o arroz devia ser branco e era de cenoura. ''Não se come strogonoff com arroz desta cor!'', disse ele em prantos.
Bom, depois da troca de mensagens pareceu-me claro que as refeições diárias são o compasso das minhas rotinas.
Entretanto, apeteceu-me escrever sobre as rotinas e por isso lembrei-me da música que tinha ouvido de manhã. Como não consegui descobrir qual era, perguntei ao Jaime (que faz completamente parte do grupo das pessoas que não sabem trabalhar sem ouvir música) e ele esclareceu-me, no exacto momento em que a música passava novamente na rádio, que se tratava da Jóia da Rotina.
''A jóia da rotina/ A jóia da rotina/ É voltar cedo pra casa/ Deixar o ouro na mina''.
Ele há coisas!

Segunda-feira

27.1.20

Os miúdos não foram à escola, hoje. Nenhum de nós conseguiu acordar a tempo, ou melhor, nenhum de nós achou que valia a pena o esforço, depois de ouvir as sete badaladas numa igreja e mais sete na outra (só espero que nenhuma das professoras deles leia este blog e vá procurar a justificação de faltas). E apesar de ter passado a manhã a centrifugar a roupa, que passou a madrugada a apanhar chuva, e a fritar panados para o almoço, mantive o humor típico de quem fez um manguito ao sistema.
Claro que ajudou ter acordado com vagar e ficar a olhar para o fac-símile do Egon Shiele, na parede em frente à nossa cama, enquanto pensava no filme sobre Maria Madalena e me ocorria que tinha de haver uma relação entre estes e o desaparecimento de Percy Fawcett .
Obviamente, abri uma garrafa de vinho ao almoço, ao contrário do que é habitual a uma segunda-feira.

Como seria?

22.1.20

Estou convencida que a minha ideia para salvar o mundo, apesar de distópica, teria a grande vantagem de vermos que espécie humana adviria daí.
Parece-me que devo andar a pensar nisto há algum tempo, uma vez que cumpro parte do que proponho (ou será que proponho precisamente por isso?). Então, a minha sugestão é que cada um de nós viva com o que consegue fazer. E só com isso. Se eu quero comer carne tenho de matar o animal.  Se gosto de ter a casa a brilhar e tudo arrumado nos armários perco o tempo necessário para o fazer, em vez de contratar uma mulher a dias. Para andar vestida e calçada não sugiro que confeccionemos as nossas próprias roupas e calçado, mas devemos pagar tudo o que está associado a uma peça, desde a matéria prima, passando pelos processos de transformação, até à mão de obra. Nesta realidade não faltariam os alimentos básicos à subsistência: pão, fruta, legumes e algum leite, assim como tecidos e roupas usadas, mas tudo para além disso teria de ser feito por quem aspirasse a mais.
A distância entre o trabalho e a escola deve ser a que conseguirmos fazer a pé. Se não for possível usem-se as carreiras, vulgarmente conhecidas por transportes públicos, ou as carroças puxadas a cavalo, como ainda usam algumas lavradoras de Aguçadora. Sim, estou a sugerir vivermos todos como eu vivia há 35 anos, ou seja, antes da CEE. A diferença é que nessa altura havia mais pobres (agora considerados classe média)  do que ricos, que não tinham mais do que um carro por família.
Não temos de culpar o desenvolvimento, a globalização e o capitalismo (se bem que este último...devia haver gente, ou mais gente, a estudar a razão para reproduzirmos sistemas que nos aniquilam mais do que nos ajudam) pelo estado a que chegamos, mas agora que já vimos onde viemos parar, como seria se recomeçássemos? 

Ser mãe

2.1.20

Último pôr-do-sol de 2019
Peguei num caderno à procura de uma folha livre para fazer mais uma lista de compras, e outra de coisas a fazer (ideia para 2020: compilar todas as listas que encontrar), quando li num rascunho: ''ser mãe é abdicar de ser outra coisa qualquer''.
Apesar de não me lembrar por que razão o escrevi, tenho a impressão que não fez tanto sentido na altura, como agora ao reler.
Sim, sim já sabemos que a maternidade acrescenta muito mais em proporção ao que se abdica (outra ideia: escrever posts fofinhos sobre a família, agora que anda tudo a falar dos desafios e dificuldades), mas ser mãe é realmente abdicar de ser outra coisa.

