Dia #10

22.3.20

Acordei tarde e praticamente saí da cama para a cozinha, com o assado de domingo na cabeça. Os miúdos tomavam o pequeno-almoço no sofá, enquanto viam TV e, com a comida no forno, sentei-me no chão do nosso pequeno pátio a aproveitar o sol.
Fizemos o brinde combinado com os nossos vizinhos e o resto da tarde foi igual a outros domingos, com filmes e vinho.
O Isaac quis ir à rua dar uma corrida e perguntou se podia também pedalar. Foram 5 minutos de pura alegria.
Soubemos que havia uma multidão a passear na marginal e que a polícia actuou de imediato. Talvez nem toda a gente tenha, realmente, noção do que está a acontecer.
Não foi um dia mau. Nem bom.

Dia #9

21.3.20
Foi um sábado parecido com muitos outros, com a diferença de não podermos fazer uns intervalos para andar de skate e bicicleta. Normalmente, o Jaime vai abrir a vinharia e eu vou lá ter depois do almoço com eles. Às vezes vou antes e almoçamos todos lá.* Hoje, ficamos em casa e o Jaime foi para a vinharia sozinho fazer o que tinha de ser feito, mas veio almoçar connosco.
Fiz uma caminhada menos demorada que o costume por não me sentir confortável na rua, não sei se por causa do frio, ou da frieza circundante.
Era suposto o Nicolau adiantar os trabalhos em atraso da escola, eu fazer exercício com eles e ensiná-los a fazer tranças (eu adoro que me mexam no cabelo, é mais do que justo que os ponha a fazer alguma coisa que me relaxe). Escusado será dizer que o Nicolau não pegou nos cadernos e como se recusaram a correr na rua (onde não passam carros e, agora, quase nenhuma pessoa), cinco vezes para lá e cinco para cá, estivemos a dançar, mas por pouco tempo. Já não sei quem ganhou. Não consigo fazer nada com eles sem que tenha de dar uma nota (obrigadinha, escola!). Com as tranças não tive qualquer hipótese, recusaram e pronto.
Não li uma página do livro, nem depilei as sobrancelhas, mas fiz a massa com camarão ao almoço e a costelinha de porco no forno ao jantar, como estava programado. Podia sentir-me bem comigo própria por esta concretização, mas a verdade é que a única coisa que me tranquiliza, ou que me faz sentir normal, é cumprir o horário das refeições. Não interessa se comemos sandes, ou arroz de marisco, interessa que nos juntemos à mesma hora para comer (e beber vinho). Com, ou sem estado de emergência.
Ah, também demos banho à Catrina, coitada!

*deve ter chegado o momento de assumir que me sinto em quarentena quando vou trabalhar

Dia #8

20.3.20
Já não sei quantas vezes falei sobre ter medo aqui no blog, quer dizer, segundo a pesquisa que fiz menciono a palavra medo em 42 posts e em dois deles uso-a no título, mas estranhamente não sinto medo, agora, e ainda bem, porque em situações destas costuma ser o nosso pior inimigo. Estou preocupada e angustiada como toda a gente, claro, a incerteza do que nos espera pode ser muito desesperante, mas se pensarmos bem nós nunca sabemos o que nos espera. Arranjamos mecanismos para acreditar que temos tudo sob controle, mas não temos como controlar tudo o que nos acontece.
Percebo as pessoas que precisam de reinventar uma rotina para conseguirem trabalhar, cuidar dos filhos e tratar da casa mas se está tudo diferente porque se continua a fazer tudo igual como antes? Os mesmos horários, as mesmas tarefas, os mesmos problemas que se juntam aos novos problemas causados pelo estado de emergência.
Nós não fizemos grandes alterações à nossa rotina, tirando a hora de levantar, e estar em casa com crianças aos gritos, a cozinhar o almoço e o jantar, a ver se há alguma coisa importante para despachar no computador é um déjà vu. Também se dá o caso de me agradar não ter horas marcadas para trabalhar e de, nesta altura, não ter nada urgente para fazer. Além disso, estou a trabalhar com o Jaime há quase um ano, por isso estamos familiarizados com os problemas de um convívio intenso, quase sem vida social, e os miúdos passam a vida a dizer ''obrigada corona vírus por podermos ficar em casa''. Mesmo assim, hoje dei por mim a pensar o que podia mudar no nosso dia-a-dia para nos sentirmos melhor, mas logo a seguir achei que deixar andar e lidar com os problemas à medida que forem surgindo já está bem. Só tenho de decidir quando vou considerar um problema o tempo que eles passam a olhar para um ecrã, mesmo que seja a fazer coisas diferentes (falar e jogar com amigos, usar a escola virtual, ver TV, jogar playstation, ver youtubers...) ao longo do dia. 

