19/12/14

Feminismo

Antes de entrar no carro falta ainda dizer uma palavrinha sobre a Maria Capaz, que tem um texto meu sobre o Boyhood. E para isso vou transcrever um pequeno diálogo com a Helena Ferreira, que diz quase tudo.

Helena Ferreira - Não tenho Maria no nome, sou Capaz do que quiser ou conseguir, já me chamaram tantas vezes feminista que não é possível lembrar e sou completamente contra este tipo de guetização das mulheres que as próprias mulheres promovem.
Não vivemos no tempo das sufragistas, os direitos já foram adquiridos, agora temos de os fazer valer, taco a taco no mundo que tem de ser dos homens e das mulheres.

Calita Fonseca - Concordo com quase tudo o que dizes. Só não tenho a certeza se este tipo de projectos são uma guetização. Faço parte de um grupo de pessoas, sobretudo mulheres, infelizmente, que querem flexibilizar o trabalho para terem mais tempo para a família. Eu fiz a minha opção, que foi deixar de ter um emprego por conta de outrem, mas acredito que criar grupos de discussão, grupos de pressão possam pôr as pessoas a pensar nos assuntos e a mudar mentalidades. Este pode ser um desses casos. Eu sou feminista, como tu, mas há tantas mulheres machistas, há tanta mentalidade para mudar! Não sei se é desta forma, provavelmente não, mas merece uma oportunidade.

Helena Ferreira - Os nossos objectivos só são atingidos se incluirmos os homens nos nossos propósitos. Mulheres reunidas a falar do mal que a sociedade ainda nos faz a mim só me causa desinteresse e não acredito na sua eficiência.

Calita Fonseca - Sim, isso é verdade.

Helena Ferreira - Há dias um amigo HOMEM partilhou isto: «Muita gente defende o feminismo e não leu Judith Butler ou Simone de Beauvoir. Sempre que se vir um pai a lavar a loiça ou a brincar com a filha ou um avô a ensinar o neto a partilhar os brinquedos, há mais transformação social nisso do que em todas as bandeiras vermelhas que vocês possam levar para uma manifestação. E se não percebermos que isso pode servir para unificar, eles hão-de continuar a rir de nós.»
Diz tudo aquilo em que acredito. A mulher que sou hoje sou-o por causa da educação que o meu pai me transmitiu, não foi a minha mãe.

18/12/14

Vou à terra

Aqui em Lisboa ouço muitas pessoas dizer que vão à terra. Vão passar o fim-de-semana à terra. Vão passar o Natal à terra e por aí fora.
Fico a olhar para elas com muita vontade de dizer "eu também gostava muito de morar no espaço" mas, quase sempre, sorrio e aceno com cabeça.
Também sorrio quando conheço pessoas que dizem que lêem o meu blog mas o que me apetece é fugir, desatar a correr como uma maluquinha.
Estou a ficar uma pessoa muito civilizada é o que vos digo.
Feliz Natal e até qualquer dia.

17/12/14

Presentes





Eu sou das que gostam de oferecer presentes que gostaria de receber. Quando a pessoa que os recebe gosta tanto como eu, então, há assim uma espécie de chuva de estrelas.
O melhor destes presentes é serem artesanais (feitos por mim e pela Patrícia) e comprados no comércio tradicional (o frasco e o sabonete).

16/12/14

É assim

Basicamente, as minhas limitações não permitem muito mais do que isto. Pretender a grandeza é apenas mais uma belíssima forma de imitar a vida. Nem todas temos corações de pássaro. É assim.

15/12/14

De tempos a tempos

Estava aqui a ver um antigo episódio do House, aquele em que ele começa a cozinhar para não consumir vicodin, e senti algumas saudades das minhas obsessões. De quando podia ser teimosa, irracional e egoísta - três características muito pouco simpáticas, admito, mas que me permitiram saltar uma quantas barreiras na prova dos 400 metros que foi o meu percurso de tempos a tempos.
É bom, por ser também um desafio olímpico, tentar manter uma certa estabilidade e fazer de conta que o fazemos pelo bem estar das nossas pessoas (e, pelo caminho, inventar algumas doenças), quando na verdade não fazemos a mínima ideia do que estamos a fazer mas, caramba, quantos projectos mirabolantes perdeu o (meu) mundo, entretanto.
Por exemplo: a adaptação para o cinema do livro de Amin Maalouf; a casa no campo com galinhas, cabras, um burro e um tear; as voltas pelo(s) mundo(s); as aulas de música; o curso de sociologia e medicina e por aí fora.

