Dia #60

11.5.20
Primeiro dia da dieta cumprido (até agora, ainda faltam umas duas horas para ir dormir), mas tirando uma visita de estudo às igrejas românicas de Rio Mau e Rates, que decidimos fazer por causa da matéria que o Isaac está a dar na disciplina de História, foi um dia bastante improdutivo.
Ontem tivémos o primeiro almoço com familiares e mesmo que se evitem beijos e outros contactos é impossível manter-se a distância em convívios destes. Também pude confirmar, com a minha irmã e o meu irmão, que trabalham na indústria, que pouca coisa mudou em termos laborais nas redondezas. As fábricas continuam abertas e os operários a trabalhar normalmente, agora de máscara.
Chegámos à conclusão que provavelmente já fomos infectados com o vírus sem revelar sintomas, ou temos tido sorte. Também temos tido cuidado, bastante cuidado, mas sabemos que isso só por si não é garantia de nada.
Por isso adoptámos a máxima ''Não deixem de ser felizes'' e procuramos cumpri-la. Em dieta é muito difícil, devo dizer!
O diário fica por aqui, mas o Covid-19, certamente, ainda vai ter bastantes entradas neste blog.
Saúde e boa sorte. Tchim Tchim!

Dia #59

10.5.20
Está decidido. Amanhã começo a dieta.

Dia #57

9.5.20
Como foi preciso fazer uma entrega de vinho, tarefa do Jaime uma vez que eu não conduzo, tive de ir para a loja enquanto ele esteve fora. Durante o percurso, de cerca de 10 minutos de casa à vinharia, debaixo de uma chuva torrencial, primeiro, e chuviscos depois, ia a pensar nas vantagens, e desvantagens, de sermos um casal a trabalhar juntos. Não tenho qualquer dúvida que o nosso negócio ganha na mesma proporção que a nossa vida pessoal perde, mas não deve ser difícil encontrar um meio termo qualquer. A ver vamos.
Depois, foi preciso inserir no site as novidades para serem incluídas na newsletter e, apesar de não haver uma periodicidade fixa, decidi que isso tinha de ficar pronto hoje. Ou seja, as crianças passaram o dia na Netflix a ver o Flash. Deve faltar um dia, ou dois, para eu começar a odiar a Netflix, apesar do Seinfeld.

Dia #56

8.5.20
O número de casos positivos com Covid-19 aumentou, quanto querem apostar em como poucas pessoas ouviram/leram que foram feitos mais testes e, portanto, é normal que isso tenha acontecido? Apesar de precisarmos de ter bodes expiatórios para tudo, ainda vai demorar a perceber que medidas foram eficazes no combate a esta pandemia e que erros podiam ter sido evitados. Já se sabe que os prognósticos são sempre eficazes depois do jogo, ou, dito de uma forma mais erudita, após a ocorrência de um acontecimento altamente improvável é arquitectada uma explicação que o faz parecer menos aleatório e mais previsível do que é na realidade.
Enfim, não me interessa nada disso, já temos Netflix, que é a modernização do gesto de tapar os ouvidos e cantar para não ouvir o que se passa à volta. 

Dia #55

7.5.20
Faltam cinco dias para acabar o diário da quarentena, porque a partir da próxima semana vamos alternar dias de trabalho na vinharia. Até aqui fiquei em teletrabalho e o Jaime na loja, sendo que ele não deixou de trabalhar em casa e eu de ir à loja sempre que necessário, mas a partir de agora vou ter de cumprir horários e vestir-me para sair.
Obviamente, vou levar a minha máscara da Pescada para usar no atendimento ao público, mas espero não ter de usá-la na rua. Se tiver é mau sinal.
Em duas ou três semanas, passámos do princípio de que só os profissionais de saúde devem usar máscaras para vamos fabricar máscaras e salvar o mundo.
Esta semana fomos buscar comida a um restaurante que ofereceu nada mais nada menos do que uma máscara em tecido, com o belo do arco-iris a dizer ''vai ficar tudo bem''. Eu acredito que vai ficar tudo bem, para uns, para outros nem tanto.
Sabemos que o distanciamento social, lavar as mãos e não tossir/espirrar para cima das pessoas são cuidados que temos de ter nos próximos tempos (que devíamos ter desde sempre, aliás, menos o distanciamento social, uma vez que precisamos muito de abraços), mas daí até a nossa sobrevivência depender do uso de máscaras, parece-me um exagero. Mas é uma opinião baseada unicamente no bom senso, sem qualquer fundamentação científica (que não será difícil encontrar se formos à procura dela), posso estar completamente errada.
E opiniões há muitas, como os chapéus, mas não agradeçam às pessoas por sairem de casa para irem trabalhar e garantirem que o país continua a funcionar, para depois olharem-nas de soslaio por quererem aproveitar o sol. O trabalho não pode ser a razão mais importante para correr riscos!

Dia #54

6.5.20
Focar-me nas coisas boas deste dia: Bacalhau com grão-de-bico e o vinho a acompanhar, o ar de alegria e surpresa do Isaac quando ''acerta'' numa resposta da ficha de Ciências, os minutos de leitura na cama com o sol a bater nas pernas, o arroz de favas, o cheiro das laranjas a serem descascadas, o Nicolau a contar os Kartos do Petróleo, as fotografias bonitas partilhadas no whatsApp, a roupa guardada, o chá de limonete do jardim da Raquel, o Quaresma, o dia quase a acabar com a espessura certa.

Dia #53

5.5.20
Comecei a pensar de que formas posso voltar a outro ''normal'', porque recomeçar no ponto em que estávamos antes ''disto'' parece-me andar para trás. Depois recebi uma mensagem da ARS Norte a dizer que podia falar com um psicólogo e fiquei a pensar se andariam a espiar-me.
Há pequenas coisas que começam a tomar proporções desmedidas: Os latidos da cadela sempre que passa alguém (e está sempre a passar gente por causa das obras nas ruas adjacentes); as janelas pop-up a interromperem-me (e eu já andei a chafurdar nas definições do computador para desligar esta merda, mas nada); o tamanho das minhas mamas (podia engordar sem ficar com estes airbags, não podia?); carregar o telemóvel (que só serve de veículo para o whatsapp no computador) posicionando milimetricamente o carregador, com um lápis a elevar o fio; as cadeiras da sala que começaram a descamar com tanto uso; o ter sempre de desligar alguma coisa para ligar a torradeira/varinha mágica/microondas/moinho do café, etc.
Claramente tenho desvalorizado o poder libertador do trabalho.
Mas tenho um vaso com a planta das fitas que a vizinha me deixou no muro.   

Dia #52

4.5.20
Este foi o dia mais surreal do confinamento. Saí para comprar pão e a cidade estava diferente, com mais pessoas na rua, mais carros e lojas abertas, como se estivesse tudo a voltar ao normal, até chegar à padaria e ter sido impedida de entrar por não estar a usar máscara. Não me lembrei que era obrigatório e voltei a casa para a ir buscar. Não tinha usado máscara até hoje e senti-me no cenário de um filme de ficção científica, daqueles apocalípticos em que as pessoas andam todas crispadas. Ou, então, era eu a projectar-me nos outros.
São demasiados dias a lidar com as nossas merdas e com as merdas das pessoas que mais gostamos no mundo. E nós gostamos mesmo muito uns dos outros e de passar tempo juntos, mas eu agora precisava de ter um espaço da casa só para mim, com um computador só meu. Podia ser muito pequeno, com uma janelinha de nada, desde que fosse à prova de som. Eu estava lá meio dia e depois saía e os meus filhos não me pareceriam dois animais selvagens e o Jaime um avatar.

Dia #51

3.5.20
Tenho a impressão que em confinamento dá-se mais importância a certas efemérides como o Dia da Mãe.
Também me sinto um bocado doente, hoje.

Dia #50

2.5.20
Saio para caminhar, devia dizer para um passeio higiénico, quase todos os dias num percurso, habitualmente vazio, que ao fim-de-semana enche-se de gente. Das duas uma, ou a grande maioria das pessoas continua a trabalhar e aproveita este dois dias para relaxar. Ou estão tão arreigadas a certos hábitos que os tentam manter para se sentirem normais.

Depois de ajudar o Nicolau, ou entre uma coisa e outra, a fazer uns cupcakes, que deveriam ser de baunilha mas saíram de limão, vi um filme que me fez sentir saudades de viver em Lisboa. A bem da verdade, a conversa com a Carla, agora a viver na nossa capital (não era segredo, pois não?) também deve ter contribuído.
No filme, a mãe tinha um blog e no fim chegou a uma conclusão semelhante à(s) minha(s). Arranjar pontos de comparação entre mim e a Uma Thurman é demasiado, eu sei, mas deixem-me divagar, por favor.

Depois de escrever sobre as mães blasé, caiu-me a ficha ao aperceber-me que tenho uma filha blasé, numa conversa sobre maquilhagem. Disse ela: ''Por acaso é uma coisa que tenho pena de não ter experimentado quando era mais nova''. Ela tem 19 anos.

Dia #49

1.5.20
Estava a escrever um texto bonitinho, que até fazia sentido e tudo, mas apaguei-o. Se querem saber era sobre este confinamento me recordar os tempos em que estava confinada com dois bebés e uma pequena em casa e em como me sinto igual sem metade da piada.
É certo que não se pode comparar uma pandemia a pós-partos, puerpérios e bebés fofinhos (mesmo que guinchem, nos ponham as mamas a escorrer sangue e não nos deixem dormir), mas isolamento é isolamento. Por isso, sempre admirei aquelas mães blasé que não deixando de ser mães parecem que não são. Adoro-as!! Podia dizer que as admiro, mas isso implicaria achar que se esforçam para ser assim, quando não é o caso. Por isso, só podem ser adoradas.
É verdade que é preciso uma aldeia para educar uma criança, mas nunca houve tantas facilidades como agora (as creches acessíveis a uma grande parte da população é uma realidade recente), as mães blasé podiam, e deviam, ser uma tendência.  Mas as creches existem para as mães e pais poderem ir trabalhar e pagar as contas e depois chegarem a casa e fazer tudo o resto (quando não podem pagar a uma empregada doméstica). E, como ao fim-de-semana têm de inventar coisas giras para fazer com as crianças, sobra pouco tempo para fazer o que lhes interessa.
Nestes dois meses é capaz de haver muito mais pessoas a reverem-se nesta realidade, por não terem para onde mandar os filhos, por isso é capaz de ser mais fácil compreederem que já há algum tempo não sei como festejar o Dia do Trabalhador, porque nunca trabalhei tanto como quando não tive um emprego.

