Todas as histórias têm o final que quisermos

3.7.15
Era uma vez uma rapariga que decidiu fazer o seu próprio fato de banho, porque ia viver para um país tropical e não tinha nenhum. Então, foi a uma loja que vende retalhos de tecidos muito baratos e comprou um que lhe pareceu muito bonito, apesar de pouco adequado para o uso que lhe queria dar. Pagou o 1,95€ e trouxe-o para casa.
Depois de encontrar o modelo certo no Kitschy Coo, lá começou a converter inches em centímetros e a desenhar os moldes. A certa altura pareceu-lhe evidente que aquele seria um projecto falhado, mas mesmo assim continuou.
Depois de alinhavar e experimentar o fato de banho, ainda sem a parte das mamas, confirmou que não conseguiria fazer daquele belo tecido o fato de banho que imaginara. A rapariga ficou um bocadinho triste e sentiu-se de repente cheia de fome. Decidiu comer uma banana e viveu feliz para sempre.
Vitória, vitória acabou-se a história.

Sítio mágico

30.6.15
Os meus vizinhos das sonatas de Mozart (acho eu) deram uma festa de aniversário no maravilhoso quintal deles. Estava na cozinha a ouvir a banda sonora da festa, que incluía o "Anel de Rubi", do Rui Veloso, e senti-me tentada a abrir a janela para espreitar, mais uma vez, as traseiras da minha casa.
Estas são as melhores vistas que alguma vez tive, e já vivi numa casa com vista para o Tejo.
Não se via nada para o quintal dos vizinhos, claro, mas via-se uma lua que não era quarto crescente, nem meia lua, nem cheia e que parecia mesmo a cara de uma pessoa que nasceu com lábio leporino. Era igual à cara da prostituta  que costuma estar em frente à sapataria e que me faz lembrar a miúda (linda de morrer) que frequentava o 207, no Porto.
Também se viam coisas estranhas no céu, tipo um balão de S. João a passar mesmo à frente dos meus olhos, e luzes que pareciam estrelas, ou vice-versa, mas sobre isso nem vale a pena falar que eu tenho fama de ver coisas que não existem.
Mas o casal na janela iluminada não foi uma visão. Estavam os dois na cozinha, ele em tronco nu, ela em t.shirt e cuecas. Parecia que havia qualquer coisa de sensual sempre que se cruzavam a arrumar coisas no armários, mas deve ter sido impressão. A certa altura acho que discutiram, depois sentaram-se e ela bebeu uma cerveja.
A cidade, às vezes, parece-me um sítio mágico.

P.S Como devem ter reparado o blog está diferente, a Sílvia pôs isto assim bem mais bonito e a funcionar como deve ser, mas infelizmente perderam-se os últimos comentários. As minhas desculpas.

Sozinha

25.6.15
De todas as coisas difíceis de ser (temporariamente) mãe solteira, a pior é aquele momento em que eles perguntam se podem sair da mesa, depois de jantar, e eu fico a ouvir a Radar sem ninguém com quem conversar,ou discutir, enquanto eles pintam a manta. Literalmente.

Despedida

23.6.15
Ando, aos poucos, a despedir-me de Lisboa. Acho que há sete anos não me despedi assim do Porto, porque com o Porto foi sempre um até já.
É verdade que aqui nunca me senti verdadeiramente em casa, mas de alguma forma Lisboa também é minha. Sinto-a, já, incrustada na pele.
Vou ter saudades desta cidade. Sei disso, sempre que subo ao Miradouro da Senhora do Monte, sempre que ouço as sonatas de Mozart que os meus vizinhos tocam, sempre que vou a um restaurante paquistanês que me deixa beber cerveja da loja do lado, sempre que compro fruta portuguesa numa frutaria chinesa, sempre que tenho de fechar os olhos por causa da luz do sol na calçada, sempre que passo na fábrica do gelado, sempre que ouço música num dos jardins, sempre que passo a mão no tronco rugoso da oliveira, junto à Casa dos Bicos...
Ando a despedir-me aos poucos e, de repente, essa parece-me uma forma de vida como outra qualquer.

