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Do que eu gosto é de vinho, mas há execpções

6.8.15
Acordei, na segunda-feira, completamente em pânico, porque me tinha esquecido de enviar o texto para a semana da cerveja do Lifecooler. Nunca me tinha acontecido tal coisa na vida e até saltei da cama (coisa rara, sobretudo àquela hora da manhã).
Depois de trocados alguns SMS, percebi que estava no timing, que era esta semana que deveria enviar o texto, e abracei o meu superego. Acho que o achei espectacular e tudo.
É claro que esta alegria e auto-valorização duraram pouco tempo, por não ter conseguido escrever o texto que gostaria, e ainda por cima cheio de gralhas (obrigada Nelson, pela edição), mas acho que, mesmo assim, vou continuar a ter em boa conta este meu nível de consciência.
E nem sequer quero saber se é completamente ultrapassado citar Freud, sei é que o meu superego, ou o referente mais actual, tem feito algumas coisas por mim bastante interessantes, como mostrar-me erros ortográficos em sonhos, que me passaram despercebidos quando os escrevi acordada, corrigidos pela minha professora de História do 11.º ano.
Sim, já me aconteceu acordar uma manhã completamente em pânico, depois de ver num sonho uma antiga professora escrever no quadro preto, com a sua letra magnífica de professora primária, uma palavra que eu tinha escrito mal num e-mail, e que na altura nem sequer me tinha apercebido.

Há experiências que não se esquecem

15.4.15

Há muito tempo escrevi uma história sobre a "ti" Deolinda baseada em factos reais. A certa altura, para fazer o enquadramento psicológico da personagem, precisava de mostrar (achava eu, na minha completa e total ignorância das técnicas literárias) o quão afastada ela vivia dos dias de hoje. Escolhi, entre outras coisas, escrever sobre o que comia, ou melhor, sobre o que nunca tinha comido: iogurtes, cogumelos, molho béchamel, quiche, esparguete à bolonhesa, mangas e acerola.

Quando me pediram para escrever sobre espargos bravos, na semana das plantas silvestres do Lifecooler, a primeira coisa que pensei foi: será que a "ti" Deolinda comia espargos? Se eu comi espargos pela primeira vez já depois de ter sido mãe, é muito provável que ela também nunca tenha comido, apesar de ter passado a vida a trabalhar nos campos. Até porque, mesmo que ela alguma vez tenha apanhado espargos (e eu nunca vi espargos lá na terra, só nas prateleiras do supermercado e no prato) o mais certo seria fazê-lo para vender a uns tostões na cidade mais próxima.

Seja como for, não é sobre a velhota que me pedia para fazer roscas para os netos que quero falar mas sim sobre a minha experiência com os espargos. Lembro-me perfeitamente de onde os comi pela segunda vez. A primeira sei que foi com uns "revueltos" e fiquei fascinada, não só pelo sabor, como pela chiqueza do nome que davam aos ovos mexidos, mas não me lembro onde é que os comi.
A segunda vez foi em Zurique, num restaurante em Niederdorf. Pedi risotto de espargos e cogumelos e comi-o enquanto amamentava o Isaac. Quando penso nisso ainda fico com água na boca.
Também aconteceu de um carteirista em fuga cair em cima do Jaime, enquanto eu dava uma entrevista para um programa de televisão universitário, mas aquele risotto...

Pessoas descompensadas

4.2.15
Foto de Pedro Santos

A C. do Lifecooler mal viu que eu tinha regressado ao blog (sou uma pessoa tão pouco consistente, valham-me os deuses) pediu-me um texto sobre teatro com urgência.
Eu não conheço bem a C., só almoçamos juntas três vezes, mas gosto dela. Aparenta ser uma pessoa equilibrada e acho que é por isso que estar com ela é muito reconfortante. Não que eu seja desequilibrada, simplesmente não consigo manter um emprego durante muito tempo, nem o próprio negócio durante muito tempo e desisto a meio de quase todos os meus projectos.  
E o que é que isso tem a ver com o teatro? Ora, provavelmente nada mas a relação que fiz na minha cabeça foi a de que pessoas como eu, que gostam muito de teatro e que podem ir ao teatro não vão assim tantas vezes ao teatro. Aliás, fazem poucas coisas que realmente gostam e depois azucrinam as pessoas à sua volta, porque são umas injustiçadas, coitadas!
E já que estou numa de autocomiseração decidi contar as vezes que fui ao teatro nos últimos tempos (ah, nunca duvidar da utilidade de um blog):

