Mostrar mensagens com a etiqueta escola. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta escola. Mostrar todas as mensagens

Fim de um ciclo

12.6.15





Ontem, fomos ao São Jorge assistir ao último concerto da Bea enquanto aluna da Escola de Música do Conservatório Nacional. Escusado será dizer que chorei baba e ranho, sobretudo na Chamateia, enquanto visualizava mentalmente os últimos seis anos.
É uma escola muito especial e tenho muito pena que ela tenha de a deixar. Ela também, claro, sobretudo por causa dos amigos, mas não chora baba e ranho, nem coisa que se pareça.
Sendo tão pouco sedentária, não percebo porque me custa tanto abandonar os sítios e as pessoas.

P.S E depois, é incrível andar à procura de fotos dela no conservatório e perceber que não tenho. As duas de cima foram tiradas pela escola.

Desconstruir a maternidade*

30.9.14
Primeira reunião na escola nova. É tudo o que se pode esperar de uma escola: boa educadora; espaço simpático, com recreio ao ar livre; refeições confeccionadas na escola; pessoal atento e descontraído; projecto pedagógico centrado na autonomia das crianças e uma participação exemplar dos pais na vida escolar. Esta última parte é que era escusada. É que é tão exemplar que saí de lá a sentir-me uma nódoa.
Só por causa disso amanhã vou a uma manifestação, pronto.
Ainda por cima, de regresso a casa, é só mães com os seus bebés nos slings a cantar no meio da rua, a perguntarem aos meus filhos como se chamam, a conversarem alegremente comigo - "adeus, adeus vamos comprar salada para o jantar" -, a exibirem toda a sua magnificência maternal às mães aliviadas por finalmente poderem deixar os filhos na escola, mas que ainda não perderam aquele ar desgrenhado de quem não aprendeu (nem nunca vai aprender) essa técnica, essa forma de arte, que é o funambulismo.
Não há volta a dar, para uns isto é como tentar o equilíbrio em cima de uma corda, para outros é um simpático passeio à beira mar, onde não falta o sol, nem a brisa amena. Não quer dizer que estes últimos sejam melhores mães e pais. São é mães e pais mais felizes (ui, no que me fui meter, agora terei de falar na parentalidade positiva).
Eu sei que pais mais felizes têm filhos mais felizes, claro, mas e se a minha felicidade depender de esquecer que eles existem durante uns tempos (horas, dias, meses, não sei...), isso é melhor para eles? Provavelmente nem notariam grandes diferenças, uma vez que está tudo na minha cabeça (quantas vezes procuro esquecer que existem quando estou no sofá a ler, enquanto eles pintam a manta e as paredes e os sofás...) e depois, quem sabe, até podia envolver-me mais na vida escolar.

*Falo em maternidade, porque sou mãe, mas podia falar em paternidade. Quando inventarem um nome para as duas coisas que não comece com "P" (parentalidade, pais... ) avisem.

Foco (para agradar a um dos poucos leitores masculinos deste blog)*

28.5.14
Não há, penso eu, quem não se detenha, em determinados momentos, a pensar na vida, nas escolhas que fez, nos caminhos que nos conduziram aqui e ali. Eu devo fazê-lo umas duas, ou três vezes por dia, um exagero, mas essa tendência piora dramaticamente quando procuro escola para os pequenos.
Vamos mudar de bairro e a escola deles fica fora de mão. O ensino público é a nossa primeira escolha, mas como já estão inscritos na zona de residência actual não podemos alterar. Temos de esperar pelos resultados e tentar uma transferência (o 3.º milagre?), só que tratando-se do pré-escolar há pouca esperança.
Portanto, lá fui ver alternativas. E a sensação é sempre a mesma, por muito boas que sejam as instalações, as pessoas que lá trabalham e a comida que sai da cozinha imagino os meus filhos a crescer mais felizes noutro registo. Imagino-os a plantar couves num quintal, a correr nus, a fazer montes de areia iguais aos formigueiros. A pintar e juntar letras também, claro, e a fazer passeios. 
Enfim, se calhar devia era estar preocupada com a nova secretária do Jaime, uma vez que os rapazes até vão para a escola felizes e eu de nova já tenho pouco. 

