Dia #28

9.4.20
Eu não sei se o nosso país está a fazer tudo o que é necessário para combater esta epidemia. Sei, pelo que leio na imprensa e pelo que vou acompanhando nas publicações de pessoas com conhecimentos técnicos (que eu não tenho), que têm sido tomadas medidas eficazes. Mesmo assim, não deixa de ser surpreendente que estejamos a ser um caso de estudo na imprensa internacional.
Obviamente, quero acreditar que somos espectaculares, mesmo sabendo que as pessoas são muito estúpidas. E quero, sobretudo, preocupar-me com o bolo de maçã e canela para cantarmos os parabéns ao Jaime, e garantir que o vinho está fresco, sem querer saber do resto.
Também não percebi como vai funcionar o terceiro período das duas crianças aqui em casa, mas não quero pensar nas outras todas, sem computadores e com pais analfabetos funcionais. Além disso, começo a achar que pode muito bem ser uma preparação para o homeschooling. Daqui a dois anos espero que se orientem sozinhos, um deles, provavelmente, daqui a dois meses. 
Há pessoas a morrer todos os dias, sempre houve, mas agora há pessoas a morrer todos os dias pelo mesmo motivo, e há pessoas a nascer todos os dias e a festejar o dia de nascimento todos os dias. Em Abril, então, é uma multidão! Mas ninguém merece mais do que o Jaime celebrar o dia em que nasceu. Ninguém!

Dia #27

8.4.20
Todas as minhas sinapses agiram como se hoje fosse segunda-feira. Tive de sair para despachar umas encomendas da Vinharia, mas de resto andei aqui pela casa a pastar. Os miúdos, curiosamente, estiveram activos de uma forma positiva, ou seja, não andaram a gritar (muito) pela casa, nem se trataram mal. Provavelmente, tenho de estar inanimada para eles funcionarem bem.
Ainda assim, ajudei o mais novo a montar a tenda lá fora e estão os dois há umas horas lá dentro a ver youtubers parvos, claro, mas também a ouvir música e a jogar cartas. Dizem que querem dormir na tenda, vamos ver como isso corre.
Hoje de manhã, o Isaac disse que queria tomar banho. Ele nunca quer tomar banho, até entrar na banheira, por isso ia tendo um ataque. Depois percebi que ele queria usar o desodorizante pela primeira vez e como lhe tinha dito que não se pode usar roll on sem tomar banho, tomou a decisão. Depois tive mesmo um ataque: o meu querido filho começou a cheirar mal!!!! Está a chegar a altura de ter pré-adolescentes rapazes em casa.
As minhas sinapses precisam de fazer um reset rapidamente.

Dia #26

7.4.20
Seria muito fácil assumirmos este estilo de vida para sempre - desacelerado, vincadamente doméstico e esteticamente desinteressante -, se se tornasse uma cena hipster. Espera, os hipsters já eram isto, não eram?
Acho mesmo que o drama pós Covid não vai ser a economia, quando muito, talvez os 95% que trabalham passem a ser 94% para continuarem a garantir a riqueza dos 5% mais ricos do país. O drama vai ser redefinir escalões sociais.
Quem vão ser os hipsters se toda a gente já sabe fazer pão? Quem vão ser os hippies se toda a gente se está a marimbar para a roupa por passar a ferro? (ok, se não estão deviam aproveitar) Quais serão os médicos que merecem receber 90€ por uma consulta, quando estão a fazer o mesmo trabalho dos que recebem um salário do SNS? E as escolas? Bem, aqui nem sei por onde começar.
E se de repente os operários, que a par dos médicos são os que mantêm o país a funcionar, determinarem o futuro da mundo ocidental? Eu sei, estou a delirar, mas apetecia-me tanto assistir a esta realidade! Não tem nada a ver com qualquer moral de justiça social, era mesmo por diversão. Afinal, já não vou para nova e não vejo telenovelas (ainda existem?), e os meus filhos até me parecem capazes de se desenrascarem numa fábrica, ou de conduzirem um camião durante 12 horas.

Dia #25

6.4.20
Um dia destes tenho de falar do antigo troço da linha de comboio, entre a Póvoa de Varzim e  Famalicão, que está a ser transformado em ciclovia e caminho pedestre. Também preciso de falar sobre a minha avó, que faz 92 anos, mas hoje só me ocorre confluir para esta ideia de que ''todo o ser humano é ridículo à sua maneira''*.


*do filme O Nosso Último Verão na Escócia

Dia #24

5.4.20

Recebi a minha prenda de aniversário mal acordei e comecei a logo a choramingar ao ler os papelinhos com as mensagens de toda a gente. Parecia que estavam todos ali comigo, apesar de ainda estar na cama. Obrigada a toda(o)s, não sabia, ou tinha esquecido, que pensam tantas coisas boas sobre mim.
Ver o entusiasmo dos miúdos, sobretudo do Nicolau, faz-me querer gostar de festejar o aniversário. Foi ele que fez o bolo, com a ajuda do Isaac, e o Jaime a jardineira do almoço. Escolheu este prato, porque cozinhou-o nas duas últimas gravidezes, para satisfazer os meus desejos (mesmo sem ser apreciador) e eu achei que foram as melhoras jardineiras que alguma vez comi na vida.
A de hoje também estava maravilhosa, mas como não estou grávida não posso dizer que é a melhor de sempre. O palato tem destas coisas. Quanto ao vinho, só posso dizer: UAU!
De resto foi um dia normal, com as coisas boas que já referi e outras menos boas, como na vida em geral. 
O que não deixa de ser curioso é este ser o terceiro ano consecutivo de aniversários estranhos. Aos 45, foi a primeira vez que não festejei com o Jaime, desde que estamos juntos, aos 46 não tinha a Bea comigo e aos 47 temos o Covid-19.
Melhores anos virão, certo?

