Quatro anos e dois filhos depois as coisas começam a parecer menos românticas, menos intensas, menos óbvias, menos superáveis, menos tudo. O normal, com tantas horas de sono roubadas, tantas atenções divididas, tantas frustrações profissionais, tantas merdas, pronto. Mas, já sabemos, é preciso dar a volta, contornar os obstáculos, bla bla bla bla.
Vai daí decidi fazer uma festa, chamar amigos para comer, beber e conversar. Quase que aconteceu, mas não passou disso: intenção.
Depois, se calhar, devíamos era jantar fora, pensei, afinal a última vez que o fizemos, só os dois, foi há 14 meses e 12 dias.
Vai de adormecer os pequenos, encomendar uma pizza para a pequena e deixá-la com os irmãos enquanto enchíamos o bandulho de chamuças e camarão com caju e galinha com babum e caril, num restaurante ao lado de casa. Conseguimos comer relativamente relaxados, com os telemóveis ao lado do prato, mas à sobremesa lá veio o telefonema: "O Nicolau acordou e o Isaac está a chamar pela mamã" (coisa rara, pois chama sempre pelo pai). Regressamos a correr, consolados com a comida, mas nem por isso reconciliados com a vida.
Portanto, parece-me que chegou a altura de tomar medidas drásticas. É uma pena, eu sei, mas é assim a vida, não há como evitá-lo. Vou inscrever-nos nas danças de salão, está decidido.
E se eu já não souber?
15.6.12
E se, afinal, eu já não souber levantar-me, tomar banho, escolher uma roupa (já sei, já sei, tenho de a escolher antes de me deitar), tomar o pequeno-almoço, vesti-los, dar-lhes o pequeno-almoço, preparar almoço para ela levar (já sei, já sei tem de ficar pronto antes), sair de casa e ficar, na melhor das hipóteses, cinco horas a trabalhar no mesmo sítio?
É que nos últimos meses, desde que o Isaac foi para creche, tenho tentado arranjar trabalho para poder ter uma ocupação remunerada em casa, a partir de Setembro, quando o Nicolau for com o irmão. Então, sento-me ao computador a escrever mais um texto num instante enquanto o bebé dorme, porque consigo estender e dobrar roupa com ele acordado, apesar de ter de perder o dobro do tempo, já que depois tenho de apanhar as molas espalhadas, varrer o detergente e a comida dos gatos. Entretanto, posso deixar a sopa ao lume, enquanto vou lá cima fazer um vestido para a Beatriz levar ao baile (não perguntem). Não, afinal não consigo fazer o vestido, ele quer colo. Com ele ao colo o que posso fazer? Espreitar o e-mail. É isso, vou ver se tenho algum e-mail da...pois, não estou à espera de nenhum e-mail. Pronto, vou passar a sopa.
Por um lado, as tais cinco horas, na melhor das hipóteses, parecem-me uma coisa idêntica ao éden, mas, por outro, paralisam-me de terror. E se eu já não souber?
O sentido da vida
13.6.12
Segundo Eric Roth, em O Estranho Caso de Benjamin Buttun (baseado no conto de Scott Fitzgerald): "Há pessoas que nascem para se sentarem à beira de um rio. Outras são atingidas por raios. Algumas têm ouvido para a música. Outras são artistas. Algumas nadam. Outras percebem de botões. Algumas conhecem Shaka. Algumas são mães. E outras...dançam".
Segundo a minha irmã: "Eu preferia que a minha filha se sentasse a ler um livro, mas ela prefere estender a roupa. É assim, cada qual deve ocupar o seu lugar".
Segundo a minha mãe: "É ver se não se enganam e vão parar debaixo do braço, percebes? É que dantes as mulheres tinham muitos cabelos debaixo dos braços e os homens estavam quase sempre bêbados, por isso enganavam-se no sítio".
Segundo a minha irmã: "Eu preferia que a minha filha se sentasse a ler um livro, mas ela prefere estender a roupa. É assim, cada qual deve ocupar o seu lugar".
Segundo a minha mãe: "É ver se não se enganam e vão parar debaixo do braço, percebes? É que dantes as mulheres tinham muitos cabelos debaixo dos braços e os homens estavam quase sempre bêbados, por isso enganavam-se no sítio".
O maior erro
12.6.12
A domesticidade pode ter o seu quê de reconfortante quando saímos da praia às 10h00 de um sábado, paramos no mercadinho para comprar petinga e a seguir na frutaria para trazer tomates, alface e boroa de milho e, depois de cozinhar, os vemos consolados a comer.
Mas, como em tudo na vida, o que é demais é erro e ser doméstica todos os dias é o maior deles todos.
