17/09/14

Enquanto o nosso ano lectivo não começa

Aqui, quando vou fazer caminhadas apanho amoras, figos e uvas. Também vamos apanhar pinhas para o inverno. Dizem-me para ter cuidado com as cobras, que elas andam estranhas, porque não "trovoou" nas tocas. Há um silêncio quase estranho na rua e muitas vezes sinto dificuldade em respirar, porque me sobra o ar. É um lugar estranho, este onde cresci, mas também não sei o que se podia esperar de um sítio que um dia me mostrou uma coisa verdadeiramente extravagante: um casal de franceses que veio passar férias a casa dos meus tios e que tinha o hábito de tomar banho todos os dias.

14/09/14

Brindemos

Vamos fazer de conta que eu sou uma pessoa que telefona aos amigos quando precisa de conversar. Que pede um abraço. Que diz o que a desassossega com facilidade. 
Pegava no telefone, ou sentava-me numa mesa de café e dizia o quê? que tenho uma bolha atrás da orelha que me dói muito; que me fui pesar e efectivamente engordei - três quilogramas num mês, disse a balança -; que tenho um bocado de dente, que ficou perdido na última extracção, a sair e a ferir-me indecentemente a gengiva; que tenho de me convencer, de uma vez por todas, que não fiz nada para merecer a penitência que é aturar a minha mãe; que cheiro muito mal dos sovacos, um fedor que não reconheço como meu; que fui ao hospital e que a médica me disse que achava que estava tudo bem, mas era melhor fazer uma ecografia "lá fora", porque com o aparelho que tinha não conseguia encontrar o DIU; que me cansam os filhos; que o amor não assiste; que me doem as mamas e a unha do dedo mindinho; que já não sei se sei sonhar; que tenho medo; que quero rir-me muito e muitas vezes?
São merdices que não contam para nada no somatório de todas as coisas. São merdices que merecem pouco mais que um brinde. Talvez uns três, ou quatro. Ou cinco, pronto.

09/09/14

Cenas da vida familiar (novos capítulos)

Flashback: Começou tudo no incêndio.  O prédio da rua Maria para onde a família de cinco ia viver sofreu um incêndio e a mudança, que ia acontecer em Julho, teve de ser adiada. Como Agosto, esse mês interminável, estava à porta e as exigências profissionais do pai da família exigiam nova deslocação a Timor, decidiram que seria uma boa altura para irem todos.

Flashback: Começou tudo na água que escorria pelas paredes. A partir de certa altura ficou claro que aquela casa, na rua Sampaio Bruno, não servia. Deitava água por todos os lados. Fizeram-se obras. A água continuou. A mãe da família estava cansada de tantas mudanças. Decidiram que se fosse para sair dali, teria de ser uma situação mais definitiva. Iam voltar ao Porto.
Fizeram-se mais obras na casa, enquanto os dois adultos procuravam emprego mais a Norte. 
As obras ficaram prontas. Os empregos nunca aconteceram, mas a mudança impunha-se na mesma.
Encontraram a casa, procuraram escolas, fizeram todos os preparativos.
Aconteceu o incêndio.

Flashback: A família está em Timor, os pais e a mais velha sentados num sofá em frente ao mar, os dois mais novos a brincar na água com meninos timorenses. "E se viéssemos viver para cá?", perguntou a filha.

Actualidade: O pai está em Lisboa. A mãe e as crianças numa aldeia do Norte, à espera. Tratarão da mudança para a casa da rua Maria, ou aproveitarão o facto de terem tudo embalado e guardado para seguir para outro sítio?

05/09/14

Bali





Agora que estou em casa da minha mãe, sem saber ao certo onde será a nossa próxima casa, e com as alergias todas de volta, parece-me quase estranho voltar a Bali.
Apetecia-me mesmo era voltar a Timor, ainda por cima não cheguei a escrever o post dos bichos que se atravessam constantemente na estrada, porque a estrada em Timor é de todos, dos porcos, dos cães, dos galos, dos caraus, das pessoas e também dos automóveis.
Em Bali é essencialmente dos automóveis e das vespas, mas chega de tentar comparar o que não tem comparação.
Acho que Bali é capaz de ser muito bonito, mas está demasiado cheio de turistas.
É claro que se não fossem os turistas não teria visitado a fabulosa plantação de café Pulina e provado o famoso café que os Luwac fazem o favor de digerir e cagá-lo para nós.
Também é provável que as centenas de hotéis e restaurantes em cima da praia não existissem e que fosse tudo muito mais bonito para quem está de passagem, mas os balineses vivem do turismo, por isso é justo que assim seja. Até porque eles não parecem nada incomodados com a imensidão de gente que entope todas as artérias principais da ilha, de manhã à noite.
É bastante fascinante, aliás, que além de parecerem nada incomodados mantenham os seus rituais de oferendas aos deuses em todo o lado, indiferentes a quem passa (aquele da primeira foto estava à entrada da "nossa" casa). E quem passa precisa de ter algum cuidado para não andar aos chutos às flores, aos biscoitos, ao arroz e a um ou outro cigarro.
Fascinantes são também os "rice terrace", como lhe chamam, e os templos no meio do mar, como o Tanah Lot (na última foto), onde, dizem, se pode ver o pôr-do-sol mais bonito do mundo. Como da primeira vez não chegámos a tempo e da segunda optámos por ir à hora do almoço, para não estar três horas na fila, não posso confirmar e, portanto, o pôr-do-sol mais bonito, para mim, continua a ser o da Areia Branca.