Dia #7

19.3.20

Não há como estar nas redes sociais sem romantizar a vida, já se sabe. Mesmo as pessoas que, como eu, desvalorizam esse romantismo não conseguem evitar publicar fotos das suas viagens, pessoas, paisagens e animais de estimação.
Mas em relação à quarentena não me parece nada mau que se romantize, que se use e abuse de fotos bonitas e cheias de esperança. Sim, é um privilégio poder fazê-lo, mas não creio que evitá-lo sirva para alguma coisa.
Ontem à noite pedi cebolas à minha vizinha, pelo messenger, porque não gosto nada de fazer estrugido com alho e ela veio à varanda com um saco preso num pau e passou-me quatro cebolas. Comoveu-me este gesto, mesmo sabendo que faz parte das regras de boa vizinhança ceder um raminho de salsa, ou um bocadinho de sal quando somos apanhados desprevenidos.
Não faz mal querer acreditar na humanidade e que tudo se vai resolver e que mais vale tirar algum proveito deste recolhimento.
Se até o Mike Leigh conseguiu imaginar uma Poppy, nós também devemos poder ultrapassar isto com optimismo e sentido de humor.
Mas não hoje. Hoje, decidi fazer a aula de educação física que o professor do Nicolau enviou e quase morri. Das duas umas, ou as nossas crianças estão a ser torturadas na escola, ou sou oficialmente uma pessoa com muitos handicaps físicos.

Dia #6

18.3.20
Eu sei que há este nervoso miudinho no ar, em muitos casos não tão miudinho assim, mas hoje o que me está a perturbar é ter chegado à conclusão que sou uma pessoa muito mais limitada do que pensava, e olhem que eu até costumo inventar limitações que não tenho.
Primeiro foi a constatação que não sei nada sobre fracções, chego a duvidar se alguma vez aprendi tal coisa na escola. A discussão com a criança de oito de anos aqui de casa deixou-me perplexa. Depois, são os gráficos com o crescimento exponencial do vírus que toda a gente sabe analisar, no facebook, e eu fico a olhar para aquilo como um boi para um palácio.
Enfim, fico-me pelos Ensaios, mas não consigo deixar de pensar que o ensino das matérias fundamentais (matemática, filosofia, economia, linguística e física) deveria estar menos compartimentado e mais relacionado entre si.
Também fico perplexa com a adaptação das crianças a novas situações. Deixar de ir à escola, passar a ter aulas com os pais e ficar o dia todo em casa parece ser a coisa mais normal do mundo, como se tivessem vivido sempre assim.
Hoje, fui fazer uma caminhada e quando lhes disse que ia sair disseram-me naturalmente: ''Cuidado com o coronavírus. Leva uma máscara''. Muitas lojas estão  fechadas, mas há bastantes pessoas a passear na rua. As distâncias parecem ser cumpridas, no entanto vêm-se alguns grupos.
Ainda não comecei a aprender guitarra, não comprei o kit de tricot, nem tão pouco comecei a fazer ginástica em frente ao computador. A casa está como estava, quer dizer está ainda mais desarrumada.
Daqui a pouco deveremos ter mais informações sobre a declaração do estado de emergência do Presidente da República e não deixa de ser curioso ver os partidos de direita menos preocupados com a economia do que os de esquerda. É o fetiche do Estado policial, não é?