13/12/14

Eis que o impensável acontece

Jovenzinho dirige-me a mim, num bar, com uma conversa enrolada qualquer, digo-lhe que tenho idade para ser mãe dele e mando-o ir brincar para um canto. Ele vai mas antes faz questão de referir que a mãe dele tem 74 anos.

12/12/14

Querer desabafar dá nisto

- Sabes quando é que uma pessoa percebe que bateu no fundo?
- Diz lá.
- Quando faz a invertida no Yoga e a barriga nos bate na cara.
- Mas primeiro batem as mamas, certo?

Dentro de nós

Uma senhora muito simpática meteu-se com o Nicolau no supermercado por causa da chupeta que ele estava a usar. Depois, virou-se para mim e contou-me que uma vez um cão arrancou a chupeta da boca da filha, quando ela tinha três anos. "Já viu?", riu-se e acrescentou que "felizmente o cão não a magoou. Era uma daquelas chupetas de borracha, deve ter achado que era um brinquedo".
Continuou a falar sem parar, sobre técnicas para os miúdos deixarem as chupetas, sobre as quatro filhas e a pena que tem por ter só um neto.
Foi só quando ela disse que a filha mais velha tem 50 anos que parei o que estava a fazer para olhar para ela. Sim, a senhora muito simpática não aparentava a idade que tinha (79 anos) mas o que me impressionou foi ter percebido que eu ainda não tinha nascido quando a filha dela teve o tal incidente com o cão e, no entanto, ali estava ela a falar daquilo como se tivesse acontecido ontem.
Deve haver um sítio, dentro de nós, onde se guardam os filhos pequenos para sempre.

11/12/14

Prisão domiciliária

O Nicolau está há alguns dias em casa. No princípio foi espectacular e ele, apesar de doente, estava a adorar ser filho único. Agora, deve estar farto de ser negligenciado, pobrezinho.  
Como é que eu consegui passar tanto tempo em casa com eles é uma coisa que me transcende. E às vezes ainda digo que se fosse mais nova, provavelmente, teria mais filhos. Pobrezinha.

09/12/14

Quando a minha mãe tinha a minha idade

A propósito do Boyhood e do final de mais um ano do calendário gregoriano e dos 40 bem presentes e dos putos tão grandes ponho-me a pensar na passagem do tempo. Bem, na verdade, raramente preciso de qualquer pretexto para pensar nisso. Basta deitar-me e entro logo naquele redemoinho que nunca sei onde vai parar.
Ontem fui ter com a minha mãe de 41 anos, a idade que tenho agora. Não me lembro especificamente da minha mãe com 41 anos, lembro-me apenas das circunstâncias à volta dessa idade, ela com 41, eu com 20. Percebo porque trabalhava tanto, para além da óbvia necessidade de sustentar quatro filhos sozinha. Bem, nessa altura já trabalhavam três filhos mas o dinheiro nunca chegava para nada. O trabalho, aquela demência pelo trabalho (que ela também criticava na mãe dela) era o único escape daquela mulher. A única forma de não enlouquecer.
No filme, a certa altura, o filho pergunta ao pai qual é afinal o sentido disto tudo. O pai diz que não faz a mais pequena ideia, que ninguém faz, que toda a gente vive o melhor que pode, que o que interessa é sentir as coisas.
Eu nunca perguntei à minha mãe, porque não era preciso. Ela fazia questão de nos explicar vezes sem conta que viemos ao mundo para sofrer. Que é esse o objectivo de viver: sofrer. E depois na outra vida ter a recompensa. 
Quando a minha mãe tinha 41 anos acho que a odiava um bocado menos.