Signos

22.8.26

Tarte de chalotas caramelizadas, ervilhas de quebrar, pêssegos grelhados e queijo de cabra, no Bon Vivant.

Estava a ler a entrevista à Manuela de Melo e a gostar tanto das ideias dela e da forma como as apresenta, inclusive a informação sobre o signo do zodíaco - ''Tento não me apaixonar como uma guerreira se apaixonaria pelo que faz. Mas sim, tenho um pouco de guerreira, de obstinada… Sou Carneiro.'' -, que nem me ocorreu que ela tivesse escolhido viver num sítio mais calmo, com outro ritmo de vida, por causa da idade. Juro que a certa altura pensei: ''olha, esta admirável senhora está a viver a vida que eu quero quando chegar aos 60 anos'', convencida de que ela seria uma recém septuagenária (apesar da data de nascimento figurar no primeiro parágrafo). Confesso que aquele fait divers do signo, e por eu também ser carneiro, ascendente balança, já agora (sim, eu sei, revirem os olhos à vontade, eu entendo) ainda me fez gostar mais dela, e imaginei-nos amigas a conversar num dos restaurantes trendy do Porto, a comer quincális e cachápuris. A certa altura enchia-lhe o copo de um vinho arménio e contava-lhe que também tudo o que fiz foi por acaso. Só que o acaso não foi tão simpático comigo como foi com ela. Mas aqui estamos, cada uma com a sua história, e enquanto houver histórias e quem as conte, por aqui continuaremos. 

Antes de ler a entrevista tinha lido o caderno de curiosidades da Ana Varga e fiquei bastante interessada na história de Samin Nosra (é escorpião), porque é sempre um conforto ver pessoas a conseguirem atingir aquilo pelo que batalharam e porque as cozinhas de restaurantes conceituados são sempre sítios fascinantes, sobretudo, depois do The Bear (o Carmy também é escorpião). Por causa desta série fiquei com bastante vontade de conhecer Chicago, mas já me conformei com a impossibilidade de conhecer todos os sítios que gostaria. Aliás, se tivesse de escolher cinco cidades que não conheço para visitar ia ter alguma dificuldade, preferia ter um motivo para viajar, uma exposição (esta, por exemplo), um evento único, uma curiosidade, ou um trabalho. Assim, não teria de viver com a responsabilidade da escolha. É melhor não ter de escolher, quando se trata de uma escolha impossível, ou muito difícil. Ia dizer que, afinal, a vida não é nada mais do que uma tremenda quantidade de acasos que no fim batem certo. Mas, não, a vida faz-se das inúmeras escolhas que fazemos todos os dias.

O senhor que me cedeu a passagem no metro, ontem, e que ganha 3,80€ por hora, a trabalhar num restaurante com muito bacalhau na ementa, escolheu não matar a mulher com quem estava casado há 15 anos, quando a apanhou na cama com outro homem. Devia ter-lhe perguntado o signo. Provavelmente era sagitário, como o meu pai, que faz hoje 40 anos que morreu.

A Barraca do Carlitos

4.8.26
Ontem à noite subimos o monte de S. Domingos, em Castelo de Paiva, para comer o famoso bife da festa. Não sabíamos da fama deste prato, até nos ter sido revelada pelo sacristão, durante uma breve visita à capela do santo, nessa tarde. 
Assim que saímos do carro, o som das vozes misturado com o tilintar dos talheres fazia antever o que nos esperava: uma quantas barracas enormes cheias de gente a comer e filas de espera. Escolhemos a Barraca do Carlitos e quando chegou a nossa vez sentamo-nos numa mesa corrida, ao nosso lado ficaram um pai e o filho que vieram "do outro lado do monte, de terras de Santa Maria da Feira". O pai perguntou-nos se vínhamos da Alemanha (calculo que tenham pensado que éramos emigrantes de regresso à terra) e, quando viu que não íamos conseguir comer o bife todo, confessou que eles iam pedir mais um, porque o filho estava "a botar corpo" por causa do trabalho como PT (personal trainer) num ginásio e nadador-salvador.
Estar ali, numa barraca com centenas de pessoas sentadas à frente de travessas de alumínio cheias de carne - de qualidade, porque o Carlitos tem um talho - e canecas de verde tinto e latas de Coca-Cola quentes fez-me pensar na obra "If We Stay, We Stay Awake", de SAGG Napoli, que está no Museu de Serralves. 
Reconheci imediatamente o ambiente que a artista (re)criou, quando entrei na sala do museu, e revi-o, de certa forma, na barraca do monte de S. Domingos. Não sei quanto daquela atmosfera há em mim, nem que lugar ocupo nela (se soubesse talvez conseguisse fazer como Sofia Alice Ginerva Gianní (SAGG) e elevá-la a obra de arte). Sei que ali, numa festa cheia de cebola frita e bifes de quilo e meio nos pratos, sem um pingo de sofisticação, vi o que raramento vejo - pessoas que querem estar juntas a celebrar. Pessoas de várias gerações felizes só por estarem ali a comer um bom bife.
A parte de mim que se detem nas sombras viu sempre a pequenez destes lugares, o apetite canibal, a intromissão na vida dos outros, a mesquinhez, a crueldade para com os diferentes, a ditadura das aparências, mas quanto mais me afasto desse lugar, das minhas origens, parece que vejo o quadro maior, o que está por trás de tudo - a fome, a dependência dos outros, o medo, a vontade de vencer. É a essência de alguma coisa que está ali. Um início. Mas parece que nunca chego lá.