(Já agora, se alguém tiver informações de infantários na zona dos Anjos é favor dizer)

*Para quem não percebeu mudei o título, o anterior era "Enfoque"

Mal educado

22.9.13
Pela primeira vez na minha vida de mãe vou ter uma reunião com uma educadora para questionar os métodos que usa. É das coisas que mais me custa fazer, porque na minha cabeça os professores e educadores sabem o que fazem, mesmo que às vezes possam cometer erros, como toda a gente. E depois, não há paciência para os pais que têm filhos florzinhas de cheiro que têm de ser tratados assim e assado.
Mas, desta vez, há claramente um desfasamento entre o tipo de educação que o Isaac tem na escola e a que tem em casa. Lavar-lhe a boca com sabão e colar autocolantes vermelhos para que todos saibam que se portou mal pode ser um castigo aceitável para muita gente, para nós é pouco razoável, tendo em conta que a asneira que fez foi dizer "cocó, xixi".
Se me perguntarem qual é o castigo razoável também não sei dizer ao certo (aqui em casa costuma ir sozinho para o quarto), mas eu não tirei um curso de educadora de infância. Para o pai seria preferível ele ficar sem recreio, eu não tenho tanta certeza. Sei é que o rapaz pode ser bastante desafiador (mal educado?) mas pensei que num contexto pré-escolar fosse possível ensiná-los a respeitar regras sem recorrer à humilhação.

As crianças

18.9.13
A Beatriz estava a contar a alguém o primeiro dia na escola primária. "Lembro-me perfeitamente", dizia ela com os olhos postos num sitio do passado e um sorriso rasgado. Eu regressei a esse mesmo sítio e voltei a sentir o mesmo aperto no estômago naquela escola tão grande para a minha menina tão pequena. Senti os olhos a humedecer e percebi que estava a fazer um daqueles sorrisos parvos que as mães e os pais fazem quando não conseguem disfarçar o orgulho nos filhos.
"Lembro-me perfeitamente", dizia ela, "ia a descer a rampa com o meu pai, foi ele que me foi levar à escola".
Ah?!? Pára tudo. Ela acabou de dizer que foi o pai que a levou à escola? Então e eu? Não se lembra de eu ter lá estado? 
"Bea, eu também fui levar-te à escola, fomos os dois, não te lembras?", pergunto com o ar mais normal do mundo, tendo em conta que tinha o peito a arder. "A sério, mamã, também foste? Não me lembro, só me lembro do papá".
Sinceramente não sei que grande conclusão se pode retirar daqui, mas parece-me claro que andamos a perder demasiado tempo com as crianças. Elas acabam por guardar da infância aquilo que lhes interessa. Portanto, é gostar muito delas, alimentá-las, agasalhá-las e levá-las ao médico quando estiverem doentes. O resto é lá com elas. 

Notas

16.7.13
- Como, 3 a matemática?!?!
- Sim, 3, mas a nota não altera a classificação final. Fica 4 na mesma.
- Mas, 3, como é possível?!?!?
- Sei lá, é só uma nota. Não é preciso chorar por causa disso.
- Mas 3...

A pessoa chateada com a nota é a Beatriz. A outra sou eu.
Devo dizer que é extremamente complicado querer que ela seja boa aluna, porque, enfim, acho espectacular ter uma filha muito inteligente, claro, e ao mesmo tempo achar que as notas não são importantes, porque não são.

Perguntas que eu gostava mesmo de saber a resposta

3.4.13
Será normal eu estar nervosa, tipo, com um bocado de medo e tudo, por causa de mais uma reunião de final de período com a directora de turma da Beatriz? (Definitivamente, a miúda tem razão para se sentir pressionada.)