04/09/14

Antes do Jet Lag


Tenho novas de Bali, evidentemente, mas por enquanto fiquem com o texto do lifecooler e deixem-me recuperar do jet lag e habituar-me a usar calçado novamente.

Quando há dois, ou três meses escolhi os temas sobre os quais ia falar no lifecooler estava longe de imaginar que na semana do Japão estaria precisamente na Ásia.
Na altura achei que podia ter alguma coisa a dizer sobre sushi, mais precisamente sobre um jantar muito especial no Porto, ou sobre um filme que vi há uns 10 anos  – Uma História Japonesa de Amor  - e que, por qualquer razão, me marcou.
É claro que se me pusesse a escrever sobre filmes, duvido que não fosse parar ao Myasaki e ao maravilhoso Castelo Andante, mas passemos à frente, que já se percebeu que o rumo deste texto é outro.
Portanto, dizia,  na altura lembrei-me que podia escrever sobre tudo e mais alguma coisa relacionada com o Japão, menos com a que me ocorre neste momento, quando estou em Bali, depois de ter passado um mês em Timor Leste:  sanitas.
Alguns amigos meus, que visitaram o Japão, já tinham feito referência às sanitas de lá e aos respectivos esguichos de água  para lavar as partes e hoje pude, finalmente, saber do que falavam.
Tanto em Timor Leste, como em Bali, o que se encontra nas casas de banho são umas mangueiras (ou em substituição destas, um balde de água com um cabaço) que, supostamente, substituem o papel higiénico.  Ora, como me parecia muito estranho usar uma mangueira na sanita fui evitando o novo elemento, até um dia decidir experimentar. A sério, fiquei fã desta coisa de sair da casa de banho lavadinha*!
Mas hoje aconteceu ter de mudar de quarto no hotel onde estamos instalados e, pela primeira vez,  ter-me sentado numa dessas sanitas modernas (nesta parte da Ásia) com os esguichos direccionados para os devidos sítios e, bom, percebo a modernice, mas as mangueiras, apesar de pouco elegantes, parecem-me bem mais eficazes.
Espero, sinceramente, que neste momento não estejam a visualizar-me sentada numa sanita com uma mangueira na mão a regar certas partes do corpo mas, efectivamente, ninguém me mandou falar disto em vez das magníficas frangipanis deste lado do mundo (não sei se é muito óbvio que esta pequena referência serve apenas para justificar a foto).

*ajuda muito o facto de estar sempre calor e de a roupa secar em três tempos.

29/08/14

Até já, Dili


Despedi-me de Dili com algumas lágrimas nos olhos. É ridículo, eu sei, mas é verdade. A caminho do aeroporto olhei para o Cristo o Rei, em cima da boca do crocodilo, e lembrei-me que não cheguei a subir até lá. Também nunca subi em Lisboa. E quando for ao Rio de Janeiro também não subo, pronto, ficou decidido naquele momento.
Quero voltar a Dili, não faço a mínima ideia porquê. Pode ser para ir a Ataúro, ou ao monte Ramelau, não interessa. Ou então, para conduzir em Maubara, outra vez. Quero voltar a Dili, porque sim.

Chegar a Bali, depois de estar um mês em Timor, deve ser muito semelhante à chegada de um  Amish a Nova York.
O clima dos dois países é igual e os paraísos naturais semelhantes, mas aqui há supermercados que vendem iogurtes (e tantas outras coisas que não existem em Timor) e lojas e mais lojas e mais lojas de tudo. Além disso, nota-se que estamos na Indonésia, pelos pequenos templos a cada esquina e pelo exotismo das decorações.
Mas Dili é muito melhor (apesar do lixo, dos regatos pestilentos, do caos, da espera dos contentores que trazem o leite, etc.), mas estou a ser injusta, ainda não conheço Bali. Mas Dili...

Bom, Dili nunca me recebeu com flores, é um facto - quem me dera que pudessem cheirar as flores das frangipani! Não há nada no mundo (que eu conheço) que cheire tão bem. E nesta escala não entra o cheiro dos bebés, porque é um cheiro à parte de todos os cheiros.
Mas também há frangipanis em Dili e buganvílias, tantas e tão bonitas. Não sei se já referi que Dili é muito melhor, apesar de não conhecer, ainda, quase nada de Bali.

25/08/14

As grandes questões que se levantam em Timor

Estas montanhas à volta de Dili estão carregadas de uma mística qualquer. É palpável e nem os mais novos passam incólumes à sua presença.
O Isaac anda obcecado com a morte, agarra-se ao irmão em prantos, que não quer que ele morra, que vai ter muitas saudades, que se morrermos todos ele fica sozinho e que não quer nada disso, mas também não quer morrer. Uma aflição que só visto!
O Nicolau, esse, chegou à conclusão que quer trocar a pila por um pipi.