Dia #48

30.4.20

Sei que há muitas dúvidas sobre o que nos espera, mas essa é basicamente a condição de ser humano, por isso, não, não estou preocupada. Tenho medos (estou sempre a falar disso, do meu medo de tudo) e fico apreensiva com algumas notícias, mas não estou preocupada. Não estou preocupada por nós, quero dizer, e estar aqui a falar da minha preocupação pelos outros seria só um chavão bonito. Aflige-me a situação de muita gente que conheço pessoalmente e de pessoas que não conhecendo sei quem são, mas é só isso. Aflige-me e continuo com a minha vida.
E a minha vida está bem, na minha perspectiva. Ter um negócio que abriu há pouco tempo, sem uma almofada financeira para suportar a quebra face ao investimento, e não descender de uma família com recursos, deveria preocupar-me, mas eu acredito profundamente no que estamos a fazer, em termos profissionais, entenda-se. E quando eu acredito, não preciso de mais nada.
Além do amor e derivados, há pessoas que precisam de sapatos, outras de sexo, ou de carros, ou de todas as mencionadas. Eu preciso de acreditar no que faço (e de vinho, sendo que não desdenho o sexo).
Por isso, fomos apanhar maias (tenho a impressão de conhecer estas plantas como maios, mas não tenho a certeza) para proteger a vinharia e a nossa casa.

Dia #47

29.4.20
Sou quase sempre a última a sair da cama, demoro a acordar e demoro a ter vontade de me levantar. Quando o faço, ultimamente, é para ajudar os miúdos com as aulas. Um deles, o que sempre se queixou da escola, e o que tem tido piores resultados,  está a gostar desta experiência e, até, a gostar de aprender. O outro, o aluno de excelentes, está a odiar e farta-se de chorar, porque não sabemos explicar bem as coisas. Quando voltei a insistir para acompanhar as aulas em videoconferência, com a professora dele (que sabe explicar, pelos vistos), fez o seu esgar de terror e percebi que não valia a pena insistir. Se este miúdo ficou quase três meses em Timor com o pai, enquanto eu estive em Lisboa com a Bea, sem querer falar comigo no telemóvel, haveria de querer ter aulas no computador? Não me parece.
Mas, se mesmo assim não conseguíssemos reparar que são muito diferentes, um tem o cabelo quase até meio das costas, com uma franja abaixo dos olhos, e o outro usa-o rapado.
Apesar das diferenças, hoje montaram a tenda no quarto da irmã, transformado em quarto da PlayStation, e vão dormir juntos, como tem acontecido, às vezes, quando um deles sobe ou desce do beliche.
Por momentos pensei que era o amor ao campismo, mas não. Da última vez, nas ''férias da Páscoa'', puderam levar os telemóveis para a tenda e estavam à espera de poder fazer o mesmo, hoje. Quando perceberam que isso não ia acontecer, quiseram ficar na tenda na mesma, por isso nem tudo vai mal neste nosso reino.

Dia #46

28.4.20

Nesta família nascemos todos em Abril, menos o Isaac. Eu sou a primeira a festejar (a mais velha de todos) e no fim é o Nicolau, o mais novo.
Este dia valeu pela alegria deste pequeno entusiasta e irredutível menino (apesar do almoço escolhido ter sido McDonald's, ainda que largamente compensado pelo bolo oferecido pela Joana).
Obrigada, meu querido Nico!

Dia #45

27.4.20

Eu não sei como está a vossa a casa, a nossa está tão caótica como antes, ou mais. Mas pode ser de mim e não da casa.
A tranquilidade das primeiras semanas começa a dar lugar a um certo desassossego, o que até poderia não ser mau, uma vez que na medida certa é muito útil, mas nestas condições atrapalha bastante.
Bom, fez-me procurar tisanas e concluir uma das partes do casaco (sim, desisti de tricotar a Mungoche e comecei um casaco do livro japonês. Parece que funciono melhor com esquemas), portanto, nem tudo vai mal.
Quer dizer, quando o terminar e verificar que não me serve é possível que comece a chorar como os personagens de banda desenhada japonesa, aqueles que jorram água pelos cantos dos olhos, sabem? Mas posso sempre oferecê-lo a alguém, em vez disso. Ou fazer ambas as coisas.

Dia #44

26.4.20
Faltam dez minutos para terminar o 44.º dia de quarenta e só me apetece dizer que se foda o diário! Não me apetece escrever, não me apetece usar o exercício de escrita automática que aprendi na faculdade, ou os truques do curso de escrita criativa de há uns anos (andei à procura do nome do curso e deparei-me com a quantidade de coisas que fiz para me sentir útil, se calhar já me pagavam para ser consultora de qualquer coisa, digo eu).
Ou seja, não quero saber. Tenho montes* de likes no post do facebook sobre o meu aniversário de mãe pela primeira vez (sim, gostava muito de falar do orgulho e da maravilha que é ser mãe de uma criatura maravilhosa, que sei que é, mas não é o que sinto, assim sendo, vou só sorrir e acenar), por isso está tudo bem.

*obviamente depende do que cada pessoa considera montes, para mim mais de 100 são montes.

Dia #43

25.4.20
Festejar o 25 de Abril em confinamento é capaz de ter ampliado a necessidade de liberdade, porque não me lembro de me ter emocionado tanto no ano passado, ou no anterior, como neste.
Todos os anos compro cravos (tirando quando vivi em Timor) e todos os anos me lembro do que fiz neste dia há 19 anos*, porque foi a véspera do nascimento da Bea: Fui ao cinema com o pai dela, e com um casal amigo. Perdi tempos infinitos a tentar descobrir qual foi o filme (achava que nunca me ia esquecer), mas não consegui. 
Uns anos depois apaixonei-me e tive dois filhos desse amigo (que também não se lembra qual foi o filme), mas isso é outra história.
A História que se comemora hoje é a que começou a mudar o nosso país há 46 anos,  mas este é o diário de um indivíduo (ou uma indivídua se preferirem), que já aprendeu a não esperar mudar o mundo. 

*Acho que acontece com todos os pais haver um A.F e um D.F (antes dos filhos e depois dos filhos) e as datas passarem a contar a partir daí. Talvez por isso o meu poema da liberdade seja o dela.

Dia #42

24.4.20
O Jaime descobriu a Michelle Gurevich, que é o que estou a ouvir neste momento e, por certo, vou continuar por muitos e muitos momentos, tendo em conta o comportamento OCD do melómano cá de casa.
Bom, seja como for, começa a ficar claro que também vamos retirar coisas boas disto tudo, não começa?
Provavelmente ainda falta algum tempo para isto (nem sei quantos problemas cabem nesta palavrinha) passar, mas já se começa a notar um certo frenesim para voltar tudo ao ''normal''.
Por mim, podíamos ficar assim desde que tivesse mais liberdade de movimentos para poder soltar os miúdos na Natureza e encontrar-me com algumas pessoas.
Entretanto, lembrei-me que devia ter apontado pequenas coisas que fui descobrindo com o confinamento, como as cebolas de Barcelos. Há uma mercearia aqui perto de casa que vende fruta e legumes, com a origem da mesma escrita à mão, num pequeno papelão. A salsa, a alface e os limões são do quintal dela, mas isso não está escrito em lado algum.
Então, as cebolas de Barcelos fizeram-me perceber o que significa ao certo este legume ter muitas camadas. Por cada camada normal, há uma película quase transparente e muito fina, que não se deixa picar e cai na panela inteira, ou enrola-se nos dedos.
Não se pode comparar à descoberta da Michelle Gurevich, mas já tinha saudades de fazer coisas destas, de juntar cebolas de Barcelos e uma cantora e compositora canadiana no mesmo post.


Dia #41

23.4.20
É assim, estou a tentar viver o melhor possível com o que tenho (e tenho quase tudo o que preciso), mas isto começa a ficar aborrecido. Aborrecido é melhor do que problemático, mas como ando a dormir pouco (e eu nunca durmo pouco, a não ser quando amamento bebés), quer dizer que vamos ter problemas.
Espero conseguir usar os meus indian clubs, que chegaram hoje, para o bem.

P.S Valeu a festa de aniversário de uma amiga, que distribuiu bolas de berlim pelas nossas casas.

Dia #40

22.4.20

Os miúdos perguntaram, ao jantar, se já tínhamos comido alguma vez uma hóstia e a partir daí surgiu uma conversa entre o engraçado e o perturbador. Isto, precisamente, no dia em que completamos o mesmo espaço de tempo que Jesus completou no deserto, segundo as escrituras.
Às tantas, é fácil arranjar uma ligação entre isto tudo - o castigo, a quarentena, o ter acontecido na época pascal, etc. Cada qual, indivíduo ou cultura, tem a sua própria interpretação, mas não é isso que me interessa, agora, porque hoje foi o dia em que os meus filhos não me pareceram tão parvos como habitualmente parecem.
Uma vez que precisámos de ir os dois para a vinharia, eles ficaram em casa sozinhos durante uns 45 minutos. Foi o suficiente para chegar a casa e ver um bolo de iogurte no forno. Ligaram antes a perguntar se o podiam fazer, claro, e quando os autorizei a ligar o forno já estava a caminho de casa, mas não estava nada à espera de encontrar tudo tão orientado. Não havia lixo à vista e a loiça estava na banca coberta com água. Nem a falta de óleo no armário os demoveu, utilizaram o óleo usado para fritar rissóis, que estava na própria garrafa, é um facto, mas para reciclar.
Eu não provei, ainda, mas eles dizem que sabe a bola de Berlim. 

Dia #39

21.4.20
Estamos muito perto do quadragésimo dia de quarentena, talvez por isso a minha mãe me tenha convidado para almoçar no dia 3 de Maio, sem se esquecer de referir que o meu irmão tinha aceitado o convite. Continuo sem perceber a razão de ela achar que eu quero competir com os meus irmãos, mas há-de haver uma justificação, quase de certeza.
Acho que foi isso que me pôs a pensar que está a chegar o momento de voltar tudo ao normal e eu, estranhamente, não fiquei nada aliviada.
Não estou preocupada com a doença, tenho medo de ir parar ao hospital e não haver camas, ventiladores, ou o que mais for preciso e morrer por causa disso, claro, mas nesta fase da pandemia tudo indica que esse risco é menor. Também não receio o sofrimento, porque acho que se aguentei a chikungunya, também aguento o covid-19. E mesmo sabendo que não é bem assim, é um bom descargo de consciência. Quanto ao medo pela minha família é tão habitual que nem o associo a esta pandemia.
Acho que é a sensação, familiar q.b, de não me sentir preparada para sair do casulo e enfrentar o mundo outra vez, ainda por cima, a partir da Póvoa de Varzim. A falta de energia para recomeçar um trabalho que tinha praticamente acabado de começar também tem o seu peso. E, por falar nisso, também há todo um conjunto de regueifas que não sei em que roupa encaixar para conseguir sair de casa relativamente composta.