Memórias

28.12.19

O facebook mostrou-me esta foto e eu fui procurar as notas do meu diário de viagem. Sabe mesmo bem voltar a sítios onde fomos felizes!

''Dia 9
Kandy-Bandarawela

Faltavam 15 minutos para as 8h00 quando chegámos à estação de comboio de Kandy e já estava uma fila enorme para comprar bilhetes para o mesmo destino que nós.  Pareceu-me óbvio que íamos ter de ir de taxi, mas quando vi os bilhetes na mão do Jaime fiquei super contente (1000 rupias todos os bilhetes).
Só que a felicidade durou pouco tempo, já que o comboio chegou à estação às 8h49, completamente a abarrotar, e foi um ver se te avias. Toda  agente a empurrar-se para conseguir um lugar de pé, apertado entre pessoas e malas.
Fomos de táxi, portanto (12 mil rupias). Foram quatro horas e meia de viagem com uma daquelas paragens desnecessárias para ver um jardim de ervas e especiarias. Até podia ser uma coisa engraçada se não fosse tão óbvio o objectivo de nos impingirem cremes, loções e especiarias com propriedades milagrosas, em embalagens horrorosas. Por um boião de cravinho, que pelos vistos põe os dentes brancos, pediram-nos o equivalente a 20 usd. Enfim, trouxe um creme de aloe vera e um óleo de canela.
Parte da viagem os miúdos foram a dormir. O Isaac foi o que dormiu menos e o Nicolau vomitou duas vezes.
O motorista muito mais conversador do que o anterior, talvez por dominar melhor o inglês, também passava a vida a atender o telefone.
Vimos as plantações de chá e umas quedas de água, mas o que queríamos mesmo era chegar ao hotel rapidamente. Estávamos todos um bocado frustrados por não ter conseguido apanhar o comboio.
Chegámos ao Mount Pleasant às 13h30 e pedimos o almoço.
O Mount Pleasant é uma casa estilo inglês, muito bonita e muito confortável. Tinha uma árvore de Natal na sala e um piano. A comida não era nada de outro mundo, mas tínhamos vinho da loja ao lado.
Depois do almoço fomos dar um passeio pelo centro, sem a Bea que quis ficar no hotel, porque tinha internet.
Bandarawela é uma pequena cidade com um centro simpático, cheio de pequenas lojas de tudo e mais alguma coisa, com pessoas solícitas e a fazerem-nos sentir bem vindos.
Éramos os únicos turistas a passear àquela hora. Entrámos numa loja de tecidos e comprei um sari (21 usd). Não tenho a certeza de ter escolhido o certo. Também trouxemos uma camisa para o Nicolau e uma t.shirt para o Isaac do piso de cima. Decidi que voltaria lá no dia seguinte para comprar mais tecidos. Jantámos no hotel, a Bea tocou piano e fomos dormir cedo.''