Lagartas e literatura

22.7.26

Há muitas coisas da entrevista de László Krasznahorkai, ao jornal Público, que poderia destacar, desde logo a ideia da beleza. Diz o autor que ''há dentro de nós um espaço reservado para aquilo que ultrapassa a experiência'' e que neste ''mundo fragmentado e inseguro, talvez seja a beleza, mais do que a fé, aquilo que ainda consegue preencher esse espaço.

Mas o que mais me prendeu foi a total convicção do fim do mundo tal como o conhecemos. Não é nova esta ideia, muita gente pressente esse fim, mas é difícil de explicá-lo. Não para Krasznahorkai, aparentemente: ''Ninguém deve esperar uma substituição completa de uma civilização por outra. O que existe é apenas uma deslocação do centro de gravidade do poder. Mas isso, em si, não tem verdadeira importância. Tudo acabará por se transformar de forma abrangente, à escala global''. Poderia continuar com citações, mas resumindo (e, talvez, reduzindo) o que o escritor diz é que todas as culturas desaparecerão e transformar-se-ão em algo completamente novo que será igual no mundo inteiro. 

Que mundo será esse? E será necessariamente pior? Não temos como saber. A ver pelo que estamos a viver agora não há como não temer o pior, mas o mundo tem arranjado sempre forma de sobreviver. Apesar de todos os horrores, fomos sempre capazes de reconhecer a beleza. Precisamos é de nos ver livres da vaidade. Eu assino uma petição para substituir o sétimo pecado mortal. Em vez da preguiça deveria estar lá a vaidade. 

Quanto à lagarta, não sei se ainda está no processo de transformação, ou se, tal como acontece com a maioria, ficou pelo caminho. Neste artigo fiquei a saber que na Natureza só 10% conseguem chegar de lagarta a borboleta. A minha varanda não é um jardim, mas tudo está a acontecer naturalmente, sem a minha intervenção, e apesar de eu achar que não vai sair dali nenhuma borboleta, parece-me que o casulo não está totalmente desprovido de vida. Talvez esteja só a assistir à morte de um estado antes de passar a outro. Esta lagarta quer que eu aprenda que é preciso morrer para nascer de novo. Temos a Absolem, a existencialista, de Lewis Carol e temos a minha Elisua, a heraclítica.

O nascimento de uma borboleta

30.6.26


Ando a tentar acompanhar o processo de transformação de uma lagarta que vive no meu vaso de arruda. Pelos vistos já passaram quase três semanas, desde que ela começou a alimentar-se, porque a crisálida está quase completa. Daqui a mais três semanas, se tudo correr bem, vai nascer uma borboleta-cauda-de-andorinha, na varanda de uma rua movimentada do Porto, e essa possibilidade alegra-me muito. Não deixa de ser curioso que esta capacidade de sentir alegria com uma coisa tão simples também tenha acontecido ao longo de um processo de transformação. Bem, na verdade eu sei que sempre tive essa capacidade, sobretudo a de ficar maravilhada com a Natureza (pode parecer, mas não fui assistir à conferência de Byung-Chul Han), só que deixei-me distrair pelas coisas mundanas. Por isso, acho que o grande objetivo para a segunda metade da minha vida é dar atenção ao que importa.  