- Quizoola Lisboa! dos Forced Entertainment
- Noite do Manifesto 
- As Criadas, encenação de Luc Bordy
- Durações de Um Minuto de Clara Andermatt e Marco Martins
- O Ginjal ou o Sonho das Cerejas, encenação de Mónica Calle

Pois, basicamente, é vergonhoso! Mesmo que me tenha esquecido de alguma peça, isto dá pouco mais de uma ida ao teatro por ano. Tenho mesmo de equilibrar isto e ir ver, pelo menos, três peças de teatro seguidas, ou então posso esperar por Julho e ver todas as peças do Festival de Almada, onde já fui muito feliz.
Também podia escrever uma peça de teatro (mesmo que seja para desistir passado três páginas), ou ganhar coragem de uma vez por todas e fazer teatro amador. Se calhar até nem corria muito mal, é que diz-se por aí que os actores são pessoas descompensadas.

CAE 08111*

4.12.14

Há uns dias andava à procura de um código CAE (classificação das actividades económicas) e dei imediatamente de frente com o 08111 (extracção de mármore e outras rochas carbonatadas). "Isto anda tudo ligado", pensei.
Lembrei-me de uma amiga da adolescência que tinha vivido no Canadá e do pai dela, que vendeu o jazigo à minha avó.
Não existiam muitos jazigos de mármore na altura. Eram quase só montinhos de terra com jarras de flores em cima e o jazigo da minha avó era (e ainda é) o seu grande orgulho. Pagou cerca de mil contos por ele, o equivalente a um ano de salários, mas tem uma campa que "é um luxo".
Creio que seja totalmente indiferente aos ossos da mãe dela estarem cobertos por uma pedra de mármore muito bonita, enfeitada semanalmente pela minha mãe, mas para a minha avó aquela pedra é quase tudo o que lhe interessa, agora. É para onde vai "morar" mais cedo do que tarde, para toda a eternidade.
Pelos vistos há pessoas que gostariam de comprar a morada eterna no cemitério onde a minha avó tem a mãe dela (e eu os meus avós paternos, o meu pai e alguns amigos) mas parece que já não há espaço para mais gente.
As pessoas que passam recibos 08111 cavam buracos para extrair mármore, que depois vai tapar outros buracos. Isto anda mesmo tudo ligado.
Ah, e diz que no Canadá se constroem mansões com mármore de Portugal. Eu nunca fui ao Canadá, mas a casa dessa minha ex. amiga, que nasceu lá, era uma mansão rodeada de mármore por todos os lados.

* Esta colaboração com o lifecooler ultrapassou todas as minhas expectativas e isso é uma coisa quase rara nos dias que correm.

No meu bairro

30.10.14
Desde que me mudei para o bairro mais multicultural de Lisboa, passei a acreditar na ilusão de que vivia numa cidade parecida com Vayorken, mas quando, hoje, saí de casa para levar as crianças à escola, percebi que não é bem assim.
Algumas pessoas viravam a cabeça e olhavam-nos com ar intrigado. Sim, o Nicolau decidiu sair de casa com a adorada touca da piscina na cabeça, e depois? Em Nova Iorque isto não teria sido considerado estranho.

Na padaria, a comer um pão de alforroba, ouço a empregada dizer que o que mais queria era ir passear, tomar o pequeno-almoço dela (suponho que ali tenha de tomar um pequeno-almoço estandardizado), ir até à praia, a seguir passear outra vez e depois jantar sushi.
Acho que era a mesma pessoa que no outro dia vociferava escandalizada com o que estavam a fazer a uma participante da Casa dos Segredos. Parece que a Teresa Guilherme "uma simples apresentadora", não tem o direito de estar a influenciar as pessoas com as suas preferências.

Numa esplanada da moda peço, a uma tia, um chá verde com limão e gengibre. Pago com uma nota de 5€ (custa 1,25€) e lá veio o belo do revirar de olhos porque não tinha troco.
No mercado, pago por um quilo de petinga 6€, entrego uma nota de 10€ e a senhora dá-me 5€ de troco: "fica-me a dever 1€, não se preocupe. Eu sei que vai voltar cá".

(gosto muito mais de escrever na primeira pessoa, mas foi um prazer escrever no outro registo sobre o meu bairro)

Antes do Jet Lag

4.9.14

Tenho novas de Bali, evidentemente, mas por enquanto fiquem com o texto do lifecooler e deixem-me recuperar do jet lag e habituar-me a usar calçado novamente.