Dia #38

20.4.20
Não sei como começar a descrever o dia em que assisti a um momento histórico: a tele-escola no século XXI. Acho que vou dizê-lo como habitualmente, isto é, indo directa ao assunto. É louvável o que se está a tentar fazer. Ponto.
Podia ser melhor, e com o tempo é provável que fique; Podia ser diferente, mas esta é a escola pública que temos, sem as adaptações que cada agrupamento vai fazendo, tendo em conta a realidade em que está a trabalhar. Ou seja, agora todos os alunos do país estão na mesma sala - estou a viver uma utopia, apetece-me chorar como as Misses a sacudir as mãos na cara.
Não se preocupem, da mesma forma  que nenhuma Miss conseguiu a paz no mundo, eu sei que os problemas do nosso sistema de ensino não vão ser resolvidos, mas deixem-me regozijar com o único momento em que sinto que a Educação é igual para todos (ou para uma grande maioria, vá).
É claro que gerir as diferentes plataformas da escola de cada um deles mais a tele-escola do terceiro ano, para um, e do quinto para outro, faz-nos parecer chimpanzés num jardim zoológico, mas às tantas é isso que somos (''e sabias que temos 130 células [são 130 tipos, mas depois explico-lhe], que desempenham diferentes funções no corpo humano, mamã''?).
A boa notícia é que só faltam dois meses (?) para acabar o ano lectivo. E temos muito vinho.

Dia #37

19.4.20
Ando a adiar a assinatura digital de um jornal, por um lado por continuar a preferir o papel e por outro por estar à espera que chegue o jornal que me vai convecer. Não é agora que vai surgir um jornal novo, claro, mas talvez demore menos depois desta crise.
Isto tudo para dizer que não li a entrevista ao historiador Manuel Loff, que poderia ser uma das notícias que me converteria a leitora assinante, mas como tenho andado a pensar nisso vou usar só a informação do título e do lead (será que os meninos da Abut, que fizeram um jornal comigo, ainda se lembram do que é o lead?)
Então, tudo indica que o confinamento tem sido bem sucedido em Portugal. Eu sei que nem toda a gente tem essa impressão, porque encontra muitas pessoas na rua, porque conhece alguém que conhece alguém que foi não sei onde e fez não sei o quê, mas parece ser uma realidade que, em comparação com outros países da Europa, os portugueses fizeram o que lhes foi pedido.
É muito provável que as razões sejam ''o medo, o pessimismo e a tristeza dos portugueses'', como referiu o historiador, mas eu estou convencida que esse sucesso se deve à nossa cultura da obediência. Mas eu não sou historiadora, socióloga, nem doutorada em qualquer ciência social, não tenho como saber se os portugueses são obedientes por sentirem medo (lá está), ou se por sentirem que são uma parte importante na resolução do problema.
Vamos fazer de conta que os portugueses são os meus filhos e nós, os pais, os nossos governantes. Ui, pensando melhor, vamos esquecer, isso. Mas já perceberam, certo? O respeitinho-é-muito-bonito-e-eu-gosto está muito bem inculcado nas nossas cabeças.

Dia #36

18.4.20
Estava a olhar para a minha agenda, agora tão vazia, e decidi preenchê-la com programas virtuais interessantes. Aparentemente nada parece interessar-me por aí além, porque as páginas continuam em branco, mas tenho uma marcação para hoje: Ver Mais Sobre Ti, que contou com a colaboração de uma amiga. Vou ver e comer laranjas. Eu sei que não devemos comer laranjas à noite (a laranja de manhã é ouro, à tarde prata e à noite mata, ouvi muitas vezes a minha avó), mas eu gosto de correr riscos!

Dia #35

17.4.20
Hoje de manhã pensei: vou ficar na cama a dormir o dia todo (estou mesmo a ficar idosa, antigamente queria domir semanas, ou meses, quando não sabia o que fazer com a minha vida), mas depois veio o Nicolau perguntar-me se não ia ajudá-lo com a escola e, logo a seguir, veio o Jaime, aflito, perguntar qual era o problema e eu achei que tinha de me levantar.
Saí da cama, igual a uma lontra, com a cabeça a latejar e uma nódoa negra na canela da perna com origem desconhecida (entretanto, lembrei-me que ontem, antes de me deitar, a porta do armário onde temos o balde do lixo soltou-se e bateu-me na perna).
Como gastei demasiada água no duche, fique a pensar se servirá para alguma coisa tomar menos vezes banho, se depois compenso com longas e quentes chuveiradas de água. Ainda considerei definir uma quantidade para gastar semanalmente, com a cabeça sempre a latejar, e ri-me. É por isso que bebo, para deixar de me ouvir.
No resto do dia, e depois de me sentir uma atrasada mental a acompanhar as aulas das crianças, decidi fazer as coisas que me ajudam a não pensar: caminhar, ler e tricotar. Cozinhar, às vezes, também ajuda, mas a utilidade/necessidade da acção estraga o efeito.
Se cada um de nós pudesse fazer só o que lhe apetecesse, lhe fosse conveniente, que tipo de pessoa seríamos? Eu acho que não seria má pessoa, mas gastava muita água.

Dia #34

16.4.20
Perguntei num dos grupos do whatsapp (só tenho dois, já percebi que sou muito pouco popular) se estaria a pirar, por ter desatado a chorar no meio da rua, quando vi um carro da polícia estacionado, com as portas abertas, o altifalante a tocar os ''Parabéns a Você'' e um agente, com máscara, a olhar para uma varanda e a bater palmas. Também bati palmas, claro, e acelerei o passo para não verem os rios de lágrimas a escorrerem para dentro da camisola. Devia ter baixado a gola, em vez de a puxar até ao nariz. Ainda por cima, mais à frente, ouço alguém a gritar o meu nome e ao reconhecer a voz do querido Rocha procurei a janela e lá estava ele a atirar-me beijos do sexto, ou séptimo andar, não contei quantos eram, os andares. Nem os beijos, mas pareceram-me muitos mais beijos que andares.
No grupo disseram-me que a choradeira era justificadíssima, e eu acreditei. É um grupo onde se fala sobre quem tira a camisa das favas para as cozinhar e quem prefere comê-las com camisas. Um grupo fiável, portanto (que saudades destas conversas ao vivo, minha nossa!).
Tenho sempre com quem contar quando tudo começa a parecer demasiado kinky. Isso, sim, é ter sorte.

Dia #34

15.4.20
Li: “Isto, para todos os efeitos, é uma crise. E raramente saímos das crises da mesma forma como entrámos. Acontecem coisas em nós, e na nossa relação com as outras pessoas, que fazem com que tudo mude” Miguel Xavier, psiquiatra e coordenador do plano do Governo para a Saúde Mental durante a pandemia.
Também se diz, mais ou menos, o mesmo das viagens e não tenho a certeza que as pessoas regressem assim tão diferentes, ou talvez regressem um bocadinho diferentes de cada uma das viagens que fazem, até se tornarem outras pessoas. Mas estamos sempre à espera que ao tornarmo-nos pessoas diferentes nos tornemos melhores pessoas. Supostamente crescemos e aprendemos com adversidades e novas experiências, não é?
Calculo que dependa de pessoa para pessoa e que, aos poucos, podemos vir a ser ser cada vez mais e mais a querer/precisar de mudar, como defende o Alter Eco, mas até vermos uma transformação na sociedade vai demorar muito tempo. Não há-de ser daqui a dois, ou três meses (nem daqui a dois, ou três anos) que tudo vai ficar bem.

Entretanto (saudades do Meanwhile de John Colbert), a escola dos miúdos começou hoje, nada a apontar. Foram duas horas a fazer os trabalhos propostos pelos professores, nos horários definidos por nós, com discussões de ideias entre todos. Estou bastante ansisosa para assistir ao #EstudoEmCasa e perceber como vai funcionar este terceiro período. Ansiosa no sentido de expectante e não de quem está a sofrer de ataques de ansiedade. Eu só tenho problemas mentais quando não tenho razões para isso, ou quando já está tudo bem, não sei se já tinham percebido. Até lá, vou aguentando e cantarolando (por favor, Jaime, se ouvires isto, lembra-te que tens uma fotografia com o José Malhoa).

Dia #33

14.4.20

Eu não tenho muito trabalho, mas consigo arranjar coisas que têm mesmo de ser feitas, como é evidente. Não estou a falar das tarefas domésticas, que essas nunca acabam, refiro-me a ter de respoder a mensagens, a alimentar as redes sociais da Vinharia e a confirmar stocks, que é o suficiente para me sentar ao computador e ficar horas a ''trabalhar'', ou seja, a estar no whatsapp a conversar com as amigas, a ler os jornais, a rever o tutorial de tricot, a tentar perceber como funcionam as diferentes plataformas usadas pelas escolas dos miúdos, a deliciar-me com as comidas da quarentena no instagram e a ler cenas sobre a influência da lua e dos astros, em geral.
Por isso, às vezes, decido não trabalhar. Faço como os velhos que se sentam à soleira da porta a ver quem passa, só que no meu caso, sento-me no pátio, num banquinho de madeira, por baixo das cordas da roupa estendida, com uma chávena de café na mão, a cadela em cima do vaso de alecrim, e deixo-me estar ali, até alguém começar a gritar, ou ouvir partir alguma coisa.
Se me apetecer vou ler, ou fazer tricot, que é uma forma de ficar menos deprimida, mas também gosto de andar pela casa a reparar no que fazem eles para fugir ao aborrecimento.
Não tinha reparado, por exemplo, como é bonita a Árvore de Março do Nicolau!

