O meu coração quer fugir de mim

14.7.19
Tem acontecido acordar a meio da noite, sempre à mesma hora, com aquela sensação de pânico, como se me estivesse a afogar, ou como se alguma coisa terrível estivesse para acontecer.
São sintomas comuns a cada vez mais pessoas que sofrem de doenças mentais, já se sabe, mas eu encaro-os mais como um banho de realidade. Quer dizer, não há como não ter medo das coisas terríveis que podem acontecer (e acontecem todos os dias a biliões de pessoas), o segredo é não pensar muito nelas, ou não sendo capaz de parar de pensar, não lhes dar muita importância.
Mas a meio da noite, com o coração quase a saltar cá para fora (o meu coração quer fugir de mim, muitas vezes), não é muito fácil.
Hoje, de madrugada, depois de perceber que não ia conseguir voltar a dormir, tentei entender o que me assustava. Já falei aqui sobre o meu medo, sobre ter sempre tanto medo, mas nunca me pareceu fundamental procurar a origem disso, porque a bem dizer não há como ser humano sem sentir medo. É, basicamente, uma ferramenta de sobrevivência (se calhar deveria dizer skill, é muito mais trendy).
Bom, mas eram cinco da manhã, não me apetecia sair da cama ainda de noite, por isso pus-me a fazer uma lista mental dos meus medos e cheguei à conclusão que todos se resumem a um: Medo de não ser capaz.
-Medo de não ser capaz de salvar os meus filhos das arbitrariedades da vida e de não tomar as decisões certas, nos momentos certos
-Medo de não ser capaz de estar à altura dos desafios profissionais que vão surgindo
-Medo de me render e fazer o que é suposto, ou o que os outros esperam de mim, em vez de fazer o que me dá na real gana (eu gosto de acreditar que podemos fazer o que nos apetece, desde que saibamos viver com isso)
-Medo de falhar. Esta ideia de ser uma falhada persegue-me e, às vezes, gostava de saber quando começou. Mas o dia já estava a nascer, as gaivotas guinchavam, os cães ladravam e apeteceu-me café. 

Usufruir

19.6.19

Comecei a ler este artigo e lembrei-me logo de uma certa forma de estar dos timorenses que muitos poderão associar a preguiça e que a mim sempre me pareceu revelar conhecimento, como se eles soubessem alguma coisa que nós ignoramos.
Por isso, gostava tanto de observar o tio Abel, e os timorenses com quem me fui cruzando, e continuo a achar que temos muito a aprender com as sociedades menos desenvolvidas.
Não é propriamente novidade que o aceleramento da vida moderna anda a deixar meio mundo doente e o planeta em risco, o que não parece claro é que caminho seguir para menorizar os problemas.
Um dia destes, depois de estacionar o carro e rodeados de empreendimentos comerciais por todos os lados, o Jaime perguntava-me que iriam os nossos filhos fazer, quando já está tudo praticamente feito e eu respondi que iam, precisamente, desfazer o que andámos a fazer.
Na altura não me pareceu uma resposta assim tão contundente como me parece hoje, depois de ter estado a separar e preparar os legumes que a D. Fátima trouxe, enquanto pensava nas coisas que conseguimos controlar e as outras todas, as que estão fora do nosso controle.
Suponho que tenha sido precisamente essa a razão para os nossos primórdios criarem os deuses - é melhor lavar as nabiças para o esparregado - e a bem dizer, a humanidade chegou a este estado de evolução graças  à sua capacidade de sobrevivência.
E deixar acontecer o que tiver de acontecer - que pimento maravilhoso para o gaspacho -, acreditando que nada é por acaso, ou o contrário, tudo é casual, equivale a acreditar em Deus sem os sacrifícios, nem o inferno. Por isso, não te rales, sê feliz!
O feijão verde é para uma salada com ovo. Além disso, há coisas extraordinárias no mundo, por exemplo, não sei quais são as probabilidades do Vitorino, o encantador de crocodilos, sobreviver à recolha de ADN de 17 bichos, mas calculo que sejam muito pequenas.
Enfim, nem tudo tem uma explicação, por muito necessária que seja à nossa existência. Mais vale sentarmo-nos e usufruirmos, de preferência com um copo de vinho na mão.

