A medida certa

31.1.26
Tenho saudades de voar. Só voei nos sonhos, por isso devia dizer que tenho saudades de sonhar que voo (a primeira pessoa do singular do verbo voar resulta numa palavra estranha, o vê e os dois ós assim juntos parecem exatamente o contrário daquilo que querem dizer). Não sei como costumam voar nos sonhos, eu começo sempre por correr e depois vou dando uns saltos, cada vez mais altos, até ficar a pairar no ar como o super-homem, ou a mulher maravilha. Que sensação maravilhosa! Não há outra que se lhe compare nas coisas que fazemos acordados, ou nas coisas que eu faço, porque há pessoas que, certamente, têm sensações incríveis a saltar de paraquedas, a escalar montanhas e outras atividades do género. Eu não, eu sou comedida. Não preciso dessa adrenalina, mas preciso de outras coisas, claro, todos temos os nossos corrimões, o meu é o vinho, porque, e lá vou eu citar mais uma vez  Manuel Vilas, ''o álcool ajuda à criação da vida como espaço político. Nos seres humanos, o álcool até cria a ideia de que a vida é uma força sem limites, e de que a vida tem sentido''. 
É estranho estar a demorar tanto tempo para acabar o ''E, de repente, a alegria'', o que quer dizer que não estou propriamente presa à leitura, e ao mesmo tempo ficar com tantas ideias agarradas a mim*. Uma delas é a de que nós frequentamos as pessoas. O escritor fala disso a propósito de amigos que teve em tempos, com quem passou momentos maravilhosos, e que do nada deixaram de se falar, de se encontrar. ''Foram-se essas amizades ou, melhor dizendo, morreram. A língua espanhola tinha e tem um verbo para tudo isso. É o verbo «frequentar.» Pode-se dizer de alguém: «frequentei-o nesses tempo». Indica-se com isso que houve uma relação, e esconde-se a natureza dessa relação, suspende-se o conteúdos dessa natureza dentro de uma ambiguidade amável. Porque os seres humanos passam por este mundo criando muitas relações que ninguém sabe em que se fundam. Umas vezes foram amizade, outras coincidências familiares, simpatias, interesses comuns, outras não se sabe o quê.''
A outra é a de que aquilo que nos destrói é também o que nos eleva, como o álcool.''(...)a minha vida no álcool, isso é que foi um inferno. Nossa Senhora, aqueles meses, aquela destruição, mas também aquela euforia, pois, agora que penso melhor, houve em todos os momentos da minha vida alguma forma de alegria. Quão incompreensível é a alegria, que às vezes também põe a máscara do desespero''.
Se eu pensar melhor, estas duas ideias fazem parte de mim há muito tempo. Quem me conhece bem, sabe que estou constantemente a questionar a amizade, o que significa, quem são os meus amigos, que papel ocupam na minha vida. 
E o vinho. Não digo álcool, porque quase só bebo vinho e muito ocasionalmente cerveja. Questiono-me muitas vezes sobre vinho, porque sei que bebo demais - e agora, pelos vistos, um copo por dia, é demais, e gosto de me debruçar sobre as razões que me levam a fazê-lo. Quase sempre é precisamente para deixar de pensar, uma vez que é extremamente cansativo viver com os loopings de pensamentos que vivem na minha cabeça, mas estou a aprender a encarreirá-los e a encontrar a medida certa do álcool. E, não, não estou a falar dos 0,05% de Finn Skårderud. E, sim, gostei muito do filme.

*Além das ideias, são as coincidências deste livro, como a de Manuel Vilas ter estado na Póvoa de Varzim, no Correntes D'escrita, em 2019, e escrever sobre isso. E sobre o mar da cidade. Tão bem que ele descreve este mar que procuro todos os dias! 


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