Dia #32

13.4.20
Desfiz e recomecei a Mungoche mais uma vez. Só eu para decidir tricotar uma camisola com pontos que nunca tinha experimentado, como o bricoche, malhas abraçadas e aumentos à esquerda e à direita. Quer dizer, só eu para decidir voltar ao tricot com um projecto como uma camisola, quando nunca fiz tal coisa. Mas, além de cachecóis, gorros e mittens, já tricotei uns quantos pares de meias, estas luvas, de um livro japonês, e um xaile, portanto uma camisola não poderá ser muito complicado.
Quero ter uma camisola para daqui a 20 anos dizer, ou pensar: tricotei esta quando aconteceu a pandemia de 2020. Assim como tenho a mochila de campismo que comprei há 25 anos com o dinheiro da herança da minha avó paterna.
Não tenho qualquer problema em deixar coisas para trás, quase tudo o que tínhamos na nossa casa em Timor ficou em Timor, mas podemos sempre arranjar forma de transformar bens essenciais em bens especiais. Uma camisola não é só uma camisola e uma mochila não é só uma mochila. 
O que me (vos) vale é que a escola vai recomeçar e isto vai ser só desabafos, com muitos palavrões à mistura, sem estas tiradas bucolico-nostálgicas.
As crianças estão a precisar de fazer alguma coisa, isso começa a ser muito evidente, ou podem estar a sofrer de uma possessão demoníaca, sei lá. 
Seja como for, começava a parecer-me natural esperar calmamente que tudo ficasse bem. 

Dia #31

12.4.20
Passei grande parte do dia a pensar no que escrever sobre o que significa a Páscoa, para mim. Se tiverem em conta que cheguei a considerar ir para um convento, esta história podia ser muito engraçada de se ler. Mas acabei de ouvir na TV (não consegui evitar, apesar de ter passado uma parte do tempo com os dedos nas orelhas a cantarolar, para não ouvir o Marques Mendes), que os casamentos são um negócio que geram 800 milhões de euros por ano. A sério?!?
Eu sei que não posso estar do lado que despreza os negócios, quando temos um negócio, que ainda por cima pode vir a beneficiar, quem sabe, das festas de casamento, mas 800 milhões?!?! As pessoas não podem só decidir partilhar a sua vida com alguém? E, no caso de fazerem questão de assinar um contrato, não poderão fazê-lo numa cerimónia simples, como a da assinatura da escritura de uma casa (que nem é tão simples quanto isso)?
Eu sei, não é muito romântico, mas têm a vida toda para ser românticos, digo eu, que sempre adorei casamentos e festas em geral!
Enfim, acho que só vim aqui perguntar: Não poderíamos simplificar muito mais a nossa vida?

Dia #30

11.4.20
Ora bem, um mês depois:

1- Fiquei sem telemóvel, porque o parti. Foi sem querer, diga o que se disser
2- E devo estar quase a ficar sem computador, atendendo ao barulho que está a fazer
3- As crianças estão mais felizes em confinamento do que esperava
4- Nestes últimos dias apetece-me ficar na cama o dia todo, ou a embrutecer em frente à televisão
5- Só tivemos um sábado de recolha de vidro, desde que o confinamento começou (é ao primeiro e terceiro de cada mês). Morri de vergonha. Tenho de arranjar uma solução para o vidro.
6 - As batatas estão as crescer
7- A Mungoche nem por isso
8- Não consigo ficar presa ao livro que estou a ler, como fiquei com os outros do Javier Marías. Decidi culpar a tradução 
9- Ao contrário da maioria das pessoas eu achei que ia conseguir emagrecer. Enganei-me, naturalmente
10- Não sei se é normal passar muitos dias sem falar com adultos (sem ser por escrito), à excepção do Jaime, e não achar estranho
11- A Catrina consegue ser muito mais chata do que eu, quando começa a ladrar por tudo e por nada
12- É muito bom perceber que a Vinharia, apesar de estar aberta há pouco tempo, é uma espécie de porto de abrigo, para algumas pessoas
13- Dois aniversários em confinamento, check 
14- Raramente comemos sopa, apesar de termos tupperwares cheios no frigorífico e no congelador
15- Gosto, ou preciso, de pensar que o mundo vai ficar um bocadinho melhor depois disto

Dia #29

10.4.20
É quase meia-noite e só vim aqui por obrigação. Não me apetece escrever e estou a ver o Diabo Veste Prada, dá para ter uma ideia da neura, certo?
Também encomendámos lasanha da Pizza Hut para os miúdos. Batemos no fundo, é o que é!
Mas temos vinho.

Dia #28

9.4.20

Eu não sei se o nosso país está a fazer tudo o que é necessário para combater esta epidemia. Sei, pelo que leio na imprensa e pelo que vou acompanhando nas publicações de pessoas com conhecimentos técnicos (que eu não tenho), que têm sido tomadas medidas eficazes. Mesmo assim, não deixa de ser surpreendente que estejamos a ser um caso de estudo na imprensa internacional.
Obviamente, quero acreditar que somos espectaculares, mesmo sabendo que as pessoas são muito estúpidas. E quero, sobretudo, preocupar-me com o bolo de maçã e canela para cantarmos os parabéns ao Jaime, e garantir que o vinho está fresco, sem querer saber do resto.
Também não percebi como vai funcionar o terceiro período das duas crianças aqui em casa, mas não quero pensar nas outras todas, sem computadores e com pais analfabetos funcionais. Além disso, começo a achar que pode muito bem ser uma preparação para o homeschooling. Daqui a dois anos espero que se orientem sozinhos, um deles, provavelmente, daqui a dois meses. 
Há pessoas a morrer todos os dias, sempre houve, mas agora há pessoas a morrer todos os dias pelo mesmo motivo, e há pessoas a nascer todos os dias e a festejar o dia de nascimento todos os dias. Em Abril, então, é uma multidão! Mas ninguém merece mais do que o Jaime celebrar o dia em que nasceu. Ninguém!
Tchim, Tchim! Parabéns, Jaime.

Dia #27

8.4.20
Todas as minhas sinapses agiram como se hoje fosse segunda-feira. Tive de sair para despachar umas encomendas da Vinharia, mas de resto andei aqui pela casa a pastar. Os miúdos, curiosamente, estiveram activos de uma forma positiva, ou seja, não andaram a gritar (muito) pela casa, nem se trataram mal. Provavelmente, tenho de estar inanimada para eles funcionarem bem.
Ainda assim, ajudei o mais novo a montar a tenda lá fora e estão os dois há umas horas lá dentro a ver youtubers parvos, claro, mas também a ouvir música e a jogar cartas. Dizem que querem dormir na tenda, vamos ver como isso corre.
Hoje de manhã, o Isaac disse que queria tomar banho. Ele nunca quer tomar banho, até entrar na banheira, por isso ia tendo um ataque. Depois percebi que ele queria usar o desodorizante pela primeira vez e como lhe tinha dito que não se pode usar roll on sem tomar banho, tomou a decisão. Depois tive mesmo um ataque: o meu querido filho começou a cheirar mal!!!! Está a chegar a altura de ter pré-adolescentes rapazes em casa.
As minhas sinapses precisam de fazer um reset rapidamente.

Dia #26

7.4.20
Seria muito fácil assumirmos este estilo de vida para sempre - desacelerado, vincadamente doméstico e esteticamente desinteressante -, se se tornasse uma cena hipster. Espera, os hipsters já eram isto, não eram?
Acho mesmo que o drama pós Covid não vai ser a economia, quando muito, talvez os 95% que trabalham passem a ser 94% para continuarem a garantir a riqueza dos 5% mais ricos do país. O drama vai ser redefinir escalões sociais.
Quem vão ser os hipsters se toda a gente já sabe fazer pão? Quem vão ser os hippies se toda a gente se está a marimbar para a roupa por passar a ferro? (ok, se não estão deviam aproveitar) Quais serão os médicos que merecem receber 90€ por uma consulta, quando estão a fazer o mesmo trabalho dos que recebem um salário do SNS? E as escolas? Bem, aqui nem sei por onde começar.
E se de repente os operários, que a par dos médicos são os que mantêm o país a funcionar, determinarem o futuro da mundo ocidental? Eu sei, estou a delirar, mas apetecia-me tanto assistir a esta realidade! Não tem nada a ver com qualquer moral de justiça social, era mesmo por diversão. Afinal, já não vou para nova e não vejo telenovelas (ainda existem?), e os meus filhos até me parecem capazes de se desenrascarem numa fábrica, ou de conduzirem um camião durante 12 horas.

Dia #25

6.4.20
Um dia destes tenho de falar do antigo troço da linha de comboio, entre a Póvoa de Varzim e  Famalicão, que está a ser transformado em ciclovia e caminho pedestre. Também preciso de falar sobre a minha avó, que faz 92 anos, mas hoje só me ocorre confluir para esta ideia de que ''todo o ser humano é ridículo à sua maneira''*.


*do filme O Nosso Último Verão na Escócia

Dia #24

5.4.20

Recebi a minha prenda de aniversário mal acordei e comecei a logo a choramingar ao ler os papelinhos com as mensagens de toda a gente. Parecia que estavam todos ali comigo, apesar de ainda estar na cama. Obrigada a toda(o)s, não sabia, ou tinha esquecido, que pensam tantas coisas boas sobre mim.
Ver o entusiasmo dos miúdos, sobretudo do Nicolau, faz-me querer gostar de festejar o aniversário. Foi ele que fez o bolo, com a ajuda do Isaac, e o Jaime a jardineira do almoço. Escolheu este prato, porque cozinhou-o nas duas últimas gravidezes, para satisfazer os meus desejos (mesmo sem ser apreciador) e eu achei que foram as melhoras jardineiras que alguma vez comi na vida.
A de hoje também estava maravilhosa, mas como não estou grávida não posso dizer que é a melhor de sempre. O palato tem destas coisas. Quanto ao vinho, só posso dizer: UAU!
De resto foi um dia normal, com as coisas boas que já referi e outras menos boas, como na vida em geral. 
O que não deixa de ser curioso é este ser o terceiro ano consecutivo de aniversários estranhos. Aos 45, foi a primeira vez que não festejei com o Jaime, desde que estamos juntos, aos 46 não tinha a Bea comigo e aos 47 temos o Covid-19.
Melhores anos virão, certo?

Dia #23

4.4.20
Devo estar com síndrome véspera de aniversário, ou outra coisa qualquer, porque se tivesse passado o dia na cama estava muito bem, tirando as dores nos ossos. Uma pessoa sabe que está naquele limite de jovem adulto para adulto adulto quando o corpo pede para sair da cama, e a cabeça suplica para nos deixarmos estar.
Foi um dia a gerir (aka a deixar andar) frustrações alheias e próprias, aborrecimentos e dores de crescimento que nem a ida ao quiosque para comprar jornais amenizou.
Os meus filhos pareceram-me pessoas crescidas, no sentido de maduras, o que só pode querer dizer que estou a ficar louca. Se bem que isso implicaria dar razão ao Jaime e assumir que não é ele que está chato, que eu é que estou sem paciência. Portanto, estou muito sã.
E amanhã, pelos visto, temos uma festa!