É ridículo eu passar a maior parte do tempo num trabalho de que não gosto particularmente para ter um salário que só dá para pagar a renda da casa? É, mas tenho uma borboleta a nascer na varanda, uma cama nova e o Egon Schiele voltou a estar pendurado numa parede que é nossa, a nossa décima parede. Eu considero-me uma pessoa bastante desprendida, mas não vale a pena negar a necessidade de termos a nossa casa e a sensação que tenho é essa, a de que acabei de regressar a casa depois de uma longa caminhada, ou uma série de longas caminhadas. 

Por falar em caminhadas, lembrei-me do livro de Erling Kagge (pensei que tinha escrito aqui alguma coisa sobre A Arte de Caminhar, mas afinal não) e da capacidade deste norueguês passar por situações extremamente desafiantes em travessias pela Antártida para experienciar que viver com pouco é muito compensador e, ao mesmo tempo, ser um colecionador de arte. Com isto, quero dizer que podemos ser minimalistas e o seu contrário ao mesmo tempo. Também podemos argumentar que a arte não deveria ser vista como um bem material, mas não deixa de ser, pois não? 

Gosto de viver na cidade, apesar de precisar de espaços verdes para me sentir bem, mas esses espaços também existem aqui, ainda que em muito menos quantidade do que deveriam. Depois, aquilo que mais me preocupava - mudar-me para um apartamento com dois adolescentes que só se lembram de viver em moradias, dois gatos e uma cadela, não se revelou tão dramático como isso. Nos primeiros dias a viver aqui tínhamos a sensação que estávamos a tentar meter o rossio na betesga, mas tudo se encaixou. Só continuo a estranhar o ruído. De todas as coisas boas de se viver numa aldeia, não tenho dúvidas que o silêncio é a melhor de todas.


Tenho sempre mais perguntas do que respostas

17.5.26
Tenho pensado na história que contamos a nós próprios sobre a nossa vida (acontece-me amiúde). No caso das pessoas, como eu, que andam a falar sobre a vida delas na internet , há anos, é fácil perceber que a escrita serve, sobretudo, para exorcizar demónios, para nos livrarmos daquilo que nos preocupa. É claro que há quem consiga trabalhar a escrita, torná-la matéria literária, quer por força da disciplina, quer naturalmente, mas, regra geral, neste registo diarístico o que sobressai são as preocupações, aquelas emoções que não conseguimos transformar em matéria. 
E apesar de ultimamente se andar a falar sobre a nossa capacidade de mudar a vida, mudando a forma como pensamos, a tal da neuroplasticidade, eu sou o que sou e quero continuar a exorcizar os meus demónios da mesma forma.
Neste momento, há duas coisas que me preocupam, o "insucesso" escolar dos meus filhos e a mudança de casa. Provavelmente isto são dois, ou vários, posts diferentes, aliás, acho que não tenho falado de outra coisa neste blog a não ser de filhos e mudanças de casas, por isso não vamos contrariar esta tendência,  até porque eu gosto de remar contra a maré e não vejo interesse em atirar mais achas para a fogueira da hiperpolítica.
Tinha pensado começar pelo insucesso (sem aspas, porque apesar de o sucesso ser um conceito relativo, não há como não determinar o sucesso e o insucesso escolar) dos meus filhos, mas percebi que precisava de ter mais dados sobre o nosso sistema de Educação para provar o meu ponto de vista - que não passa pela desvalorização da escola, antes pelo contrário, é mais sobre questionar o meu posicionamento face ao ensino que temos (tudo é política). Assim sendo, fico-me pela mudança de casa.
É claro que eu gostava de falar sobre isso com um contrato de arrendamento assinado, mas ou somos recusados depois de entregar os documentos que pedem - recibos de vencimento, declaração de IRS, fiador -, ou somos aceites e passado uma semana somos informados que afinal o preço já não é 850€ por um T2, mas 1000€. Portanto, a mudança de casa ainda não aconteceu, mas estamos nesse processo e não consigo deixar de pensar que ou estou a ter um ''déjà vu'', ou estou a ter uma oportunidade de começar de novo do mesmo ponto de partida, mas com mais 30 anos em cima.
Isso não deveria assustar-me, afinal agora sei para o que vou (sei?). Há 30 anos fui cheia medo e de sonhos, agora vou com dois filhos menores, dois gatos, uma cadela e um companheiro de vidas. E vou cheia de medo e de sonhos na mesma. Quer dizer que não cresci? Quer dizer que estou a ser castigada, ou premiada? Porque será tão difícil contar uma versão da minha vida que me sirva? Devo sair daqui como Calita, ou Carla*, o nome que mais ouço quando se dirigem a mim, nos últimos anos. Ainda hoje ao almoço o meu filho mais novo disse qualquer coisa sobre não saber qual era o meu nome, afinal. Tenho sempre mais perguntas que respostas e isso é bom, não é?

