É estranho estar a demorar tanto tempo para acabar o ''E, de repente, a alegria'', o que quer dizer que não estou propriamente presa à leitura, e ao mesmo tempo ficar com tantas ideias agarradas a mim*. Uma delas é a de que nós frequentamos as pessoas. O escritor fala disso a propósito de amigos que teve em tempos, com quem passou momentos maravilhosos, e que do nada deixaram de se falar, de se encontrar. ''Foram-se essas amizades ou, melhor dizendo, morreram. A língua espanhola tinha e tem um verbo para tudo isso. É o verbo «frequentar.» Pode-se dizer de alguém: «frequentei-o nesses tempo». Indica-se com isso que houve uma relação, e esconde-se a natureza dessa relação, suspende-se o conteúdos dessa natureza dentro de uma ambiguidade amável. Porque os seres humanos passam por este mundo criando muitas relações que ninguém sabe em que se fundam. Umas vezes foram amizade, outras coincidências familiares, simpatias, interesses comuns, outras não se sabe o quê.''
A outra é a de que aquilo que nos destrói é também o que nos eleva, como o álcool.''(...)a minha vida no álcool, isso é que foi um inferno. Nossa Senhora, aqueles meses, aquela destruição, mas também aquela euforia, pois, agora que penso melhor, houve em todos os momentos da minha vida alguma forma de alegria. Quão incompreensível é a alegria, que às vezes também põe a máscara do desespero''.
Se eu pensar melhor, estas duas ideias fazem parte de mim há muito tempo. Quem me conhece bem, sabe que estou constantemente a questionar a amizade, o que significa, quem são os meus amigos, que papel ocupam na minha vida.
E o vinho. Não digo álcool, porque quase só bebo vinho e muito ocasionalmente cerveja. Questiono-me muitas vezes sobre vinho, porque sei que bebo demais - e agora, pelos vistos, um copo por dia, é demais, e gosto de me debruçar sobre as razões que me levam a fazê-lo. Quase sempre é precisamente para deixar de pensar, uma vez que é extremamente cansativo viver com os loopings de pensamentos que vivem na minha cabeça, mas estou a aprender a encarreirá-los e a encontrar a medida certa do álcool. E, não, não estou a falar dos 0,05% de Finn Skårderud. E, sim, gostei muito do filme.
*Além das ideias, são as coincidências deste livro, como a de Manuel Vilas ter estado na Póvoa de Varzim, no Correntes D'escrita, em 2019, e escrever sobre isso. E sobre o mar da cidade. Tão bem que ele descreve este mar que procuro todos os dias!
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