Mãe, sou rica!

27.5.16

É muito giro isto de uma pessoa sair da sua zona de conforto e dar por si, por exemplo, a ter aulas de ballet com uma bailarina americana. Ou seja, a ter de comunicar em inglês (eu sei que não parece mas sofro de ansiedade social) e a tentar fazer peliés, développé, passés, chainés relevés, em público.
É muito giro, dizia, e pode dar-se o caso de uma pessoa ver-se rodopiar com a leveza de uma garça, que os cisnes são outro campeonato, e notar que o corpo reconhece a vontade da criança, cedendo ao esforço, à dor, à timidez acabando por se soltar e revelar toda a elegância, toda a beleza que um corpo é capaz de revelar quando dança.
Pode acontecer, acho eu, mas não é o meu caso. Na parede de espelhos não vejo nenhuma garça, vejo um pinguim, como diz a minha filha (se não formos à origem das coisas, a culpa é dela, que disse que não ia sozinha para o ballet de adultos depois de eu lhe oferecer um módulo de aulas). E, como facilmente se depreende, um pinguim não consegue dançar ballet, o máximo que é capaz de fazer é sapateado e isso só nos desenhos animados.
Mas, enfim, está a ser uma bela experiência esta de confirmar que sim, que devia ter feito isto mais cedo, quando era uma "coisa para ricos", como dizia a minha mãe.

Uma emigrante nos trópicos

23.5.16


Agora que me rendi às massagens não deve faltar muito para ser uma verdadeira expatriada, em vez de uma emigrante. Quer dizer, falta dar o grande passo que é arranjar uma ama, mas eu nem sequer sei ter uma empregada, quanto mais uma ama! Serei sempre uma emigrante, portanto.
E como qualquer boa emigrante vou a Portugal no Verão para ver a família e os amigos e para as festas de Nossa Senhora da Saúde. Nessa altura, a ouvir a missa campal nos altifalantes, lembrar-me-ei de Timor. Ou não. Talvez faça contas aos dias que me restam em Portugal, antes do regresso. E se calhar até tiro uma selfie no monumento do emigrante.
Tenho a impressão que esta experiência foi, está a ser, transformadora mas não consigo apreender o alcance dessa transformação.
Como todos os emigrantes, ou expatriados (diz que é mais fino ser-se expatriado), mantemos rotinas que nos são familiares, como fazer refeições o mais parecidas possíveis com as que fazíamos em Portugal; tentamos ter os mesmos padrões de conforto num país onde é normal ter formigas, ratos e cobras dentro de casa; Combinamos almoçaradas com amigos, isto é, conterrâneos, isto é, outros portugueses com quem nos identificamos; e continuamos a achar que precisamos de mais do que dois pares de sapatos, quando nem sequer há estações do ano.
Mesmo assim, é quase impossível sermos os mesmo depois de fazer as malas e ir viver para outro país, sobretudo quando o outro país é tão diferente do de origem. E eu acho que vou perceber melhor o quanto terei mudado quando estiver em Portugal. Ou não.
Aquele professor de Harvard que escreveu "O Caminho da Vida", diz que "somos pessoas diferentes em contextos diferentes", não sei se é verdade, mas não me parece bem contestar Confúcio.

