Uma história japonesa de amor

18.1.26

Quando vi o filme da Sue Brooks fiquei impressionada. Não sei explicar porquê, mas fiquei com aquelas personagens a rondar-me os pensamentos durante muito tempo. Acho que foi a contenção, toda a intensidade que aquela contenção exigia. Havia todo um universo na distância entre os dois personagens, nos silêncios, nos olhares (fui rever o trailer e não se parece nada com o que digo, mas é como me recordo do filme). E os atores, claro. Acho que foi o primeiro filme da Toni Collette que vi e achei-a incrível, tal como o Gotaro Tsunashima. Tenho a impressão que fiquei um bocado apaixonada por ele, ou melhor, pelo personagem dele. Ao ponto de, na altura, ter ficado nervosa a ligar para a embaixada do Japão, em Lisboa, para pedir umas fotografias para o Jornal. 
Eu estava a substituir a secretária da revista Fugas - sim, o meu percurso profissional podia ter sido como o de quase toda a gente que conhecia naquela época (pois, foi no século passado): acabar o curso, estagiar e ficar a trabalhar como jornalista, só que eu tenho Saturno não sei onde e por isso preciso de escalar o Kilimanjaro, em vez de só atravessar a rua, para chegar a algum lado. Como dizia, eu estava na Fugas e precisava de uma fotos para ilustrar uma notícia sobre a Expo 2005, na província de Achi, no Japão, e liguei para a embaixada, porque muito provavelmente fui eu que escrevi esse artigo - eu era um bocado fascinada pelas exposições internacionais, depois de ter visitado a Expo 98 e, sobretudo, a de Hannover em 2000, esta enquanto jornalista da Forum Ambiente, e não tinha outra forma (ou orçamento) para arranjar imagens.
Liguei, então, para a embaixada algo nervosa, como referi, não só por estar a falar ao telefone, que é uma coisa que sempre me deixou desconfortável, como por saber que do outro lado estava alguém como o Hiromitsu, alguém que partilhava a mesma cultura. Eu sei que é parvo, mas que querem? 
E lembrei-me disto porque me cruzei com a palavra komorebi, lá está, não podemos dizer só mal das redes sociais, quando estas permitem que nos cruzemos com palavras. Li o significado de komorebi e pensei que é preciso ser uma língua, nós somos a(s) língua(s) que falamos*, muito especial para ter uma palavra assim.

* E as escolhas que fazemos

Pedras e abacates

14.1.26


Hoje sonhei que estava ao telefone com uma amiga, a Inês, a falar sobre a minha tia. Estava a descer o escadório e a falar ao telemóvel, coisas que raramente faço. Subo aquelas escadas com alguma frequência, mas nunca, ou raramente, as desço e não me lembro quando foi a última vez que peguei no telemóvel para ligar a alguém, quanto mais para desabafar sobre um assunto que me anda a perturbar. Também é cada vez mais raro lembrar-me dos sonhos, por isso achei que devia ficar registado.
Eu estava já nos últimos lanços das escadas, a ver o mar ao longe, com o pinheiro manso em primeiro plano, a falar com a Inês, que estava sentada à secretária, na redação, rodeada de papéis e com ar bastante preocupado, não por causa do que lhe estava a dizer (adoro esta omnisciência nos sonhos), sobre sentir-me muito mal por não poder fazer nada pela minha tia, que teve um AVC e foi para um lar. O meu tio, o marido dela, que tem uma forma rara de Parkinson, também está, estão juntos, mas eu só falava na minha tia. Estava bastante emocionada, chorei ao telefone (eu que não falo ao telefone, quanto mais chorar) e a Inês parou uns momentos o que estava a fazer. Entretanto, já era noite e vi que estava a subir uma procissão de velas, eram imensas pessoas com velas acesas e achei tão bonito que interrompi o que estava a dizer para exclamar: ''Oh, é uma procissão de velas, Inês!''
Comecei a descer a rua e fiquei com medo de não conseguir passar pelo meio das pessoas para chegar a casa, acelerei o passo e vi que no meio da estrada estava uma espécie de brasão desenhado com pedras de diferentes tamanhos, mais ou menos como se costuma ver nos tapetes de flores, mas aqui eram pedras. Estranhamente a procissão parou mesmo antes da entrada da minha casa, por isso eu pude chegar sem grandes complicações. Só que, assim que me vi em frente à casa, a procissão eclipsou-se. Ou passou muito rápido sem eu dar conta, porque estavam algumas pessoas à minha volta, os que ficam sempre para trás, talvez. Eu estava a olhar para as paredes escavacadas da casa, aparentemente as pedras usadas para o tal brasão, ou lá o que era, saíram da minha casa, mas não me parecia mal. Parecia o início de qualquer coisa. 
Lembrei-me do sonho quando estava a fazer a minha habitual caminhada das folgas e assim que cheguei a casa pus-me a olhar para as paredes (de outra cor que não brancas, como no sonho), mas o que me prendeu a atenção foi o abacateiro, plantado pela minha mãe sete anos antes de a minha avó morrer, portanto há 10 anos, e que ainda não deu um único abacate. É verdade que está plantado num sítio inusitado, mas está bastante frondoso e já foi podado. Talvez não veja razão para o fazer uma vez que a minha avó, para quem o abacateiro foi plantado, já não está aqui para comer abacates. Como se as árvores decidissem se querem dar frutos, ou não, como se não seguissem o curso natural da vida. 
 

