Plantei bolbos de frésias e semeei tomilho. Terminei as duas fantasias, uma de super herói e outra de vilão. Mudei objectos decorativos de sítio e lembrei-me de onde vieram e porquê. Bebi uma garrafa de vinho e deixei o livro em cima do banco que faz de mesinha de cabeceira por abrir.
Acho que já sei o que responder quando me perguntarem "o que faz". Direi: sou reformada.
Romance
13.2.15
Foi há mais de 14 anos. Lembro-me que fui ver o filme ao Nun'Álvares a meio da tarde, que é para mim a melhor altura para se ir ao cinema. Lembro-me de duas cenas do filme - um minete nas escadas e do sonho do bordel, em que Marie tem a parte de baixo do corpo separada da parte de cima por uma cortina, ou um plástico. Curiosamente, não me lembro do parto, não me lembro de ela ter sido mãe, o que torna ainda mais estranho ter escolhido este filme para a minha versão de "pornografia para mamãs".
Imprensa
13.2.15
A Ana Cássia Rebelo está no ípsilon. Acho que o Hugo Pinto dos Santos, que assina o texto, está apaixonado por ela. É compreensível.
Vou comprar o livro, claro, mas suspeito que vou sempre gostar mais da autora do que da obra, ou pelo menos gostar tanto da obra como da autora.
Vou comprar o livro, claro, mas suspeito que vou sempre gostar mais da autora do que da obra, ou pelo menos gostar tanto da obra como da autora.
Eureka
11.2.15
Almoço todos os dias em casa, salvo raras excepções. A maior parte das vezes como restos do jantar, ou então cozinho qualquer coisa rápida, como uma omolete, ou uns legumes salteados com noodles. Mas hoje não foi esse o caso. Hoje, saí na esperança de comer rissoto no café perto de casa só que tive de me contentar com um arroz de legumes e bife de frango crocantes. Estava bom.
Comi, li sobre as melhores sopas na Time Out e levantei-me para guardar a revista no sítio e pagar. O senhor que me tinha atendido perguntou: "já? anda sempre a correr" e sorriu. Retribui o sorriso e compreendi tudo (quer dizer, ainda não cheguei ao sentido da vida, obviamente, mas diz que não é suposto). Ou seja, compreendi que me sobra tempo, porque faço tudo demasiado rápido. Tão simples quanto isso.
Comi, li sobre as melhores sopas na Time Out e levantei-me para guardar a revista no sítio e pagar. O senhor que me tinha atendido perguntou: "já? anda sempre a correr" e sorriu. Retribui o sorriso e compreendi tudo (quer dizer, ainda não cheguei ao sentido da vida, obviamente, mas diz que não é suposto). Ou seja, compreendi que me sobra tempo, porque faço tudo demasiado rápido. Tão simples quanto isso.
Agastada
10.2.15
Estava a ouvir a entrevista da Matilde Campilho no "Fala com ela", da Inês Meneses, e enchi-me de quase ódio, só não cheguei lá, ao ódio, porque estou demasiado agastada para sentimentos desse calibre.
Ali estava a voz dela a sair pelas colunas do rádio como se fosse água cristalina de um ribeiro, tanta frescura, tanta jovialidade, tanta vida e eu ali dentro do carro, no lugar do morto, com dores de costas, rugas de preocupação na testa e três putos sentados no banco de trás, dois deles a gritar que queriam ouvir o Richard Cheese.
Não conheço muito bem a poesia da moça mas aposto que é como ela. Talvez ela seja a poesia em vez de a poeta. Não sei, não faço ideia. Sei que me irrita.
Se não fosse o Richard Cheese muito provavelmente ter-me-ia afogado naquela voz de água.
Perguntas que eu gostava mesmo de saber a resposta
9.2.15
Como se gere o tempo quando de facto se tem tempo?
Acordar
6.2.15
Deixei-me estar na cama deles (foi uma daquelas noites de troca de camas), depois de saírem com o pai, que os vestiu e os levou à escola. É cada vez mais raro não conseguir levantar-me mas ainda acontece.
Antes de abrir os olhos tomo consciência da minha "exuberante calcificação do tendão supra-espinoso com cerca de 14mm" que tem feito a vida negra ao meu ombro e braço direito. Sinto o mau hálito ao engolir saliva cheia de peptococcus e outras bactérias e confirmo que uma das amígdalas, a direita, continua dorida. Viro-me de lado e deixo que a mão direita repouse sobre a barriga macia, sobre a barriga flácida a cair em direcção ao colchão. Todos os ossos do meu corpo pedem que saia da cama mas os músculos não querem obedecer, as ordens que recebem são confusas.
Depois, o Isaac vem dar-me um beijo e, antes de sair, abre as persianas. O sol entra no quarto e a escuridão dá lugar a um nevoeiro cor de laranja. Viro-me de barriga para cima e abro os olhos devagarinho, fico durante algum tempo a ver as minúsculas formas no ar, como se estivesse a ver células num microscópio e decido que tenho de me levantar.