P.S A foto é do Jaime

O clima

12.5.16



Eu dizia: É espectacular a sensação de se ir viver para um país que acabou de nascer. Há um enorme sentimento de esperança e a sensação de que tudo é possível, porque quando estamos a aprender a andar, tropeçamos e caímos mas antevemos logo ali a possibilidade de correr.
Eu dizia isso, e sentia isso, e depois vim para cá viver. E aqui está sempre muito calor e uma pessoa usa decotes e por isso as migalhas do pão caem dentro do sutiã. Não sei se é por ser eu a fazer o pão que ele fica mais migalhento.
Também dizia: Num país sem tratamento de resíduos temos mesmo de tentar produzir o menos lixo possível e, apesar dos caixotes de cartão que uso para trazer as compras, ou da reutilização de frascos de vidro e de comprar legumes nas bancas em vez de embalados, vejo-me rodeada de plástico por todos os lados. Plástico nosso e plástico dos outros a boiar na praia.
E depois acreditava que esta mudança seria boa para os miúdos, a ideia de terem escola só numa parte do dia e terem espaço para correr, brincar ao ar livre, fazer o que bem lhes apetecer, ou ficar aborrecidos por não terem o que fazer parecia-me quase perfeita, mas por qualquer razão a mãe deles não aparecia neste cenário. A mãe deles estava a fazer qualquer coisa importante.
Só que não. A mãe deles está em casa com o sutiã cheio de migalhas. Mas, pelo menos, neste aspecto não se enganou muito. As crianças aqui podem mesmo ser crianças, incluindo as adolescentes.
Na verdade podem ser crianças aqui ou em qualquer outro lugar, mas o clima é melhor.

Tens cara de quê?

5.5.16

Em tempos, numa das famosas aulas do Mário Cláudio, discutiu-se a semelhança fisionómica entre as pessoas e os animais. Escusado será dizer que a discussão continuou fora da sala de aulas e toda a gente concordou que eu era muito parecida com uma ovelha.
Como acho que as ovelhas, não sendo uma beleza de animal, até nem são mal parecidas de todo fiquei feliz.
Agora, descobri este livro e estou fascinada. Diz o seguinte sobre as pessoas com este tipo de fisionomia: "Men of true courage and heroísm more frequently resemble sheeps, goats, hares, and other timid, inoffensive animals, than lions, tigers and animals of the savage variety".

Colorir

4.5.16
De cada vez que o Isaac traz uma cópia para trabalho de casa tenho tempo de colorir umas quantas páginas deste belíssimo livro que me ofereceram no aniversário.
Se ele continuar tão contrariado nesta coisa dos deveres da escola, acho que vou ter de ir a Bali comprar uns quantos.

Era uma vez

28.4.16
um menino pirata que acreditava ser um super herói. O menino, por acaso, não era grande fã de barcos, porque enjoava imenso. Só era pirata por adorar fazer caças ao tesouro.
Quando não caçava tesouros, nem corria em socorro de alguém, o menino jogava basquetebol. Ninguém percebia muito bem porquê, mas o menino realmente adorava basquetebol. Às vezes as pessoas acordavam às 6h30 da manhã com o som da bola de basquetebol a driblar pela casa. E às vezes o menino pedia, ainda antes de jogar basquetebol pela casa, para dormir com as bolas que tinha.
Um dia 28 de Abril o menino fez 5 anos e uns amigos fizeram-lhe um bolo de gelatina e preparam-lhe uma festa surpresa, com balões e outras decorações. Haviam de ver como estava feliz o menino pirata que acreditava ser um super herói! Estava numa alegria contida, quase nervosa, que é como ficam as pessoas que sabem que estão dentro dos dias especiais.
Fazer cinco anos é uma coisa mesmo muito especial. A mãe do menino até chorou um bocadinho (que por acaso é uma coisa que ela faz com uma certa frequência), porque nos dias especiais também se chora, como quando os meninos saem das mães. E todos os anos eles vão saindo mais um bocadinho. E depois vão ganhar muitas lutas contra os maus.
Vitória, vitória acabou-se a história.