Sem assunto

8.1.26
Fotografia de uma pós-festa partilhada numa das últimas festas

Há muito tempo não me acontecia achar que tenho de escrever sem ter um assunto sobre o qual falar. Deve ser o efeito Ano Novo misturado com ressaca do pós-festas (e foram muitas, além do Natal, Passagem d'Ano e duas festas de aniversário, festejámos os Reis),  mais o regresso às rotinas dos horários escolares. Seja o que for aqui estou sem saber o que dizer, mesmo com tanto a acontecer no mundo. Na verdade, o mundo não me interessa, estou demasiado enterrada na trincheira do metro-bulot-dodot para me interessar pelo que quer que seja. 
Há coisas que me fazem levantar os olhos, claro, os meus filhos, obviamente, que agora não dão autorização para publicar as minhas fotos favoritas onde eles aparecem; entrevistas a pessoas fora do comum, que também parece que passaram pelo mundo sem se interessarem muito pelo que as rodeava; as respostas de André Pestana durante a entrevista aos 11 candidatos presidênciais - eu já fui assim, uma defensora apaixonada daquilo em que acredito, mas parece que, hoje, as muitas que fui estão mais distantes do que habitualmente; os textos da Sónia, que por mais de uma vez me fizeram querer pagar-lhe um café, mas deu sempre erro, deve ser o Universo a lembrar-me que sou pobre; preparar um almoço especial¹ para a minha família, a que eu criei, e vestir um vestido em vez das habituais calças de fato-de-treino, mesmo que seja um vestido que já foi confundido com um robe; A playlist "What's your name" que o Rei, ou melhor, o Imperador² das playlists do Spotify está a fazer com a colaboração da família e que consiste em escolher uma música com o nome de uma pessoa por ordem alfabética, por exemplo, neste momento estamos na letra J e a música mais votada até agora foi a James Bond, do Iggy Pop (eu votei no Bowie, apesar de ter ficado na dúvida em relação à "Jesus was a social drinker"); O último espectáculo do Ricky Gervais, "Mortality", apesar de não ser tão bom como o anterior.
Bem, agora reparo que não ando assim tão apática e entrincheirada como me parecia. É para isso, sobretudo, que servem os blogs, para nos vermos, mais do que para nos mostrarmos.


¹ Quinoa com batata doce e avelãs caramelizadas, massa com pesto de pistacios, cheesecake basco e pudim
² Também conhecido como Jaime, ou pai

