Três anos muito bons

6.12.19

A minha filha pediu-me fotografias dos anos 80, em que eu aparecesse com amigos e familiares, por causa de uns figurinos em que está a trabalhar e agora ando aqui comigo aos 18 anos colada a mim. Voltar a estas fotografias, quando passo todos os dias pelo liceu, é como separar camadas de uma bebinca (já agora, podem sempre acompanhar esta iguaria com um colheita tardia, ou um Porto branco envelhecido em madeira. Sim, ando viciada nisto de fazer pairings).
E é como se estivesse a olhar para mim e para a minha filha, com a mesma idade, mas com receitas de bebinca diferentes.
Depois, ela comenta que muita gente da turma dela do 10.º ano da António Arroio se vestia exactamente como a minha turma do 10.º ano da Eça de Queirós e eu fico ainda mais baralhada entre as camadas das diferentes bebincas.
É que o mundo até pode pular e avançar, como na canção, mas há coisas que permanecem: o embate do nascimento de um filho, a dilaceração da perda de alguém, o estonteamento da paixão e, claro, a energia dos 16,17 e 18 anos.
Tenho-me visto a olhar para mim com essa idade de outra forma e apetecia-me tanto entrar no liceu, ou no Mabri, para me dizer ''tu és tão melhor do que pensas, miúda, mas tão melhor!''
Foram três anos muitos bons, estes do 10.º ao 12.º ano, determinantes mesmo. Às vezes cruzo-me com um ou outro professor dessa altura e não consigo deixar de me emocionar.

P.S  Caros amigos do 10.º G? H? desculpem estar a publicar uma foto sem autorização, se for caso disso ponho um daqueles smiles nas vossas caras, sim?


Pai Natal e outras conversas

28.11.19




Eu - Vocês continuam a acreditar no Pai Natal?
Isaac - Eu sim.
Nicolau - Não. Por várias razões, primeiro nunca o vimos. Depois, porque ele não cabe nas chaminés.
Isaac - Cabe em algumas.
Nicolau - E daquela vez que ele estava a chegar e fomos espreitar à janela e quando voltámos as prendas já estavam no sítio? Não faz sentido.
Eu - Então quem é que achas que dá as prendas?
Nicolau - Os pais.
Eu - Certo. Quer dizer que vais compreender se não receberes o que pediste, porque sabes que os pais podem não ter dinheiro?
Nicolau - Afinal, acho que acredito no Pai Natal.
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Isaac - Quero perguntar-vos uma coisa, mas se calhar vão-se chatear.
Eu e pai - Claro que não. Não há razão para ficarmos chateados com uma pergunta.
Isaac - O que é sexo?
Eu - Eu acho que tu sabes o que é, mas se queres falar connosco sobre isso, outra vez, podemos responder.
Pai - O que queres saber exactamente?
Isaac - O que é sexo.
Eu - Pode ser aquilo que destinge o masculino e o feminino, ou aquilo que os adultos fazem para ter filhos. Ainda que também possam fazer sexo quando gostam muito um do outro, mesmo que não pensem em ter filhos. 
Isaac - Quer dizer que tu já fizeste sexo três vezes?
Eu - hmmm, pois, quer dizer mais ou menos isso.

(Foto: Eles, em Souto da Velha, depois das vindimas em Freixo de Espada à Cinta e depois de recolherem fósseis num terreno em frente)

Idiossincrasias

18.11.19
Cortei as repas. Não me ficam muito bem, mas às vezes é preciso acreditar que consigo fazer melhor do que prender o cabelo todos os dias e lavá-lo uma vez por semana.
É verdade que já não quero ser bonita como as minhas amigas, mas quero envelhecer bem, ou seja, parecer mais nova do que sou. Não é fácil, tendo em conta as vezes que acordo de ressaca e que o meu exercício físico é caminhar, mas acredito sempre que é possível. Até perceber que não é.
Tenho de aceitar as minhas idiossincrasias, pronto. Por exemplo:

>Fico um bocado irritada quando algum de nós fica doente, porque me parece uma falha. Como se fosse uma coisa que podia ter sido evitada, tipo chegar atrasada aos compromissos. Não percebo as pessoas que se atrasam, nem as que ficam doentes. E eu fico doente amiúde.

>Dou zero importância ao telemóvel. Fica muitas vezes esquecido em casa, ou sem bateria, sem que isso me causa qualquer ansiedade, como acontece com o Jaime, que ''por acaso'' tem de atender, ia dizer montes de vezes mas já pouca gente me telefona, chamadas para mim.

