Signos

22.8.26

Tarte de chalotas caramelizadas, ervilhas de quebrar, pêssegos grelhados e queijo de cabra, no Bon Vivant.

Estava a ler a entrevista à Manuela de Melo e a gostar tanto das ideias dela e da forma como as apresenta, inclusive a informação sobre o signo do zodíaco - ''Tento não me apaixonar como uma guerreira se apaixonaria pelo que faz. Mas sim, tenho um pouco de guerreira, de obstinada… Sou Carneiro.'' -, que nem me ocorreu que ela tivesse escolhido viver num sítio mais calmo, com outro ritmo de vida, por causa da idade. Juro que a certa altura pensei: ''olha, esta admirável senhora está a viver a vida que eu quero quando chegar aos 60 anos'', convencida de que ela seria uma recém septuagenária (apesar da data de nascimento figurar no primeiro parágrafo). Confesso que aquele fait divers do signo, e por eu também ser carneiro, ascendente balança, já agora (sim, eu sei, revirem os olhos à vontade, eu entendo) ainda me fez gostar mais dela, e imaginei-nos amigas a conversar num dos restaurantes trendy do Porto, a comer quincális e cachápuris. A certa altura enchia-lhe o copo de um vinho arménio e contava-lhe que também tudo o que fiz foi por acaso. Só que o acaso não foi tão simpático comigo como foi com ela. Mas aqui estamos, cada uma com a sua história, e enquanto houver histórias e quem as conte, por aqui continuaremos. 

Antes de ler a entrevista tinha lido o caderno de curiosidades da Ana Vargas e fiquei bastante interessada na história de Samin Nosra (é escorpião), porque é sempre um conforto ver pessoas a conseguirem atingir aquilo pelo que batalharam e porque as cozinhas de restaurantes conceituados são sempre sítios fascinantes, sobretudo, depois do The Bear (o Carmy também é escorpião). Por causa desta série fiquei com bastante vontade de conhecer Chicago, mas já me conformei com a impossibilidade de conhecer todos os sítios que gostaria. Aliás, se tivesse de escolher cinco cidades que não conheço para visitar ia ter alguma dificuldade, preferia ter um motivo para viajar, uma exposição (esta, por exemplo), um evento único, uma curiosidade, ou um trabalho. Assim, não teria de viver com a responsabilidade da escolha. É melhor não ter de escolher, quando se trata de uma escolha impossível, ou muito difícil. Ia dizer que, afinal, a vida não é nada mais do que uma tremenda quantidade de acasos que no fim batem certo. Mas, não, a vida faz-se das inúmeras escolhas que fazemos todos os dias.

O senhor que me cedeu a passagem no metro, ontem, e que ganha 3,80€ por hora, a trabalhar num restaurante com muito bacalhau na ementa, escolheu não matar a mulher com quem estava casado há 15 anos, quando a apanhou na cama com outro homem. Devia ter-lhe perguntado o signo. Provavelmente era sagitário, como o meu pai, que faz hoje 40 anos que morreu.

A Barraca do Carlitos

4.8.26
Ontem à noite subimos o monte de S. Domingos, em Castelo de Paiva, para comer o famoso bife da festa. Não sabíamos da fama deste prato, até nos ter sido revelada pelo sacristão, durante uma breve visita à capela do santo, nessa tarde. 
Assim que saímos do carro, o som das vozes misturado com o tilintar dos talheres fazia antever o que nos esperava: uma quantas barracas enormes cheias de gente a comer e filas de espera. Escolhemos a Barraca do Carlitos e quando chegou a nossa vez sentamo-nos numa mesa corrida, ao nosso lado ficaram um pai e o filho que vieram "do outro lado do monte, de terras de Santa Maria da Feira". O pai perguntou-nos se vínhamos da Alemanha (calculo que tenham pensado que éramos emigrantes de regresso à terra) e, quando viu que não íamos conseguir comer o bife todo, confessou que eles iam pedir mais um, porque o filho estava "a botar corpo" por causa do trabalho como PT (personal trainer) num ginásio e nadador-salvador.
Estar ali, numa barraca com centenas de pessoas sentadas à frente de travessas de alumínio cheias de carne - de qualidade, porque o Carlitos tem um talho - e canecas de verde tinto e latas de Coca-Cola quentes fez-me pensar na obra "If We Stay, We Stay Awake", de SAGG Napoli, que está no Museu de Serralves. 
Reconheci imediatamente o ambiente que a artista (re)criou, quando entrei na sala do museu, e revi-o, de certa forma, na barraca do monte de S. Domingos. Não sei quanto daquela atmosfera há em mim, nem que lugar ocupo nela (se soubesse talvez conseguisse fazer como Sofia Alice Ginerva Gianní (SAGG) e elevá-la a obra de arte). Sei que ali, numa festa cheia de cebola frita e bifes de quilo e meio nos pratos, sem um pingo de sofisticação, vi o que raramento vejo - pessoas que querem estar juntas a celebrar. Pessoas de várias gerações felizes só por estarem ali a comer um bom bife.
A parte de mim que se detem nas sombras viu sempre a pequenez destes lugares, o apetite canibal, a intromissão na vida dos outros, a mesquinhez, a crueldade para com os diferentes, a ditadura das aparências, mas quanto mais me afasto desse lugar, das minhas origens, parece que vejo o quadro maior, o que está por trás de tudo - a fome, a dependência dos outros, o medo, a vontade de vencer. É a essência de alguma coisa que está ali. Um início. Mas parece que nunca chego lá.