Passar pelo tempo

28.12.25
Estamos todos habituados a ouvir, e alguns de nós a dizer, "isso foi noutra vida", como se todos vivêssemos várias vidas numa só. E é verdade, não sendo verdade. Há nove anos vivia outra vida.
No livro "E, de repente, a alegria", Manuel Vilas refere-se muitas vezes ao passado como uma sucessão de memórias que não temos a certeza de terem acontecido, ou então sou eu que penso assim e li coisas que ele não escreveu.
Tenho muitas vezes a sensação de que em alguns momentos me encontro com essa que fui noutras vidas. A que sou agora - mãe de dois adolescentes e uma jovem adulta que já saiu de casa, trabalhadora por conta de outrem num emprego desinteressante e mal pago, mulher com um homem à procura de si, pessoa no encalço do seu lugar - não é nenhuma daquelas que viveu outras vidas, mas sou todas ao mesmo tempo. 
A certa altura Manuel Vilas diz, e isto não é um post sobre o livro que estou a ler, ou não era para ser, que está morto aquele que foi em 1980, embora por vezes fale com ele. No meu caso não é assim, todas as que fui estão vivas ao mesmo tempo. Não sei se se nota muito que ando obcecada com o tempo, a passagem do tempo e a não linearidade do mesmo. Estou aqui a passar para o computador o que escrevi ontem numa folha de rascunho, enquanto olhava para os potenciais clientes de vinho do Porto que passavam na rua, e estou a festejar o meu décimo quinto aniversário a comer arroz de lampreia (e a odiar) num restaurante em Apúlia, com aquela alegria imensa de quem está a fazer uma coisa que as outras famílias fazem, ao contrário da minha, mas depois o carro avariou e tudo voltou a ser uma merda, isto é, voltou tudo ao normal. 
Consigo fazer isto muito bem, juntar diferentes memórias de diferentes tempos e lugares e ver-me lá a olhar para esses momentos. Por isso, é uma pena deixar tanta coisa por registar. Fiquei um bocado desiludida ao confirmar que tinha escrito tão pouco sobre as viagens que fiz, por exemplo. Não devia deixar de escrever, porque é assim que muitas vezes consigo lembrar-me da pessoa que fui, ou reconstruir essa memória, como quando vemos uma fotografia em criança. Se bem que é mais fácil reconstruir memórias com imagens do que com palavras. As palavras deixam poucos espaços em branco. E escrever sobre a nossa vida é uma belíssima forma de passar pelo tempo.

