Confinamento sempre combinou com blogs
14.3.20
Estava à procura de um post aqui no blog e, naturalmente, acabei a ler uns quantos. É sempre uma viagem quando isso acontece, mas pela primeira vez pareceu-me razoável compilar algumas das coisas que escrevi aqui.
Antes disso, enquanto estendia a roupa para secar, pensava como era descabido esperarmos que as pessoas lessem desabafos de mães bloggers preocupadas com os seus quotidianos de merda, quando o mundo está como se sabe.
Não quero desvalorizar esses quotidianos, que foram e são os meus, mas não me interessam mais, por isso não posso esperar que o meu interesse a alguém.
E, no entanto, aqui estamos, todos no mesmo barco, fechados em casa com as crianças, à mercê de um vírus, como em muitas outras ocasiões.
Se calhar podíamos voltar ao blogs e ver no que dava. Não seria a primeira vez. Aliás, este programa da RTP2 que nos mostrou a inigualável Helena Araújo, deve querer dizer isso mesmo, não?
A foto foi publicado no meu primeiro blog (Penso Logo Digo), em 2006
Tenho problemas
2.3.20
Gostava muito, muito de saber o que diz sobre mim o facto de ter comprado online, logo pela manhã, um biquíni. Repito, um biquíni!!!
Deixar de ser o que fomos
27.2.20
Acordei a pensar que tinha de começar a praticar exercício, que as caminhadas mais ou menos assíduas não são suficientes, que já chega de não conseguir enfiar-me em roupa que me ficava larga e tal e tal. Depois do café e croissant com queijo fui pesquisar ginásios na Póvoa, só de olhar para as imagens e nomes das modalidades comecei a achar que o circuito do Parque da Cidade é espectacular e que se calhar podia direccionar a minha força de vontade para aí. Não demorou muito a decidir que tinha era de intensificar as caminhadas e comprar roupa.
Entretanto é meio-dia e noto que ocupei a minha manhã com esta preocupação. Fui tratando de assuntos que tinha a tratar, claro, mas o tema 'ficar em forma' ficou a rebolar na cabeça e com ele todos os outros pendentes - tratar não sei o quê nas finanças, pagar umas contas, as fotos (e os conteúdos) que faltam no site, as mensagens e emails que devia ver respondidos e por aí fora. É por isso que as pessoas passam a vida ocupadas sem fazerem nada de útil.
Entretanto é meio-dia e noto que ocupei a minha manhã com esta preocupação. Fui tratando de assuntos que tinha a tratar, claro, mas o tema 'ficar em forma' ficou a rebolar na cabeça e com ele todos os outros pendentes - tratar não sei o quê nas finanças, pagar umas contas, as fotos (e os conteúdos) que faltam no site, as mensagens e emails que devia ver respondidos e por aí fora. É por isso que as pessoas passam a vida ocupadas sem fazerem nada de útil.
Ainda me levantei do computador para dançar não sei que música do spotify, ou da radar, mas trouxe um vestido transformado em camisa que está apertado nos braços e eu danço muito com os braços e como nem o Nicolau, que está de férias esta semana, se mexeu a não ser para me mirar de cima a baixo com um certo desprezo, desisti.
É a desistirmos de coisas assim, aparentemente pequenas, que vamos desaparecendo. De desistência em desistência deixamos de ser o que fomos, o que somos. E, em alguns casos, é uma pena.
A foto é do Paulo Ricca, de 2006 (acho)
A foto é do Paulo Ricca, de 2006 (acho)
Rejubilemos
14.2.20
Rejubilemos, o sol chegou à Póvoa de Varzim! Jaime, esquece o que disse hoje de manhã, meia a dormir, talvez a Póvoa não seja uma cidade má (reparaste que sublinhei o talvez?).
Bom, é possível que a minha costela celta seja de uma tribo diferente da que predomina nesta geografia, pelo que devia fazer uma regressão, ou outra cena assim new age, para compreender de onde me vem esta animosidade. Pronto, agora vou ter de ir à biblioteca ler sobre celtas e vikings, o google não me ajudou grande coisa nesta matéria.
