Jardim do Morro

25.2.21

Diálogo hipotético entre mim e a minha mãe ao 42.º dia de confinamento: 

Mãe - Não, nunca penses nisso, eu não tenho essa vontade comigo. Eu não sou capaz de me matar.

Filha - Mas já pensaste nisso.

Mãe - Não, isso que estás a pensar não foi bem assim. Nós saímos de casa para ir à missa da Misericórdia.

Filha -  E foi só na camioneta que decidiste comprar um bilhete sem destino?

Mãe - Não sei, acho que sim. A minha ideia era ir ter com a Celeste e mostrar-lhe os meus três filhos para ela ver o que estava a destruir.

Filha - Ela também tinha dois filhos, devia saber.

Mãe - Sim, mas era uma miúda. Tinha sido mãe com 16 anos. Eu estava consumida pelos ciúmes, que queres? Mas nunca pensei matar-me. Só quando estávamos a atravessar a ponte D. Luís é que me ocorreu que podia atirar-me com vocês. Mas fazia como? atirava um de cada vez e depois eu?

Filha- Mas, já que estávamos no Porto, não fomos à casa da Celeste, porquê?

Mãe - Porque antes de ir apanhar o Taxi para casa dela, vocês viram um parque logo a seguir à ponte (jardim do Morro) e eu não consegui tirar-vos de lá. Estavam tão felizes! adormeci no banco e só acordei quando me vieram dizer que tinham fome.

Filha - Tínhamos quantos anos? 

Mãe - Ora bem, o teu irmão mais novo ainda não tinha nascido, por isso devias ter 9, a tua irmã 8 e o teu irmão ia fazer 6. Mas eles dizem que se lembram desse dia como um passeio muito feliz!

Filha - Sim, eu também. Achei estranho mas gostei muito desse dia. 

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