Cresceste

26.4.16

Tens 15 anos. 15 anos. Posso dizê-lo as vezes que quiser que vai parecer-me sempre inverosímil. Tens 15 anos e vais sair da nossa casa.  Eu sei que não vais sair da minha vida, bem vês que isso é impossível. Vais sair de casa, como em tempos saíste de mim. É claro que eu não tenho tanta pressa que saias de casa, como tinha para que saísses de dentro de mim, mas tenho a mesma urgência em ver-te bem e inteira e feliz.
Foram 9 meses que passaram muito devagar e 15 anos que voaram, tal e qual aquele pássaro que está em cima do muro e agora já está naquela árvore.
Tenho-me lembrado dos nossos lanches de laranjas e pão com compota, depois de te ir buscar à creche, de quando me contavas, ainda tão pequenina, os teus sonhos de galinhas com dentes que sabiam falar inglês e dos teus desabafos sobre preferires não existir, já que tinhas de morrer. Tenho-me lembrado do tanto colo que eu te dava, das tantas histórias que te lia e de outras tantas que inventava e tu sempre: "só mais uma história, mamã".
É claro que também me lembro das noites sem dormir e do quanto tu choravas e choravas sem parar, mas isso, bem vês, entre o muro e aquela árvore foi menos de um milésimo de segundo.
Tenho-me lembrado da tua alegria contagiante e das provas que foste superando com tanta coragem. Fizeste-me sentir muitas vezes uma mãe babada e tu sabes o que eu penso das mães babadas. Mas, lá está, contigo foi sempre a primeira vez, foi sempre tudo novo nesta experiência de ser mãe.
E aqui estamos em mais uma etapa natural. Separamo-nos como é suposto que aconteça mais cedo ou mais tarde. Para mim, tu sabes, é sempre cedo demais, mas é bom que seja assim. É bom que seja quando tiver de ser.
Os nossos laços já não são tão orgânicos, feitos de afecto em forma de um cordão. Os nosso laços são, agora, feitos da substância que une uma mãe que vê uma filha crescer, enquanto a prepara, e se prepara a si própria para a ver seguir o seu caminho. Essa substância não se corta com uma tesoura, bem vês, porque é igual às marés e ao nascer do sol e ao pulsar das montanhas.
Mesmo assim vai doer, claro. Mas há toda uma nova vida à tua frente e isso é maravilhoso.
Continuarei, continuaremos, eu e o teu "pai em segundo degrau", a enviar-te pozinhos mágicos deste lado do mundo, para que tenhas sempre bons sonhos.

Há sensações universais 13

21.4.16
"But as long as the corners of the room remained in shadow, she could almost believe it was a painting: a minor effort by a would-be Sickert, in which wallpaper and wardrobe mirror offered the same creepy green. Was that why people went on leaving home to struggle with luggage and exchange rates? Not for the shot at novelty or adventure, profit or escape, but in the hope that their lives would be lifted into art?
The problem was that the mirror always held her, too: untransformed in the foreground of the scene."

Michelle de Kretser, Questions of Travel, Allen&Unwin, 2013

Há coisas que não mudam

15.4.16

Nicolau: A coisa que eu gosto mais em Timor é de fazer plasticina e a que gosto menos é de comer lulas.

Isaac: Eu lembro-me perfeitamente de pedir um telemóvel quando estava a comer as uvas passas, mas as uvas passas também se transformam em cocó, não é?

Ou seja, os meus filhos continuam a ser uns belíssimos broncos (na foto vê-se que estão muito interessados numa peça em exposição no BACC - Bangkok Art Cultural Centre -, da artista Kawita Vatanajyankur, mas isso é porque na obra em questão viam-se melancias a cair e a desfazerem-se no chão).

E eis que o impensável acontece

14.4.16
Um taxista decide pregar a palavra de Deus...em tétum. Eu ainda não aprendi a língua, para grande desgosto meu, mesmo assim percebi que o mundo está acabar, porque Maromak (Deus) está farto de pecados. O homem estava tão empenhado em doutrinar-me, que sacou do tablet para me mostrar uma foto do Papa com uma série de cálculos, cujo resultado era o número 666. Eu não tive outro remédio que não sair do táxi, depois da corrida, a dizer:"Ha'u hatene, (eu sei) Papa falso profeta".
A ver pela quantidade de gente que foi assistir à ordenação do novo Bispo da Diocese de Díli, suspeito que este jovem não tenha muito amigos.