Dia #22

3.4.20
Não sei bem o que fiz hoje, além de ter chegado a uma parte importante da camisola que estou a tricotar e de ter conseguido fazer pão pita para o falafel, também feito em casa, que tinha congelado há uns tempos.
Não sendo a pessoa mais organizada do mundo e que até nem aprecia rotinas por aí além, tenho o momento das refeições como uma espécie de guia. Tenho de fazer isto e isto até à hora do almoço e mais aquilo e aqueloutro até à hora de jantar. Mesmo em quarentena é o que funciona para mim. E estando mais tempo em casa, sem ter de ir buscar os miúdos à escola, é mais fácil fazer pão e pensar em receitas demoradas.
Também se dá o caso de gostar de comer e beber, claro, por isso é que estou a adorar seguir os menus do Zé e da Inês, no instagram. Como diário da quarentena, parece-me uma ideia assim espectacular!

Dia #21

2.4.20
Hoje foi dia de limpar a casa. Não preciso de dizer mais nada, pois não?
Sim, não arrastei a cama para aspirar, nem limpei o pó, ou lavei a parte de fora das sanitas (cujos autoclismos não funcionam), desde que começou a quarentena. E não tem nada a ver com a falta de tempo, pelos vistos. É a mesma falta de vontade de sempre.
As tarefas domésticas são divididas, obviamente, mas cada qual investe o seu tempo naquilo que acha necessário e fundamental para o bom ambiente familiar. Funciona? Sim, quase sempre.

Dia #20

1.4.20
O Nicolau perguntou-me se eu ainda era jornalista e eu disse que sim. Se ainda tenho a actividade aberta nas finanças, acho que posso dizer que sim, apesar de saber que não sou.
Procuro manter-me informada, como toda a gente, e continuo a confiar em alguns meios de comunicação, mas mesmo estes nunca me pareceram tão obsoletos como me parecem agora. Ou, talvez esteja a questionar tudo em demasia.
Fiz uma máscara facial com aloe vera, mel e açafrão e, quando saí para fazer a caminhada, apanhei flores num descampado. Também escrevi uma carta para a Bea.
Ia começar a fazer o jantar, arroz de marisco, mas acabou o gás. Enquanto espero pela botija, acho que vou beber um copo de vinho.

Cartas da Póvoa #3

1.4.20
Querida Bea,

Ao longo deste ano em que estiveste afastada de nós, pensei várias vezes escrever-te mais uma carta, mas depois nunca sabia o que queria, ou o que devia, dizer.
Agora sei. O que quero dizer, pelo menos. Convenhamos, um ano e um mês é tempo suficiente para pensar no que nos aconteceu.
Eu não sei, ainda, o que aconteceu, da última vez que abordamos o assunto pediste para falarmos noutra altura, nem sei se alguma vez vou saber. O que me fez escrever-te hoje, foi ter acordado a cantar Suede, ''The 2 Of Us''.
É estranho lembrar-me de ti sempre que ouço esta banda, porque nunca a ouvimos juntas e também por não ser uma daquelas pessoas que tem uma banda sonora para tudo. Bem, talvez tenha o David Bowie como banda sonora dos meus anos de liceu, mas não sei se era por precisar disso, ou se por saber que fazia parte.
Acho que foi numa viagem de carro que eu e o Jaime fizemos com os miúdos e ele pôs o ''Dog Man Star'', no leitor de CDs. Quando começou a ''Still Life'', desatei num pranto nunca visto. Eu só conseguia pensar em ti, e em como podia continuar a viver sem te ter na nossa vida, e o Brett Aderson a gritar ''But it's still, still life/But it's still, still life/But it's still, still life''. Enfim, o que vale é que os miúdos acharam que eu estava muito emocionada com a música e ainda hoje me gozam com isso.
Então, hoje acordei a cantar ''Lying in my bed./Watching my mistakes...'' e pensei se também estarias deitada na tua cama a pensar nos teus erros. Quer dizer, a cama onde estás deitada por estes dias é, muito provavelmente, um erro por si só, mas a vida é tua, as escolhas são tuas, como sempre te disse.
Não quero estar, nem tenho estado, a fazer juízos de valor sobre as tuas opções. Só queria fazer parte da tua vida, saber o que sentes, que planos tens para o futuro, sobretudo agora, quando o futuro parece cada vez mais distante.
Mas isso já sabes. O que quero dizer-te é que tenho muita pena que não nos queiras na tua vida, porque estás a perder a oportunidade de passar bons momentos com pessoas realmente espectaculares. Até podias não gostar muito de nós enquanto família, mas, caramba, o que nos divertimos juntos!!!
Agora, ainda antes do Covid-19, temos andado mais preocupados, mais ocupados e estamos mais cansados, mas ainda somos espectaculares. Podes ter a certeza.

Dia #19

31.3.20

Fui levar umas coisas a casa da minha mãe e não foi o drama que estava à espera. Sem beijos, nem aproximações desnecessárias, tudo com muita naturalidade. Na verdade, nunca fomos muito de manifestações de afecto e talvez não sejamos tão próximas como pensava, ou gostava, não sei. Não quis ir ao quarto ver a minha avó, que já não anda há um par de anos, nem fala há uns meses.
Depois do almoço estivemos a trabalhar nas burocracias da vinharia, que é a parte menos divertida do negócio. Bom, limpar os vidros daquela montra e lavar o chão também não é propriamente entusiasmante, mas é mais tolerável. Quer dizer, depende dos dias!
Como queremos evitar que as crianças passem muito tempo a olhar para ecrãs, o Jaime foi buscar a caixa de ferramentas, que é assim uma mania que me ultrapassa, este fascínio por ferramentas. Temos coisas que acho que nunca foram usadas, só porque o Jaime achava giras, ou úteis, sei lá eu. Enfim, eles também não ficam indiferentes àquela parafernália e, portanto, foi uma bela tarde de marteladas e objectos a serem lixados.
O que me valeu foi ter tido o melhor momento da quarentena, até agora: o pão com doce de kiwi da Dora e a infusão da felicidade que ela enviou pelo Jaime, aquando da entrega da encomenda de vinho.
Nunca pensei que uma infusão pudesse saber-me tão bem como um copo de vinho! E aquele doce, então, nem sei o que dizer.

P.S acabei de ter a primeira conversa online, desde que isto começou, com uma amiga de longa data e foi tão bom (isto hoje está a ser um dia em grande)!! Para muita gente pode ser estranho, mas eu não gosto particularmente de falar com pessoas no computador, ou no telefone. Mesmo nos dois anos em que vivi em Timor devo ter feito duas chamadas skype. Parece que até isso a quarentena está a mudar!

Dia #18

30.3.20
Tenho a sensação que passei o dia entre o computador e o sofá, com os miúdos a andar, ou a gritar, por aqui. Não foi inteiramente assim, mas sabemos que é mais importante a forma como interpretamos os factos, do que o factos em si.
Depois de ter tratado das encomendas, que o Jaime foi entregar ao Porto (confirma-se que foi melhor ter ficado, é unânime que não teria conseguido evitar chorar), deixei-os comer a massa com pesto no sofá, enquanto comi uma sandes de salmão fumado; joguei Ping Pong na mesa de jantar; recomecei a camisola que desfiz ontem; tratei de ferimentos e ajudei a preparar lanches.
Ainda assim parece que passei o dia entre o computador e o sofá, com os miúdos a andar, ou a gritar, por aqui.
Até quando as segunda-feiras vão ser segundas-feiras?

Dia #17

29.3.20
Por causa dos miúdos terem andado a brincar com a roupa de recém-nascidos sonhei que aquele body do Isaac estava a ser usado como pano do pó, para grande desgosto do Jaime.
Decidi plantar batatas num vaso e cebolinho noutro e apeteceu-me muito voltar a ter um jardim. Podemos sempre mudarmo-nos para o Porto, já que o nosso apartamento tem quintal, e fechar esse capítulo de uma vez por todas!
Os miúdos começam a acusar o aborrecimento de estarem fechados em casa, a minha esperança é que se fartem dos ecrãs de uma vez por todas e comecem a fazer outras coisas. Nem que seja dar banho a todos os peluches e fazer provas cegas de comidas, quando ninguém quer comer.
Amanhã temos entregas de vinho no Porto e algumas amigas aproveitaram para fazer encomendas. Fiquei encantada com a possibilidade de rever pessoas que adoro, mas depois lembrei-me da distância social e achei melhor evitar fazer figuras tristes.
Não interessa, ''vamos ficar todos bem'', como diz no desenho com um arco-íris pendurado na varanda que se vê da fila para o supermercado. E acreditar nisso é tudo o que importa, agora.

Dia #16

28.3.20
Ao sábado a vinharia está aberta e como o Jaime teve de sair para fazer entregas e recolher um frigorífico usado, eu fiquei lá.
Atendi quatro pessoas de manhã e todas cumpriram as regras de segurança, mas não pude deixar de notar que há quem tenha vontade de conversar, ou mais vontade do que habitualmente.
Soube-me bem pentear o cabelo e vestir uma roupa para ir trabalhar, apesar de sentir-me ligeiramente nervosa. Por isso, achei melhor levar comigo a Mungoche, poucas coisas relaxam-me tanto como tricotar.
O Jaime está sempre a dizer que quando isto acabar - a quarentena e suas consequências - vai estar tudo pior. Eu quero acreditar que vai estar melhor em muitos aspectos, ou nos que interessam, pelo menos. Mas, claramente, sou uma pessoa com fé.
Os rapazes ficaram sozinhos, antes e depois do almoço, e quando cheguei convenci-os a preparar um lanche no nosso pequeno pátio. Comeram rápido, discutiram a selecção musical e voltaram para os ecrãs.
O mais novo é o que se aborrece mais facilmente. Passa a vida a dar banho ao Panda. Eu percebo completamente o bem estar que um banho pode trazer (se não fossem as alterações climáticas era capaz de usar e abusar desta terapia), mas isto de dar banho a alguém (ou coisa) é outro nível, que eu ainda não atingi. Quer dizer, eu gostava de lhes dar banho quando eram bebés, porque a seguir adormeciam e eu podia desligar durante umas horas, mas não é isso que acontece neste caso.
Daqui a uma semana faço 47 anos e só me lembrei disso, porque o nosso obsessivo compulsivo dos banhos ao Panda, que faz anos daqui a um mês, não fala de outra coisa, isto é, do seu aniversário. Nesta casa (ou neste núcleo de família) fazemos anos todos no mesmo mês, menos o Isaac, e apesar de Abril ter sido um mês atípico nos últimos dois anos, este ano ultrapassa tudo.
Mas ainda estamos em Março e é preciso viver um dia de cada vez.