Trabalhadores #2

11.12.25
"Eu sou a Odete Maria Martins França, tenho 54 anos e tenho três filhos. Vivo numa freguesia de Gondomar e trabalho como Guia Turística, em Vila Nova de Gaia, desde fevereiro de 2024. Tenho tido um percurso profissional muito atribulado. Para falar sobre isso tenho de falar sobre a minha família. O meu pai tinha uma oficina de ourives, começou a trabalhar aos nove anos e era cravador. Eu nasci no meio do cheiro a lacre da ourivesaria e acabei a trabalhar com o meu pai, apesar de ter tentado sempre seguir outros caminhos. Fazíamos peças em ouro, na altura era em ouro, e vendíamos às ourivesarias. 
Depois decidi seguir outro rumo e abri um Franchise da marca de roupa Tintoretto, em Gondomar. Estávamos num Centro Comercial e a certa altura as lojas começaram todas a fechar, isto no início dos anos dois mil, e demos por nós a ser a única loja num corredor quase sem luz. Então, além de todo o investimento inicial, decidimos investir noutra loja virada para a rua, mas mesmo assim não conseguimos salvar o negócio, o que foi catastrófico, para mim e para a minha sócia. Não sei o que foi, talvez a conjuntura, como se viu depois pela crise financeira que levou à Troika, mas foi terrível, lembro-me de vários suicídios.
Nessa altura eu descobri que estava grávida, porque comecei a perder sangue e soube que tinha sofrido um aborto, mas que tinha outro bebé que estava bem. Eram gémeos, portanto. Quando a minha filha do meio nasceu eu já tinha fechado a loja e fui trabalhar para uma Farmácia, duas semanas depois de ela nascer. Trabalhei lá durante cinco anos. Estava sobretudo no backoffice, mas também atendia ao balcão, sempre com supervisão, claro. Agora já não seria possível, mas na altura era. Depois voltei para a oficina, porque o meu pai estava sozinho. Ele chegou a ter mais de dez funcionários e já tinha a fundição, mas o negócio foi decaindo. Estivemos os dois sozinhos de 2016, o ano em que me separei, até ao ano do Covid. Lembro-me perfeitamente do dia em que tudo fechou, porque foi o dia em que recebi em casa a carta de aprovação da marca que eu decidi criar para vender as minhas joias, a Ama Yello
Sempre me pareceu que este negócio de família acarretava alguma dificuldades. Eu lembro-me que o ouro era taxado a 36 por cento de IVA, por exemplo, havia sempre inspeções quando tínhamos de fazer entregas e as condições de pagamento eram uma coisa surreal. Havia clientes que só pagavam as encomendas no ano seguinte. Não há nenhuma empresa que consiga sobreviver assim. O declínio da ourivesaria era muito óbvio, apesar de ter tido momentos muito bons. Na altura do Covid eu estava a trabalhar no El Corte Inglés e conciliava esse emprego com a ourivesaria, mas tornou-se evidente que tínhamos de mudar alguma coisa. Era um barco a afundar. 
Entretanto, fiquei desempregada e tive de arranjar outro emprego. Lembrei-me da experiência que tive numas férias quando tinha 18 anos e decidi mandar o meu currículo para trabalhar numa cave. A minha intenção era trabalhar em part-time, mas não era possível, por isso aqui estou. Eu vivi em França dos cinco aos 13 anos, fiz lá os primeiros anos de escola, daí dominar o francês, o que me permitiu ficar com este emprego. Não ficamos mais tempo em França, porque a minha mãe queria regressar para Portugal, tinha medo que nós, eu e a minha irmã, depois de crescermos em França quiséssemos ficar lá. O meu pai foi para França trabalhar como ourives cravador e para grandes casas, ele era mesmo muito requisitado. Para vir para Portugal recusou uma proposta da Cartier. Às vezes penso se o meu pai tivesse ficado a trabalhar na Cartier…meu Deus! 
O meu salário, cerca de mil euros líquidos, tem de dar para tudo – durante muito tempo não conseguia falar sobre isto, sobre aquela fase difícil da minha vida, eu podia ter feito como muitas pessoas fazem, declarar insolvência e não pagar nada do que devia, mas não seria o correto. Nós, eu e a minha sócia, quisemos cumprir com toda a gente, pagar tudo o que devíamos e espatifámo-nos, completamente. Não sei como sobrevivemos àquilo, tanto financeira, como emocionalmente. 
Agora, gostava de voltar a investir na minha marca de joias, porque preciso muito de criar. Não sei ainda como fazer isso, tenho de falar com uma contabilista para saber que tipo de licenças preciso, porque isto na ourivesaria é tudo muito complicado. Eu trabalho essencialmente com prata, mas também posso fazer peças de ouro por encomenda. Há uns tempos pediram-me para fazer uma aliança de casamento a partir de uns anéis da avó que estavam todos amassados, por exemplo. 
Já houve alturas em que não votei, mas desta última vez sim, e da anterior também, porque depois não posso reclamar, ou opinar, uma vez que não participei. Eu fiquei muito preocupada e chocada quando apareceu o Chega, mas agora compreendo que era necessário. Tínhamos os dois principais partidos a governar sempre da mesma forma e eu acho que os portugueses estavam a ver muita coisa a correr mal e, no fundo, esse partido veio mexer com os outros, obrigá-los a repensar e a fazer diferente. Se calhar, muitas vezes, aquilo que rejeitamos é aquilo que precisamos. 
Se tivesse de dar um conselho a alguém diria para não se preocuparem tanto. Um problema que agora parece enorme, daqui a umas semanas, ou meses já não tem tanta importância. Não temos de estar sempre bem, é, aliás, nas fases menos boas que podemos crescer, evoluir enquanto seres humanos."

Carrinho de mão

28.11.25
Eu sou do tempo dos babybloggers, daquele tempo em que íamos para a internet dizer o que nos passava pela cabeça sem medo de julgamentos, vá, sem demasiado medo. Agora, de há uns anos para cá, é impossível fazer isso. Não sei exactamente porquê, mas sei que é assim. Às vezes tento justificar esta falta de vontade de vir desabafar, como noutros tempos, com a sabedoria da maturidade, sim porque uma pessoa aprende a estar calada e repara que só lhe traz vantagens, mas não é isso (até porque se eu fosse assim tão madura não tinha saído do substack num momento de raiva por não encontrar os rascunhos). É outra coisa, é termos percebido que para estar aqui a falar da nossa vida temos de, além de ter uma vida digna desse nome, saber como embrulhá-la de acordo com os gostos actuais. Ninguém quer acordar as bestas adormecidas que de repente têm muitos comentários para fazer. E não há sítios seguros nas redes apesar de muitos de nós quererem acreditar nisso (lá tive de voltar a inscrever-me), eu sempre acreditei, porque achava que era preciso levar-me demasiado a sério para temer o que quer que fosse e nunca me dei essa importância. Mas já não acredito. Talvez porque o mundo deixou de me parecer um sítio seguro. Bom, sempre houve sítios mais seguros do que outros em várias partes do mundo e na parte que me tocava eu sentia-me segura. Agora, nem tanto. 
Quando me lembrava dos sonhos que tinha a dormir, podia tentar adivinhar o que me preocupava, actualmente faço-o nas longas insónias onde todo o tipo de monstros me ensombram. Esta noite, por exemplo, eram almas penadas, doenças em forma de pessoas, braços inumanos a levarem-me os filhos, gente a chorar de dor. 
Queria voltar a sentir-me leve, sem dores nos ombros e nos joelhos, sem este peso que carrego mas nem me lembro quando foi a última vez que me senti assim. Houve sempre qualquer coisa a pesar. Há sempre, mas também há carrinhos de mão para transportar os pesos. É só arranjar um a bom preço.