Auto-ajuda

13.6.19
O último livro de auto-ajuda que comprei (sim, não foi o primeiro, mas não falemos sobre isso) foi uma espécie de brincadeira, como aquela que as crianças fazem, e todos nós já fizemos, de seguir no passeio sem pisar os riscos, ou atravessar na passadeira só nas partes brancas. Ou seja, disse a mim própria que compraria o livro que estivesse na mesa ao almoço, no Theatro - sim, este restaurante que também é livraria costuma ter livros espalhados pelas mesas, já tinha falado dele no blog das senhoras.
Isto, porque acordei num daqueles dias em que precisava de uma razão para sair da cama, além das evidentes, e almoçar num bom restaurante pareceu-me a melhor. Ao sair de casa já tinha decidido que ia trazer o livro que estivesse na mesa, fosse qual fosse, porque de certeza traria uma mensagem subliminar.
Não posso dizer que tenha percebido a mensagem, se é que tem alguma, mas também não dei o tempo por  perdido. Além disso, acho que foi por causa dele que acabei a ouvir um podcast, que é uma coisa muito pouco habitual, e a certa altura, lembrei-me de quando era pequena e ia para a cama mais cedo imaginar a minha casa. Não sei quanto tempo durou esta incursão pela minha casa imaginária, mas todos os dias eu revia-a detalhadamente e transformava-a. Também não sei se alguma das minhas casas reais se pareceram com a(s) da minha imaginação, mas parece-me que todas cumpriram o propósito que me levava a querer ir dormir mais cedo para sonhar: não ter ninguém a dizer-me como manter o meu espaço. Seria já uma manifestação de independência? É pouco provável, era muito pequena, ainda. Enfim, se calhar era mais uma brincadeira habitual de crianças, mas agora fiquei a pensar nisso e nas mais de dez casas onde vivi. 
Às tantas não é assim tão descabido ler livros de auto-ajuda (não são todos?).

A Bruxa da Areosa

6.6.19
Morreu a Agustina Bessa-Luís e eu só consigo pensar no Mário Viegas. No início dos anos 90, assisti a um espectáculo do artista, na pequena sala do Clube Naval Povoense (acho eu), com uma amiga e a mãe dela, e fiquei maravilhada com o Manifesto Anti-Dantas. Também fiquei a saber, nessa noite, que ele chamava Bruxa da Areosa a Agustina, não me lembro se Viegas o referiu em algum momento, ou se alguém comentou isso depois do espectáculo. Sei que nunca mais o esqueci e passei a referir-me à escritora da mesma forma. Achava até que não gostava dela, mesmo sem ter qualquer razão para isso. Entretanto, já li que Natália Correia e Luiz Pacheco a tratavam da mesma forma, devia ser uma espécie de guerra de classes.
Por isso, tenho ideia, nunca li nada de Agustina até há poucos anos, quando tirei da estante, meio contrariada, o Fanny Owen. Gostei muito, claro, mas pelos vistos não o suficiente para me embrenhar em mais leituras. Portanto, não se pode dizer que eu esteja no grupo minoritário da adesão absoluta à obra da escritora, mas também não me enquadro no que a recusa.
Enfim, morreu a Agustina e eu tenho muita pena de já não ser tão impressionável como aos 18 anos.

Falta de ar

29.5.19
Nos dias de lucidez, que não são assim tantos, porque mesmo não estando sob efeito do poderoso analgésico dos assalariados tenho as mesmas preocupações da grande maioria dos seres humanos: alimentar os filhos, mantê-los saudáveis e instruídos, lavar e secar a roupa, acompanhar uma das séries do momento e salvar o planeta. Nesses dias, dizia, reparo como o mundo é simples.
Acontece-me reparar nisso em situações inusitadas, por exemplo, com a chávena de café, acabado de moer, nas mãos e o sabor e o aroma de Timor a despertarem sentidos que nem sabia que tinha, ou a olhar para as voltas da máquina de lavar com papeis, que hão-de ter saído de um dos bolsos de umas das calças, colados no vidro. 
É como se ficasse hipnotizada por instantes e visse o mundo tal como é: um magnífico acaso. O que me lembra uma das frases que sublinhei n'O Cisne Negro, e que é bastante apropriada a esta fase em que me falta o ar tantas vezes: ''Esquecemos rapidamente que o simples facto de estarmos vivos já é um extraordinário rasgo de boa sorte, um acontecimento remoto, uma ocorrência casual de proporções descomunais. Imagine um grão de pó ao lado de um planeta mil milhões de vezes maior do que a Terra. Esse grão de pó representa as probabilidades favoráveis ao seu nascimento; o enorme planeta seriam as probabilidades contra. Por isso pare de suar por coisas pequenas. Não seja como o ingrato que recebeu um castelo de presente e ficou preocupado com o bolor da casa de banho.''

Diários

14.5.19
Por falar em memória, no livro que estou a ler esbarrei nesta frase: ''A memória acredita antes que as recordações surjam. Acredita mais tempo do que as recordações, mais tempo que as lembranças, por mais espantosas que sejam'' (da edição Livros do Brasil). Não tenho a certeza do que quer dizer mas, além da coincidência, pareceu-me importante.
E por falar em coincidências, li um artigo sobre uma viagem por aquela que será a rota marítima mais perigosa do mundo, ou seja, o Estreito de Magalhães. Quando comecei a ler não associei logo o Strait of Magellan à passagem marítima descoberta pelo navegador português, mas assim que percebi fui reler algumas coisas sobre a circum-navegação de Fernão de Magalhães (nota-se muito que História sempre foi uma das minhas disciplinas preferidas?). Pouco depois entrei numa livraria para fazer tempo antes de um encontro e o primeiro livro que me saltou à vista foi qual? O Diário de Fernão de Magalhães, claro. Mesmo tendo prometido a minha mesma que não ia comprar nada, ia só ver, tive de o trazer. Não resisto a Diários. 