Rumo a Oeste

19.6.15

Comprei o Caminhada, de Henry David Thoreau, na Feira do Livro, porque os rapazes decidiram sentar-se a pintar desenhos entre a Orfeu Mini e a Antígona. Quando vi onde estava percebi que não ia ser fácil sair dali sem um livro, mas também, quer dizer, nem sei o que parecia vir para casa só com dois livros da Bruxa Mimi.
Ali estava eu, portanto, com a Eudora Welty a chamar por mim, o Bukowski a piscar-me o olho e o Thoreau a acotovelar-me. Na verdade o livro estava destacado e com um preço de saldo muito jeitoso, mas eu andava há que tempos para ler este senhor, por causa do que o Vila-Matas disse sobre ele, não sei se n' O Mal de Montano, ou outro qualquer, porque todos os livros do escritor catalão me parecem um só. Acho que é uma coisa que os grandes escritores têm em comum, aliás.
Bom, comecei a ler o livro e fiquei logo fascinada com a teoria de que um subtil magnetismo da natureza faz com que as pessoas tendam a caminhar para Oeste, e que é também nesse sentido que a evolução da humanidade se faz.
Ora, estando eu prestes a iniciar uma caminhada para Este fiquei a pensar que, então, estou a andar ao contrário e deu-me aquele nervoso miudinho como se isto fosse um aviso. Mas depois ocorreu-me que estando na América, seguindo sempre para Oeste vamos ter à Ásia, o rumo certo, portanto. Aliás, logo a seguir o próprio do autor diz isso mesmo.
"É rumo a oeste que compreendemos a história e que nos debruçamos sobre as obras de arte e da literatura, refazendo o percurso da  raça; e é rumo a oeste que caminhamos para o futuro, com espírito aventureiro e empreendedor.O Atlântico é como o rio Letes: na sua travessia tivemos oportunidade de esquecer o Velho Mundo e as suas instituições. Se não formos bem-sucedidos desta vez, talvez reste à raça outra oportunidade de alcançar as margens do Estige; refiro-me a esse outro Letes que é o Pacífico, e que é três vezes mais largo."
Um visionário, este Thoreau (quer dizer, o homem achava que se devia trabalhar um dia por semana e descansar seis), e muito à frente do seu tempo, já que em meados do século XIX foi viver para o meio da floresta, praticando a auto-suficiência, durante dois anos. Uma experiência que ele relatou em Walden ou a Vida nos Bosques, porque na altura não tinha um blog. 

Desenquadrada

18.6.15
Uma pessoa sabe que vive completamente desenquadrada do mundo que a rodeia quando:
1) Relaxa com um fino fresquinho e uns amendoins, depois de ir buscar os miúdos à escola;
2) Percebe que o momento stressante do dia foi encontrar o balão e a corneta que prometeu aos filhos antes de irem para a escola, ou seja, naquele momento do dia em que ainda não se raciocina.

Pêssegos

18.6.15
O Isaac não compreende porque demoro tanto tempo a acordar. Uma destas manhãs, farto de esperar, foi perguntar-me se queria que ele me penteasse. Fiquei comovida com aquela tentativa de me fazer sair da cama mais depressa.
Hoje, entrou no quarto muito preocupado, porque tinha acontecido alguma coisa aos pêssegos. "Como assim?", quis saber e ele: "Juro, nem imaginas, os pêssegos estão assim (fazia gestos com as mãos) todos achatados!". Ri-me e saí da cama.
Comprei uma variedade nova de pêssegos (nova cá em casa) e, por causa disso, acordei mais depressa. Quem diria.


Manias

15.6.15

Eu costumava achar estranhos certos hábitos que algumas crianças têm para adormecer, tipo enrolar o cabelo das mães, ou enfiar as mãos dentro da camisola, até ter um filho que quer dormir com um prato de azeitonas na mesinha de cabeceira para poder comê-las mal acorde.
Sim, comeu-as todas ao pequeno-almoço.

À procura da felicidade (num sábado à noite)

14.6.15
Ontem à noite aluguei um filme bastante parvo. Até certa altura estava com esperança que fosse nonsense mas não, era mesmo só mau. De qualquer forma, achei que devia tomar nota das descobertas sobre o que é a felicidade, que o psiquiatra foi fazendo ao longo da sua viagem.

1- Fazer comparações pode comprometer a felicidade.
2- Muitos pensam que a felicidade é ser mais rico, ou mais importante.
3- Muitos só vêem a felicidade como uma coisa futura.
4- Felicidade pode ser a liberdade de amar mais do que uma mulher ao mesmo tempo.
5- Às vezes, a felicidade é não saber a verdade toda.
6- Evitar a infelicidade não conduz à felicidade.
7- Essa pessoa fá-lo sentir-se predominantemente a) Bem ou b) Mal?
8- Felicidade é seguir a nossa vocação.
9- Felicidade é ser-se amado pelo que somos.
10- Guisado de bata-doce.
11- O medo é um entrave à felicidade.
12- Felicidade é sentirmo-nos completamente vivos.
13- Felicidade é saber como festejar.
14- Ouvir é amar.
15- A nostalgia já não é o que era.

Fim de um ciclo

12.6.15





Ontem, fomos ao São Jorge assistir ao último concerto da Bea enquanto aluna da Escola de Música do Conservatório Nacional. Escusado será dizer que chorei baba e ranho, sobretudo na Chamateia, enquanto visualizava mentalmente os últimos seis anos.
É uma escola muito especial e tenho muito pena que ela tenha de a deixar. Ela também, claro, sobretudo por causa dos amigos, mas não chora baba e ranho, nem coisa que se pareça.
Sendo tão pouco sedentária, não percebo porque me custa tanto abandonar os sítios e as pessoas.

P.S E depois, é incrível andar à procura de fotos dela no conservatório e perceber que não tenho. As duas de cima foram tiradas pela escola.