Trabalhadores #3

12.2.26

Chamo-me Leandro Pereira e tenho 45 anos. Prefiro usar os meus dois sobrenomes quando fizer alguma coisa especial, como escrever um livro, por exemplo. O meu primeiro trabalho foi como professor de inglês, isso quando eu tinha 17 anos, em São Paulo. Depois troquei esse trabalho para ser agente de vendas da Varig, que era a TAP brasileira, e fiquei lá uns três anos. Em 2002, quando a empresa começou a despedir funcionários em massa, eu fui um dos que saiu e fiquei desempregado algum tempo. Um ano depois, mais ou menos, eu consegui um trabalho como estagiário na biblioteca da ECA (Escola de Comunicações e Artes) da Universidade de São Paulo, que é basicamente onde se formam muitos dos atores e atrizes conhecidos no Brasil, pelo menos na área do Teatro. Fiquei lá uns quatro anos e em 2007 fui trabalhar como almoxarife numa microempresa que tinha duas sócias e três funcionários, eu era um deles. Era uma empresa que vendia bijuteria e a minha função era registar toda a matéria prima que entrava e tudo o que saía. Basicamente só trabalhava com números. Este trabalho durou um ano e daqui fui pela primeira vez para Portugal, em 2008. Fiz um curso de nadador salvador e trabalhei um Verão na Costa da Caparica, foi no ano em que a Lehman Brothers faliu. Depois voltei para São Paulo, mas em 2009, depois de ter sido incentivado pelas pessoas que tinha conhecido em Portugal, decidi ir tirar o curso de Línguas, Literaturas e Culturas na Universidade Nova de Lisboa. Ingressei no curso em setembro de 2009 e em Março de 2010 comecei a trabalhar como recepcionista de um hostel e fiquei lá meio que intermitentemente até 2018. O salário não dava para pagar as minhas contas, por isso tinha a ajuda da minha família e em 2015 comecei a fazer revisão de texto, um trabalho que mantenho até hoje, para empresas brasileiras.

Em 2023 mudei-me para Frankfurt e comecei a trabalhar como bartender, que passou a ser o trabalho principal, porque com a Inteligência Artificial o trabalho de revisão de texto já não é igual. Eu vim parar a Frankfurt por causa de um mestrado, mas acabei abandonando o curso, porque eu não conseguia pagar as minhas contas. Estudar foi o que me levou a mudar de país, mas depois nunca termino os estudos, porque o trabalho acaba por ser a questão fundamental, porque é preciso dinheiro pagar contas, não é?

Eu não costumo votar nas eleições, apesar de poder votar nos três países, com algumas exceções. Por exemplo, não posso votar na eleição principal alemã, mas posso votar nas locais, sendo residente. No Brasil é o contrário, sendo brasileiro morando fora, eu só posso votar nas presidenciais. Em Portugal já não sei bem, como tenho dupla nacionalidade eu acho que posso votar nas legislativas e presidenciais. No entanto, eu não voto em nenhum país. Eu já votei estando fora do Brasil quando me sentia próximo o suficiente para saber o que está acontecendo, mas muitas vezes por força das questões práticas do dia a dia eu me sinto desconectado do que está acontecendo e prefiro não votar, porque eu sinto-me muito responsável pelo meu voto. Se pudesse votar somente em um país, votaria no Brasil. 

Fora do Brasil, o país onde estive mais tempo foi em Portugal, mas eu prefiro viver aqui em Frankfurt, porque aqui eu tenho condições financeiras que nunca teria em Portugal. Se eu tiver de fazer uma média de quanto ganhei por mês no último ano, eu diria entre 1200 e 1300 euros, e pago de renda 500 euros. Renda fria, sem as outras despesas. De renda quente, com luz, água, gás e internet vai para cerca de 900€. A diferença entre estar aqui, ou em Portugal é que o meu salário é para uma média de 23 horas por semana. Se eu trabalhar as 40 horas que se trabalham em Portugal, ganho o dobro. Além disso, acho que arranjar emprego em Portugal é mais difícil e mesmo quando não é mais difícil é mal pago. Eu não conseguiria viver no Porto com as condições com que vivo aqui.