*Se até o Jaime, que sempre me chamou Calita, marca uma mesa para mim no nome Carla (ver a fotografia ali em cima), deve querer dizer alguma coisa 





Não ficou tudo bem

11.3.26

Colhi flores neste mesmo dia, há cinco anos, e usei um candeeiro como jarra.
Quando digo neste mesmo dia refiro-me a 11 de março, mas o dia não é o mesmo, como sabemos. Tentei sobrepô-los, como dois rolos de filme, e inventar um novo dia. Fazer da minha vida isso: dias sobrepostos e reinventados. Não tenho a certeza que isso não aconteça já, desde o princípio dos tempos.
Há cinco anos estávamos a viver o acontecimento mais surreal da nossa vida coletiva, a pandemia, que nos fez ter consciência disso mesmo, de uma existência coletiva, e no dia 11 saí para caminhar, porque era permitido, e apanhei flores no caminho.
Hoje saí para ir trabalhar e apanhei um autocarro até ao metro, depois mudei de linha e depois desci o morro. Não vi flores no caminho.
A pandemia foi controlada e a existência coletiva foi esquecida. A pandemia já não nos mata, matamo-nos uns aos outros, numa guerra a seguir a outra. É surreal, mas não parece tão surreal como a pandemia, porque não afeta o nosso dia a dia. Os miúdos vão à escola, nós vamos trabalhar e fazer compras sem esgostar o papel higiénico. Até viajamos evitando o espaço aéreo ocupado pelos mísseis. Parece que há vários tipos, ouvi de passagem, talvez me dedique a fazer uma lista de todos os que foram nomeados nas notícias, só porque adoro listas, como se sabe.
Ia ficar tudo bem, não ia?

Monte dos Vendavais

21.2.26

Li o Monte dos Vendavais na mesma semana em que saiu o filme da Emerald Fennell. Não tinha a certeza de o ter lido, apesar de ter a história muito presente, talvez por causa do filme de 1992. Tanto que no momento em que Mr. Lokwood está a dormir na cama que fora de Catherine e sonha que parte o vidro para calar o abeto ''a embater na janela da gelosia, impelido pelo vento forte que soprava, ululante'', e uma mão agarra-lhe o braço comecei a ouvir na minha cabeça a música da Kate Bush.

Seja como for, comprei a edição da Relógio D'Água, porque continuo com todos os meus livros dentro de caixotes e li-a em poucos dias. Não vou estar aqui com dissertações sobre o livro, porque não faltam opiniões e críticas sobre esta obra intensa e perturbadora, mas apeteceu-me opinar sobre o filme, que a minha filha ''obrigou-me'' a ir ver. Foi ela, aliás, que me apresentou a Fennell, primeiro com Saltburn e depois Uma Miúda com Potencial e me falou da catrefada de haters que a realizadora tem.

