E se...

4.3.19
Houve uma altura na minha vida em que quase me inscrevi num curso de língua gestual. Não me lembro ao certo quando foi, mas tenho quase a certeza que foi depois de ter sido mãe, porque antes era menos diletante, por muito contra-senso que isto pareça.
A minha ideia era que não há linguagem mais universal do que a gestual, portanto seria lógico que em vez do Esperanto se aprendesse a língua dos surdos. Seria mais abrangente, pelo menos.
Não tirei o curso, porque me pareceu que não me serviria  para nada (a não ser, talvez, para trabalhar numa escola de crianças surdas) se o resto do mundo não tivesse a mesma ideia, mas continuo a achar que devia ser uma das opções de segunda língua na escola.
Ou seja, impedir-me de fazer coisas incríveis, sem nexo e completamente irrelevantes tem sido, muitas vezes, o meu colete salva vidas, aquilo que me tem feito passar por uma pessoa adaptada e funcional. O que é bom, ou vantajoso, mas não consigo deixar de pensar, como sugere o professor Dave Schmerz, ''E se...''

No outro lado

26.2.19
Sempre que estou sozinha, adoro sorver a sopa, sobretudo se for canja como é o caso, agora.
Acho que é um tipo de alimento que convida a ser sorvido, que querem? Assim como a maior parte das sopas asiáticas, parecidas com alguns dos nossos caldos, se excluirmos os temperos.
Não sei exactamente qual a cena, mas nunca mais me esqueci de um homem a sorver a sopa num filme de Zangke Jia e na minha vida do outro lado do mundo adorava observar as pessoas a comer.
Ora bem, a minha avó sempre comeu sopa sorvendo-a e nunca viu filmes alternativos, nem comeu PhosTom Yums, ou Mi Gorengs, portanto isto pode ser só um reflexo da minhas origens ''jabardas'', lá está!
Em Timor havia  a água sal, uma sopa de peixe muito dada a sorvos ruidosos. Chama-se assim, porque é o que é: peixe e ervas em água e sal. E voltei a sentir-lhe o sabor quando ouvi o Luís Cardoso no Correntes d' Escritas. 
Este ano não consegui assistir a quase nada do que aconteceu no festival literário, por isso ter ido parar às apresentações da mesa 7 foi uma sorte. 
Não havia água sal no texto de Luís Cardoso, havia uma varanda onde estava alguém sentado à espera, havia outra pessoa que deveria chegar para plantar abóboras, havia uma neblina que parecia sumaúma (o ai-lele), um lugar distante que se chamava mar mutin (mar branco traduzido à letra) e o café dos liurais (chefes)Durante uns minutos fui completamente transportada para a ilha que ainda sinto um bocado minha e continuo por lá, agora, a sorver a canja com as aimanas (molho picante) feitas pela Domingas. 

Optimismo

18.2.19
Recebi um e-mail para participar num inquérito sobre questões ambientais no âmbito de um estudo levado a cabo pela União Europeia, ou qualquer coisa do género, e apesar de ter ido parar ao Spam, e de incluir a oferta de um voucher, arrisquei responder, porque reconheci a fonte que me inclui na mailing list. 
Espero sinceramente que se trate de uma tentativa de me extorquir dinheiro (para ficar com o voucher, que oferecia 3 noites num hotel à escolha, era preciso pagar quase 30€), ou de aceder a dados pessoais, porque se o inquérito era verdadeiro começo a temer o pior.
Bom, a temer o pior em termos ambientais já estou desde 1999, mas como todos os seres humanos eu tendo para o optimismo quando se trata da nossa sobrevivência.
E depois, enquanto houver legumes nos campos de Aguçadora, Navais e Estela, está tudo bem.

Hora do Chá

11.2.19
Foto Chá Camélia
Está a ver aqueles saquinhos que se compram no supermercado e se juntam a água quente para fazer uma bebida a que chamamos chá? Esqueça, depois de aprender mais sobre chá a sério, e prová-lo, na única plantação da Europa continental não vai querer beber outra coisa. 

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Civilizar

6.2.19
Um dia destes estava a olhar para os meus filhos enquanto comiam Nestum, só os flocos, no sofá. Podia ser uma coisa bonita de se ver, até porque estavam relativamente calmos e porque são lindos, obviamente, mas acontece que estavam a comer sem colher. Ou seja, enfiavam a boca e o nariz dentro da malga e aspiravam, ou lambiam os cereais com mais açúcar do que fibras e proteínas.
Sei que houve um momento da contemplação em que quis pedir-lhes para comerem como gente, mas não disse nada. Fiquei só a olhar para eles, fascinada com a "jabardice".
Há coisas incríveis nos dias das mães e dos pais quando as crianças são pequenas, mas aquilo que melhor define o dia-a-dia de uma família com crianças, não tenho dúvidas, é a "jabardice".
Eu sei que há pessoas muito bem sucedidas a civilizar a suas crias desde tenra idade, eu não sou uma delas, como já se percebeu. 
A certa altura um deles segurou, com o dedinho anelar, um floco que estava a escorregar pelo queixo e eu: ''alto, nem tudo está perdido!'', mas logo a seguir vi-o limpar a boca com a manga da camisola.