As pessoas escolhem governos que não estão preocupados com o bem estar dos que mais precisam, porque historicamente as pessoas mais pobres têm uma tendência a se projetarem na possibilidade de em algum dia serem da classe média alta e muito do conservadorismo que se enraíza na classe média baixa é por causa dessa projeção. 

Um conselho? Eu diria que ninguém nasceu para trabalhar. Ninguém é obrigado a dar suor e sangue para fazer dinheiro, mas sendo essa uma obrigação de praticamente cem por cento das pessoas, eu acho que é um ato de civilidade dar o nosso melhor, porque não é uma questão de orgulho, de provar nada para ninguém, é simplesmente tentar tirar um pouco de peso das outras pessoas, porque estamos todos no mesmo processo. Eu posso achar que não vou gastar a minha energia a dar lucro para o dono da empresa, mas o dono da empresa tem não sei quantos funcionários e se eu não fizer o meu trabalho eu estou a prejudicar as outras pessoas. É uma questão de empatia. De civilidade.

A medida certa

31.1.26
Tenho saudades de voar. Só voei nos sonhos, por isso devia dizer que tenho saudades de sonhar que voo (a primeira pessoa do singular do verbo voar resulta numa palavra estranha, o vê e os dois ós assim juntos parecem exatamente o contrário daquilo que querem dizer). Não sei como costumam voar nos sonhos, eu começo sempre por correr e depois vou dando uns saltos, cada vez mais altos, até ficar a pairar no ar como o super-homem, ou a mulher maravilha. Que sensação maravilhosa! Não há outra que se lhe compare nas coisas que fazemos acordados, ou nas coisas que eu faço, porque há pessoas que, certamente, têm sensações incríveis a saltar de paraquedas, a escalar montanhas e outras atividades do género. Eu não, eu sou comedida. Não preciso dessa adrenalina, mas preciso de outras coisas, claro, todos temos os nossos corrimões, o meu é o vinho, porque, e lá vou eu citar mais uma vez  Manuel Vilas, ''o álcool ajuda à criação da vida como espaço político. Nos seres humanos, o álcool até cria a ideia de que a vida é uma força sem limites, e de que a vida tem sentido''. 
É estranho estar a demorar tanto tempo para acabar o ''E, de repente, a alegria'', o que quer dizer que não estou propriamente presa à leitura, e ao mesmo tempo ficar com tantas ideias agarradas a mim*. Uma delas é a de que nós frequentamos as pessoas. O escritor fala disso a propósito de amigos que teve em tempos, com quem passou momentos maravilhosos, e que do nada deixaram de se falar, de se encontrar. ''Foram-se essas amizades ou, melhor dizendo, morreram. A língua espanhola tinha e tem um verbo para tudo isso. É o verbo «frequentar.» Pode-se dizer de alguém: «frequentei-o nesse tempo». Indica-se com isso que houve uma relação, e esconde-se a natureza dessa relação, suspende-se o conteúdo dessa natureza dentro de uma ambiguidade amável. Porque os seres humanos passam por este mundo criando muitas relações que ninguém sabe em que se fundam. Umas vezes foram amizade, outras coincidências familiares, simpatias, interesses comuns, outras não se sabe o quê.''
A outra é a de que aquilo que nos destrói é também o que nos eleva, como o álcool. "(...)a minha vida no álcool, isso é que foi um inferno. Nossa Senhora, aqueles meses, aquela destruição, mas também aquela euforia, pois, agora que penso melhor, houve em todos os momentos da minha vida alguma forma de alegria. Quão incompreensível é a alegria, que às vezes também põe a máscara do desespero''.
Se eu pensar melhor, estas duas ideias fazem parte de mim há muito tempo. Quem me conhece bem sabe que estou constantemente a questionar a amizade, o que significa, quem são os meus amigos, que papel ocupam na minha vida. 
E o vinho. Não digo álcool, porque quase só bebo vinho e muito ocasionalmente cerveja. Questiono-me muitas vezes sobre vinho, porque sei que bebo demais - e agora, pelos vistos, um copo por dia, é demais, e gosto de me debruçar sobre as razões que me levam a fazê-lo. Quase sempre é precisamente para deixar de pensar, uma vez que é extremamente cansativo viver com os loopings de pensamentos que circulam na minha cabeça, mas estou a aprender a encarreirá-los e a encontrar a medida certa do álcool. E, não, não estou a falar dos 0,05% de Finn Skårderud. E, sim, gostei muito do filme.