Terra Nova

15.11.25


Ando há muito tempo, ia dizer anos, mas tenho evitado, apesar de ser difícil, olhar para o tempo de uma forma linear, portanto, o que quero dizer é: tenho andado a pensar em assinar a versão digital do Público, o que acabou finalmente por acontecer por causa de uma reportagem que junta dois temas aparentemente improváveis: Os territórios ocupados por Israel e vinho. 
Assim que comecei a ler, percebi que tinha de continuar até ao fim e não me pareceu bem pedir mais uma vez a uma das minhas amigas para me enviar o artigo. Depois de pagar os 30€ pela assinatura semestral (que equivale a 1 kg de carne, um pacote de cereais, uma lata das grandes de grão-de-bico, dois abacates e duas garrafas de vinho¹, no supermercado; ou um polvo e uma embalagem de rolos de cozinha), fui à procura de alguma referência sobre quem tinha ''encomendado'' aquela reportagem e confirmei que foi apoiada pela fundação Investigative Journalism for Europe (IJ4EU). E além de ler sobre o que já sabíamos - Israel conquistou os montes Golã à Síria, em 1967, durante a Guerra de Seis Dias, expulsando cerca de 95% da população síria, fiquei a saber que a Adega dos Montes Golã (Golan Heights Winery) é um dos maiores exportadores israelitas de vinho e que na última década as exportações de vinho israelita duplicaram, atingindo os 57 milhões de euros anualmente. 
A reportagem, além de dar conta da estratégia de Israel para aumentar o seu território ocupando outros países e livrando-se das populações como lhe aprouver, foca-se no facto de Israel estar a produzir vinho num território ocupado e anexado ilegalmente. E apesar de esta anexação nunca ter sido reconhecida pela União Europeia e pelas Nações Unidas, os vinhos dos Golã são vendidos como ''produtos de Israel''. É como diz o académico que fez um estudo da indústria vinícola naquela região: “A Adega dos Montes Golã ajudou a criar uma nova imagem da região – não como um território ocupado, um lugar de guerras e de sangue, mas como o lugar onde se produz vinho, onde se cria a ‘Europa em Israel’.”²
Escusado será dizer que o maior comprador destes vinhos é os EUA (72%) e, na Europa, a França (9%). 
Obviamente quis saber quais são os vinhos ''israelitas'' produzidos neste território e ia-me caindo tudo quando me deparei com um vinho que se chama Terra Nova. Não consegui saber muitas coisas a não ser que se trata de uma adega fundada em 2006 por três sócios de uma cooperativa de Kanaf e que produz 15 mil garrafas por ano, mas fiquei com a pulga atrás da orelha. 
Outra coisa que não tem nada a ver com esta reportagem, mas que me deixou tão estupefacta como o vinho israelita dos Golã, foi deparar-me com esta notícia (tentei associar o link do Haaretz, mas não foi possível, o título é qualquer coisa como "Agora é a altura certa para visitar os montes Golã [só tem de ignorar os bombardeamentos do Hezbollah])". Na verdade não deveria ter ficado tão espantada quanto isso, tendo em conta a impressão que os grupos de turistas israelitas deixam por onde passam (perguntem a quem trabalha em turismo).

