Pedras e abacates

14.1.26


Hoje sonhei que estava ao telefone com uma amiga, a Inês, a falar sobre a minha tia. Estava a descer o escadório e a falar ao telemóvel, coisas que raramente faço. Subo aquelas escadas com alguma frequência, mas nunca, ou raramente, as desço e não me lembro quando foi a última vez que peguei no telemóvel para ligar a alguém, quanto mais para desabafar sobre um assunto que me anda a perturbar. Também é cada vez mais raro lembrar-me dos sonhos, por isso achei que devia ficar registado.
Eu estava já nos últimos lanços das escadas, a ver o mar ao longe, com o pinheiro manso em primeiro plano, a falar com a Inês, que estava sentada à secretária, na redação, rodeada de papéis e com ar bastante preocupado, não por causa do que lhe estava a dizer (adoro esta omnisciência nos sonhos), sobre sentir-me muito mal por não poder fazer nada pela tia, que teve um AVC e foi para um lar. O meu tio, o marido dela, que tem uma forma rara de Parkinson, também está, estão juntos, mas eu só falava na minha tia. Estava bastante emocionada, chorei ao telefone (eu que não falo ao telefone, quanto mais chorar) e a Inês parou uns momentos o que estava a fazer. Entretanto, já era noite e vi que estava a subir uma procissão de velas, eram imensas pessoas com velas acesas e achei tão bonito que interrompi o que estava a dizer para exclamar: ''Oh, é uma procissão de velas, Inês!''
Comecei a descer a rua e fiquei com medo de não conseguir passar pelo meio das pessoas para chegar a casa, acelerei o passo e vi que no meio da rua estava uma espécie de brasão desenhado com pedras de diferentes tamanhos, mais ou menos como se costuma ver nos tapetes de flores, mas aqui eram pedras. Estranhamente a procissão parou mesmo antes da entrada da minha casa, por isso eu pude chegar sem grandes complicações. Só que, assim que me vi em frente à casa, a procissão eclipsou-se. Ou passou muito rápido sem eu dar conta, porque estavam algumas pessoas à minha volta, os que ficam sempre para trás, talvez. Eu estava a olhar para as paredes escavacadas da casa, aparentemente as pedras usadas para o tal brasão, ou lá o que era, saíram da minha casa, mas não me parecia mal. Parecia o início de qualquer coisa. 
Lembrei-me do sonho quando estava a fazer a minha habitual caminhada das folgas e assim que cheguei a casa pus-me a olhar para as paredes (de outra cor que não brancas, como no sonho), mas o que me prendeu a atenção foi o abacateiro, plantado pela minha mãe sete anos antes de a minha avó morrer, portanto há 10 anos, e que ainda não deu um único abacate. É verdade que está plantado num sítio inusitado, mas está bastante frondoso e já foi podado. Talvez não veja razão para o fazer uma vez que a minha avó, para quem o abacateiro foi plantado, já não está aqui para comer abacates. Como se as árvores decidissem se querem dar frutos, ou não, como se não seguissem o curso natural da vida. 
 

Sem comentários:

Enviar um comentário