Apatia
12.6.12
Tenho feito um esforço considerável para minimizar o sofrimento causado pelo tédio, mas a facilidade com que me entedio é desgastante. O pior é que logo a seguir (em simultâneo?) ao tédio vem a apatia, que é, creio, a forma mais triste de se estar na vida. Empurrar um carrinho com dois putos, por exemplo, para cima e para baixo, 15 minutos para lá, outros 15 para cá, em modo apático é um espectáculo triste de se ver. Umas vezes disfarço bem, outras sacudo a apatia derivado ao facto do mais velho desatar a correr à minha frente e eu ter de ir atrás dele a fazer rally com o outro, mas regra geral tenho aquele ar de dona de casa (ou das donas de casa do meu imaginário): lábios gretados, testa encurrilhada e tom de voz (ai o tom de voz!) de enxaqueca.
Entretanto, fiquei a saber que "o apático detesta o mundo. Detesta-o de tal maneira que se lhe tornou indiferente. A sua satisfação e a sua insatisfação uniram-se, anularam-se" e a solução consiste "em piorar enormemente o estado do queixoso"*. Como este me parece um remédio perigoso, vou antes continuar a olhar para o fundo dos olhos deles e, talvez, a comer mais qualquer coisa.
Quanto ao tédio é só esperar pela próxima tempestade.
*Luísa Costa Gomes, Olhos Verdes, Colecção Mil Folhas, 2002
Entretanto, fiquei a saber que "o apático detesta o mundo. Detesta-o de tal maneira que se lhe tornou indiferente. A sua satisfação e a sua insatisfação uniram-se, anularam-se" e a solução consiste "em piorar enormemente o estado do queixoso"*. Como este me parece um remédio perigoso, vou antes continuar a olhar para o fundo dos olhos deles e, talvez, a comer mais qualquer coisa.
Quanto ao tédio é só esperar pela próxima tempestade.
*Luísa Costa Gomes, Olhos Verdes, Colecção Mil Folhas, 2002
Incongruências
11.6.12
Há qualquer coisa de incongruente em termos de cuidar dos nossos pais quando os nossos filhos ainda não sabem andar.
O que eu me tinha rido se me tivessem dito isto há uns tempos
6.6.12
- Vais passar a jantar quase todos os dias às 19h30, muito antes de completares 70 anos
e
- Vais escrever textos a ganhar uma ninharia, que não pagam sequer uma migalha de um pão, com a palavra esporte.
De castigo
4.6.12
Fui chamada à atenção por causa das capacidades da mais velha não estarem a ser usadas da melhor forma na escola. Tenho remoído no assunto dias a fio. É óbvio que ela tem de trabalhar, como já tinha dito aqui, está numa escola pública, numa turma com 13 alunos, com aulas individuais de instrumento, tudo pago por nós, os contribuintes. Portanto, se não se aplica, se não demonstrar interesse, dá lugar a outro. Justíssimo.
Mas por outro lado o "não se admite que uma aluna de cinco tire quatros" faz-me comichão. O educar para o sucesso é um bocado contra a minha natureza. É que, shiu, não digam a ninguém, eu só quero que ela seja feliz.
Mas, pronto, faço uso da minha autoridade e tudo fica bem: ela sente-se importante com a atenção redobrada (mesmo que seja para a obrigar a fazer coisas) e eu sinto-me de castigo por ter de usar meios anti-naturais na minha pessoa.
Mas por outro lado o "não se admite que uma aluna de cinco tire quatros" faz-me comichão. O educar para o sucesso é um bocado contra a minha natureza. É que, shiu, não digam a ninguém, eu só quero que ela seja feliz.
Mas, pronto, faço uso da minha autoridade e tudo fica bem: ela sente-se importante com a atenção redobrada (mesmo que seja para a obrigar a fazer coisas) e eu sinto-me de castigo por ter de usar meios anti-naturais na minha pessoa.
2.6.12
Tal como a maior parte das pessoas com mais de 35 anos que têm um blogue, não sou grande fã do facebook, mas tal como essas mesmas pessoas, e todas as outras, não resisto ao facebook.
A rede social mais badalada é assim uma espécie de fornecedora de ilusões e eu adoro viver iludida. Se preferia passar horas no café a conversar com os meus amigos a sério? Preferia. Mas aí dificilmente me tornaria amiga do José Riço Direitinho.
A rede social mais badalada é assim uma espécie de fornecedora de ilusões e eu adoro viver iludida. Se preferia passar horas no café a conversar com os meus amigos a sério? Preferia. Mas aí dificilmente me tornaria amiga do José Riço Direitinho.
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