CAE 08111*

4.12.14

Há uns dias andava à procura de um código CAE (classificação das actividades económicas) e dei imediatamente de frente com o 08111 (extracção de mármore e outras rochas carbonatadas). "Isto anda tudo ligado", pensei.
Lembrei-me de uma amiga da adolescência que tinha vivido no Canadá e do pai dela, que vendeu o jazigo à minha avó.
Não existiam muitos jazigos de mármore na altura. Eram quase só montinhos de terra com jarras de flores em cima e o jazigo da minha avó era (e ainda é) o seu grande orgulho. Pagou cerca de mil contos por ele, o equivalente a um ano de salários, mas tem uma campa que "é um luxo".
Creio que seja totalmente indiferente aos ossos da mãe dela estarem cobertos por uma pedra de mármore muito bonita, enfeitada semanalmente pela minha mãe, mas para a minha avó aquela pedra é quase tudo o que lhe interessa, agora. É para onde vai "morar" mais cedo do que tarde, para toda a eternidade.
Pelos vistos há pessoas que gostariam de comprar a morada eterna no cemitério onde a minha avó tem a mãe dela (e eu os meus avós paternos, o meu pai e alguns amigos) mas parece que já não há espaço para mais gente.
As pessoas que passam recibos 08111 cavam buracos para extrair mármore, que depois vai tapar outros buracos. Isto anda mesmo tudo ligado.
Ah, e diz que no Canadá se constroem mansões com mármore de Portugal. Eu nunca fui ao Canadá, mas a casa dessa minha ex. amiga, que nasceu lá, era uma mansão rodeada de mármore por todos os lados.

* Esta colaboração com o lifecooler ultrapassou todas as minhas expectativas e isso é uma coisa quase rara nos dias que correm.

Viagens no tempo

3.12.14
Um dia destes vou acordar e vou perceber tudo. Algures numa dimensão paralela parece-me que já lá cheguei.
Desde muito pequena que tenho a sensação que consigo ver-me do futuro mas só muito mais tarde me apercebi que quando precisava de dirigir preces a alguém era a mim que o fazia. Ao "eu" que já lá tinha chegado, às respostas, ao conhecimento (devo estar lá a gritar NÃO SEJAS EGOCÊNTRICA).
As viagens no tempo sempre fizeram muito sentido para mim (bem, há um dos exterminadores implacáveis que baralham um bocado a coisa). A superação da ignorância também. Nem que seja para chegarmos à conclusão que é melhor vivermos mergulhados nela.
Um dia, dizia, vou acordar e perceber tudo mas hoje não foi esse dia. Hoje dormi até tarde, o ombro e o braço direito continuam a doer-me, o pão com ameixas e figos acabou e ainda não aprendi nada hoje. Mas o dia ainda mal começou.

Surpresas

1.12.14
Rabisquei num papel que o amor pelos meus filhos é um pano cru, sem fatos de domingos, ou lençóis bordados. Devia estar bêbeda, porque não sei o que quer dizer.
Surpreendeu-me chegar a casa, quatro dias depois, e notar a falta que lhes fiz. O Isaac chorou agarrado a mim na estação de comboios. Sou a amora (feminino de amor) deles.
Surpreende-me sempre as pessoas gostarem de mim.

Escaravelho

29.11.14
Tenho andado arredada do computador. Distante de casa, ocupada com coisas que me interessam e cheia de compromissos sociais. Apanhei muito frio num dia, massacrei os pés com as botas de água no outro e tive saudades deles todos os dias.
Sinto-me um escaravelho. Não sei explicar porquê mas é isso mesmo que sinto hoje, que sou um escaravelho. Espero que não tenha nada a ver com as bolas de esterco que estes bichos costumam enrolar.

Piadas de mau gosto

26.11.14
Estou gorda. É muito parvo estar a escrever sobre isto, mas estou gorda. E o pior nem é isso. O pior é o meu cérebro ainda não se ter habituado a essa ideia. Olho para os pares de calças 38 e ele diz-me que me servem e quando as tento vestir fico cheia de pena de mim.
"Vamos analisar as hormonas, minha querida, mas olhe que já está numa idade em que precisa de ter mais cuidados com a alimentação", diz-me a médica de família. Portanto, estou gorda, porque estou velha. Só pode ser uma piada de mau gosto.

