Uma história japonesa de amor

18.1.26

Quando vi o filme da Sue Brooks fiquei impressionada. Não sei explicar porquê, mas fiquei com aquelas personagens a rondar-me os pensamentos durante muito tempo. Acho que foi a contenção, toda a intensidade que aquela contenção exigia. Havia todo um universo na distância entre os dois personagens, nos silêncios, nos olhares (fui rever o trailer e não se parece nada com o que digo, mas é como me recordo do filme). E os atores, claro. Acho que foi o primeiro filme da Toni Collette que vi e achei-a incrível, tal como o Gotaro Tsunashima. Tenho a impressão que fiquei um bocado apaixonada por ele, ou melhor, pelo personagem dele. Ao ponto de, na altura, ter ficado nervosa a ligar para a embaixada do Japão, em Lisboa, para pedir umas fotografias para o Jornal. 
Eu estava a substituir a secretária da revista Fugas - sim, o meu percurso profissional podia ter sido como o de quase toda a gente que conhecia naquela época (pois, foi no século passado): acabar o curso, estagiar e ficar a trabalhar como jornalista, só que eu tenho Saturno não sei onde e por isso preciso de escalar o Kilimanjaro, em vez de só atravessar a rua, para chegar a algum lado. Como dizia, eu estava na Fugas e precisava de uma fotos para ilustrar uma notícia sobre a Expo 2005, na província de Achi, no Japão, e liguei para a embaixada, porque muito provavelmente fui eu que escrevi esse artigo - eu era um bocado fascinada pelas exposições internacionais, depois de ter visitado a Expo 98 e, sobretudo, a de Hannover em 2000, esta enquanto jornalista da Forum Ambiente, e não tinha outra forma (ou orçamento) para arranjar imagens.
Liguei, então, para a embaixada algo nervosa, como referi, não só por estar a falar ao telefone, que é uma coisa que sempre me deixou desconfortável, como por saber que do outro lado estava alguém como o Hiromitsu, alguém que partilhava a mesma cultura. Eu sei que é parvo, mas que querem? 
E lembrei-me disto porque me cruzei com a palavra komorebi, lá está, não podemos dizer só mal das redes sociais, quando estas permitem que nos cruzemos com palavras. Li o significado de komorebi e pensei que é preciso ser uma língua, nós somos a(s) língua(s) que falamos*, muito especial para ter uma palavra assim.

* E as escolhas que fazemos

5 comentários:

  1. A contenção, os silêncios e a luz que atravessa as árvores. Este seu texto é, ele próprio, um exercício de komorebi. É fascinante como uma palavra japonesa consegue dar nome a um sentimento que todos reconhecemos, mas que poucos sabem descrever.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sim, também pensei o mesmo. É realmente fascinante.

      Eliminar
  2. No dia anterior àquele em que li esta sua publicação tinha visto, pela primeira vez, uma referência à palavra num outro blog que também sigo, " Um jeito manso" . Curiosamente, as duas publicaçôes são do mesmo dia. Não resisti a dar conta da coincidência à autora que, na sequência, veio "visitá-la". Comentou, a propósito, " les beaux esprit se racontrent". Fiquei contente.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A sério? Adoro coincidências, vou procurar esse blog. Obrigada pela partilha.

      Eliminar
  3. Olá Calita. Hoje sou eu que estou de visita ao seu espaço. Gosto bastante da forma como escreve. Estou farta de andar a cuscar e, à medida que vou acompanhando o seu percurso de vida, mais vou simpatizando consigo.
    Também comecei com o meu blog em 2010. Muitos anos de blogosfera. Mas não sou aventureira como a Calita pelo que não tenho a experiência de deixar vidas para trás ou de recomeçar em lugares distantes das raízes. E sou mais velha, já vou nos netos (2 filhos, 5 netos), e já estou reformada há quase 3 anos. Portanto, já me posso permitir uma vida longe das preocupações de quem ainda está na fase das responsabilidades...
    Também andei a cuscar o seu instagram pelo que também já a conheço 'em pessoa'. Eu rendi-me recentemente às redes sociais (@veramulanver) mas ainda me mantenho a modos que na clandestinidade. Quando comecei com o blog ainda trabalhava, claro, e não queria que me conotassem com o meu local de trabalho nem queria que no meu local de trabalho houvesse alguma contaminação relativamente ao que escrevia. Por isso, o blog nasceu anónimo. Agora já não o é tanto mas ainda evito publicar imagens minhas. Opções...
    E é isto. Acrescentei o seu blog à lista de blogs que estou a seguir e creio que comecei também a segui-la no Instagram.
    Um bom fim de semana, Calita.

    ResponderEliminar