A Barraca do Carlitos
Lagartas e literatura
Mas o que mais me prendeu foi a total convicção do fim do mundo tal como o conhecemos. Não é nova esta ideia, muita gente pressente esse fim, mas é difícil de explicá-lo. Não para Krasznahorkai, aparentemente: ''Ninguém deve esperar uma substituição completa de uma civilização por outra. O que existe é apenas uma deslocação do centro de gravidade do poder. Mas isso, em si, não tem verdadeira importância. Tudo acabará por se transformar de forma abrangente, à escala global''. Poderia continuar com citações, mas resumindo (e, talvez, reduzindo) o que o escritor diz é que todas as culturas desaparecerão e transformar-se-ão em algo completamente novo que será igual no mundo inteiro.
Que mundo será esse? E será necessariamente pior? Não temos como saber. A ver pelo que estamos a viver agora não há como não temer o pior, mas o mundo tem arranjado sempre forma de sobreviver. Apesar de todos os horrores, fomos sempre capazes de reconhecer a beleza. Precisamos é de nos ver livres da vaidade. Eu assino uma petição para substituir o sétimo pecado mortal. Em vez da preguiça deveria estar lá a vaidade.
Quanto à lagarta, não sei se ainda está no processo de transformação, ou se, tal como acontece com a maioria, ficou pelo caminho. Neste artigo fiquei a saber que na Natureza só 10% conseguem chegar de lagarta a borboleta. A minha varanda não é um jardim, mas tudo está a acontecer naturalmente, sem a minha intervenção, e apesar de eu achar que não vai sair dali nenhuma borboleta, parece-me que o casulo não está totalmente desprovido de vida. Talvez esteja só a assistir à morte de um estado antes de passar a outro. Esta lagarta quer que eu aprenda que é preciso morrer para nascer de novo. Temos a Absolem, a existencialista, de Lewis Carol e temos a minha Elisua, a heraclítica.
O nascimento de uma borboleta
Ando a tentar acompanhar o processo de transformação de uma lagarta que vive no meu vaso de arruda. Pelos vistos já passaram quase três semanas, desde que ela começou a alimentar-se, porque a crisálida está quase completa. Daqui a mais três semanas, se tudo correr bem, vai nascer uma borboleta-cauda-de-andorinha, na varanda de uma rua movimentada do Porto, e essa possibilidade alegra-me muito. Não deixa de ser curioso que esta capacidade de sentir alegria com uma coisa tão simples também tenha acontecido ao longo de um processo de transformação. Bem, na verdade eu sei que sempre tive essa capacidade, sobretudo a de ficar maravilhada com a Natureza (pode parecer, mas não fui assistir à conferência de Byung-Chul Han), só que deixei-me distrair pelas coisas mundanas. Por isso, acho que o grande objetivo para a segunda metade da minha vida é dar atenção ao que importa.
É ridículo eu passar a maior parte do tempo num trabalho de que não gosto particularmente para ter um salário que só dá para pagar a renda da casa? É, mas tenho uma borboleta a nascer na varanda, uma cama nova e o Egon Schiele voltou a estar pendurado numa parede que é nossa, a nossa décima parede. Eu considero-me uma pessoa bastante desprendida, mas não vale a pena negar a necessidade de termos a nossa casa e a sensação que tenho é essa, a de que acabei de regressar a casa depois de uma longa caminhada, ou uma série de longas caminhadas.
Por falar em caminhadas, lembrei-me do livro de Erling Kagge (pensei que tinha escrito aqui alguma coisa sobre A Arte de Caminhar, mas afinal não) e da capacidade deste norueguês passar por situações extremamente desafiantes em travessias pela Antártida para experienciar que viver com pouco é muito compensador e, ao mesmo tempo, ser um colecionador de arte. Com isto, quero dizer que podemos ser minimalistas e o seu contrário ao mesmo tempo. Também podemos argumentar que a arte não deveria ser vista como um bem material, mas não deixa de ser, pois não?
Gosto de viver na cidade, apesar de precisar de espaços verdes para me sentir bem, mas esses espaços também existem aqui, ainda que em muito menos quantidade do que deveriam. Depois, aquilo que mais me preocupava - mudar-me para um apartamento com dois adolescentes que só se lembram de viver em moradias, dois gatos e uma cadela, não se revelou tão dramático como isso. Nos primeiros dias a viver aqui tínhamos a sensação que estávamos a tentar meter o rossio na betesga, mas tudo se encaixou. Só continuo a estranhar o ruído. De todas as coisas boas de se viver numa aldeia, não tenho dúvidas que o silêncio é a melhor de todas.