Dia #15

27.3.20
Nós estamos a enfrentar uma pandemia. É um facto. Temos de ficar em casa para nos protegermos e proteger os outros. Outro facto. Há quem diga, até, que estamos em guerra. Isso já é capaz de ser uma interpretação livre, apesar de haver muitos velhinhos a viver em lares em que, provavelmente, se sentem entrincheirados. E sabemos que há pessoas mais responsáveis do que outras e mais preocupadas com o colectivo do que o individual. Não é de agora.
O hashtag ''stayhome'' é muito bonito, mas quantos de nós têm de sair de casa para trabalhar? Honestamente, choca-me mais o julgamento sumário de tudo e de todos, do que ver velhinhos na rua, como se estivesse tudo normal, ou ver os homens das obras a almoçar juntos numa sombra. E quantas pessoas que se orgulham de ficar em casa utilizaram os serviços das que não ficam, porque estão a trabalhar?
Sim, já sabemos que sair para trabalhar é uma coisa, para passear é outra (espero tanto que esta crise venha reformular a organização do trabalho!). Mas não podemos achar que ficar em casa, com todas as mordomias que o nosso nível de vida e a tecnologia permitem, faça de nós melhores pessoas do que as que têm de sair (se calhar aquilo de não romantizar a quarentena era sobre isto. Eu costumava ser mais perspicaz...).
Sim, já sei, há as que têm de sair e as que saem porque sim e, muitas vezes, também fico perplexa com o número de pessoas na rua. Pior, porque raio saem tantas ao domingo? Será que há muita mais gente com a mesma rotina de trabalho do que supomos? Como não são nossas amigas no facebook, não temos como saber.

Bom, reflexões do dia à parte, tive um belo momento a observar os meus rapazes a ''brincar às bonecas'' com os seus peluches preferidos. Estiveram horas, isto é, uns 40 minutos, a vestir o panda e o cão com as roupas deles de recém-nascidos (finalmente tiveram uma utilidade!) e foi bonito de ser ver. Também comeram 1kg de laranjas, além das refeições normais, e o último dia de aulas foi adiado para segunda-feira.

Dia #14

26.3.20
Tive de ir ao supermercado outra vez, é a segunda esta semana. Não sabia que comíamos tanto! Se isto durar muito mais tempo, mais vale começar a plantar batatas nos vasos e arranjar uma galinha poedeira como animal de estimação. O Nicolau pediu para ir comigo e quando lhe disse que não podia teve um ataque de choro, que estava farto de não poder fazer nada. Depois, fez três tostas mistas na tostadeira que o Pai Natal lhe ofereceu e ficou de bem com o mundo, outra vez.
Logo a seguir ao hospital, o sítio que mais temo é o supermercado. Saio sempre de lá a achar que venho carregada de vírus em todo o lado e quando chego a casa, depois de lavar as mãos, fico a olhar para as compras no saco sem saber como pegar nelas.
Já comecei a tricotar a camisola, pelo meio do sistema solar e de numerais mistos (seja lá o que isso for), e não me lembrei que para a semana são férias da escola, por isso já não vou terminá-la. Nem sei se a termino algum dia, mas é mesmo muito bom voltar às agulhas! Como é possível ter estado tanto tempo sem fazer malha?
Por falar nisso tenho de ir. Preciso de perceber como vou encaixar o José Marías entre o tricot e o copo de vinho.

Dia #13

25.3.20

Sonhei com bolos e doces brancos de romaria e, numa das entregas de vinho, o Jaime foi comprar brownies ao Bom Miolo.
Lavei o cabelo e já não me lembrava que tinha uma juba!
Chegou a encomenda da Retrosaria. Se tiver de continuar a ajudar os rapazes nas tarefas escolares, devo ter a camisola pronta daqui a uma semana.
Improvisei um chili com os restos da carne da bolonhesa e ficou bastante bom.
É uma péssima altura para reduzir o consumo de vinho, por muito necessário que seja.
Os animais, como se vê ali pela Catrina, percebem muito de confinamento.

Dia #12

24.3.20
Olhem, a Scarlett O'Hara tinha razão, temos sempre o dia a seguir (se não morrermos durante a noite, claro) para fazer melhor. E fazer melhor é fazer diferente, para usarmos aquela máxima do ''não julgamento''.
No nosso caso é fazer as coisas à nossa maneira, sem prejudicar ninguém. Percebo tão bem os meus filhos! eles também não prejudicam ninguém quando fazem xixi no balde com água da chuva, que está lá fora para regar os vasos, mesmo que os vasos não tenham plantas, porque os caracóis comeram-nas.
Hoje, as aulas foram de tarde, porque nos dava mais jeito. As famílias são todas diferentes, com filhos em idades diferentes e estamos todos numa nova realidade, à procura da melhor forma de isto funcionar. Devíamos ter mais calma.
Depois, a caminhada seguida de uma aula de yoga virtual fez-me bem e os percebes que o marido da D. Sameiro apanhou no mar, hoje de manhã, acompanhados com um vinho branco da Quinta dos Termos fez o resto.
Ah, e chegou o biquíni. Fica-me horrivelmente mal. A parte de cima ainda se aproveita, a de baixo dá vontade de me esconder debaixo de cama e ficar lá até me esquecer da imagem que vi ao espelho!
Eu não sei se toda a gente sabia disto, mas os biquínis para gordas só ficam bem às magras, isto é, às pessoas normais. As que estão acima do peso devem comprar biquínis normais nos tamanhos maiores. De nada.

Dia #11

23.3.20
Os especialistas tinham avisado, epidemiologistas, médicos, astrólogos, 'achistas' do facebook, todos tinham dito que isto ia piorar. Eu acreditei, claro, mas preferi achar que era exagero, como no início disto tudo. Não era, afinal.
Todas as pequenas tensões, incertezas, tristezas e merdices estão a transformar-se num vírus quase tão mau como este Corona e, ainda por cima, com menos bom aspecto, que o bicho até parece engraçado nas imagens que nos mostram.
Não tive um ataque de choro por pouco, assim sem qualquer razão aparente, e apeteceu-me mandar os professores dos meus filhos para o caralho, mesmo respeitando o trabalho que fazem e sabendo que estamos todos a fazer o que podemos.
Depois, pensei que por esta altura já teria aprendido alguma coisa com o que está a acontecer, que teria descortinado coisas incríveis sobre o mundo e sobre mim, mas estou ainda mais longe de saber o que quer que seja. Passei o dia a deambular pela casa como se tivesse perdido a capacidade de pensar, como quando estamos de ressaca (espera, se calhar era isso...) e com um aperto no peito (estarei a ficar doente?).
Eu achava que estar em casa com a vida em suspenso não era nada de mais, mas é. Mesmo assim posso estar em casa, eu sei. Tenho muita sorte (revirei os olhos a dizer isto, sou muito má pessoa. Espera, afinal estou a descobrir coisas sobre mim).
Bom, amanhã será outro dia.

Dia #10

22.3.20

Acordei tarde e praticamente saí da cama para a cozinha, com o assado de domingo na cabeça. Os miúdos tomavam o pequeno-almoço no sofá, enquanto viam TV e, com a comida no forno, sentei-me no chão do nosso pequeno pátio a aproveitar o sol.
Fizemos o brinde combinado com os nossos vizinhos e o resto da tarde foi igual a outros domingos, com filmes e vinho.
O Isaac quis ir à rua dar uma corrida e perguntou se podia também pedalar. Foram 5 minutos de pura alegria.
Soubemos que havia uma multidão a passear na marginal e que a polícia actuou de imediato. Talvez nem toda a gente tenha, realmente, noção do que está a acontecer.
Não foi um dia mau. Nem bom.

Dia #9

21.3.20
Foi um sábado parecido com muitos outros, com a diferença de não podermos fazer uns intervalos para andar de skate e bicicleta. Normalmente, o Jaime vai abrir a vinharia e eu vou lá ter depois do almoço com eles. Às vezes vou antes e almoçamos todos lá.* Hoje, ficamos em casa e o Jaime foi para a vinharia sozinho fazer o que tinha de ser feito, mas veio almoçar connosco.
Fiz uma caminhada menos demorada que o costume por não me sentir confortável na rua, não sei se por causa do frio, ou da frieza circundante.
Era suposto o Nicolau adiantar os trabalhos em atraso da escola, eu fazer exercício com eles e ensiná-los a fazer tranças (eu adoro que me mexam no cabelo, é mais do que justo que os ponha a fazer alguma coisa que me relaxe). Escusado será dizer que o Nicolau não pegou nos cadernos e como se recusaram a correr na rua (onde não passam carros e, agora, quase nenhuma pessoa), cinco vezes para lá e cinco para cá, estivemos a dançar, mas por pouco tempo. Já não sei quem ganhou. Não consigo fazer nada com eles sem que tenha de dar uma nota (obrigadinha, escola!). Com as tranças não tive qualquer hipótese, recusaram e pronto.
Não li uma página do livro, nem depilei as sobrancelhas, mas fiz a massa com camarão ao almoço e a costelinha de porco no forno ao jantar, como estava programado. Podia sentir-me bem comigo própria por esta concretização, mas a verdade é que a única coisa que me tranquiliza, ou que me faz sentir normal, é cumprir o horário das refeições. Não interessa se comemos sandes, ou arroz de marisco, interessa que nos juntemos à mesma hora para comer (e beber vinho). Com, ou sem estado de emergência.
Ah, também demos banho à Catrina, coitada!

*deve ter chegado o momento de assumir que me sinto em quarentena quando vou trabalhar

Dia #8

20.3.20
Já não sei quantas vezes falei sobre ter medo aqui no blog, quer dizer, segundo a pesquisa que fiz menciono a palavra medo em 42 posts e em dois deles uso-a no título, mas estranhamente não sinto medo, agora, e ainda bem, porque em situações destas costuma ser o nosso pior inimigo. Estou preocupada e angustiada como toda a gente, claro, a incerteza do que nos espera pode ser muito desesperante, mas se pensarmos bem nós nunca sabemos o que nos espera. Arranjamos mecanismos para acreditar que temos tudo sob controle, mas não temos como controlar tudo o que nos acontece.
Percebo as pessoas que precisam de reinventar uma rotina para conseguirem trabalhar, cuidar dos filhos e tratar da casa mas se está tudo diferente porque se continua a fazer tudo igual como antes? Os mesmos horários, as mesmas tarefas, os mesmos problemas que se juntam aos novos problemas causados pelo estado de emergência.
Nós não fizemos grandes alterações à nossa rotina, tirando a hora de levantar, e estar em casa com crianças aos gritos, a cozinhar o almoço e o jantar, a ver se há alguma coisa importante para despachar no computador é um déjà vu. Também se dá o caso de me agradar não ter horas marcadas para trabalhar e de, nesta altura, não ter nada urgente para fazer. Além disso, estou a trabalhar com o Jaime há quase um ano, por isso estamos familiarizados com os problemas de um convívio intenso, quase sem vida social, e os miúdos passam a vida a dizer ''obrigada corona vírus por podermos ficar em casa''. Mesmo assim, hoje dei por mim a pensar o que podia mudar no nosso dia-a-dia para nos sentirmos melhor, mas logo a seguir achei que deixar andar e lidar com os problemas à medida que forem surgindo já está bem. Só tenho de decidir quando vou considerar um problema o tempo que eles passam a olhar para um ecrã, mesmo que seja a fazer coisas diferentes (falar e jogar com amigos, usar a escola virtual, ver TV, jogar playstation, ver youtubers...) ao longo do dia. 