Mas, dizia, o sol chegou e, sabe-se lá, podemos encontrar um trevo de quatro folhas, ou tropeçar num significado para a nossa vida.
Uma pessoa triste
8.2.20
Dois anos depois de ter regressado a Portugal voltei a sentir-me como antes de sair daqui. Voltei a acordar sem vontade de sair da cama, a ter de fazer um esforço para executar as tarefas mais básicas, a engatar os pensamentos uns nos outros, a ter medo de enlouquecer...
Tem vindo a acontecer, claro, não foi assim de repente, mas percebi claramente que tinha chegado ao mesmo ponto quando dei por mim a ler a entrevista póstuma a George Steiner no El País, a ponderar assinar o Expresso Digital para ver o que Kirk Douglas, ou Issur Danielovitch Demsky, disse aos 100 anos a propósito da sua longevidade, que atribuiu ao amor e às longas conversas com a mulher, Anne Buydens, a fazer scroll down no artigo sobre Dorothy Parker e, por causa disso, ir procurar a Mesa Redonda de Alonquin. Tudo isto sem retirar grande prazer das leituras e com a sensação de que devia estar a fazer outra coisa.
Não tenho feito as caminhadas habituais, deve ser por isso. Fiquei a pensar se os meus filhos olham para mim como uma mãe deprimida, mesmo que não saibam exactamente o que isso significa (nem eu, por acaso) e mandei mensagem à que já tem idade para perceber. Ela respondeu: «Não me lembro em que ponto é que realmente me apercebi disso, até porque durante muito tempo foi só um conceito abstracto, mas sinto que sempre tive a noção que eras ''triste''».
Pronto, se calhar eu sou uma pessoa triste, com muitos momentos de alegria e outros de grande alegria. Não há-de vir grande mal ao mundo por causa disso.
O que vai ser o comer
30.1.20
Passou uma música na Radar a louvar a rotina, uma rotina em particular, pareceu-me. Achei piada ao ritmo e à letra mas quando a Inês Meneses falou no Sambado já não ouvi (eu faço parte do grupo das pessoas que não aprecia trabalhar e ouvir música ao mesmo tempo).
Depois, as horas foram passando e eu fui dando por mim a pensar onde comprar o peixe para o jantar, na logística para ir buscar o Nicolau à escola e outras coisas mundanas. Troquei mensagens com o Jaime sobre o jantar, enquanto tratava do almoço do Isaac, e fiquei deveras perturbada com esta minha obsessão do que vai ser o comer.
Na verdade é mais uma obsessão do pequeno lá de casa do que minha. Sempre que o vamos buscar à escola a primeira pergunta que faz é: ''o que vamos jantar?'' Depois compara com o que almoçou e reclama, ou rejubila consoante a ementa apresentada.
Nunca mais me esqueci do dia em que lhe disse que o jantar era strogonoff, o que lhe agradou imenso, mas depois recusou-se a comer, porque o arroz devia ser branco e era de cenoura. ''Não se come strogonoff com arroz desta cor!'', disse ele em prantos.
Bom, depois da troca de mensagens pareceu-me claro que as refeições diárias são o compasso das minhas rotinas.
Entretanto, apeteceu-me escrever sobre as rotinas e por isso lembrei-me da música que tinha ouvido de manhã. Como não consegui descobrir qual era, perguntei ao Jaime (que faz completamente parte do grupo das pessoas que não sabem trabalhar sem ouvir música) e ele esclareceu-me, no exacto momento em que a música passava novamente na rádio, que se tratava da Jóia da Rotina.
''A jóia da rotina/ A jóia da rotina/ É voltar cedo pra casa/ Deixar o ouro na mina''.
Ele há coisas!