*Além das ideias, são as coincidências deste livro, como a de Manuel Vilas ter estado na Póvoa de Varzim, no Correntes D'escrita, em 2019, e escrever sobre isso. E sobre o mar da cidade. Tão bem que ele descreve este mar que procuro todos os dias! 


Uma história japonesa de amor

18.1.26

Quando vi o filme da Sue Brooks fiquei impressionada. Não sei explicar porquê, mas fiquei com aquelas personagens a rondar-me os pensamentos durante muito tempo. Acho que foi a contenção, toda a intensidade que aquela contenção exigia. Havia todo um universo na distância entre os dois personagens, nos silêncios, nos olhares (fui rever o trailer e não se parece nada com o que digo, mas é como me recordo do filme). E os atores, claro. Acho que foi o primeiro filme da Toni Collette que vi e achei-a incrível, tal como o Gotaro Tsunashima. Tenho a impressão que fiquei um bocado apaixonada por ele, ou melhor, pelo personagem dele. Ao ponto de, na altura, ter ficado nervosa a ligar para a embaixada do Japão, em Lisboa, para pedir umas fotografias para o Jornal. 
Eu estava a substituir a secretária da revista Fugas - sim, o meu percurso profissional podia ter sido como o de quase toda a gente que conhecia naquela época (pois, foi no século passado): acabar o curso, estagiar e ficar a trabalhar como jornalista, só que eu tenho Saturno não sei onde e por isso preciso de escalar o Kilimanjaro, em vez de só atravessar a rua, para chegar a algum lado. Como dizia, eu estava na Fugas e precisava de uma fotos para ilustrar uma notícia sobre a Expo 2005, na província de Achi, no Japão, e liguei para a embaixada, porque muito provavelmente fui eu que escrevi esse artigo - eu era um bocado fascinada pelas exposições internacionais, depois de ter visitado a Expo 98 e, sobretudo, a de Hannover em 2000, esta enquanto jornalista da Forum Ambiente, e não tinha outra forma (ou orçamento) para arranjar imagens.
Liguei, então, para a embaixada algo nervosa, como referi, não só por estar a falar ao telefone, que é uma coisa que sempre me deixou desconfortável, como por saber que do outro lado estava alguém como o Hiromitsu, alguém que partilhava a mesma cultura. Eu sei que é parvo, mas que querem? 
E lembrei-me disto porque me cruzei com a palavra komorebi, lá está, não podemos dizer só mal das redes sociais, quando estas permitem que nos cruzemos com palavras. Li o significado de komorebi e pensei que é preciso ser uma língua, nós somos a(s) língua(s) que falamos*, muito especial para ter uma palavra assim.