Finais felizes

9.5.19

Estava a ouvir a Regina Pessoa no Curtas à Quarta (dá na TVCine 2) de ontem e espantei-me por ver tão presente a conversa que tivemos há uns anos, a propósito de um trabalho para o JN.
Sei que na altura fiquei maravilhada por conhecê-la e intrigada com a timidez e a forma como tentava explicar o universo dos desenhos que fazia, mas não tinha noção que me tinha marcado tanto.
É verdade que ultimamente ando muito interessada na memória, nas informações que o nosso cérebro retém e nas que esquece, mas não foi por isso que quis rever o História Trágica com Final Feliz. Foi porque quero muito continuar a acreditar em finais felizes.

For the record

1.5.19
Aos primeiros minutos do primeiro dia de Maio de 2019, pus uma folha de alface na gaiola do grilo de estimação do Nicolau, confirmei que a gata ainda respira e afoguei as formigas que trepavam o frasco de mel.
Isto depois de ter visto o Rei dos Mortos morrer (que belo pleonasmo) no GoT.
Parece-me haver aqui uma relação de causalidade que ainda não entendi bem.

P.S. Entretanto, estive várias horas a pensar se devia mudar o título, ou escrever este post scriptum sobre não me importar mais com o uso de expressões em inglês.

Espreitar

27.4.19

Depois do almoço de Páscoa, aqui em casa, a minha avó começou a insistir que queria ir embora. A certa altura começou a chorar que tinha mesmo de ir e insistia com a minha mãe que tinha de a levar ao aeroporto. Ninguém parecia muito surpreendido com esta necessidade, porque parece que é comum ela inventar destinos urgentes, mas eu quis saber por que raio queria ela ir para o aeroporto, quando nunca na vida viajou de avião e duvido mesmo que alguma vez lhe tenha apetecido.
Depois de lhe perguntar várias vezes e de ter acertado nos decibéis, fiquei a saber que estava na hora de ela ir para céu e que para isso tinha de apanhar um avião. Ou seja, a minha avó quer, naturalmente, acautelar o seu lugar no céu quando morrer e acha que se não for ela a tratar disso ninguém o fará por ela.
Gostava de saber mais sobre os mistérios que esta mulher encerra, que mentiras contou a si própria para sobreviver - porque, não nos iludamos, a única forma de sobrevivermos, ou a mais fácil, é mentirmo-nos todos os dias -, quem amou mais do que à própria vida, se é que amou alguém assim, do que mais se arrepende. Se lhe perguntasse assim tal e qual responder-me-ia com mentiras, muito provavelmente, pensado que contava a verdade.
Acho que é por isso que contamos histórias e tentamos representar o sentir humano nas mais diversas manifestações artísticas: Para espreitar o que nos escondemos.

Saber o que somos

16.4.19

Numa pequena road trip que fizemos na semana passada pude constatar aquilo que já sabia: são as pessoas que fazem os sítios. Pode parecer cruel dizer isto quando vimos, ontem, a Notre-Dame a desmoronar no meio de chamas, mas sem pessoas não teríamos a catedral e o nosso choque, na verdade, foi ver mais de 800 anos da história da humanidade a ser destruída à vista de todos.
Os monumentos são obras assombrosas e eu, como toda a gente, não fico indiferente quando os visito. Em muitos deles, Notre-Dame incluída, fico emocionada. Mas é quando estou numa pequena povoação de Bobonaro, sentada no chão a ouvir o Liurai falar sobre tais, ou em Pitões das Júnias, no café, a ouvir a mulher falar sobre as vacas que não vai levar a pastar, não sei se por causa da neve, porque tem muito feno para lhes dar, que as viagens se enchem de significado para mim.
E não, não vou à procura de pessoas quando ando na estrada. Prefiro estar sozinha, mas gosto muito de observar os outros e, se se proporcionar, conversar com eles.
Também pude constatar que continua a custar-me fazer xixi atrás das moitas, mas em caso de necessidade extrema faz-se o que tem de ser feito.
Não é sempre linear o caminho para nos conhecermos melhor, mas quando se começa não há como voltar atrás.
Li recentemente uma entrevista a Steve Paxton, 80 anos, em que lhe era pedido que revelasse uma ou duas coisas entre as mais importantes que aprendeu nos últimos 60 anos. Ele disse que uma das coisas foi que ''na vida trata-se de não nos sentirmos derrotados quando perdemos''. E de chegar ao fim e conhecermo-nos, de sabermos o que somos, o que queremos. ''Acho que isso é possível'', dizia ele, e explicou que conseguiu fazê-lo com disciplina (artes marciais), através da arte (dança) e da técnica (meditação).