Depois, as horas foram passando e eu fui dando por mim a pensar onde comprar o peixe para o jantar, na logística para ir buscar o Nicolau à escola e outras coisas mundanas. Troquei mensagens com o Jaime sobre o jantar, enquanto tratava do almoço do Isaac, e fiquei deveras perturbada com esta minha obsessão do que vai ser o comer.
Na verdade é mais uma obsessão do pequeno lá de casa do que minha. Sempre que o vamos buscar à escola a primeira pergunta que faz é: ''o que vamos jantar?'' Depois compara com o que almoçou e reclama, ou rejubila consoante a ementa apresentada.
Nunca mais me esqueci do dia em que lhe disse que o jantar era strogonoff, o que lhe agradou imenso, mas depois recusou-se a comer, porque o arroz devia ser branco e era de cenoura. ''Não se come strogonoff com arroz desta cor!'', disse ele em prantos.
Bom, depois da troca de mensagens pareceu-me claro que as refeições diárias são o compasso das minhas rotinas.
Entretanto, apeteceu-me escrever sobre as rotinas e por isso lembrei-me da música que tinha ouvido de manhã. Como não consegui descobrir qual era, perguntei ao Jaime (que faz completamente parte do grupo das pessoas que não sabem trabalhar sem ouvir música) e ele esclareceu-me, no exacto momento em que a música passava novamente na rádio, que se tratava da Jóia da Rotina.
''A jóia da rotina/ A jóia da rotina/ É voltar cedo pra casa/ Deixar o ouro na mina''.
Ele há coisas!
Segunda-feira
27.1.20
Os miúdos não foram à escola, hoje. Nenhum de nós conseguiu acordar a tempo, ou melhor, nenhum de nós achou que valia a pena o esforço, depois de ouvir as sete badaladas numa igreja e mais sete na outra (só espero que nenhuma das professoras deles leia este blog e vá procurar a justificação de faltas). E apesar de ter passado a manhã a centrifugar a roupa, que passou a madrugada a apanhar chuva, e a fritar panados para o almoço, mantive o humor típico de quem fez um manguito ao sistema.
Claro que ajudou ter acordado com vagar e ficar a olhar para o fac-símile do Egon Shiele, na parede em frente à nossa cama, enquanto pensava no filme sobre Maria Madalena e me ocorria que tinha de haver uma relação entre estes e o desaparecimento de Percy Fawcett .
Obviamente, abri uma garrafa de vinho ao almoço, ao contrário do que é habitual a uma segunda-feira.
Como seria?
22.1.20
Estou convencida que a minha ideia para salvar o mundo, apesar de distópica, teria a grande vantagem de vermos que espécie humana adviria daí.
Parece-me que devo andar a pensar nisto há algum tempo, uma vez que cumpro parte do que proponho (ou será que proponho precisamente por isso?). Então, a minha sugestão é que cada um de nós viva com o que consegue fazer. E só com isso. Se eu quero comer carne tenho de matar o animal. Se gosto de ter a casa a brilhar e tudo arrumado nos armários perco o tempo necessário para o fazer, em vez de contratar uma mulher a dias. Para andar vestida e calçada não sugiro que confeccionemos as nossas próprias roupas e calçado, mas devemos pagar tudo o que está associado a uma peça, desde a matéria prima, passando pelos processos de transformação, até à mão de obra. Nesta realidade não faltariam os alimentos básicos à subsistência: pão, fruta, legumes e algum leite, assim como tecidos e roupas usadas, mas tudo para além disso teria de ser feito por quem aspirasse a mais.
A distância entre o trabalho e a escola deve ser a que conseguirmos fazer a pé. Se não for possível usem-se as carreiras, vulgarmente conhecidas por transportes públicos, ou as carroças puxadas a cavalo, como ainda usam algumas lavradoras de Aguçadora. Sim, estou a sugerir vivermos todos como eu vivia há 35 anos, ou seja, antes da CEE. A diferença é que nessa altura havia mais pobres (agora considerados classe média) do que ricos, que não tinham mais do que um carro por família.
