A Barraca do Carlitos

4.8.26
Ontem à noite subimos o monte de S. Domingos, em Castelo de Paiva, para comer o famoso bife da festa. Não sabíamos da fama deste prato, até nós ter sido revelada pelo sacristão, durante uma breve visita à capela do santo, nessa tarde. 
Assim que saímos do carro, o som das vozes misturado com o tilintar dos talheres fazia antever o que nos esperava: uma quantas barracas enormes cheias de gente a comer e filas de espera. Escolhemos a Barraca do Carlitos e quando chegou a nossa vez sentamo-nos numa mesa corrida, ao nosso lado ficaram um pai e o filho que vieram "do outro lado do monte, de terras de Santa Maria da Feira". O pai perguntou-nos se vínhamos da Alemanha (calculo que tenham pensado que éramos emigrantes de regresso à terra) e, quando viu que não íamos conseguir comer o bife todo, confessou que eles iam pedir mais um, porque o filho estava "a botar corpo" por causa do trabalho como PT (personal trainer) num ginásio e nadador-salvador.
Estar ali, numa barraca com centenas de pessoas sentadas à frente de travessas de alumínio cheias de carne - de qualidade, porque o Carlitos tem um talho - e canecas de verde tinto e latas de Coca-Cola quentes fez-me pensar na obra "If We Stay, We Stay Awake", de SAGG Napoli, que está no Museu de Serralves. 
Reconheci imediatamente o ambiente que a artista (re)criou, quando entrei na sala do museu, e revi-o, de certa forma, na barraca do monte de S. Domingos. Não sei quanto daquela atmosfera há em mim, nem que lugar ocupo nela (se soubesse talvez conseguisse fazer como Sofia Alice Ginerva Gianní (SAGG) e elevá-la a obra de arte). Sei que ali, numa festa cheia de cebola frita e bifes de quilo e meio nos pratos, sem um pingo de sofisticação, vi o que raramento vejo - pessoas que querem estar juntas a celebrar. Pessoas de várias gerações felizes só por estarem ali a comer um bom bife.
A parte de mim que se detem nas sombras viu sempre a pequenez destes lugares, o apetite canibal, a intromissão na vida dos outros, a mesquinhez, a crueldade para com os diferentes, a ditadura das aparências, mas quanto mais me afasto desse lugar, das minhas origens, parece que vejo o quadro maior, o que está por trás de tudo - a fome, a dependência dos outros, o medo, a vontade de vencer. Os humanos a serem humanos.