>Nunca me lembro que alimentos os meus filhos não gostam. Eu argumento que é por eles estarem sempre a mudar de gostos. Uma semana adoram bacalhau, na outra odeiam, mas já perdi a conta às vezes que ouvi ''EU NUNCA GOSTEI DISTO''. Na verdade, agora só tenho esse problema com o mais novo e tinha esquecido que a Bea se queixava do mesmo, até receber a mensagem: ''Até achei algo hilariante 18 anos depois ainda não te lembrares que não gosto de ameixas''.

P.S Não tirei foto às repas e hoje prendi-a com travessões, por isso mostro depois, se me lembrar.

Fora do poço

25.10.19
Algumas pessoas dizem-me que é uma pena eu não escrever no blog como escrevia, referindo-se, na maior parte dos casos, ao tipo de registo e não à frequência.
Mas eu já não sou uma dona de casa desperada (sabiam desta definição da Wikipédia?!), por isso é mais do que normal que não escreva sobre as mesmas coisas, ainda que haja toda uma enciclopédia do quotidiano que podia, e devia, ser escrita.
Há o post da cadela Catrina, que foi recolhida da rua com as mamas cheias de leite sem cachorros à vista, ou o dia em que fui substituir a minha mãe a cuidar da minha avó, e notar que cuidar é alimentar e trocar fraldas. A peça de teatro, de domingo à tarde, também dava um belo post, e as obras na minha rua davam muitos.
E depois há o poço da tristeza em que me afundo muitas vezes. Acho que não se nota muito que estou dentro de um poço, consigo funcionar quase normalmente, apesar de ser muito pouco prático andar por aí enfiada num poço*. Às vezes até consigo vir à superfície e tudo. Nessa altura faço festas no cabelo sempre despenteado do Isaac, olho para o fundo dos olhos escuros do Nicolau e vejo que guardam já preocupações, tantas preocupações nuns olhos tão pequenos! O Jaime nem sempre sei onde está, mesmo que esteja ali ao meu lado.
Também gosto de calçar as meias tricotadas por mim e olhar para os meus pés fora do poço.


*tentei desenhar a rapariga despenteada a caminhar pela cidade dentro de um poço, mas não consegui. É pena, porque dava um desenho bonito, acho eu.

Mindfulness

16.10.19
Na caminhada pela manhã cedo, a levar com o vento nas trombas, comme il faut na Póvoa, ia pensado na roupa que tinha de tirar da máquina para secar na lavandaria, na logística do almoço com o que sai da escola a essa hora (a vinharia não fecha), no que improvisar para o jantar com os itens do frigorífico e congelador, nos conteúdos que faltam para o site avançar, no que queria escrever no blog, no dentista, no sutiã que preciso de comprar (estou sempre a precisar de comprar sutiãs, eu sei, mas é porque nunca compro, ou quando o faço trago o errado. Sim, já devia ter deixado de usar), nas encomendas de Natal (eu a pensar no Natal em Outubro, quem diria!!!!). Depois, desligava e olhava para o mar, respirava e contava os passos na inspiração, seis, e na expiração, oito, e apercebia-me da sola dos pés, das canelas, dos joelhos e por aí fora e notava que a paisagem era bela, sim senhora, que o vento não tinha de ser desagradável, que é um privilégio poder fazer estas caminhadas, que se calhar não é impossível fazer o caminho até Santiago com o Isaac, como a mulher com os dois filhos que passou por mim, e por pensar no Isaac ele tem teste de Português amanhã, vai ser um problema fazê-lo perceber a importância de estudar, de ter um método de estudo, mais cedo ou mais tarde. Eu nunca gostei de estudar para os testes, nem nunca o soube fazer muito bem, era com o que ouvia nas aulas que me safava e até certa altura fui-me safando muito bem, depois já não. Agora ninguém está à espera que os miúdos se safem, têm de ser brilhantes, no mínimo.
-Não achas que as gaivotas fazem isto (planar ao vento) por puro gozo?, ouvi o Jaime perguntar.
-Não creio, todos os comportamentos animais têm como finalidade a sobrevivência, ou a procriação, respondi.
Olhei para as gaivotas, inspirei e contei seis passos, expirei e contei oito.

Dez anos em 19 anos

30.9.19

O Isaac fez dez anos, a Maia morreu no mesmo dia.
A Maia morreu no dia em que o Isaac fez dez anos.

Não dá para falar do dia em que festejamos o aniversário do nosso filho (ontem) e o da morte da nossa gata de 19 anos no mesmo post. Mas também não dá para falar de uma coisa e outra separadamente, quando aconteceram no mesmo dia. Melhor não falar. Não, melhor falar.

