Quando digo neste mesmo dia refiro-me a 11 de março, mas o dia não é o mesmo, como sabemos. Tentei sobrepô-los, como dois rolos de filme, e inventar um novo dia. Fazer da minha vida isso: dias sobrepostos e reinventados. Não tenho a certeza que isso não aconteça já, desde o princípio dos tempos.
Há cinco anos estávamos a viver o acontecimento mais surreal da nossa vida coletiva, a pandemia, que nos fez ter consciência disso mesmo, de uma existência coletiva, e no dia 11 saí para caminhar, porque era permitido, e apanhei flores no caminho.
Hoje saí para ir trabalhar e apanhei um autocarro até ao metro, depois mudei de linha e depois desci o morro. Não vi flores no caminho.
A pandemia foi controlada e a existência coletiva foi esquecida. A pandemia já não nos mata, matamo-nos uns aos outros, numa guerra a seguir a outra. É surreal, mas não parece tão surreal como a pandemia, porque não afeta o nosso dia a dia. Os miúdos vão à escola, nós vamos trabalhar e fazer compras sem esgostar o papel higiénico. Até viajamos evitando o espaço aéreo ocupado pelos mísseis. Parece que há vários tipos, ouvi de passagem, talvez me dedique a fazer uma lista de todos os que foram nomeados nas notícias, só porque adoro listas, como se sabe.
Ia ficar tudo bem, não ia?