Nunca o Homeschooling me pareceu tão urgente

25.2.13
- Oh mamã, o Salazar, afinal, não foi assim tão mau.
- Ah!?!?!?!? (acho que devo ter feito uma expressão assustadora)
- Calma, eu não estou a dizer que ele foi bom, só disse que se calhar não foi assim tão mau, sobretudo se tivermos em conta que o país tinha saído de uma crise financeira e que, ainda assim, durante o Estado Novo foram construídos hospitais, pontes, barragens e vários edifícios públicos, como bibliotecas.
- Pois foi. É claro que metade da população vivia na miséria e cerca de 70 por cento era analfabeta, mas, sim, com o Salazar não tínhamos dívidas.
- Pois, acho que os cofres estavam cheios de barras de ouro.
- Pois, é uma pena esses detalhes da ditadura e da miséria estragarem a História enquanto ainda estão na memória de tantas pessoas.

Cair e levantar

11.12.12
Ela sentou-se, posicionou a pauta e eu soube que alguma coisa estava mal. Demorou mais tempo de que o costume a começar a tocar. Eu disse mentalmente "tu és capaz" e ela começou. A meio do Minueto enganou-se, parou, recomeçou, parou, silêncio...um silêncio de chumbo, recomeçou, parou...silêncio, silêncio, silêncio... vi o chão desaparecer debaixo dela, vi o horror que sentia. Disse mentalmente "tu és capaz". Não foi. Começou a chorar. Silêncio, silêncio, silêncio...um silêncio de chumbo. Não se levantou. Não sabia o que fazer. Eu disse mentalmente "não faz mal filha, não faz mal filha". O professor levantou-se e foi-lhe dizer para se ir sentar. A audição continuou com os alunos que ainda não tinham tocado.
No fim, os dois professores de órgão disseram-lhe para não ficar triste que uma audição correr mal acontece a todos os músicos e vários pais e colegas dela consolaram-na, mas foi só quando me olhou nos olhos e se aninhou nos meus braços que sossegou. E, pela primeira vez, desde que entrou no Conservatório, eu tive a certeza de que a Beatriz é uma artista.
E se eu a ensinei a levantar-se depois de uma queda, também hei-de ser capaz de fazer o mesmo. Quero que se foda a luz ao fundo do túnel. Vou mas é acender uma lâmpada.

Dia 4

4.10.12
Foi o dia mais estranho. A noite foi relativamente calma, levantei-me só duas vezes, mas foi preciso mudar a fralda ao Nicolau. Está com diarreia, o que não me espanta depois das porcarias que comeu (bom, foram só duas gomas e bolo de chocolate da aniversariante da sala do Isaac). Também pode ser um belo de um vírus qualquer, mas por enquanto não está fazer grande mossa.
Mas, dizia eu, foi um dia estranho. Primeiro, porque me apeteceu ficar com eles todos em casa. Ou melhor, com eles todos na nossa cama. Fazer de conta que o mundo não conta. Cheguei a medir todos os prós e contras. Ainda por cima, assim que fui buscar o Isaac, que acordou às 7h06 (isto é sempre a melhorar), ele disse-me que queria ficar em casa. Por qualquer razão, achei mais seguro jogar pelo seguro e seguir as regras.
Depois, a segunda coisa estranha (agora que penso nisso, a primeira não é nada estranha, passo a vida a querer fazer de conta que o mundo não conta): o Taxi avariou no meio da Av. Álvares Cabral. 
E a terceira, a conta da frutaria: 8.88€.
E foi isso. O resto tudo normal, acho eu, incluindo o bilhete na campainha do prédio: "Beatriz, estou na escolinha  dos meninos, numa reunião, vai lá ter connosco. Beijinhos".
A reunião depois conto, mas não poderíamos considerar homeshcooling outra vez? Eu gosto daquelas pessoas (e para mim isso é o mais importante, pelos menos no pré-escolar), e percebo as regras, mas não seria tão bom, tão bom respeitar a diferença, perceber que cada criança é uma criança? É claro que não queremos criar meninos com o rei na barriga, mas com o rei na cabeça até nem seria mau, seria? (mas para discutir este assunto é ir ao sítio do costume).
Passava das 18h00, quando acabou a primeira parte da tal reunião. Saí da sala e fui procurá-los. Estavam os três na sala verde. Cansados. Abraçaram-me ao mesmo tempo. Caguei na cena e vim para nossa casa. Eu tenho um limite no que diz respeito a seguir as regras, já sabes.
Banhei-os à vez e fiz tortilha para o jantar. 
O Nicolau foi o primeiro a dormir. Já não quer colo para adormecer. Diz adeus aos irmãos com a mãozinha pequenina e atira-se do meu colo para a cama. Adormece logo a seguir.
O Isaac passou o jantar a rodar aquela coisa de tirar a água da alface. E nestas alturas percebemos, claramente, porque é que não temos vida social, porque é que o espelho nos mostra uma pessoa com cabelos brancos e uma barriga proeminente cheia de covinhas.
É tudo muito giro e espectacular, já sabemos, mas estar à mesa com um puto que passa o jantar a rodar a bacia verde, primeiro com as duas folhas de alface que eu permiti, depois com o saca-rolhas, porque estou-me a cagar, deixa-me comer em paz e sossego e acaba o teu prato, é uma cena que pouca gente estaria disposta a assistir.
E pronto, agora dormem os dois. Vou mimar a mais velha para depois nos deitarmos juntas, como ela adora. 
Até já.