¹ Uma garrafa da Adega Cooperativa de Silgueiros e outra da Symington

² Partindo do princípio que alguém tinha uma  imagem, seja ela qual for, daquela região

Trabalhadores #1

11.11.25
"Eu chamo-me Nazaré Maria Lopes Macedo, tenho 64 anos e sou empregada de limpeza. Ganho o salário mínimo e trabalho oito horas por dia. Comecei a trabalhar já nem sei bem com que idade, não foi assim muito nova, já tinha vinte e tal anos. Eu estava a estudar. O meu pai era funcionário público e a minha mãe estava em casa. Somos três irmãos. Já trabalhei como assistente médica numa clínica que havia em Santa Catarina e adorava. Estou nas limpezas há uns 15 anos. Nunca casei. 
Sempre vivi no Porto, agora estou a viver provisoriamente num quarto, porque tive de sair do apartamento onde vivia. É o costume, é aquilo que se sabe, as casas são para os turistas. Continuo à procura de uma casa, porque a esperança é a última a morrer. 
Eu voto em todas as eleições, porque acredito que as coisas podem mudar e aquilo que eu mais gostava de ver era habitações para as pessoas deixarem de viver na rua. É uma vergonha para o nosso país ver tanta gente a dormir na rua, nunca se viu tanta gente como agora. Tiram-se as pessoas das casas para dar lugar aos que vêm de fora. As casas precisam de obras, sim senhora, mas não tem jeito nenhum as pessoas serem postas na rua. Não é justo. 
Aquilo que eu gostava de dizer aos jovens é que tenham juízo e levem o futuro para a frente."

Querido Blogger

29.10.25
Fui escrever para outro sítio na expectativa de encontrar uma aplicação mais fácil de usar, já que aqui mudaram as coisas, algumas coisas pelo menos, e não me parece que mudaram para melhor, mas pode ser de mim. Acontece que não escrevi mais, como pensei que faria e não gostei muito de me ver ali, no susbstack, porque parece que estou numa daquelas salas com múltiplas reflexões em espelhos, com várias pessoas reflectidas neles. Aqui, sou só eu a olhar para mim num daqueles espelhos para onde posso entrar. Não sei, identifico-me mais contigo, mas talvez não tenha dedicado tempo suficiente ao que me parece ser uma espécie de linkdin de artistas. 
Eu gosto de acompanhar as tendências e arriscar mudanças, mas não há mal nenhum em ficar onde nos sentimos mais confortáveis, pois não? Por isso, aqui me tens. 
No outro dia, trouxe da biblioteca uns livro de Camilo Castelo Branco, um com as memórias do cárcere e outro com as cartas dispersas, e fiquei com a sensação de estar perante um grande escritor demasiado enredado nos seus dramas pessoais, que são os mesmos que ele projecta nas suas histórias. Quer dizer, é até ridículo eu estar com estas considerações quando conheço tão pouco da obra cameliana, mas é este o pão nosso de cada dia, toda a gente a opinar sobre tudo como se fosse especialista em vários assuntos. Isto para dizer que se o Camilo regressasse do mundo dos mortos¹ ele escreveria num blogue e não no substack. Acho eu. Na verdade, decidi (re)ler Camilo, porque precisava de saber mais sobre a sua passagem pela Póvoa de Varzim, depois de ver uma exposição que lhe é dedicada no Museu Municipal. Precisar é capaz de ser uma hipérbole, uma vez que não sei quando vou dar utilidade a estas recolhas de informação, mas se sinto que tenho de fazer uma coisa faço. Outra coisa que sinto que preciso de fazer é definir a classe trabalhadora. Quem são os trabalhadores que Raquel Varela quer, e bem, defender? Somos todos os que trabalham por conta de outrém? São os que estão no fim da cadeia? O operariado? Eu realmente gostava de ver estas pessoas revoltarem-se, mas a grande maioria está demasiado cansada, desinformada e amargurada para isso. Pode até acontecer de se revoltarem (quem me dera poder assistir a isso), mas não será pelas causas mais nobres. Nunca é. Só nas histórias que contamos. 

¹ O que não é uma coisa que Camilo desconsiderasse, como se pode ler no prefácio da 5.ª edição do Amor de Perdição, em 1879: ''Se, por virtude da metempsicose, eu reaparecer na sociedade do século XXI, talvez me regozije de ver outra vez as lágrimas em moda nos braços da retórica, e esta 5.ª edição do Amor de perdição quasi esgotada.''