Tenho sempre mais perguntas do que respostas
Não ficou tudo bem
Monte dos Vendavais
Li o Monte dos Vendavais na mesma semana em que saiu o filme da Emerald Fennell. Não tinha a certeza de o ter lido, apesar de ter a história muito presente, talvez por causa do filme de 1992. Tanto que no momento em que Mr. Lokwood está a dormir na cama que fora de Catherine e sonha que parte o vidro para calar o abeto ''a embater na janela da gelosia, impelido pelo vento forte que soprava, ululante'', e uma mão agarra-lhe o braço comecei a ouvir na minha cabeça a música da Kate Bush.
Seja como for, comprei a edição da Relógio D'Água, porque continuo com todos os meus livros dentro de caixotes e li-a em poucos dias. Não vou estar aqui com dissertações sobre o livro, porque não faltam opiniões e críticas sobre esta obra intensa e perturbadora, mas apeteceu-me opinar sobre o filme, que a minha filha ''obrigou-me'' a ir ver. Foi ela, aliás, que me apresentou a Fennell, primeiro com Saltburn e depois Uma Miúda com Potencial e me falou da catrefada de haters que a realizadora tem.
Fui, então, ao cinema com a certeza de que iria ver uma versão de O Monte dos Vendavais muito diferente da que já tinha visto (e que mal recordo, na verdade) e que este filme da Fennel teria muito pouco a ver com a história do livro. E, sim, confirmaram-se ambas as certezas, mas isso não significa que não seja um filme que vale muito pena ver. Primeiro, porque apresenta alguma ideias do livro que não me tinham ocorrido, como o papel da Nelly na vida das personagens. Eu vi-a sempre como uma governanta que está a contar a versão dela da história, é certo, e é óbvia a influência dela sobre os protagonistas, mas nunca a vi como a ''vilã'', como a chamou a minha filha e como foi retratada no filme. Depois, claro, há toda a carga sensual e sexual, que nunca é assumida no livro e que, no filme, serve para explicar não só a obsessão de Heathcliff e Catherine como a relação de Heathcliff e Isabella. Mesmo que se trate de uma ''sensualidade grotesca e boçal de burlesco adolescente que faz lembrar Benny Hill'', como descreveu Jorge Mourinha, no Público, não deixa de ser uma perspetiva interessante, a meu ver. Também me pareceu muito interessante a personagem do pai e do irmão de Cathy ser a mesma, no filme, bem como outros detalhes que não correspondendo ao que Emily Brontë escreveu foram bem trabalhados. Depois há a banda sonora considerada por muita gente, ou pela gente que eu vou lendo, a melhor coisa do filme. Não conhecia Charli XCX, não fiquei com uma vontade por aí além de conhecer, mas a banda sonora é impactante.
Quanto à escolha bastante criticável dos atores acho, honestamente, que era indiferente, ou talvez tenha só gostado de ver a Margot Robbie e o Jacob Elordi juntos independentemente de representarem as personagens de Brontë, porque aquilo que Cathy e o Heathcliff são não é representável. É como diz Hélia Correia no prefácio: ''Esta paisagem [North York Moors] é o que se esconde no tema íntimo de Wuthering Heiths. Uma dissolução da Natureza e uma dissolução do indivíduo, o todo, uno e confuso, que é anterior ao sexo e à mortalidade''. Cathy e Heathcliff não são um par romântico, são outra coisa que não se consegue explicar, mas não me choca vê-los como Emerald Fennel os vê.
Saí do cinema com vontade de ler o livro e ver o filme, outra vez.