Quando há dois, ou três meses escolhi os temas sobre os quais ia falar no lifecooler estava longe de imaginar que na semana do Japão estaria precisamente na Ásia.
Na altura achei que podia ter alguma coisa a dizer sobre sushi, mais precisamente sobre um jantar muito especial no Porto, ou sobre um filme que vi há uns 10 anos  – Uma História Japonesa de Amor  - e que, por qualquer razão, me marcou.
É claro que se me pusesse a escrever sobre filmes, duvido que não fosse parar ao Myasaki e ao maravilhoso Castelo Andante, mas passemos à frente, que já se percebeu que o rumo deste texto é outro.
Portanto, dizia,  na altura lembrei-me que podia escrever sobre tudo e mais alguma coisa relacionada com o Japão, menos com a que me ocorre neste momento, quando estou em Bali, depois de ter passado um mês em Timor Leste:  sanitas.
Alguns amigos meus, que visitaram o Japão, já tinham feito referência às sanitas de lá e aos respectivos esguichos de água  para lavar as partes e hoje pude, finalmente, saber do que falavam.
Tanto em Timor Leste, como em Bali, o que se encontra nas casas de banho são umas mangueiras (ou em substituição destas, um balde de água com um cabaço) que, supostamente, substituem o papel higiénico.  Ora, como me parecia muito estranho usar uma mangueira na sanita fui evitando o novo elemento, até um dia decidir experimentar. A sério, fiquei fã desta coisa de sair da casa de banho lavadinha*!
Mas hoje aconteceu ter de mudar de quarto no hotel onde estamos instalados e, pela primeira vez,  ter-me sentado numa dessas sanitas modernas (nesta parte da Ásia) com os esguichos direccionados para os devidos sítios e, bom, percebo a modernice, mas as mangueiras, apesar de pouco elegantes, parecem-me bem mais eficazes.
Espero, sinceramente, que neste momento não estejam a visualizar-me sentada numa sanita com uma mangueira na mão a regar certas partes do corpo mas, efectivamente, ninguém me mandou falar disto em vez das magníficas frangipanis deste lado do mundo (não sei se é muito óbvio que esta pequena referência serve apenas para justificar a foto).

*ajuda muito o facto de estar sempre calor e de a roupa secar em três tempos.

Fotofobia no quiosque de S. Roque*

3.5.14
Juro que até ter começado a escrever este texto (sim, é habitual começar a escrever sem pensar muito e só depois ir à procura das ideias que quero desenvolver e que nunca desenvolvo, porque tenho o dom, ou defeito de economizar nas palavras) não fazia ideia da quantidade de quiosques que fazem parte da minha vida.
Há o quiosque onde tomo café aos domingos de manhã, na Estrela; o quiosque dos hambúrgueres e da sangria, no jardim da Parada e o quiosque com os cachecóis do FCP, onde o Jaime comprava o jornal "O Jogo", quase sem sair do carro, na Buenos Aires.
Havia também o quiosque no Largo da Luz, onde comprava o "Público" à sexta-feira e ouvia a história das patas gangrenadas das pombas.
Agora que penso nisso é bem capaz de não haver um único sítio em Lisboa sem, pelo menos, um quiosque.
Deve ser essa a razão para a maioria deles me passarem despercebidos, como foi o caso do quiosque S. Roque até ao dia em que estive no Largo Trindade Coelho com a minha avó (algumas pessoas estarão lembradas da estadia da minha avó aqui em casa).
Ora, deu-se, então, o caso de nos termos sentado no tal largo, depois de sair do concerto de música clássica que decorria na igreja de S. Roque, porque ela "tinha de ir mijar" (sic).
Apesar do frio, estava sol, que reflectido no calcário todo, me obrigava a semicerrar os olhos e a entrar naquele estado de semi-inconsciência, muito bem descrito na passagem de um livro (de Kafka?), em que um homem mata uma pessoa na praia nesse mesmo estado.
Fiquei a olhar para o quiosque, a pensar se já estaria ali antes de ter entrado na igreja, e que era obviamente um pensamento absurdo, e que só podia ser provocado pelo excesso de estímulos à minha volta: a luz, a minha avó surda que não se calava, as perguntas de uma pessoa sobre a Santa Casa da Misericórdia, os dois rapazes com sono, ou com fome, já nem sei...tanto ruído!
Fiquei a olhar para o quiosque, dizia, e pareceu-me um sítio perfeito, assim uma espécie de árvore, com um tronco oco, onde nos podemos esconder.
Voltei lá depois, sozinha, com vontade de perceber melhor aquele quiosque centenário e senti-me tentada a beber um brandy. Não bebi, dessa vez.

*É a semana do quiosque na Lifecooler e convidaram-me para falar sobre o assunto. E saiu assim