Dia #23

4.4.20
Devo estar com síndrome véspera de aniversário, ou outra coisa qualquer, porque se tivesse passado o dia na cama estava muito bem, tirando as dores nos ossos. Uma pessoa sabe que está naquele limite de jovem adulto para adulto adulto quando o corpo pede para sair da cama, e a cabeça suplica para nos deixarmos estar.
Foi um dia a gerir (aka a deixar andar) frustrações alheias e próprias, aborrecimentos e dores de crescimento que nem a ida ao quiosque para comprar jornais amenizou.
Os meus filhos pareceram-me pessoas crescidas, no sentido de maduras, o que só pode querer dizer que estou a ficar louca. Se bem que isso implicaria dar razão ao Jaime e assumir que não é ele que está chato, que eu é que estou sem paciência. Portanto, estou muito sã.
E amanhã, pelos visto, temos uma festa!

Dia #22

3.4.20
Não sei bem o que fiz hoje, além de ter chegado a uma parte importante da camisola que estou a tricotar e de ter conseguido fazer pão pita para o falafel, também feito em casa, que tinha congelado há uns tempos.
Não sendo a pessoa mais organizada do mundo e que até nem aprecia rotinas por aí além, tenho o momento das refeições como uma espécie de guia. Tenho de fazer isto e isto até à hora do almoço e mais aquilo e aqueloutro até à hora de jantar. Mesmo em quarentena é o que funciona para mim. E estando mais tempo em casa, sem ter de ir buscar os miúdos à escola, é mais fácil fazer pão e pensar em receitas demoradas.
Também se dá o caso de gostar de comer e beber, claro, por isso é que estou a adorar seguir os menus do Zé e da Inês, no instagram. Como diário da quarentena, parece-me uma ideia assim espectacular!

Dia #21

2.4.20
Hoje foi dia de limpar a casa. Não preciso de dizer mais nada, pois não?
Sim, não arrastei a cama para aspirar, nem limpei o pó, ou lavei a parte de fora das sanitas (cujos autoclismos não funcionam), desde que começou a quarentena. E não tem nada a ver com a falta de tempo, pelos vistos. É a mesma falta de vontade de sempre.
As tarefas domésticas são divididas, obviamente, mas cada qual investe o seu tempo naquilo que acha necessário e fundamental para o bom ambiente familiar. Funciona? Sim, quase sempre.

Dia #20

1.4.20
O Nicolau perguntou-me se eu ainda era jornalista e eu disse que sim. Se ainda tenho a actividade aberta nas finanças, acho que posso dizer que sim, apesar de saber que não sou.
Procuro manter-me informada, como toda a gente, e continuo a confiar em alguns meios de comunicação, mas mesmo estes nunca me pareceram tão obsoletos como me parecem agora. Ou, talvez esteja a questionar tudo em demasia.
Fiz uma máscara facial com aloe vera, mel e açafrão e, quando saí para fazer a caminhada, apanhei flores num descampado. Também escrevi uma carta para a Bea.
Ia começar a fazer o jantar, arroz de marisco, mas acabou o gás. Enquanto espero pela botija, acho que vou beber um copo de vinho.

Cartas da Póvoa #3

1.4.20
Querida Bea,

Ao longo deste ano em que estiveste afastada de nós, pensei várias vezes escrever-te mais uma carta, mas depois nunca sabia o que queria, ou o que devia, dizer.
Agora sei. O que quero dizer, pelo menos. Convenhamos, um ano e um mês é tempo suficiente para pensar no que nos aconteceu.
Eu não sei, ainda, o que aconteceu, da última vez que abordamos o assunto pediste para falarmos noutra altura, nem sei se alguma vez vou saber. O que me fez escrever-te hoje, foi ter acordado a cantar Suede, ''The 2 Of Us''.
É estranho lembrar-me de ti sempre que ouço esta banda, porque nunca a ouvimos juntas e também por não ser uma daquelas pessoas que tem uma banda sonora para tudo. Bem, talvez tenha o David Bowie como banda sonora dos meus anos de liceu, mas não sei se era por precisar disso, ou se por saber que fazia parte.
Acho que foi numa viagem de carro que eu e o Jaime fizemos com os miúdos e ele pôs o ''Dog Man Star'', no leitor de CDs. Quando começou a ''Still Life'', desatei num pranto nunca visto. Eu só conseguia pensar em ti, e em como podia continuar a viver sem te ter na nossa vida, e o Brett Aderson a gritar ''But it's still, still life/But it's still, still life/But it's still, still life''. Enfim, o que vale é que os miúdos acharam que eu estava muito emocionada com a música e ainda hoje me gozam com isso.
Então, hoje acordei a cantar ''Lying in my bed./Watching my mistakes...'' e pensei se também estarias deitada na tua cama a pensar nos teus erros. Quer dizer, a cama onde estás deitada por estes dias é, muito provavelmente, um erro por si só, mas a vida é tua, as escolhas são tuas, como sempre te disse.
Não quero estar, nem tenho estado, a fazer juízos de valor sobre as tuas opções. Só queria fazer parte da tua vida, saber o que sentes, que planos tens para o futuro, sobretudo agora, quando o futuro parece cada vez mais distante.
Mas isso já sabes. O que quero dizer-te é que tenho muita pena que não nos queiras na tua vida, porque estás a perder a oportunidade de passar bons momentos com pessoas realmente espectaculares. Até podias não gostar muito de nós enquanto família, mas, caramba, o que nos divertimos juntos!!!
Agora, ainda antes do Covid-19, temos andado mais preocupados, mais ocupados e estamos mais cansados, mas ainda somos espectaculares. Podes ter a certeza.