* E as escolhas que fazemos

Pedras e abacates

14.1.26


Hoje sonhei que estava ao telefone com uma amiga, a Inês, a falar sobre a minha tia. Estava a descer o escadório e a falar ao telemóvel, coisas que raramente faço. Subo aquelas escadas com alguma frequência, mas nunca, ou raramente, as desço e não me lembro quando foi a última vez que peguei no telemóvel para ligar a alguém, quanto mais para desabafar sobre um assunto que me anda a perturbar. Também é cada vez mais raro lembrar-me dos sonhos, por isso achei que devia ficar registado.
Eu estava já nos últimos lanços das escadas, a ver o mar ao longe, com o pinheiro manso em primeiro plano, a falar com a Inês, que estava sentada à secretária, na redação, rodeada de papéis e com ar bastante preocupado, não por causa do que lhe estava a dizer (adoro esta omnisciência nos sonhos), sobre sentir-me muito mal por não poder fazer nada pela minha tia, que teve um AVC e foi para um lar. O meu tio, o marido dela, que tem uma forma rara de Parkinson, também está, estão juntos, mas eu só falava na minha tia. Estava bastante emocionada, chorei ao telefone (eu que não falo ao telefone, quanto mais chorar) e a Inês parou uns momentos o que estava a fazer. Entretanto, já era noite e vi que estava a subir uma procissão de velas, eram imensas pessoas com velas acesas e achei tão bonito que interrompi o que estava a dizer para exclamar: ''Oh, é uma procissão de velas, Inês!''
Comecei a descer a rua e fiquei com medo de não conseguir passar pelo meio das pessoas para chegar a casa, acelerei o passo e vi que no meio da estrada estava uma espécie de brasão desenhado com pedras de diferentes tamanhos, mais ou menos como se costuma ver nos tapetes de flores, mas aqui eram pedras. Estranhamente a procissão parou mesmo antes da entrada da minha casa, por isso eu pude chegar sem grandes complicações. Só que, assim que me vi em frente à casa, a procissão eclipsou-se. Ou passou muito rápido sem eu dar conta, porque estavam algumas pessoas à minha volta, os que ficam sempre para trás, talvez. Eu estava a olhar para as paredes escavacadas da casa, aparentemente as pedras usadas para o tal brasão, ou lá o que era, saíram da minha casa, mas não me parecia mal. Parecia o início de qualquer coisa. 
Lembrei-me do sonho quando estava a fazer a minha habitual caminhada das folgas e assim que cheguei a casa pus-me a olhar para as paredes (de outra cor que não brancas, como no sonho), mas o que me prendeu a atenção foi o abacateiro, plantado pela minha mãe sete anos antes de a minha avó morrer, portanto há 10 anos, e que ainda não deu um único abacate. É verdade que está plantado num sítio inusitado, mas está bastante frondoso e já foi podado. Talvez não veja razão para o fazer uma vez que a minha avó, para quem o abacateiro foi plantado, já não está aqui para comer abacates. Como se as árvores decidissem se querem dar frutos, ou não, como se não seguissem o curso natural da vida. 
 

Sem assunto

8.1.26
Fotografia de uma pós-festa partilhada numa das últimas festas

Há muito tempo não me acontecia achar que tenho de escrever sem ter um assunto sobre o qual falar. Deve ser o efeito Ano Novo misturado com ressaca do pós-festas (e foram muitas, além do Natal, Passagem d'Ano e duas festas de aniversário, festejámos os Reis),  mais o regresso às rotinas dos horários escolares. Seja o que for aqui estou sem saber o que dizer, mesmo com tanto a acontecer no mundo. Na verdade, o mundo não me interessa, estou demasiado enterrada na trincheira do metro-bulot-dodot para me interessar pelo que quer que seja. 
Há coisas que me fazem levantar os olhos, claro, os meus filhos, obviamente, que agora não dão autorização para publicar as minhas fotos favoritas onde eles aparecem; entrevistas a pessoas fora do comum, que também parece que passaram pelo mundo sem se interessarem muito pelo que as rodeava; as respostas de André Pestana durante a entrevista aos 11 candidatos presidênciais - eu já fui assim, uma defensora apaixonada daquilo em que acredito, mas parece que, hoje, as muitas que fui estão mais distantes do que habitualmente; os textos da Sónia, que por mais de uma vez me fizeram querer pagar-lhe um café, mas deu sempre erro, deve ser o Universo a lembrar-me que sou pobre; preparar um almoço especial¹ para a minha família, a que eu criei, e vestir um vestido em vez das habituais calças de fato-de-treino, mesmo que seja um vestido que já foi confundido com um robe; A playlist "What's your name" que o Rei, ou melhor, o Imperador² das playlists do Spotify está a fazer com a colaboração da família e que consiste em escolher uma música com o nome de uma pessoa por ordem alfabética, por exemplo, neste momento estamos na letra J e a música mais votada até agora foi a James Bond, do Iggy Pop (eu votei no Bowie, apesar de ter ficado na dúvida em relação à "Jesus was a social drinker"); O último espectáculo do Ricky Gervais, "Mortality", apesar de não ser tão bom como o anterior.
Bem, agora reparo que não ando assim tão apática e entrincheirada como me parecia. É para isso, sobretudo, que servem os blogs, para nos vermos, mais do que para nos mostrarmos.


¹ Quinoa com batata doce e avelãs caramelizadas, massa com pesto de pistacios, cheesecake basco e pudim
² Também conhecido como Jaime, ou pai