Os mortos não têm inimigos



O Filipe esteve em Timor-Leste em 2005, quando fez a Volta ao Mundo, e explica muito bem o que significa visitar o cemitério de Santa Cruz.
Desde então, as coisas mudaram e são cada vez menos os que se lembram do massacre, aliás, não há qualquer referência no cemitério ao acontecido.
No entanto, apercebo-me que por coincidência dá-se o caso de, tal como há nove anos, o presidente indonésio estar em Timor neste momento e de se verificarem os tais retoques de embelezamento em alguns locais.
Era o que estava a acontecer no cemitério muçulmano, que fica ao lado do católico. Obviamente, não pudemos deixar de o visitar também e ficar fascinados com as diferenças. Dois cemitérios distintos, de credos diferentes. Ali, lado a lado. Os mortos não têm inimigos.
Mas Santa Cruz não foi o primeiro cemitério que visitei em Timor e de todos eles trouxe a sensação de que as crianças ocupam um lugar muito importante nesta sociedade. Eu não tenho números sobre a média de filhos por família, ou da mortalidade infantil, mas estou em crer que ambos são bastante altos. Isso explicará a razão de tantas campas com recém-nascidos, mas este culto por um filho que não chegou a viver é pouco comum nos países pobres.

21/08/14

Em vez de saias e vestidos



Comprei dois livros na livraria-papelaria "Companhia", umas das duas lojalivru-lojasasan escola que existem em Timor: O "Requiem para um navegador solitário", de Luís Cardoso e "A nona do Pinto Brás", de Luís Filipe F. R. Thomaz.
Antes das compras na livraria, já tinha comprado uns tecidos no mercado dos tais que algumas mulheres, sobretudo as mais velhas, usam como saias.
Depois soube pelo livro de Luís Filipe F. R. Thomaz que esses panos atados à cinta se chamam cambatic: "Do malaio kain batik, «pano decorado pelo processo do batik, reserva feita com cera aplicada no tecido a tingir»; designa os panos de ramagens importados de Java ou de Singapura (hoje, as mais das vezes estampados mecanicamente) que as mulheres timores de um certo nível usam enrolado à cinta, em vez do tradicional sabalu, ou tais feto timorense, espécie de saco sem fundo onde a mulher se enfia até aos seios, feito artesanalmente em teares de cana e decorado pelo processo dito ikat ou reserva no fio, que subsiste sobretudo no Leste (zonas de Baucau, Lospalos, etc.)."
Tive de confirmar com a Pascoela, uma bela timorense que trabalha nesta casa, se de facto elas usam aquilo apenas enrolado na cinta, como nós usamos as toalhas de banho, e ela disse que sim, que era assim mesmo e riu-se imenso quando lhe perguntei se não caía pelas pernas abaixo. "A minha mãe sempre usa e não cai".
Parece-me perfeito, com três, ou quatro panos e três blusas pode-se viver um ano inteiro neste país sem precisar de mais peças de roupa (bem, sem contar com a interior, mas mesmo essa...) e andar bem vestida.
É impressão minha ou o mundo global tende a imitar as piores coisas e nunca, ou raramente, as melhores?

P.S Eu ia jurar que estava mais magra desde que estou em Timor, mas provavelmente deixei foi de olhar para o espelho.

19/08/14

O mar, sempre o mar







Eu devia ter escrito o post ontem*, depois de regressarmos de Liquiça, cheios de ideias mirabolantes, como a de recuperar o Hotel Tokodede e irmos viver para lá, durante uns tempos, claro.
Hoje, já tive um daqueles dias enjoativos na praia, a olhar para o mar, a mergulhar no mar, a resmungar os “calem-se lá com isso, meninos, portem-se bem” e “parem de gritar, por favor”, a apanhar estrelas do mar, a olhar para o mar, a mergulhar no mar...
Ontem e antes de ontem e no dia anterior também houve mar, tanto mar que cheguei a enjoar como se estivesse a andar de barco. Dormimos numa tenda com as ondas quase a bater nos pés e quando acordei a meio da noite com o barulho do mar e me levantei para ver se estávamos prestes a ser levados por uma onda, estava completamente zonza, mas podia ser da sangria, ou do champanhe, ou talvez fosse do vinho.
O mar estava até bastante calmo.
Mas em Liquiça o mar tem ondas, e areia preta. Em Liquiça é tudo muito bonito e em Maubara também. Apeteceu-me ficar a viver em Liquiça, durante uns tempos, claro.
Antecipo o choque que será regressar a Lisboa. “Vamos mesmo regressar?” Atrevo-me a correr certos riscos. “Deixa-me experimentar conduzir este carro”. Olho de lado para o computador. “Amanhã escrevo”.
Há anos que não estava tão bronzeada.

*no domingo (por causa das falhas de internet não consegui publicar o post na segunda-feira)