O diagnóstico

28.9.25
A minha filha foi diagnosticada com PHDA (Perturbação de Hiperatividade/Défice de Atenção) e eu pensei em várias coisas ao mesmo tempo. Primeiro, isto porque no discurso verbal temos de apresentar as ideias por uma ordem, lembrei-me da história de uma amiga que vivia em Timor (podia dizer conhecida, mas não existe isso naquela ilha) e que sofreu um acidente nos tumultos de 2006, quando levou com uma pedra no rosto. Durante algum tempo ela pensou que nunca iria conseguir abrir a boca, mais do que o suficiente para enfiar a comida e mastigar com dificuldade, sem ser submetida a uma cirurgia complexa e com uma recuperação dolorosa. A mãe sugeriu que procurassem outro especialista para ouvir outra opinião, mas o diagnóstico foi o mesmo - tem de ser operada. O seguinte disse o mesmo e, finalmente, o terceiro (ou quarto, já não me lembro quantos é que ela consultou) disse-lhe para não se preocupar, que ela ia acabar por recuperar e voltar ao normal naturalmente. Quando saíram do consultório, a mãe disse-lhe: "Estás a ver? Nunca devemos desistir, só temos de continuar a procurar um médico que nos diga o que queremos ouvir". E, realmente, ela acabou por recuperar.
A minha filha achava, há muito tempo, que tinha PHDA, depois de ter sido diagnosticada com depressão por um pedopsiquiatra para logo a seguir o diagnóstico ser retirado, assim como a medicação, pelo mesmo especialista. Mais tarde, veio o da bipolaridade por uma psiquiatra e, finalmente, o diagnóstico que ela procurava. 
A segunda coisa que pensei foi como é que não vi? Eu eduquei-a, eu passei anos da minha vida de volta dela, e durante oito anos só dela, antes de nascerem os irmãos, eu não tirei os olhos, os braços, o peito de cima dela, o que é que me escapou? Eu sei que o diagnóstico desta perturbação é raro nas crianças do sexo feminino, mas será que deveria ter ido à procura dele?
Toda a gente dizia que ela era uma criança diferente, "genial", mas para mim era uma criança normal. Era a minha menina, que chorava sempre que tinha de ir para a creche e infantário, que adorava brincar às lojas, que gostava de comer e depois deixou de gostar, que adorava o Sérgio Godinho e a Floribela. Quando foi para a primária a professora mandou-a sair da sala com o colega, porque não paravam de falar. Eles saíram e foram bater à porta de outra sala. Foi a professora que me contou, a queixar-se de ela não parar de falar e a elogiar-lhe o desenrasque. Em Lisboa, noutra escola primária, foi seleccionada para debater na Assembleia Municipal e conseguiu que a escola tivesse um novo ginásio, mas quando tinha de fazer os trabalhos de casa levantava-se e sentava-se mil vezes e não era assim tão raro cair para trás com a cadeira. Para mim era normal, tanto uma coisa, como outra. 
Já no conservatório de música a directora de turma disse-me que ela devia ir a uma psicóloga, porque achava que ela podia ser bipolar. Eu achava que ela era adolescente, mas fomos para o hospital psiquiátrico da infância e adolescência, que serviu basicamente para ela começar a interessar-se por psicologia. 
Não vi, porque apesar de tudo ela era boa aluna e uma criança feliz. Na adolescência já não me parecia tão feliz, mas quem é feliz nessa fase da vida? Depois, apesar da auto-exigência, da volatilidade dos interesses, eu acreditava que ia ficar tudo bem. Até ter deixado de ficar. 
Quando falámos sobre isso ela disse-me que tendo em conta que a doença, ou condição, tem uma forte componente genética e que o Isaac provavelmente sofre do mesmo (houve uma professora na primária que achou que ele poderia ser hiperativo), a probabilidade de eu sofrer de PHDA é considerável. Não dei grande importância a esse pormenor, porque não ando à procura de diagnósticos, por enquanto, mas no outro dia estava na biblioteca a ler as Memórias do Cárcere, de Camilo Castelo Branco, e peguei no telemóvel para procurar o realizador do filme O Quadrado, porque devo ter pensado em Estocolmo, onde queremos ir juntas, e quis confirmar se o museu era nessa cidade (é em Gutemburgo) e ocorreu-me se a catadupa de pensamentos sem ligação aparente uns com os outros seria um sintoma desta condição.