Fui, então, ao cinema com a certeza de que iria ver uma versão de O Monte dos Vendavais muito diferente da que já tinha visto (e que mal recordo, na verdade) e que este filme da Fennel teria muito pouco a ver com a história do livro. E, sim, confirmaram-se ambas as certezas, mas isso não significa que não seja um filme que vale muito pena ver. Primeiro, porque apresenta alguma ideias do livro que não me tinham ocorrido, como o papel da Nelly na vida das personagens. Eu vi-a sempre como uma governanta que está a contar a versão dela da história, é certo, e é óbvia a influência dela sobre os protagonistas, mas nunca a vi como a ''vilã'', como a chamou a minha filha e como foi retratada no filme. Depois, claro, há toda a carga sensual e sexual, que nunca é assumida no livro e que, no filme, serve para explicar não só a obsessão de Heathcliff e Catherine como a relação de Heathcliff e Isabella. Mesmo que se trate de uma ''sensualidade grotesca e boçal de burlesco adolescente que faz lembrar Benny Hill'', como descreveu Jorge Mourinha, no Público, não deixa de ser uma perspetiva interessante, a meu ver. Também me pareceu muito interessante a personagem do pai e do irmão de Cathy ser a mesma, no filme, bem como outros detalhes que não correspondendo ao que Emily Brontë escreveu foram bem trabalhados. Depois há a banda sonora considerada por muita gente, ou pela gente que eu vou lendo, a melhor coisa do filme. Não conhecia Charli XCX, não fiquei com uma vontade por aí além de conhecer, mas a banda sonora é impactante. 

Quanto à escolha bastante criticável dos atores acho, honestamente, que era indiferente, ou talvez tenha só gostado de ver a Margot Robbie e o Jacob Elordi juntos independentemente de representarem as personagens de Brontë, porque aquilo que Cathy e o Heathcliff são não é representável. É como diz Hélia Correia no prefácio: ''Esta paisagem [North York Moors] é o que se esconde no tema íntimo de Wuthering Heiths. Uma dissolução da Natureza e uma dissolução do indivíduo, o todo, uno e confuso, que é anterior ao sexo e à mortalidade''. Cathy e Heathcliff não são um par romântico, são outra coisa que não se consegue explicar, mas não me choca vê-los como Emerald Fennel os vê.

Saí do cinema com vontade de ler o livro e ver o filme, outra vez. 

Trabalhadores #3

12.2.26

Chamo-me Leandro Pereira e tenho 45 anos. Prefiro usar os meus dois sobrenomes quando fizer alguma coisa especial, como escrever um livro, por exemplo. O meu primeiro trabalho foi como professor de inglês, isso quando eu tinha 17 anos, em São Paulo. Depois troquei esse trabalho para ser agente de vendas da Varig, que era a TAP brasileira, e fiquei lá uns três anos. Em 2002, quando a empresa começou a despedir funcionários em massa, eu fui um dos que saiu e fiquei desempregado algum tempo. Um ano depois, mais ou menos, eu consegui um trabalho como estagiário na biblioteca da ECA (Escola de Comunicações e Artes) da Universidade de São Paulo, que é basicamente onde se formam muitos dos atores e atrizes conhecidos no Brasil, pelo menos na área do Teatro. Fiquei lá uns quatro anos e em 2007 fui trabalhar como almoxarife numa microempresa que tinha duas sócias e três funcionários, eu era um deles. Era uma empresa que vendia bijuteria e a minha função era registar toda a matéria prima que entrava e tudo o que saía. Basicamente só trabalhava com números. Este trabalho durou um ano e daqui fui pela primeira vez para Portugal, em 2008. Fiz um curso de nadador salvador e trabalhei um Verão na Costa da Caparica, foi no ano em que a Lehman Brothers faliu. Depois voltei para São Paulo, mas em 2009, depois de ter sido incentivado pelas pessoas que tinha conhecido em Portugal, decidi ir tirar o curso de Línguas, Literaturas e Culturas na Universidade Nova de Lisboa. Ingressei no curso em setembro de 2009 e em Março de 2010 comecei a trabalhar como recepcionista de um hostel e fiquei lá meio que intermitentemente até 2018. O salário não dava para pagar as minhas contas, por isso tinha a ajuda da minha família e em 2015 comecei a fazer revisão de texto, um trabalho que mantenho até hoje, para empresas brasileiras.

Em 2023 mudei-me para Frankfurt e comecei a trabalhar como bartender, que passou a ser o trabalho principal, porque com a Inteligência Artificial o trabalho de revisão de texto já não é igual. Eu vim parar a Frankfurt por causa de um mestrado, mas acabei abandonando o curso, porque eu não conseguia pagar as minhas contas. Estudar foi o que me levou a mudar de país, mas depois nunca termino os estudos, porque o trabalho acaba por ser a questão fundamental, porque é preciso dinheiro pagar contas, não é?