Dia #5

17.3.20
Sabem aquela cena de aproveitar a quarentena para ler, escrever, estar com a família e outras coisas assim giras? É uma falácia. Podem fazer isso tudo, é bom que façam (eu estou a planear aprender guitarra em 21 dias, mandar vir um kit da retrosaria, finalmente, e ficar tonificada com exercícios do youtube), mas não esperem fazer tudo o que planeiam, ou sentirem que isto era tudo o que esperavam e/ou precisavam, caso consigam. Quer dizer, pode acontecer, mas vai demorar, provavelmente, até recomeçarem a vida que tinham antes. Como é que sei? Porque eu, e muitas outras pessoas, já estiveram em quarentena em alguns períodos da vida, isto é, em licença de maternidade. É verdade que podemos receber visitas (mesmo que não nos apeteça), sair para um passeio (mesmo que o ar pareça demasiado rarefeito) e estar com amigos (mesmo que nos olhem desconcertados, não sabemos se pelo nosso ar, se pelos gritos da cria), mas não tenham dúvidas, os primeiros dois meses de um bebé (ou dois anos), sobretudo se for o primeiro filho, são uma quarentena. Porque a única coisa que conseguimos ver e ouvir claramente é o bebé, o resto está tudo envolto numa névoa, está como que noutra dimensão. Também pode ser que estejamos com depressão pós-parto, mas isso é outra história.
Além disso, eu sou igual ao Tyrion Lannister, sabem? ''Eu bebo vinho e sei coisas''. Portanto, vai haver muita gente a mostrar as cenas incríveis que está a fazer em casa, com filhos e sem filhos, vai haver quem se queixe (menos, porque essas pessoas estão em tele-trabalho e têm mais o que fazer), mas ninguém vai dizer toda a verdade. Portanto, façam o que vos der na real gana, sem deixar de seguir todas as recomendações, e não se preocupem.
Eu não sei como temos sido convencidos a fazer o que não gostamos para conseguir atingir os nossos objectivos, que nem sequer são os nossos, na maior parte dos casos. Mas é assim que temos vivido.
Por isso façam o que vos apetecer, dentro das vossas possibilidades, e se mesmo assim ficarem com uma depressão pós-crise, tratem-se (eu sei que não estou a ser coerente com aquilo de não estar aqui para ajudar, mas deixem-me ser neurótica, ok?).
Agora vou comer uma tosta mista, beber um copo de vinho (espero que seja só um) e ver um filme.

Dia #4

16.3.20
Acordei tarde. O Jaime tinha saído para vender vinho a um cliente que lhe telefonou. Pelo que tenho visto nos últimos dias, o vinho está na lista de bens essenciais a ter na despensa. Percebo perfeitamente e, tendo em conta que o nosso salário depende disso, agradeço.
Os comandos da TV desaparecem amiúde, os rapazes passam eternidades ligados aos telemóveis, ou computador e ainda não começamos a arrumar a casa, que parece ser o primeiro mandamento do recolhimento.
Comemos canja ao almoço e o resto da bola que o Jaime fez ontem, ou melhor que o Nicolau fez com a ajuda do Jaime. Nenhum do autoclismos funciona. Um já estava avariado há algum tempo, mas fomos adiando chamar um canalizador, depois de termos posto mãos à obra, à vez, e ter sido pior a emenda que o soneto. Agora avariou-se o outro, portanto temos de andar com baldes para cima e para baixo. Moral da história: Não se deve deixar muitas coisas para tratar quando aparecer um vírus.
O jogo de dardos que eles receberam no Natal foi finalmente pendurado. Só comecei a sentir que alguma coisa está diferente quando o Jaime me disse que a professora do Nicolau estava a marcar aulas online com os alunos. Por causa disso decidimos marcar duas horas por dia de trabalho académico para os dois, coisa que não nos tinha ocorrido antes, o que mostra a importância que damos ao percurso escolar dos nossos filhos.
Acabou há pouco a entrevista do Primeiro-ministro na SIC e não estava nada à espera de achar que António Costa esteve melhor do que Rodrigues Guedes de Carvalho, mas às tantas o pivot cumpriu um papel necessário.
Estou com as dificuldades respiratórias habituais das crises de rinite alérgica e a pensar quantos dos telefonemas recebidos pelos SNS24 são de hipocondríacos.

