O Jaime chegou. Antes disso, de manhãzinha, fui ao mercado comprar flores para enfeitar a casa e deixei adiantado um caril de gambas para o almoço. Depois da sopa do Isaac, por volta das 11h, fui buscá-lo ao aeroporto com as crianças. Levei um vestido novo e sombra nos olhos. Isto é ficção.
A realidade: O Jaime chegou e eu estou manca, dei um jeito nas costas. A casa cheira a estrugido queimado e os brinquedos do Isaac estão espalhados por todo o lado. Eu fui ao aeroporto de táxi (como eu odeio taxistas, santo deus!), com um carro estacionado à porta e a chave na gaveta da consola, porque não sei conduzir, apesar de ter carta de condução. E não levei vestido nenhum, fui com as únicas calças de ganga que me servem (as de grávida), o cabelo oleoso e buço. Até as caxineiras, que são mulheres que têm toda a legitimidade para usar bigode, tiram o buço quando os homens chegam do mar, e eu fui buscar o meu neste estado.
Mas é assim a vida, um dia serei uma dona de casa como deve ser, até lá sou eu assim.
Férias
31.8.10
Daqui a poucos dias vou mudar de sítio por uma semana, vou para o Alentejo. Há quem lhe chame férias, mas no meu caso não posso dizer que sejam. Sim, vou mudar de cenário e vou partilhar os dias com outro adulto (yiupi!!!!!!), de resto não muda muito mais a minha rotina.
É claro que me vai saber bem, muitíssimo bem, mas férias, férias, senhores, era eu sair de casa de manhã toda aprumadinha, ou mais ou menos, pronto, que eu não sou gaja de me aprumar por aí além, passar o santo dia em frente a um computador a receber, ou a dar, ordens, chegar a casa ao fim do dia e dar banho ao bebé e enchê-lo de beijos, mimar a pequena e enchê-la de beijos e dar beijos ao grande. Depois cozinhava, estendia roupa, mudava a areia dos gatos e essas merdas todas que passo o dia a fazer, só que durante essas férias demorava muito menos tempo, porque estava feliz e cheia de energia. E já agora podiam ser umas férias grandes, daquelas de três meses, como quando andávamos na escola.
É claro que me vai saber bem, muitíssimo bem, mas férias, férias, senhores, era eu sair de casa de manhã toda aprumadinha, ou mais ou menos, pronto, que eu não sou gaja de me aprumar por aí além, passar o santo dia em frente a um computador a receber, ou a dar, ordens, chegar a casa ao fim do dia e dar banho ao bebé e enchê-lo de beijos, mimar a pequena e enchê-la de beijos e dar beijos ao grande. Depois cozinhava, estendia roupa, mudava a areia dos gatos e essas merdas todas que passo o dia a fazer, só que durante essas férias demorava muito menos tempo, porque estava feliz e cheia de energia. E já agora podiam ser umas férias grandes, daquelas de três meses, como quando andávamos na escola.
Ai, a mobilidade
30.8.10
Eu tinha coisas para contar, e parece que das boas, mas o rapaz (que já não é fanado, nasceu-lhe o primeiro dente, ontem) deu em desaparecer da minha vista em segundos. Ele costuma estar aqui agarrado à cadeira a gritar MA MA MA MA MA MA MA, mas, ou porque o ignoro, ou porque descobriu que há coisas bem melhores para fazer, pigas-se num abrir e fechar de olhos e lá se vai a minha concentração. Agora, por exemplo, gatinha agarrado ao capacete da irmã, como se fosse um volante. Anda assim pela casa a grande velocidade até encontrar algum obstáculo, como a pequena soleira da porta do WC. Quando a Bea está em casa corre atrás dele, como não está corro eu. Olha, aí vem ele a mastigar papel. Espero que seja papel...