Eu não costumo votar nas eleições, apesar de poder votar nos três países, com algumas exceções. Por exemplo, não posso votar na eleição principal alemã, mas posso votar nas locais, sendo residente. No Brasil é o contrário, sendo brasileiro morando fora, eu só posso votar nas presidenciais. Em Portugal já não sei bem, como tenho dupla nacionalidade eu acho que posso votar nas legislativas e presidenciais. No entanto, eu não voto em nenhum país. Eu já votei estando fora do Brasil quando me sentia próximo o suficiente para saber o que está acontecendo, mas muitas vezes por força das questões práticas do dia a dia eu me sinto desconectado do que está acontecendo e prefiro não votar, porque eu sinto-me muito responsável pelo meu voto. Se pudesse votar somente em um país, votaria no Brasil. 

Fora do Brasil, o país onde estive mais tempo foi em Portugal, mas eu prefiro viver aqui em Frankfurt, porque aqui eu tenho condições financeiras que nunca teria em Portugal. Se eu tiver de fazer uma média de quanto ganhei por mês no último ano, eu diria entre 1200 e 1300 euros, e pago de renda 500 euros. Renda fria, sem as outras despesas. De renda quente, com luz, água, gás e internet vai para cerca de 900€. A diferença entre estar aqui, ou em Portugal é que o meu salário é para uma média de 23 horas por semana. Se eu trabalhar as 40 horas que se trabalham em Portugal, ganho o dobro. Além disso, acho que arranjar emprego em Portugal é mais difícil e mesmo quando não é mais difícil é mal pago. Eu não conseguiria viver no Porto com as condições com que vivo aqui.

As pessoas escolhem governos que não estão preocupados com o bem estar dos que mais precisam, porque historicamente as pessoas mais pobres têm uma tendência a se projetarem na possibilidade de em algum dia serem da classe média alta e muito do conservadorismo que se enraíza na classe média baixa é por causa dessa projeção. 

Um conselho? Eu diria que ninguém nasceu para trabalhar. Ninguém é obrigado a dar suor e sangue para fazer dinheiro, mas sendo essa uma obrigação de praticamente cem por cento das pessoas, eu acho que é um ato de civilidade dar o nosso melhor, porque não é uma questão de orgulho, de provar nada para ninguém, é simplesmente tentar tirar um pouco de peso das outras pessoas, porque estamos todos no mesmo processo. Eu posso achar que não vou gastar a minha energia a dar lucro para o dono da empresa, mas o dono da empresa tem não sei quantos funcionários e se eu não fizer o meu trabalho eu estou a prejudicar as outras pessoas. É uma questão de empatia. De civilidade.

A medida certa

31.1.26
Tenho saudades de voar. Só voei nos sonhos, por isso devia dizer que tenho saudades de sonhar que voo (a primeira pessoa do singular do verbo voar resulta numa palavra estranha, o vê e os dois ós assim juntos parecem exatamente o contrário daquilo que querem dizer). Não sei como costumam voar nos sonhos, eu começo sempre por correr e depois vou dando uns saltos, cada vez mais altos, até ficar a pairar no ar como o super-homem, ou a mulher maravilha. Que sensação! Não há outra que se lhe compare nas coisas que fazemos acordados, ou nas coisas que eu faço, porque há pessoas que, certamente, têm sensações incríveis a saltar de paraquedas, a escalar montanhas e outras atividades do género. Eu não, eu sou comedida. Não preciso dessa adrenalina, mas preciso de outras coisas, claro, todos temos os nossos corrimões, o meu é o vinho, porque, e lá vou eu citar mais uma vez  Manuel Vilas, ''o álcool ajuda à criação da vida como espaço político. Nos seres humanos, o álcool até cria a ideia de que a vida é uma força sem limites, e de que a vida tem sentido''. 
É estranho estar a demorar tanto tempo para acabar o ''E, de repente, a alegria'', o que quer dizer que não estou propriamente presa à leitura, e ao mesmo tempo ficar com tantas ideias agarradas a mim*. Uma delas é a de que nós frequentamos as pessoas. O escritor fala disso a propósito de amigos que teve em tempos, com quem passou momentos maravilhosos, e que do nada deixaram de se falar, de se encontrar. ''Foram-se essas amizades ou, melhor dizendo, morreram. A língua espanhola tinha e tem um verbo para tudo isso. É o verbo «frequentar.» Pode-se dizer de alguém: «frequentei-o nesse tempo». Indica-se com isso que houve uma relação, e esconde-se a natureza dessa relação, suspende-se o conteúdo dessa natureza dentro de uma ambiguidade amável. Porque os seres humanos passam por este mundo criando muitas relações que ninguém sabe em que se fundam. Umas vezes foram amizade, outras coincidências familiares, simpatias, interesses comuns, outras não se sabe o quê.''
A outra é a de que aquilo que nos destrói é também o que nos eleva, como o álcool. "(...)a minha vida no álcool, isso é que foi um inferno. Nossa Senhora, aqueles meses, aquela destruição, mas também aquela euforia, pois, agora que penso melhor, houve em todos os momentos da minha vida alguma forma de alegria. Quão incompreensível é a alegria, que às vezes também põe a máscara do desespero''.
Se eu pensar melhor, estas duas ideias fazem parte de mim há muito tempo. Quem me conhece bem sabe que estou constantemente a questionar a amizade, o que significa, quem são os meus amigos, que papel ocupam na minha vida. 
E o vinho. Não digo álcool, porque quase só bebo vinho e muito ocasionalmente cerveja. Questiono-me muitas vezes sobre vinho, porque sei que bebo demais - e agora, pelos vistos, um copo por dia, é demais, e gosto de me debruçar sobre as razões que me levam a fazê-lo. Quase sempre é precisamente para deixar de pensar, uma vez que é extremamente cansativo viver com os loopings de pensamentos que circulam na minha cabeça, mas estou a aprender a encarreirá-los e a encontrar a medida certa do álcool. E, não, não estou a falar dos 0,05% de Finn Skårderud. E, sim, gostei muito do filme.