P.S Um ano depois mudei, finalmente, o header. Um salva de palmas para o #homemdosmilofícios.

Feng Shui

30.1.19
Parece que a Maria Kondo anda outra vez nas bocas do mundo por causa da Netflix. Nunca utilizei o método e não é agora que vou começar, mas, e antecipando-me à próxima tendência, comecei a ler sobre Feng Shui.
Eu sei, eu sei, devia arranjar um emprego como as pessoas (não sei se ainda há o call center do BPI - o link diz respeito ao comentário do post), mas é tão mais divertido saber qual o Ming Gua de cada pessoa da nossa família. Por exemplo, de que outra forma poderia saber que aqui em casa temos dois trigramas Li, dois Dui e um Quian?
E depois, pessoas, não vai ser mais bonito andarmos a falar de Yi Jing em vez de como se deve dobrar a roupa?

Para mim, aos 75 anos

24.1.19
Miúda (posso continuar a chamar-nos miúda, certo?), falar com o meu eu futuro é, claramente, muito mais difícil do que falar com o do passado, mas sinto que tenho de o fazer. Por alguma razão parece-me importante saberes como me estou a sentir agora, em vez daquilo que te lembras sobre como me sentia.
Eu tenho 45 anos e apesar de vários indicadores - como a quantidade de colesterol no meu plasma, os cabelos brancos e o aumento considerável da cintura - me mostrarem isso persistentemente, tenho tendência para o esquecer e achar que é impossível estar na meia idade.
Ter filhos pequenos ajuda a afastar-me dessa realidade, mas contra factos não há argumentos. Suponho que te estejas a rir por me sentir velha aos 45, quando tenho 75 anos, e imagino que os últimos 30 anos tenham corrido bem. Talvez, até, muito bem. Também se pode ter dado o caso de já ter morrido e ser eu de uma outra dimensão que está a ler isto e se assim for nem sei o que dizer, apesar de me parecer espectacular.
Em qualquer dos casos, estou a falar com outra Calita, mesmo estando a falar comigo própria. É estranho!
Dizia que tenho 45 anos e, mesmo sentido-me distante da idade adulta madura, a sensação de estar a meio do caminho está muito presente. Aquela sensação de quem está em viagem e a certa altura precisa de parar, olhar para o mapa, fazer contas e ponderar se segue como planeado, ou se muda o trajecto.
Não tenho noção de alguma vez ter feito planos para a minha vida. Eu queria coisas como conhecer o mundo e viver numa cidade grande, mas passava grande parte dos meus dias a imaginar como iria ser arrebatada por um belo príncipe.
As coisas não aconteceram como imaginei, mas aqui estou depois de viver nas duas maiores cidades do país, de ter conhecido algum mundo, talvez mais do que alguma vez sonhei que poderia conhecer, e a partilhar os meus dias com um príncipe.
E se muitas vezes tenho a certeza que era aqui que queria chegar - o que não deixa de ser curioso, porque regressei, aos 45 anos, às origens, o que não era de todo o meu objectivo -, outras não consigo deixar de pensar no que falta fazer. Mas isso, curiosamente, ou não, já não me angustia tanto como antes. O que não significa que viva tranquilamente, apesar de este último ano civil ter sido, provavelmente, o mais tranquilo da minha existência. Um ano de arrumações, talvez. De recolher os móveis espalhados por diferentes arrecadações (montar o beliche dos rapazes, desmontar o beliche e, há uma semana, montá-lo novamente), de nos encaixarmos todos juntos de novo, ficar a saber qual o meu lugar na estrutura da família ascendente.
Ajuda, e às vezes nem por isso, estar numa espécie de compasso de espera pelo arranque de um projecto profissional em que estou a colaborar com o Jaime. Estar numa cidade pequena, com praias que fazem esquecer o resto, também.
Há sempre grãos de areia, às vezes calhaus, na engrenagem, óbvio. O diagnóstico da depressão da mais velha, as pequenas decisões que podem fazer toda a diferença na vida deles os três, as crenças individuais que nenhum dos dois quer abdicar e o medo. No fundo, o medo resume tudo.
Ainda tenho medo aos 75 anos? Espero muito que estejas a ler este post na cabana, no meio de um monte não muito distante do mar, com um bom vinho que tiraste da adega para o efeito, na mesa junto à janela onde costumas escrever. Mesmo com medo, porque não? O medo nunca me paralisou, com certeza não vai ser agora. Talvez o Jaime esteja a assar umas castanhas no forno para comerem daqui a nada e rirem-se os dois pela falta de dentes.
Quando era criança sonhei contigo, tinhas o cabelo muito branco e um ar sorridente, foi tão real que pensei que era velha e estava a sonhar comigo quando era criança. Talvez estejas, agora, a escrever a carta para ti aos 45 anos. Gostava mesmo muito de conseguir lê-la.