Portanto, descemos as escadas às 7h da manhã, confirmamos que a Maia não respira, mas se calhar está viva. Demoramos sempre a acreditar na morte. Sabemos que vamos ter de pegar nela, depois de colocar o cobertor na caixa de cartão. Ela está morta mas não vai para dentro da caixa sem alguma coisa que a aconchegue. É a primeira vez que lidamos com os aspectos práticos da morte de um animal de estimação. Talvez ela não esteja morta, apesar das evidências. Demoramos sempre a acreditar na morte. Cubro-a com o cobertor e fecho a caixa. Agradeço-lhe mais uma vez ter feito parte da nossa vida. Entrego a caixa ao Jaime para a levar à casa da minha mãe, para a enterrar. Sei que teve uma vida longa e feliz, supondo que sei o que é a felicidade para um gato.

Subo e o Isaac chama por mim. Vou ao quarto dar-lhe os parabéns e ele pergunta onde foi o pai. Invento qualquer coisa e digo-lhe que pode vir deitar-se na minha cama, se quiser. Não consigo evitar as lágrimas que correm como rios dos olhos para as orelhas, mas eles não percebem, felizmente (o Nicolau também se tinha juntado a nós). O Isaac faz anos, merece a festa que idealizou. Estamos à espera do Jaime para abrir a prenda. Depois vamos sair para ir buscar o bolo, os amigos e seguir para o Porto. Pode ser que ele não se aperceba que a Maia não está, ela já não se fazia notar muito nos últimos dias. Não tenho a certeza de conseguir travar a nascente dos olhos, mas consigo.

Mais tarde, no final do dia, quando lhe disse que estávamos tristes por a Maia não estar em casa, tanto um como outro demoraram a perceber. ''Fugiu de casa?''- perguntou um. ''Está no veterinário?'' - perguntou o outro. O Isaac chorou desalmadamente e sentiu-se culpado por não ter percebido o que tinha acontecido - ''não vês que parece que eu não me preocupo com a Maia'', dizia entre soluços. O Nicolau quase não chorou.

De todos os que vivem comigo, a Maia era a que estava há mais tempo. E o Isaac o que mais se preocupava com ela, por isso gostou da ideia de a nossa gata, de a minha gata, ter escolhido ir para um sítio melhor num dia tão especial.

Bom ano

17.9.19

Devo estar deprimida, ou seja, devo estar consciente do que se passa à minha volta, porque o início deste ano lectivo não se encheu de confetes, que são as expectativas que todos criamos à volta da vida das nossas crianças.
Dei por mim a fazer comentários jocosos às fotografias das criancinhas no primeiro dia de escola até o facebook me mostrar uma ''memória'' de 2011, onde constavam as minhas criancinhas no primeiro dia de escola, precisamente.
Por causa disso fiz umas pesquisas aqui no blog e só não fiquei pasmada com o que já enchi a minha vida de domesticidade, porque ainda tenho muito presente esses maravilhosos e terríveis tempos do passado recente (a sério que eu fazia posts destes? e destes? ___[inserir emoji com ar aterrorizado, ou outro que se adeqúe] e isto só na etiqueta 'lavores'!).
Bom, mas a domesticidade não é tão aterradora agora, o que quer dizer que os filhos pequenos dão mesmo muito trabalho, mas não deixa de ser aborrecida. Não a parte de preparar e destinar os legumes, ou regar as plantas e fazer bolos com o Nicolau, mas quase tudo o resto. Vocês sabem, limpar, arrumar, encaixar os tupperwares e respectivas tampas no armário, varrer o cotão, lavar as piaçabas, mesmo achando que deviam ir para o lixo...
Não tem de ser dramático, até temos máquinas que lavam louça e roupa, só que é. Sobretudo, porque nem todas(os) podemos ser a Sarah Affonso que confirmou ''o seu projecto plástico nas pequenas coisas do quotidiano, sem distinção entre artes maiores e menores, entre pintura e bordado, entre cerâmica e desenho de jardim''.
Emília Ferreira, directora do Museu Nacional de Arte Contemporânea/Museu do Chiado, até diz que a quinta de Bicesse, que Sarah Affonso comprou com Almada Negreiros, ''é a continuação lógica da diversificação artística que as vanguardas valorizavam .''
Se ao menos as vanguardas de agora valorizassem montras, se calhar eu podia aspirar a ser artista (inserir mais emojis).