Corona vírus dia #3

15.3.20
A Luísa sugeriu o diário da quarentena e eu ri-me, mas pareceu-me uma ideia nada disparatada. Eu gosto de diários, mas como sempre os escrevi para serem lidos (alguém escreve só para si próprio?) pareceu-me arriscado nesta fase da minha vida. Quer dizer, eu posso apresentá-la, à minha vida, como quiser mas é verdade que precisamos de estar certos das nossas escolhas e acreditar que a nossa vida é, ou pode ser, tão boa como outra qualquer para a expor. Sim, também há gente com espírito missionário, que espera ajudar alguém com os seus desabafos e/ou exemplos. Nunca foi o meu caso, mesmo tendo já recebido emails de agradecimento e outras simpatias de alguns leitores.
Quer isto dizer que não estou a viver uma vida interessante, ou dramática o suficiente para estar na net? Pois, aparentemente assim parece. E, no entanto, sabemos que há poucas coisas mais susceptíveis de criar pathos do que as vidas normais. Sendo que neste momento, estamos todos a procurar a normalidade dentro da anormalidade provocada pelo Covid-19.
Posto isto, vamos lá ao diário.

Então, eu estou em casa com os miúdos desde sexta-feira. O Isaac foi à escola fazer o teste de matemática, porque não nos pareceu justo adiar um problema. Ele está a ter explicações a esta disciplina, esteve a semana a trabalhar para esse teste, por isso foi fazê-lo, já que as escolas estiveram abertas, apesar de se saber que tinham de fechar.
O Jaime foi abrir a vinharia e eu fui ajudá-lo em alguns momentos, enquanto os miúdos ficaram a jogar playstation em casa. No sábado foi mais ou menos a mesma coisa. Trouxe o computador para casa, não tanto para trabalhar mas para comunicar, porque parti o telemóvel. Sim, é justo eu ficar sem telemóvel numa altura destas, ninguém merece isso mais do que eu, sem qualquer ironia.
Portanto, só hoje é que estamos os quatro em casa, sem sair para almoçar, ou para um dos nossos habituais passeios domingueiros. Até agora o que posso dizer é o seguinte:

1) Os miúdos estão a ficar bons a jogar Party & Co
2) A minha mãe tentou convencer-me que não fazia mal nenhum ir lá almoçar, porque somos família
3) Várias mensagens e telefonemas depois consegui falar com a Bea, que disse estar a fazer a quarentena. Eu não lhe disse que devia vir visitar-nos, porque somos família, mas apeteceu-me
4) O Jaime esteve mal humorado, mas é possível que fosse da minha TPM
5) A Sarah Connor é, provavelmente, a melhor personagem de um filme
6) Lembrei-me que o blog fez 10 anos e decidi cozinhar para o almoço panados com arroz de tomate, mas como não tinha tomates fiz arroz branco.

Confinamento sempre combinou com blogs

14.3.20

Estava à procura de um post aqui no blog e, naturalmente, acabei a ler uns quantos. É sempre uma viagem quando isso acontece, mas pela primeira vez pareceu-me razoável compilar algumas das coisas que escrevi aqui.
Antes disso, enquanto estendia a roupa para secar, pensava como era descabido esperarmos que as pessoas lessem desabafos de mães bloggers preocupadas com os seus quotidianos de merda, quando o mundo está como se sabe.
Não quero desvalorizar esses quotidianos, que foram e são os meus, mas não me interessam mais, por isso não posso esperar que o meu interesse a alguém.
E, no entanto, aqui estamos, todos no mesmo barco, fechados em casa com as crianças, à mercê de um vírus, como em muitas outras ocasiões.
Se calhar podíamos voltar ao blogs e ver no que dava. Não seria a primeira vez. Aliás, este programa da RTP2 que nos mostrou a inigualável Helena Araújo, deve querer dizer isso mesmo, não?

A foto foi publicado no meu primeiro blog (Penso Logo Digo), em 2006

Tenho problemas

2.3.20
Gostava muito, muito de saber o que diz sobre mim o facto de ter comprado online, logo pela manhã, um biquíni. Repito, um biquíni!!!