Da tua sempre,
Eu adulta madura

Há sensações universais 13

8.1.19
"[A cultura] Tem a ver com a maneira como procuramos uma certa elegância na nossa relação com o mundo, como nos damos com os outros, como usamos o nosso tempo, como a música entra na nossa vida, como os livros nos acompanham. O resto é dispensável.", Francisco José Viegas na revista Grandes Escolhas de dezembro.

Então, Bom Ano

3.1.19
Tenho muitas vezes pena dos meus filhos, às vezes por terem nascido no auge da destruição do planeta, outras por me terem como mãe, outras por terem tido azar com o Sistema Nacional de Educação que apanharam. Não me interpretem mal, tenho mesmo noção de que poderiam ter mais azar, as possibilidades são infindáveis.
Temos todos a tendência de comparar a infância dos nossos filhos à nossa (temos, não temos?) e apesar de termos em comum a ameaça do fim do mundo (no nosso caso era a Guerra Fria e a possibilidade de alguém poder carregar num botão e matar-nos a todos), pais com problemas (e que fumavam em todo o lado, incluindo no quarto), e uma Educação cheias de altos e baixos, parece-me que tive mais sorte do que eles. Muito porque ninguém esperava grande coisa de mim, ou seja, cresci sem expectativas, ou só com as que criei para mim. É claro que também passei pela pressão de me superar, toda a gente passou em algum momento da vida, a diferença foi nunca termos precisado de o fazer tão novos. Bem, a infância só por si já é uma superação constante, não era preciso atirar-lhes com tantos desafios, acho eu. Mas talvez estejamos a criar uma nova geração, mais capaz, mais evoluída e até, quem sabe, mais feliz.
Mas toda esta conversa só para dizer que ao ver o filme Ralph vs Internet (que não foi o melhor filme das férias de Natal, o melhor foi o Homem-Aranha, que é só espectacular!) tive a certeza de que eles neste particular têm muito mais sorte do que nós. Ok, nós tivemos o Vasco Granja, é um facto, mas um filme que goza com os contos infantis, que critica a Internet de uma forma inteligente, que procura derrubar estereótipos e com piada fez-me sentir feliz por eles. Ah, e eles também gostaram muito.

P.S 1 Eu sei que devia começar o ano com um post cheio de ideias novas, e tal, em vez de terminar este, que tinha começado há uma semana, mas melhores dias virão.

P.S 2 A foto foi tirada pelo Isaac no Museu Amadeo Souza-Cardoso, porque achou a ''senhora gordinha como a mamã''

Sabedoria

17.12.18

Disse, ou pensei, muitas vezes que a forma como temos vindo a encarar o trabalho é incompatível com a forma como temos vindo a encarar a maternidade/paternidade. É óbvio que é possível trabalhar e educar crianças felizes, não tenho é a certeza que isso possa ser feito nos moldes que temos. Horas a mais metidos num emprego nem sempre bem pago, crianças submetidas a pressões surreais e esta sensação omnipresente de que o mundo, como o conhecemos, está a ruir.
Enfim, cada pessoa, cada família, encaixa-se no sistema como pode, mas é cada vez mais evidente que o jogo está a mudar e não é claro que as regras sejam conhecidas.
Talvez por isso se ande a falar tanto de espiritualidade (até o Abrunhosa, quer dizer!). Parece-me que a necessidade de parar e olhar mais para dentro de nós está para uma determinada faixa etária como o varfine para a terceira idade. Mas posso estar enganada, claro.
Seja como for, podemos sempre contar com o pragmatismo do povo e a sabedoria que carrega. Como não ficar de bem com a vida, quando vamos na rua, a puxar a gola do casaco para proteger o nariz do frio, e ouvimos ao nosso lado, no meio da conversa de duas idosas: ''Focinho de cão e cu de gente nunca está quente''?

P.S A árvore de Natal na foto não tem nada a ver com o que digo no texto, mas não sei o que me parece (depois de tantos anos a mostrar os nossos pinheirinhos) não pôr aqui a deste ano, sobretudo quando já não decorávamos uma árvore desde 2015.