P.S continuo a receber propostas de publicidade e já não sei bem como lidar com isso. Podes apanhar um avião para me ajudar?

Apanhar o sol

12.9.12
Estou em aflições. O bebé, hoje, não queria largar o meu colo. Dois dias chegaram-lhe e sobraram para descobrir a coisa, portanto já chega. E eu pensei trazer de volta o bebé para casa mais o irmão, apesar de me parecer que esse está a conseguir lidar com as suas angústias, meu rico menino. Mas como sei que isso seria uma machadada neste desprender progressivo do seio materno-familiar, deixei-os. Abandonei-os, na perspectiva deles. E não, não gastarei estas horas de liberdade doída a lamentar-me. Vou gastá-las em coisas proveitosas, como apanhar (o) sol.

O primeiro dia

10.9.12
No primeiro dia do resto da nossa vida eles ficaram os dois a brincar na mesma sala, muito sorridentes, mas eu saí de lá, ainda assim, com o coração esmagado. Saí e fui caminhar pela cidade, porque para mim, tal como para Quinn*, deambular é uma espécie de ausência de pensamento. Mas pensar, já se sabe, é uma inevitabilidade. E enquanto subia a Santana à Lapa, em direcção a Campo de Ourique, pensei na necessidade de arranjar trabalho, não só para ajudar no rendimento familiar, como para contribuir com os meus impostos para o bem comum. Só que as minhas deambulações levaram-me até à piscina e, portanto, vou mas é fazer hidroginástica. E depois mudar de casa.

*O personagem da primeira história d' A Trilogia de Nova Iorque, de Paul Auster.

De castigo

4.6.12
Fui chamada à atenção por causa das capacidades da mais velha não estarem a ser usadas da melhor forma na escola. Tenho remoído no assunto dias a fio. É óbvio que ela tem de trabalhar, como já tinha dito aqui, está numa escola pública, numa turma com 13 alunos, com aulas individuais de instrumento, tudo pago por nós, os contribuintes. Portanto, se não se aplica, se não demonstrar interesse, dá lugar a outro. Justíssimo.
Mas por outro lado o "não se admite que uma aluna de cinco tire quatros" faz-me comichão. O educar para o sucesso é um bocado contra a minha natureza. É que, shiu, não digam a ninguém, eu só quero que ela seja feliz.
Mas, pronto, faço uso da minha autoridade e tudo fica bem: ela sente-se importante com a atenção redobrada (mesmo que seja para a obrigar a fazer coisas) e eu sinto-me de castigo por ter de usar meios anti-naturais na minha pessoa.