Não temos de culpar o desenvolvimento, a globalização e o capitalismo (se bem que este último...devia haver gente, ou mais gente, a estudar a razão para reproduzirmos sistemas que nos aniquilam mais do que nos ajudam) pelo estado a que chegamos, mas agora que já vimos onde viemos parar, como seria se recomeçássemos?
Ser mãe
2.1.20
Último pôr-do-sol de 2019
Peguei num caderno à procura de uma folha livre para fazer mais uma lista de compras, e outra de coisas a fazer (ideia para 2020: compilar todas as listas que encontrar), quando li num rascunho: ''ser mãe é abdicar de ser outra coisa qualquer''.Apesar de não me lembrar por que razão o escrevi, tenho a impressão que não fez tanto sentido na altura, como agora ao reler.
Sim, sim já sabemos que a maternidade acrescenta muito mais em proporção ao que se abdica (outra ideia: escrever posts fofinhos sobre a família, agora que anda tudo a falar dos desafios e dificuldades), mas ser mãe é realmente abdicar de ser outra coisa.
Memórias
28.12.19
O facebook mostrou-me esta foto e eu fui procurar as notas do meu diário de viagem. Sabe mesmo bem voltar a sítios onde fomos felizes!
''Dia 9
Kandy-Bandarawela
Faltavam 15 minutos para as 8h00 quando chegámos à estação de comboio de Kandy e já estava uma fila enorme para comprar bilhetes para o mesmo destino que nós. Pareceu-me óbvio que íamos ter de ir de taxi, mas quando vi os bilhetes na mão do Jaime fiquei super contente (1000 rupias todos os bilhetes).
Só que a felicidade durou pouco tempo, já que o comboio chegou à estação às 8h49, completamente a abarrotar, e foi um ver se te avias. Toda agente a empurrar-se para conseguir um lugar de pé, apertado entre pessoas e malas.
Fomos de táxi, portanto (12 mil rupias). Foram quatro horas e meia de viagem com uma daquelas paragens desnecessárias para ver um jardim de ervas e especiarias. Até podia ser uma coisa engraçada se não fosse tão óbvio o objectivo de nos impingirem cremes, loções e especiarias com propriedades milagrosas, em embalagens horrorosas. Por um boião de cravinho, que pelos vistos põe os dentes brancos, pediram-nos o equivalente a 20 usd. Enfim, trouxe um creme de aloe vera e um óleo de canela.
Parte da viagem os miúdos foram a dormir. O Isaac foi o que dormiu menos e o Nicolau vomitou duas vezes.
O motorista muito mais conversador do que o anterior, talvez por dominar melhor o inglês, também passava a vida a atender o telefone.
Vimos as plantações de chá e umas quedas de água, mas o que queríamos mesmo era chegar ao hotel rapidamente. Estávamos todos um bocado frustrados por não ter conseguido apanhar o comboio.
Chegámos ao Mount Pleasant às 13h30 e pedimos o almoço.
O Mount Pleasant é uma casa estilo inglês, muito bonita e muito confortável. Tinha uma árvore de Natal na sala e um piano. A comida não era nada de outro mundo, mas tínhamos vinho da loja ao lado.
Depois do almoço fomos dar um passeio pelo centro, sem a Bea que quis ficar no hotel, porque tinha internet.
Bandarawela é uma pequena cidade com um centro simpático, cheio de pequenas lojas de tudo e mais alguma coisa, com pessoas solícitas e a fazerem-nos sentir bem vindos.
Éramos os únicos turistas a passear àquela hora. Entrámos numa loja de tecidos e comprei um sari (21 usd). Não tenho a certeza de ter escolhido o certo. Também trouxemos uma camisa para o Nicolau e uma t.shirt para o Isaac do piso de cima. Decidi que voltaria lá no dia seguinte para comprar mais tecidos. Jantámos no hotel, a Bea tocou piano e fomos dormir cedo.''
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