Dia #7

19.3.20

Não há como estar nas redes sociais sem romantizar a vida, já se sabe. Mesmo as pessoas que, como eu, desvalorizam esse romantismo não conseguem evitar publicar fotos das suas viagens, pessoas, paisagens e animais de estimação.
Mas em relação à quarentena não me parece nada mau que se romantize, que se use e abuse de fotos bonitas e cheias de esperança. Sim, é um privilégio poder fazê-lo, mas não creio que evitá-lo sirva para alguma coisa.
Ontem à noite pedi cebolas à minha vizinha, pelo messenger, porque não gosto nada de fazer estrugido com alho e ela veio à varanda com um saco preso num pau e passou-me quatro cebolas. Comoveu-me este gesto, mesmo sabendo que faz parte das regras de boa vizinhança ceder um raminho de salsa, ou um bocadinho de sal quando somos apanhados desprevenidos.
Não faz mal querer acreditar na humanidade e que tudo se vai resolver e que mais vale tirar algum proveito deste recolhimento.
Se até o Mike Leigh conseguiu imaginar uma Poppy, nós também devemos poder ultrapassar isto com optimismo e sentido de humor.
Mas não hoje. Hoje, decidi fazer a aula de educação física que o professor do Nicolau enviou e quase morri. Das duas umas, ou as nossas crianças estão a ser torturadas na escola, ou sou oficialmente uma pessoa com muitos handicaps físicos.

Dia #6

18.3.20
Eu sei que há este nervoso miudinho no ar, em muitos casos não tão miudinho assim, mas hoje o que me está a perturbar é ter chegado à conclusão que sou uma pessoa muito mais limitada do que pensava, e olhem que eu até costumo inventar limitações que não tenho.
Primeiro foi a constatação que não sei nada sobre fracções, chego a duvidar se alguma vez aprendi tal coisa na escola. A discussão com a criança de oito de anos aqui de casa deixou-me perplexa. Depois, são os gráficos com o crescimento exponencial do vírus que toda a gente sabe analisar, no facebook, e eu fico a olhar para aquilo como um boi para um palácio.
Enfim, fico-me pelos Ensaios, mas não consigo deixar de pensar que o ensino das matérias fundamentais (matemática, filosofia, economia, linguística e física) deveria estar menos compartimentado e mais relacionado entre si.
Também fico perplexa com a adaptação das crianças a novas situações. Deixar de ir à escola, passar a ter aulas com os pais e ficar o dia todo em casa parece ser a coisa mais normal do mundo, como se tivessem vivido sempre assim.
Hoje, fui fazer uma caminhada e quando lhes disse que ia sair disseram-me naturalmente: ''Cuidado com o coronavírus. Leva uma máscara''. Muitas lojas estão  fechadas, mas há bastantes pessoas a passear na rua. As distâncias parecem ser cumpridas, no entanto vêm-se alguns grupos.
Ainda não comecei a aprender guitarra, não comprei o kit de tricot, nem tão pouco comecei a fazer ginástica em frente ao computador. A casa está como estava, quer dizer está ainda mais desarrumada.
Daqui a pouco deveremos ter mais informações sobre a declaração do estado de emergência do Presidente da República e não deixa de ser curioso ver os partidos de direita menos preocupados com a economia do que os de esquerda. É o fetiche do Estado policial, não é?

Dia #5

17.3.20
Sabem aquela cena de aproveitar a quarentena para ler, escrever, estar com a família e outras coisas assim giras? É uma falácia. Podem fazer isso tudo, é bom que façam (eu estou a planear aprender guitarra em 21 dias, mandar vir um kit da retrosaria, finalmente, e ficar tonificada com exercícios do youtube), mas não esperem fazer tudo o que planeiam, ou sentirem que isto era tudo o que esperavam e/ou precisavam, caso consigam. Quer dizer, pode acontecer, mas vai demorar, provavelmente, até recomeçarem a vida que tinham antes. Como é que sei? Porque eu, e muitas outras pessoas, já estiveram em quarentena em alguns períodos da vida, isto é, em licença de maternidade. É verdade que podemos receber visitas (mesmo que não nos apeteça), sair para um passeio (mesmo que o ar pareça demasiado rarefeito) e estar com amigos (mesmo que nos olhem desconcertados, não sabemos se pelo nosso ar, se pelos gritos da cria), mas não tenham dúvidas, os primeiros dois meses de um bebé (ou dois anos), sobretudo se for o primeiro filho, são uma quarentena. Porque a única coisa que conseguimos ver e ouvir claramente é o bebé, o resto está tudo envolto numa névoa, está como que noutra dimensão. Também pode ser que estejamos com depressão pós-parto, mas isso é outra história.
Além disso, eu sou igual ao Tyrion Lannister, sabem? ''Eu bebo vinho e sei coisas''. Portanto, vai haver muita gente a mostrar as cenas incríveis que está a fazer em casa, com filhos e sem filhos, vai haver quem se queixe (menos, porque essas pessoas estão em tele-trabalho e têm mais o que fazer), mas ninguém vai dizer toda a verdade. Portanto, façam o que vos der na real gana, sem deixar de seguir todas as recomendações, e não se preocupem.
Eu não sei como temos sido convencidos a fazer o que não gostamos para conseguir atingir os nossos objectivos, que nem sequer são os nossos, na maior parte dos casos. Mas é assim que temos vivido.
Por isso façam o que vos apetecer, dentro das vossas possibilidades, e se mesmo assim ficarem com uma depressão pós-crise, tratem-se (eu sei que não estou a ser coerente com aquilo de não estar aqui para ajudar, mas deixem-me ser neurótica, ok?).
Agora vou comer uma tosta mista, beber um copo de vinho (espero que seja só um) e ver um filme.

Dia #4

16.3.20
Acordei tarde. O Jaime tinha saído para vender vinho a um cliente que lhe telefonou. Pelo que tenho visto nos últimos dias, o vinho está na lista de bens essenciais a ter na despensa. Percebo perfeitamente e, tendo em conta que o nosso salário depende disso, agradeço.
Os comandos da TV desaparecem amiúde, os rapazes passam eternidades ligados aos telemóveis, ou computador e ainda não começamos a arrumar a casa, que parece ser o primeiro mandamento do recolhimento.
Comemos canja ao almoço e o resto da bola que o Jaime fez ontem, ou melhor que o Nicolau fez com a ajuda do Jaime. Nenhum do autoclismos funciona. Um já estava avariado há algum tempo, mas fomos adiando chamar um canalizador, depois de termos posto mãos à obra, à vez, e ter sido pior a emenda que o soneto. Agora avariou-se o outro, portanto temos de andar com baldes para cima e para baixo. Moral da história: Não se deve deixar muitas coisas para tratar quando aparecer um vírus.
O jogo de dardos que eles receberam no Natal foi finalmente pendurado. Só comecei a sentir que alguma coisa está diferente quando o Jaime me disse que a professora do Nicolau estava a marcar aulas online com os alunos. Por causa disso decidimos marcar duas horas por dia de trabalho académico para os dois, coisa que não nos tinha ocorrido antes, o que mostra a importância que damos ao percurso escolar dos nossos filhos.
Acabou há pouco a entrevista do Primeiro-ministro na SIC e não estava nada à espera de achar que António Costa esteve melhor do que Rodrigues Guedes de Carvalho, mas às tantas o pivot cumpriu um papel necessário.
Estou com as dificuldades respiratórias habituais das crises de rinite alérgica e a pensar quantos dos telefonemas recebidos pelos SNS24 são de hipocondríacos.

Corona vírus dia #3

15.3.20
A Luísa sugeriu o diário da quarentena e eu ri-me, mas pareceu-me uma ideia nada disparatada. Eu gosto de diários, mas como sempre os escrevi para serem lidos (alguém escreve só para si próprio?) pareceu-me arriscado nesta fase da minha vida. Quer dizer, eu posso apresentá-la, à minha vida, como quiser mas é verdade que precisamos de estar certos das nossas escolhas e acreditar que a nossa vida é, ou pode ser, tão boa como outra qualquer para a expor. Sim, também há gente com espírito missionário, que espera ajudar alguém com os seus desabafos e/ou exemplos. Nunca foi o meu caso, mesmo tendo já recebido emails de agradecimento e outras simpatias de alguns leitores.
Quer isto dizer que não estou a viver uma vida interessante, ou dramática o suficiente para estar na net? Pois, aparentemente assim parece. E, no entanto, sabemos que há poucas coisas mais susceptíveis de criar pathos do que as vidas normais. Sendo que neste momento, estamos todos a procurar a normalidade dentro da anormalidade provocada pelo Covid-19.
Posto isto, vamos lá ao diário.

Então, eu estou em casa com os miúdos desde sexta-feira. O Isaac foi à escola fazer o teste de matemática, porque não nos pareceu justo adiar um problema. Ele está a ter explicações a esta disciplina, esteve a semana a trabalhar para esse teste, por isso foi fazê-lo, já que as escolas estiveram abertas, apesar de se saber que tinham de fechar.
O Jaime foi abrir a vinharia e eu fui ajudá-lo em alguns momentos, enquanto os miúdos ficaram a jogar playstation em casa. No sábado foi mais ou menos a mesma coisa. Trouxe o computador para casa, não tanto para trabalhar mas para comunicar, porque parti o telemóvel. Sim, é justo eu ficar sem telemóvel numa altura destas, ninguém merece isso mais do que eu, sem qualquer ironia.
Portanto, só hoje é que estamos os quatro em casa, sem sair para almoçar, ou para um dos nossos habituais passeios domingueiros. Até agora o que posso dizer é o seguinte:

1) Os miúdos estão a ficar bons a jogar Party & Co
2) A minha mãe tentou convencer-me que não fazia mal nenhum ir lá almoçar, porque somos família
3) Várias mensagens e telefonemas depois consegui falar com a Bea, que disse estar a fazer a quarentena. Eu não lhe disse que devia vir visitar-nos, porque somos família, mas apeteceu-me
4) O Jaime esteve mal humorado, mas é possível que fosse da minha TPM
5) A Sarah Connor é, provavelmente, a melhor personagem de um filme
6) Lembrei-me que o blog fez 10 anos e decidi cozinhar para o almoço panados com arroz de tomate, mas como não tinha tomates fiz arroz branco.