Os Croods e os Fonseca Xavier

24.11.14
Este filme já deu tantas, tantas vezes na nossa televisão que praticamente toda a gente aqui em casa sabe as falas de cor. Só faltava atribuir personagens a cada um de nós.
O Isaac escolheu ser o Guy (o rapaz evoluído e sonhador), claro, o Nicolau o Thunk (o desastrado e "sem cérebro") e eu disse que não tinha a certeza se era a Eep (a filha curiosa e rebelde), ou a Ugga (a mãe das três crianças pré-históricas).
"Tu és a Eep mamã", disse-me o meu filho do meio. E apeteceu-me comê-lo de beijos.

Domingo de manhã

23.11.14


Uma pessoa sabe que, se calhar, podia dar melhor uso ao tempo quando usa um domingo de manhã para fazer um estojo de pano para o filho oferecer a um amigo que faz anos e este lhe pergunta o que é o presente, porque acha que o estojo é o "embrulho".

Tenham muito medo

21.11.14


E o que eu gostei de intervalar o trabalho para fazer uns falafel para o almoço mais uns muffins de aveia e banana! E deliciosos que estão!
Não leva muito tempo estou uma sopeira feliz e tudo.

Saltos no tempo

19.11.14
Há certos gestos ou acontecimento que, automaticamente, me fazem viajar para outro sítio, assim mesmo como nos filmes. Uma pessoa agora está aqui e no momento seguinte foi parar a outro lado (não sei se existe um termo para isto. Tenho a impressão que sim). Dou dois exemplos, que são os mais frequentes:

1- Sempre que estou a picar salsa, entro no filme da Agnès Varda, Os Respigadores e a Respigadora, e vejo claramente aquele senhor a apanhar salsa de um caixote do lixo e a explicar, enquanto trinca o caule, que a salsa tem muito zinco.

2- Quando encontro um cabelo na comida (sim, acontece-me com bastante frequência), lembro-me de um almoço em Newark, em casa dos pais da Mrs. Carrol. Foi num sábado e a mesa estava posta com o melhor serviço, porque comentava-se por lá que nós, na Europa, comíamos de faca e garfo todos os dias e não apenas em ocasiões especiais.
Ora, como a mãe da Mrs. Carrol era italiana sabia muito bem o que tinha a fazer. A comida estava divinal, claro, e nós, eu e a minha outra amiga portuguesa, estávamos sentadas muito direitinhas à mesa para não dar parte fraca. Nisto, encontro um cabelo no meio da salada. Fiquei para morrer, uma vez que sabia que não devia deixar comida no prato. Depois de muito pensar e remexer na comida decidi que tinha de comer o cabelo. E assim fiz.

A minha filha saiu à noite

18.11.14
Antes do jantar
- Quem é que faz anos, Bea?
- Já te disse não sei quantas vezes que é a Mariana.
- Ah, pois, mas não me lembro de nenhuma Mariana na tua turma.
- Isso é porque é da minha turma do coro. Ela está no 10.º ano noutra escola.
- Ah, ok. Espera, no 10.º ano? isso quer dizer que faz 16 anos (a Bea tem 13)!
- É.
- Mas, então, vão embebedar-se!!!
- (chocada) A que propósito?
- Bom, hmmmm, quer dizer, não sei, mas aos 16 anos pode acontecer, sei lá, digo eu, de se experimentar bebidas alcoólicas.
- Isso não sei. Sei é que a Mariana não bebe álcool. Tenho quase a certeza.
- E se beberem todas o que vais fazer?
- (com ar daaaã) Vou beber água, ou sumo, obviamente. Tenho 13 anos.
- Pronto. Então liga quando terminar o jantar.

10h50 toca o telefone
- Tou, olha mamã, só acabamos agora de jantar e estávamos a pensar ir comer uma sobremesa à baixa, pode ser?
- Sim, está bem. Quando terminares liga para te irmos buscar.
- Está bem, mas eu posso ir de metro, não há problema.
- Está bem, liga e logo vemos.

Meia hora depois ligo-lhe eu a insistir que era melhor ir buscá-la, que preferia que não andasse de metro sozinha àquela hora.

11h45 recebo um sms
"Podem apanhar-me daqui a 15 minutos na Rua Augusta?"

A minha filha é a Cinderela e trata-me por mamã. É a pirosice mais fixe do universo.