A minha forma de ser

5.9.19
Num diálogo hipotético dizia a alguém: ''se calhar não gostas da minha forma de ser'' e depois fiquei a ouvir o eco ''forma de ser... forma de ser... forma de ser...''. Enfim, é o que dá acordar às quatro da manhã. Adiante.
Quando estava a sentir o sono a chegar novamente, achei que devia apontar para me lembrar quando acordasse, mas não tenho lápis nem papel na mesinha de cabeceira. Pelos visto não foi necessário.
A expressão ficou a ecoar na minha cabeça por me parecer provocatória, como se para sermos tivéssemos de partir de uma forma, isto é, de um molde. Como se no início houvesse uns quantos moldes e a partir daí se formassem todas as pessoas.
Não sei se me calhou um molde mais defeituoso, ou se a minha matéria não tinha o que era necessário, como quando um bolo afunda no meio, para a minha forma de ser tornar-se menos apreciada.
Seja como for, há pessoas muito irritantes que conseguem ser interessantes e ter uma vida boa, como a Lindsay e o Frank, por exemplo. E não me venham com o detalhe de essas pessoas serem personagens, que toda a agente sabe que a realidade ultrapassa, muitas vezes, a ficção.

Agosto é fodido

26.8.19
Quando me perguntam há quanto tempo regressei de Timor, tenho de pensar duas vezes, porque vim viver para a Póvoa em Janeiro de 2018, pelo que a resposta ''há um ano'' não é muito desfasada, mas já estava em Lisboa desde Setembro de 2017, portanto estou cá, em Portugal, há dois anos.
E por aqui se vê que um ano pode não fazer tanta diferença na vida de uma pessoa, como um minuto, que há-de ter sido o tempo que demoramos a tomar a decisão de eu e os miúdos não regressarmos a Timor.
Não é sempre claro quando estamos a viver um desses momentos decisivos. Muitas vezes só em retrospectiva percebemos isso. Aquele beijo, aquela viagem, aquela entrevista de emprego...
Outras vezes, essa percepção pode ser muito evidente no momento em que está a acontecer, mas é raro, acho eu.
Foi um momento desses, ou vários, que me trouxe aqui, às minhas novas funções de ''vineuse'', que é uma categoria inventada pela Dora.
E agora, com os rapazes a passar muito tempo no armazém da vinharia, mais por vontade deles do que nossa, é inevitável pensar o que guardarão eles destes momentos. Espero que o roblox e o Filipe Neto não ocupem mais espaço na gaveta da memória do que as garrafas em volta e as conversas sobre vinho.
Mas o vinho tem um poder especial, que leva alguns deles, a dada altura, ''a cruzar-se na vida de muita gente e a fazer parte da sua história e da sua passagem terrena'', como contou o Pedro Garcias na maravilhosa crónica, em três partes, ''O dilema de António perante uma garrafa de Henri Jayer de 1970''. Por isso, eu sei que será o vinho, as histórias à volta do vinho, que eles guardarão destas férias grandes.

Chegada a este ponto, e depois de reler várias vezes o que escrevi, parece não fazer muito sentido o que estou para aqui a dizer. Acho que não sei o que quero dizer, na verdade.
No fundo, estou mergulhada em incertezas, como é natural, numa espécie de turvação (turvidade), como se estivesse debaixo de água.
Mas é Agosto, já devia saber. Foi num Agosto que morreu o meu pai e foi num Agosto que tive um acidente grave de carro.
Pois é, só agora me apercebi que faz hoje dois anos que sobrevivi a um acidente de carro. Tenho de celebrar.

Embebedai-vos

14.8.19

Calcei umas meias com um buraco, vesti um sutiã que já devia ter ido para lavar e pensei: ''Espero não ter de ir ao hospital''.
Eu, como toda a gente, espero nunca ter de ir ao hospital, mas é preciso calçar umas meias rotas e um sutiã encardido para me lembrar disso. Bom, mas a ter de ir é sempre melhor ir apresentável, claro.
Depois ocorreu-me: ''Quantas pessoas andarão, hoje, na rua com as misérias escondidas, como eu?'' Ainda não tinha acabado de calçar a segunda meia e senti-me inundada por uma onda de solidariedade e enternecimento por todos os seres humanos que passam a vida a tentar ser iguais aos outros.
E logo a seguir ainda relacionei isso tudo com o poema de Baulelaire, aquele que manda as pessoas embebedarem-se ''Para não sentir o fardo do tempo que parte vossos ombros e verga-vos para a terra, é preciso embebedar-vos sem tréguas./ Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, a escolha é vossa. Mas embebedai-vos.''
Está visto que virtude não é coisa que sirva para me embebedar. O que vale é estar rodeada de vinho. E poesia também não me falta!