Domingo
29.8.10
Não sei em que dia da semana morreu o meu pai. Fez 24 anos, no dia 22 de Agosto, no domingo passado, que morreu. A cerimónia fúnebre foi uma segunda-feira e o enterro a uma terça-feira. Eu tenho mais dois anos do que ele tinha quando morreu. Já não sonho com ele tantas vezes como sonhava. Já não me acontece ficar chocada porque, afinal, ele está morto. Acontece-me pensar que tudo aconteceu há muito pouco tempo. Ontem, antes de dormir (lá está, à noite, sempre à noite), lembrei-me dele agarrado à minha avó materna, que vivia connosco, e ainda vive com a minha mãe, em cuecas a chorar baba e ranho, porque os pais dele estavam velhinhos e qualquer dia morriam...
De noite 2
25.8.10
Estou num sítio indefinido, a uma hora indefinida a fazer as coisas que se costumam fazer nos sonhos - correr feita louca; conversar com amigos em casa estranhíssimas, sempre com corredores infinitos; à procura de alguma coisa que nunca se sabe o que é, no meio de florestas verdes mais verdes que o verde; ou com os pés metidos na neve branca a olhar para um infinito negro, sem luz. Enfim, esse tipo de coisas - e de repente apareço eu a gritar a mim própria: TRIGO, TRIGO, TRIGO e começo a pensar: mas que raio quer esta agora? sempre com a sensação de que aquilo é uma palavra chave para alguma coisa, mas também pode ser para ir em direcção àquele campo de trigo em frente. Depois, com muito esforço, lá percebo que é para acordar. Abro os olhos e fico à espera. Trinta segundos depois ele chora. É assim quase todas as noites. A palavra chave não é sempre a mesma e raramente me lembro dela. Parece-me que durante o sono tenho uma vida mais interessante.
Escrever um romance, ou assim
24.8.10
Eu faço quilts e tricot. Cozinho pequenos-almoços, almoços e jantares. Ponho roupa na máquina, tiro da máquina, ponho no estendal. Mato melgas e formigas. Limpo a areia dos gatos, às vezes escovo-os e apanho as bolas de pêlos que vomitam. De vez em quando aspiro. Trato da loiça. Dou banho aos pequenos e corto-lhes as unhas e o cabelo. Faço os possíveis com os vasos. Distribuo mimos, beijos e colo. Esfrego o quarto de banho com cif. Passo a esfregona com sonasol no chão da cozinha e outro líquido qualquer na madeira. Limpo cocós e lavo fraldas à mão. Vou todos os dias às compras para ter sempre produtos frescos e evitar embalagens desnecessárias. Às vezes faço bolachas e bolos. Vou passear para o jardim. Arrumo a roupa nas gavetas. Às vezes faço as camas. Canto. E não percebo porque caralho acho que devia fazer mais alguma coisa.
O patchwork é kitsch 5'
19.8.10
Esta semana consegui finalmente terminá-lo. Optei por fazer o avesso em tons monocromáticos, preto, branco e cinzento, para quando não me apetecer cor. Enquanto quiltava, à máquina (actividade imprópria para o Verão), apercebi-me que o resultado final diz muito de mim: Gosto de começar os quilts, pensar nas cores, nas formas, juntar os tecidos, etc. Depois, quero vê-lo terminado o mais depressa possível, mesmo que não fique tão perfeito como gostava, para pensar no que vou fazer a seguir.
A crise dos 10 meses e meio
17.8.10
Eu sei que quando voltar a trabalhar (sabe-se lá quando e a fazer o quê) vou sentir falta disto: dele a gatinhar pela casa, a agarrar-se aos meus pés e a trepar pelas minhas pernas. Dela: "e, então, que achas que podemos fazer hoje?", das brincadeiras ao faz de conta, das bolachas no forno. Do barulho, sei que até desta barulheira infernal vou ter saudades. Dos jardins durante a tarde. Do cinema ao fim do dia. De cozinhar para a prol (ou talvez não). De ter um blog onde mostro as crianças para que não haja enganos e toda a gente saiba que sou uma mulher muito preenchida e que ser mãe é do mais cool que existe. De não ter que levar com a imbecilidade de muitos dos nossos melhores profissionais, que passam horas no emprego, não necessariamente a trabalhar.
Sei disso tudo, mas agora o que eu queria era a merda de um trabalho.
Sei disso tudo, mas agora o que eu queria era a merda de um trabalho.
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