Porque sim

21.12.19

Quando escrevi isto, há três anos, achava que estava preparada para o que ia acontecer. Eu acho sempre que estou preparada, porque aprendi muito cedo a não ter nada como garantido. Vivo com o que acontece e muitas coisas acontecem só porque sim.
Mas não conseguiríamos viver, ou não seríamos humanos, se não pudéssemos olhar para o futuro com esperança.
Ali atrás, há três anos, eu achava que a Bea ia completar o terceiro ciclo na António Arroio, o Nicolau poderia começar o primeiro ciclo em Timor, ou noutro país, e que faríamos muitas viagens juntos.
Depois aconteceu o pai da Bea deixar de poder viver com ela em Lisboa, o acidente de carro em Timor, o ter de ficar em Lisboa a ver o Jaime partir com os miúdos. Pouco depois, nas férias de Natal, aconteceu uma cirurgia de urgência e os dois meses juntos em Portugal fizeram-nos ter vontade de ficar aqui. O Jaime teve de regressar por causa do trabalho, mas acabou por se demitir. Sem rendimentos tivemos de vender a casa de Lisboa e a Bea de se matricular na Soares dos Reis. Não sei se foi essa mudança em particular, ou o acumular de todas as andanças, que desencadeou a crise que a fez ir-se embora. Sei que foi esse acontecimento que marcou este ano como um dos piores da minha vida. Mas 2019 foi também o ano em que abrimos a Tua Vinharia que me permite, além de outras coisas, fazer balanços bem interessantes.
Ainda assim não me lembro de esperar tão ansiosamente por um final de ano, quando nem sequer dou grande importância ao ritual de deitar o ano velho fora. Provavelmente, quantos mais desafios enfrentamos mais nos enchemos de esperança. É por isso que algumas pessoas ricas deixaram de tomar banho todos os dias, passaram a circular de transportes públicos e ligam menos vezes o aquecimento. Ah, e comem muitas leguminosas e pouca, ou nenhuma, carne.
Na verdade eu estou é na expectativa que tudo corra pelo melhor com a reaproximação da Bea e com o crescente reconhecimento do nosso trabalho na vinharia, e quero muito a Primavera. Porque sim.

P.S Para manter a tradição dos últimos tempos publico a foto da árvore de Natal num post que não tem nada a ver.

Marriage Storry

13.12.19

Então, lá fui eu a correr abrir uma conta na netflix para ver o Marriage Story e só não estou arrependida, porque posso experimentar o canal durante um mês grátis. Agora, espero que não me dificultem o cancelamento.
Eu gostei do filme, atenção, os diálogos são muito bons e há detalhes deliciosos, além da prestação dos actores principais - sim, eu também adoro o Adam Driver, assim de adorar mesmo, mas a Scarlett Johansson não fica nada atrás -, mas não vale os oito euros, que teria de pagar, comparativamente aos cinco euros que pago no Trindade, por exemplo.
Ah, adorei aquela parte em que ela diz que bebe um copo de vinho de vez em quando, às vezes mais do que um e que acontece pedir uma garrafa quando está com alguém num restaurante. Parecia eu a explicar à médica de família quantos copos de vinho bebo por dia.

Três anos muito bons

6.12.19

A minha filha pediu-me fotografias dos anos 80, em que eu aparecesse com amigos e familiares, por causa de uns figurinos em que está a trabalhar e agora ando aqui comigo aos 18 anos colada a mim. Voltar a estas fotografias, quando passo todos os dias pelo liceu, é como separar camadas de uma bebinca (já agora, podem sempre acompanhar esta iguaria com um colheita tardia, ou um Porto branco envelhecido em madeira. Sim, ando viciada nisto de fazer pairings).
E é como se estivesse a olhar para mim e para a minha filha, com a mesma idade, mas com receitas de bebinca diferentes.
Depois, ela comenta que muita gente da turma dela do 10.º ano da António Arroio se vestia exactamente como a minha turma do 10.º ano da Eça de Queirós e eu fico ainda mais baralhada entre as camadas das diferentes bebincas.
É que o mundo até pode pular e avançar, como na canção, mas há coisas que permanecem: o embate do nascimento de um filho, a dilaceração da perda de alguém, o estonteamento da paixão e, claro, a energia dos 16,17 e 18 anos.
Tenho-me visto a olhar para mim com essa idade de outra forma e apetecia-me tanto entrar no liceu, ou no Mabri, para me dizer ''tu és tão melhor do que pensas, miúda, mas tão melhor!''
Foram três anos muitos bons, estes do 10.º ao 12.º ano, determinantes mesmo. Às vezes cruzo-me com um ou outro professor dessa altura e não consigo deixar de me emocionar.

P.S  Caros amigos do 10.º G? H? desculpem estar a publicar uma foto sem autorização, se for caso disso ponho um daqueles smiles nas vossas caras, sim?