Trabalhadores #3
Chamo-me Leandro Pereira e tenho 45 anos. Prefiro usar os meus dois sobrenomes quando fizer alguma coisa especial, como escrever um livro, por exemplo. O meu primeiro trabalho foi como professor de inglês, isso quando eu tinha 17 anos, em São Paulo. Depois troquei esse trabalho para ser agente de vendas da Varig, que era a TAP brasileira, e fiquei lá uns três anos. Em 2002, quando a empresa começou a despedir funcionários em massa, eu fui um dos que saiu e fiquei desempregado algum tempo. Um ano depois, mais ou menos, eu consegui um trabalho como estagiário na biblioteca da ECA (Escola de Comunicações e Artes) da Universidade de São Paulo, que é basicamente onde se formam muitos dos atores e atrizes conhecidos no Brasil, pelo menos na área do Teatro. Fiquei lá uns quatro anos e em 2007 fui trabalhar como almoxarife numa microempresa que tinha duas sócias e três funcionários, eu era um deles. Era uma empresa que vendia bijuteria e a minha função era registar toda a matéria prima que entrava e tudo o que saía. Basicamente só trabalhava com números. Este trabalho durou um ano e daqui fui pela primeira vez para Portugal, em 2008. Fiz um curso de nadador salvador e trabalhei um Verão na Costa da Caparica, foi no ano em que a Lehman Brothers faliu. Depois voltei para São Paulo, mas em 2009, depois de ter sido incentivado pelas pessoas que tinha conhecido em Portugal, decidi ir tirar o curso de Línguas, Literaturas e Culturas na Universidade Nova de Lisboa. Ingressei no curso em setembro de 2009 e em Março de 2010 comecei a trabalhar como recepcionista de um hostel e fiquei lá meio que intermitentemente até 2018. O salário não dava para pagar as minhas contas, por isso tinha a ajuda da minha família e em 2015 comecei a fazer revisão de texto, um trabalho que mantenho até hoje, para empresas brasileiras.
Em 2023 mudei-me para Frankfurt e comecei a trabalhar como bartender, que passou a ser o trabalho principal, porque com a Inteligência Artificial o trabalho de revisão de texto já não é igual. Eu vim parar a Frankfurt por causa de um mestrado, mas acabei abandonando o curso, porque eu não conseguia pagar as minhas contas. Estudar foi o que me levou a mudar de país, mas depois nunca termino os estudos, porque o trabalho acaba por ser a questão fundamental, porque é preciso dinheiro pagar contas, não é?
Eu não costumo votar nas eleições, apesar de poder votar nos três países, com algumas exceções. Por exemplo, não posso votar na eleição principal alemã, mas posso votar nas locais, sendo residente. No Brasil é o contrário, sendo brasileiro morando fora, eu só posso votar nas presidenciais. Em Portugal já não sei bem, como tenho dupla nacionalidade eu acho que posso votar nas legislativas e presidenciais. No entanto, eu não voto em nenhum país. Eu já votei estando fora do Brasil quando me sentia próximo o suficiente para saber o que está acontecendo, mas muitas vezes por força das questões práticas do dia a dia eu me sinto desconectado do que está acontecendo e prefiro não votar, porque eu sinto-me muito responsável pelo meu voto. Se pudesse votar somente em um país, votaria no Brasil.
Fora do Brasil, o país onde estive mais tempo foi em Portugal, mas eu prefiro viver aqui em Frankfurt, porque aqui eu tenho condições financeiras que nunca teria em Portugal. Se eu tiver de fazer uma média de quanto ganhei por mês no último ano, eu diria entre 1200 e 1300 euros, e pago de renda 500 euros. Renda fria, sem as outras despesas. De renda quente, com luz, água, gás e internet vai para cerca de 900€. A diferença entre estar aqui, ou em Portugal é que o meu salário é para uma média de 23 horas por semana. Se eu trabalhar as 40 horas que se trabalham em Portugal, ganho o dobro. Além disso, acho que arranjar emprego em Portugal é mais difícil e mesmo quando não é mais difícil é mal pago. Eu não conseguiria viver no Porto com as condições com que vivo aqui.
As pessoas escolhem governos que não estão preocupados com o bem estar dos que mais precisam, porque historicamente as pessoas mais pobres têm uma tendência a se projetarem na possibilidade de em algum dia serem da classe média alta e muito do conservadorismo que se enraíza na classe média baixa é por causa dessa projeção.
Um conselho? Eu diria que ninguém nasceu para trabalhar. Ninguém é obrigado a dar suor e sangue para fazer dinheiro, mas sendo essa uma obrigação de praticamente cem por cento das pessoas, eu acho que é um ato de civilidade dar o nosso melhor, porque não é uma questão de orgulho, de provar nada para ninguém, é simplesmente tentar tirar um pouco de peso das outras pessoas, porque estamos todos no mesmo processo. Eu posso achar que não vou gastar a minha energia a dar lucro para o dono da empresa, mas o dono da empresa tem não sei quantos funcionários e se eu não fizer o meu trabalho eu estou a prejudicar as outras pessoas. É uma questão de empatia. De civilidade.
