Infelizmente mudar de emprego não é mudar de vida. É ter de continuar a trabalhar 40 horas por semana para ganhar pouco mais do que o salário mínimo.
Também comprei um computador novo, que é usado, e estava a apostar tudo na facilidade de o ligar e poder começar a escrever, ao contrário do que acontecia com o antigo, que demorava horas a estar pronto. É claro que podemos sempre escrever, havendo lápis e papel e, depois, temos os pequenos computadores de bolso para publicar na net, mas às vezes farto-me de estar sempre a ultrapassar obstáculos, não posso só correr sem ter de saltar as barreiras? Ainda por cima, o computador veio de Espanha com um teclado ininteligível. Eu nem sabia que isso podia acontecer, usamos os mesmos caracteres e números, certo?
Além disso, andava a ver umas séries¹ que até me interessaram, não eram só daquelas que serviam para ficar a olhar para alguma coisa enquanto acabava a garrafa de vinho, ou se calhar até eram, sei lá eu.
Ou seja, mudei de emprego, de computador e entreguei-me à HBO, porque a Netflix está a ser usada pelo Isaac que anda obcecado com o House, e fugi de pensar, que é diferente de pensar melhor, em princípio.
Entretanto, foram acontecendo outras coisas que, mais uma vez, poderiam levar-me a escrever, como as deambulações pela cidade com um amigo que veio visitar-nos, as acampadas, as eleições no Brasil - e na Sérvia e em Israel - o concerto dos Rádio Macau, o filme Memórias do Cárcere, a peça de teatro Festa. E em todas essas ocasiões eu sabia o que queria dizer, se tivesse ligado o computador novo, ou pegado numa esferográfica, mas não o fiz, até ter ido ao teatro e ter lido a seguinte frase na folha de sala: ''A Igreja diz: o corpo é uma culpa. A Ciência diz: o corpo é uma máquina. A publicidade diz: o corpo é um negócio. E o corpo diz: eu sou uma festa.''²
Pois, é isso que somos, não é? Um corpo. É estranho pensar em nós nesses termos. Nós não somos só este corpo que arrastamos/cuidamos/usamos, porque nós pensamos, nós temos um corpo, não somos um corpo, certo? Mas, e se formos um corpo que diz ''eu sou uma festa''? Um corpo que caminha pela cidade e observa-a, um corpo que leva bastonadas para defender um ideal, um corpo que junta a voz a outras vozes para cantar, para gritar, reivindicar, um corpo encarcerado numa cela para privilegiados, por cima de corpos que não contam para nada, um corpo que representa um papel, um corpo que sente antes de tudo, antes da linguagem e do pensamento?
Ou seja, mudei de emprego, de computador, entreguei-me à HBO e acabei de perceber aquela parte da bíblia - "Este é o meu corpo..."
¹ High Maintenace; Love LA; The Outlaws; Youth
² Patrick Pessoa, a citar Eduardo Galeano
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