Antes de abrir os olhos tomo consciência da minha "exuberante calcificação do tendão supra-espinoso com cerca de 14mm" que tem feito a vida negra ao meu ombro e braço direito. Sinto o mau hálito ao engolir saliva cheia de peptococcus e outras bactérias e confirmo que uma das amígdalas, a direita, continua dorida. Viro-me de lado e deixo que a mão direita repouse sobre a barriga macia, sobre a barriga flácida a cair em direcção ao colchão. Todos os ossos do meu corpo pedem que saia da cama mas os músculos não querem obedecer, as ordens que recebem são confusas.
Depois, o Isaac vem dar-me um beijo e, antes de sair, abre as persianas. O sol entra no quarto e a escuridão dá lugar a um nevoeiro cor de laranja. Viro-me de barriga para cima e abro os olhos devagarinho, fico durante algum tempo a ver as minúsculas formas no ar, como se estivesse a ver células num microscópio e decido que tenho de me levantar.
Pessoas descompensadas
4.2.15
Foto de Pedro Santos
Eu não conheço bem a C., só almoçamos juntas três vezes, mas gosto dela. Aparenta ser uma pessoa equilibrada e acho que é por isso que estar com ela é muito reconfortante. Não que eu seja desequilibrada, simplesmente não consigo manter um emprego durante muito tempo, nem o próprio negócio durante muito tempo e desisto a meio de quase todos os meus projectos.
E o que é que isso tem a ver com o teatro? Ora, provavelmente nada mas a relação que fiz na minha cabeça foi a de que pessoas como eu, que gostam muito de teatro e que podem ir ao teatro não vão assim tantas vezes ao teatro. Aliás, fazem poucas coisas que realmente gostam e depois azucrinam as pessoas à sua volta, porque são umas injustiçadas, coitadas!
E já que estou numa de autocomiseração decidi contar as vezes que fui ao teatro nos últimos tempos (ah, nunca duvidar da utilidade de um blog):
- Quizoola Lisboa! dos Forced Entertainment
- Noite do Manifesto
- As Criadas, encenação de Luc Bordy
- Durações de Um Minuto de Clara Andermatt e Marco Martins
- O Ginjal ou o Sonho das Cerejas, encenação de Mónica Calle
Pois, basicamente, é vergonhoso! Mesmo que me tenha esquecido de alguma peça, isto dá pouco mais de uma ida ao teatro por ano. Tenho mesmo de equilibrar isto e ir ver, pelo menos, três peças de teatro seguidas, ou então posso esperar por Julho e ver todas as peças do Festival de Almada, onde já fui muito feliz.
Também podia escrever uma peça de teatro (mesmo que seja para desistir passado três páginas), ou ganhar coragem de uma vez por todas e fazer teatro amador. Se calhar até nem corria muito mal, é que diz-se por aí que os actores são pessoas descompensadas.
A realidade
2.2.15
Acabou Janeiro e começou Fevereiro e eu, juro, achei mesmo que não ia retomar o blog. Primeiro, porque acreditei que seria uma pessoa mais livre sem sentir a obrigação de postar. Depois, por acreditar veementemente que não tinha nada de novo, ou interessante, a acrescentar ao mundo.
Acontece que, além de não estar a conseguir escrever "cenas" para sei lá eu o quê, apercebi-me que me sinto muito menos livre a obrigar-me a não escrever do que o contrário e que, apesar de continuar a não ter nada de novo a acrescentar, preciso de um sítio onde possa dizer que faço caretas e danças estúpidas ao espelho só para confirmar que pareço uma giga com braços e pernas.
Eu tentei falar sobre isto num serão familiar, em Gouveia, no fim-de-semana que passou, mas só consegui olhares de espanto, para meu próprio espanto já que tenho uma filha adolescente e tudo. Quer dizer, é normal fazerem-se coisas estúpidas ao espelho, tipo treinar linguados quando temos 12 anos, certo? Até concedo que fazer danças parvas para ver a barriga e os músculos do adeus a tremerem seja uma coisa relativamente estranha mas, pelo menos, aqui posso dizer isto sem ver os esgares de coitada-ela-tem-mesmo-problemas.
That's all folks
5.1.15
Todos os dias, mesmo quando não escrevo no blog, sinto que o Panados e Arroz de Tomate preenche os meus dias. É só um diário de uma mulher neurótica às voltas com os dias que chegam, uns atrás dos outros, que ficou de arranjar uma solução para o filho do meio viver eternamente e encontrar caminhos com rosmaninho e alecrim pelo chão.
É só um diário, dizia, mas sinto que este diário ocupa demasiado espaço na minha vida. Sim, é isso mesmo, é um adeus, até qualquer dia.
Pode ser que daqui a uns tempos volte para contar como foi viver sem contar.
Obrigada por terem estado desse lado.
É só um diário, dizia, mas sinto que este diário ocupa demasiado espaço na minha vida. Sim, é isso mesmo, é um adeus, até qualquer dia.
Pode ser que daqui a uns tempos volte para contar como foi viver sem contar.
Obrigada por terem estado desse lado.
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