Confinamento sempre combinou com blogs

14.3.20

Estava à procura de um post aqui no blog e, naturalmente, acabei a ler uns quantos. É sempre uma viagem quando isso acontece (é impossível dizer isto sem me lembrar de uma amiga, beijinho daqui até esse lado do mundo, Mara. Espero que as chuvas estejam mais calmas), mas pela primeira vez pareceu-me muito possível escrever um livro, ou seja, compilar algumas das coisas que escrevi aqui.
O que é mais curioso é ter começado o dia a pensar, enquanto estendia a roupa para secar, como era descabido esperarmos que as pessoas lessem desabafos de mães bloggers preocupadas com os seus quotidianos de merda, quando o mundo está como se sabe.
Não quero desvalorizar esses quotidianos, que foram e são os meus, mas não me interessam mais, por isso não posso esperar que o meu interesse a alguém.
E, no entanto, aqui estamos, todos no mesmo barco, fechados em casa com as crianças, à mercê de um vírus, como em muitas outras ocasiões.
Se calhar podíamos voltar ao blogs e ver no que dava. Não seria a primeira vez. Aliás, este programa da RTP2 que nos mostrou a inigualável Helena Araújo, deve querer dizer isso mesmo, não?

A foto foi publicado no meu primeiro blog (Penso Logo Digo), em 2006

Tenho problemas

2.3.20
Gostava muito, muito de saber o que diz sobre mim o facto de ter comprado online, logo pela manhã, um biquíni. Repito, um biquíni!!!

Deixar de ser o que fomos

27.2.20
Acordei a pensar que tinha de começar a praticar exercício, que as caminhadas mais ou menos assíduas não são suficientes, que já chega de não conseguir enfiar-me em roupa que me ficava larga e tal e tal. Depois do café e croissant com queijo fui pesquisar ginásios na Póvoa, só de olhar para as imagens e nomes das modalidades comecei a achar que o circuito do Parque da Cidade é espectacular e que se calhar podia direccionar a minha força de vontade para aí. Não demorou muito a decidir que tinha era de intensificar as caminhadas e comprar roupa.
Entretanto é meio-dia e noto que ocupei a minha manhã com esta preocupação. Fui tratando de assuntos que tinha a tratar, claro, mas o tema 'ficar em forma' ficou a rebolar na cabeça e com ele todos os outros pendentes - tratar não sei o quê nas finanças, pagar umas contas, as fotos (e os conteúdos) que faltam no site, as mensagens e emails que devia ver respondidos e por aí fora. É por isso que as pessoas passam a vida ocupadas sem fazerem nada de útil. 
Ainda me levantei do computador para dançar não sei que música do spotify, ou da radar, mas trouxe um vestido transformado em camisa que está apertado nos braços e eu danço muito com os braços e como nem o Nicolau, que está de férias esta semana, se mexeu a não ser para me mirar de cima a baixo com um certo desprezo, desisti. 
É a desistirmos de coisas assim, aparentemente pequenas, que vamos desaparecendo. De desistência em desistência deixamos de ser o que fomos, o que somos. E, em alguns casos, é uma pena.

A foto é do Paulo Ricca, de 2006 (acho)

Rejubilemos

14.2.20

Rejubilemos, o sol chegou à Póvoa de Varzim! Jaime, esquece o que disse hoje de manhã, meia a dormir, talvez a Póvoa não seja uma cidade má (reparaste que sublinhei o talvez?).
Bom, é possível que a minha costela celta seja de uma tribo diferente da que predomina nesta geografia, pelo que devia fazer uma regressão, ou outra cena assim new age, para compreender de onde me vem esta animosidade. Pronto, agora vou ter de ir à biblioteca ler sobre celtas e vikings, o google não me ajudou grande coisa nesta matéria.
Mas, dizia, o sol chegou e, sabe-se lá, podemos encontrar um trevo de quatro folhas, ou tropeçar num significado para a nossa vida.

Uma pessoa triste

8.2.20

Dois anos depois de ter regressado a Portugal voltei a sentir-me como antes de sair daqui. Voltei a acordar sem vontade de sair da cama, a ter de fazer um esforço para executar as tarefas mais básicas, a engatar os pensamentos uns nos outros, a ter medo de enlouquecer...
Tem vindo a acontecer, claro, não foi assim de repente, mas percebi claramente que tinha chegado ao mesmo ponto quando dei por mim a ler a entrevista póstuma a George Steiner no El País, a ponderar assinar o Expresso Digital para ver o que Kirk Douglas, ou Issur Danielovitch Demsky, disse aos 100 anos a propósito da sua longevidade, que atribuiu ao amor e às longas conversas com a mulher, Anne Buydens, a fazer scroll down no artigo sobre Dorothy Parker e, por causa disso, ir procurar a Mesa Redonda de Alonquin. Tudo isto sem retirar grande prazer das leituras e com a sensação de que devia estar a fazer outra coisa.
Não tenho feito as caminhadas habituais, deve ser por isso. Fiquei a pensar se os meus filhos olham para mim como uma mãe deprimida, mesmo que não saibam exactamente o que isso significa (nem eu, por acaso) e mandei mensagem à que já tem idade para perceber. Ela respondeu: «Não me lembro em que ponto é que realmente me apercebi disso, até porque durante muito tempo foi só um conceito abstracto, mas sinto que sempre tive a noção que eras ''triste''».
Pronto, se calhar eu sou uma pessoa triste, com muitos momentos de alegria e outros de grande alegria. Não há-de vir grande mal ao mundo por causa disso.

O que vai ser o comer

30.1.20
Passou uma música na Radar a louvar a rotina, uma rotina em particular, pareceu-me. Achei piada ao ritmo e à letra mas quando a Inês Meneses falou no Sambado já não ouvi (eu faço parte do grupo das pessoas que não aprecia trabalhar e ouvir música ao mesmo tempo).
Depois, as horas foram passando e eu fui dando por mim a pensar onde comprar o peixe para o jantar, na logística para ir buscar o Nicolau à escola e outras coisas mundanas. Troquei mensagens com o Jaime sobre o jantar, enquanto tratava do almoço do Isaac, e fiquei deveras perturbada com esta minha obsessão do que vai ser o comer.
Na verdade é mais uma obsessão do pequeno lá de casa do que minha. Sempre que o vamos buscar à escola a primeira pergunta que faz é: ''o que vamos jantar?'' Depois compara com o que almoçou e reclama, ou rejubila consoante a ementa apresentada.
Nunca mais me esqueci do dia em que lhe disse que o jantar era strogonoff, o que lhe agradou imenso, mas depois recusou-se a comer, porque o arroz devia ser branco e era de cenoura. ''Não se come strogonoff com arroz desta cor!'', disse ele em prantos.
Bom, depois da troca de mensagens pareceu-me claro que as refeições diárias são o compasso das minhas rotinas.
Entretanto, apeteceu-me escrever sobre as rotinas e por isso lembrei-me da música que tinha ouvido de manhã. Como não consegui descobrir qual era, perguntei ao Jaime (que faz completamente parte do grupo das pessoas que não sabem trabalhar sem ouvir música) e ele esclareceu-me, no exacto momento em que a música passava novamente na rádio, que se tratava da Jóia da Rotina.
''A jóia da rotina/ A jóia da rotina/ É voltar cedo pra casa/ Deixar o ouro na mina''.
Ele há coisas!

Segunda-feira

27.1.20

Os miúdos não foram à escola, hoje. Nenhum de nós conseguiu acordar a tempo, ou melhor, nenhum de nós achou que valia a pena o esforço, depois de ouvir as sete badaladas numa igreja e mais sete na outra (só espero que nenhuma das professoras deles leia este blog e vá procurar a justificação de faltas). E apesar de ter passado a manhã a centrifugar a roupa, que passou a madrugada a apanhar chuva, e a fritar panados para o almoço, mantive o humor típico de quem fez um manguito ao sistema.
Claro que ajudou ter acordado com vagar e ficar a olhar para o fac-símile do Egon Shiele, na parede em frente à nossa cama, enquanto pensava no filme sobre Maria Madalena e me ocorria que tinha de haver uma relação entre estes e o desaparecimento de Percy Fawcett .
Obviamente, abri uma garrafa de vinho ao almoço, ao contrário do que é habitual a uma segunda-feira.

Como seria?

22.1.20

Estou convencida que a minha ideia para salvar o mundo, apesar de distópica, teria a grande vantagem de vermos que espécie humana adviria daí.
Parece-me que devo andar a pensar nisto há algum tempo, uma vez que cumpro parte do que proponho (ou será que proponho precisamente por isso?). Então, a minha sugestão é que cada um de nós viva com o que consegue fazer. E só com isso. Se eu quero comer carne tenho de matar o animal.  Se gosto de ter a casa a brilhar e tudo arrumado nos armários perco o tempo necessário para o fazer, em vez de contratar uma mulher a dias. Para andar vestida e calçada não sugiro que confeccionemos as nossas próprias roupas e calçado, mas devemos pagar tudo o que está associado a uma peça, desde a matéria prima, passando pelos processos de transformação, até à mão de obra. Nesta realidade não faltariam os alimentos básicos à subsistência: pão, fruta, legumes e algum leite, assim como tecidos e roupas usadas, mas tudo para além disso teria de ser feito por quem aspirasse a mais.
A distância entre o trabalho e a escola deve ser a que conseguirmos fazer a pé. Se não for possível usem-se as carreiras, vulgarmente conhecidas por transportes públicos, ou as carroças puxadas a cavalo, como ainda usam algumas lavradoras de Aguçadora. Sim, estou a sugerir vivermos todos como eu vivia há 35 anos, ou seja, antes da CEE. A diferença é que nessa altura havia mais pobres (agora considerados classe média)  do que ricos, que não tinham mais do que um carro por família.
Não temos de culpar o desenvolvimento, a globalização e o capitalismo (se bem que este último...devia haver gente, ou mais gente, a estudar a razão para reproduzirmos sistemas que nos aniquilam mais do que nos ajudam) pelo estado a que chegamos, mas agora que já vimos onde viemos parar, como seria se recomeçássemos?