*Além das ideias, são as coincidências deste livro, como a de Manuel Vilas ter estado na Póvoa de Varzim, no Correntes D'escrita, em 2019, e escrever sobre isso. E sobre o mar da cidade. Tão bem que ele descreve este mar que procuro todos os dias! 


Uma história japonesa de amor

18.1.26

Quando vi o filme da Sue Brooks fiquei impressionada. Não sei explicar porquê, mas fiquei com aquelas personagens a rondar-me os pensamentos durante muito tempo. Acho que foi a contenção, toda a intensidade que aquela contenção exigia. Havia todo um universo na distância entre os dois personagens, nos silêncios, nos olhares (fui rever o trailer e não se parece nada com o que digo, mas é como me recordo do filme). E os atores, claro. Acho que foi o primeiro filme da Toni Collette que vi e achei-a incrível, tal como o Gotaro Tsunashima. Tenho a impressão que fiquei um bocado apaixonada por ele, ou melhor, pelo personagem dele. Ao ponto de, na altura, ter ficado nervosa a ligar para a embaixada do Japão, em Lisboa, para pedir umas fotografias para o Jornal. 
Eu estava a substituir a secretária da revista Fugas - sim, o meu percurso profissional podia ter sido como o de quase toda a gente que conhecia naquela época (pois, foi no século passado): acabar o curso, estagiar e ficar a trabalhar como jornalista, só que eu tenho Saturno não sei onde e por isso preciso de escalar o Kilimanjaro, em vez de só atravessar a rua, para chegar a algum lado. Como dizia, eu estava na Fugas e precisava de uma fotos para ilustrar uma notícia sobre a Expo 2005, na província de Achi, no Japão, e liguei para a embaixada, porque muito provavelmente fui eu que escrevi esse artigo - eu era um bocado fascinada pelas exposições internacionais, depois de ter visitado a Expo 98 e, sobretudo, a de Hannover em 2000, esta enquanto jornalista da Forum Ambiente, e não tinha outra forma (ou orçamento) para arranjar imagens.
Liguei, então, para a embaixada algo nervosa, como referi, não só por estar a falar ao telefone, que é uma coisa que sempre me deixou desconfortável, como por saber que do outro lado estava alguém como o Hiromitsu, alguém que partilhava a mesma cultura. Eu sei que é parvo, mas que querem? 
E lembrei-me disto porque me cruzei com a palavra komorebi, lá está, não podemos dizer só mal das redes sociais, quando estas permitem que nos cruzemos com palavras. Li o significado de komorebi e pensei que é preciso ser uma língua, nós somos a(s) língua(s) que falamos*, muito especial para ter uma palavra assim.

* E as escolhas que fazemos