Creche

3.1.12
O Isaac vai para a creche. Poupo-vos a lengalenga do drama da decisão (que se resume ao facto de eu não me sentir capaz de estar todo o dia em casa, sozinha, com os dois pequenos), mas há alguns detalhes que não consigo deixar de partilhar, para vossa imensa alegria, eu sei.
E não vou falar, por enquanto, desta forma que a sociedade encontrou de encaixar os filhos nas nossas atarefadas vidas; ou de como me sinto uma total falhada por não conseguir cumprir com aquilo que me parece básico para qualquer criança, que é estar ao cuidado da mãe, ou do pai, ou dos avós, até aos três anos, e afinal parece que não vos vou poupar aos meus dramas...não, vou, vou poupar-vos, porque há outras coisas mais importantes, digo eu.
Então é assim, tenho a impressão, ainda que intuitiva, porque não falei com muita gente sobre o assunto, que há dois tipos de creches conceituadas em Lisboa: as religiosas e as da "esquerda caviar". Pessoalmente identifico-me mais com as últimas, mas vivo numa zona em que as primeiras são a maioria, se não as únicas, e para mim o factor proximidade é importante. Naturalmente estas creches (e pré-escolares) são IPSS, porque tanto os católicos como os liberais defendem que todos têm os mesmo direitos, mas nisto, como em tudo, há sempre uns com mais direitos do que outros e por isso as creches seleccionam quem lhes convém para manterem o seu estatuto de conceituadas.
Por isso é que, por exemplo, numa creche da Rua do Patrocínio estava uma fila interminável para pré-inscrição dos meninos que vão entrar em Setembro, e uns metros à frente, noutra rua, uma creche com vagas. Com vagas, com boas instalações, com pessoas simpáticas e uma educadora que me inspirou confiança.
E, pronto, vou ali chorar baba e ranho e fazer-lhe uma manta para se cobrir nas sestas (que podem ser feitas comigo ao lado dele nos primeiros dias) e um saco de pano para guardar os lençóis.

Dela

16.12.10
Tenho dado por mim, muitas vezes, entre o perplexa e o preocupada com o facto da rapariga andar para aí como se tudo na vida fosse muito fácil. É a melhor da turma na escola, porque calhou numa turma muito medíocre, com vários alunos repetentes. É das melhores na turma do Conservatório, porque a turma dela foi feita com uma repescagem de alunos que não entraram à primeira por não terem vaga no instrumento que escolheram, no caso dela o violino. Por essas razões, entre outras (designadamente a predisposição genética, digo eu), é uma menina bastante preguiçosa, ao ponto, por exemplo, de preferir fazer fichas de avaliação do que ter aulas, porque lhe dá menos trabalho.

Além disso, é escolhida para ser a porta voz numa assembleia não sei de quê, por ter o "dom da oralidade"; recebe elogios da professora de coro que a mim me fariam dar pulos de contentamento, e no entanto ela reage como se tudo isso fosse muito natural. A única vez que a vi frustrada foi com a piscina por não conseguir nadar como o outros alunos e isso durou duas aulas.

Vem isto tudo a propósito de ela ontem ter tido a primeira audição de órgão. Como é óbvio, praticar foi mais bolos. Todos os dias lhe lembrava que tinha de praticar e ela lá ia dez minutos para o órgão e já está. Não insisti. Faltavam dois dias para a audição e ela diz que acha que não está preparada. Olha que novidade! Convenci-a que só se fica preparado depois de muito trabalho e isso para ela consistiu em tocar umas seis ou sete vezes as peças que ia apresentar, ou melhor, uma das peças, porque a outra não se lembrou que também ia tocar.

Portanto, lá fui assistir à audição convencida que ela ia ter finalmente a experiência de falhar redondamente numa coisa para a qual não tinha trabalhado o suficiente. Era agora que lhe podia provar que sem dedicação e muito trabalho não se consegue nada. É claro que ela estava descontraída e a mim apetecia-me vomitar.
Resultado: a gaja saiu-se bem, ou menos mal, vá. Tocou melhor do que de todas as vezes que ouvi aqui em casa.

No fim o professor quis conversar com todos os pais e basicamente disse que o que eles fizeram foi o mínimo que podiam fazer, que não podem estar ali para ocupar os tempos livres, que o ensino especializado da música é para ser levado a sério, etc. etc. Mas o mais importante, e que vem de encontro aquilo que me deixa perplexa e preocupada, foi ele ter dito que é professor há mais de 20 anos naquela escola e que nunca viu crianças, como as últimas fornadas de alunos que tem recebido, com tão pouca noção do que é o esforço. É como se nascessem sem esse gene.