Mindfulness

16.10.19
Na caminhada pela manhã cedo, a levar com o vento nas trombas, comme il faut na Póvoa, ia pensado na roupa que tinha de tirar da máquina para secar na lavandaria, na logística do almoço com o que sai da escola a essa hora (a vinharia não fecha), no que improvisar para o jantar com os itens do frigorífico e congelador, nos conteúdos que faltam para o site avançar, no que queria escrever no blog, no dentista, no sutiã que preciso de comprar (estou sempre a precisar de comprar sutiãs, eu sei, mas é porque nunca compro, ou quando o faço trago o errado. Sim, já devia ter deixado de usar), nas encomendas de Natal (eu a pensar no Natal em Outubro, quem diria!!!!). Depois, desligava e olhava para o mar, respirava e contava os passos na inspiração, seis, e na expiração, oito, e apercebia-me da sola dos pés, das canelas, dos joelhos e por aí fora e notava que a paisagem era bela, sim senhora, que o vento não tinha de ser desagradável, que é um privilégio poder fazer estas caminhadas, que se calhar não é impossível fazer o caminho até Santiago com o Isaac, como a mulher com os dois filhos que passou por mim, e por pensar no Isaac ele tem teste de Português amanhã, vai ser um problema fazê-lo perceber a importância de estudar, de ter um método de estudo, mais cedo ou mais tarde. Eu nunca gostei de estudar para os testes, nem nunca o soube fazer muito bem, era com o que ouvia nas aulas que me safava e até certa altura fui-me safando muito bem, depois já não. Agora ninguém está à espera que os miúdos se safem, têm de ser brilhantes, no mínimo.
-Não achas que as gaivotas fazem isto (planar ao vento) por puro gozo?, ouvi o Jaime perguntar.
-Não creio, todos os comportamentos animais têm como finalidade a sobrevivência, ou a procriação, respondi.
Olhei para as gaivotas, inspirei e contei seis passos, expirei e contei oito.

Dez anos em 19 anos

30.9.19

O Isaac fez dez anos, a Maia morreu no mesmo dia.
A Maia morreu no dia em que o Isaac fez dez anos.

Não dá para falar do dia em que festejamos o aniversário do nosso filho (ontem) e o da morte da nossa gata de 19 anos no mesmo post. Mas também não dá para falar de uma coisa e outra separadamente, quando aconteceram no mesmo dia. Melhor não falar. Não, melhor falar.

Portanto, descemos as escadas às 7h da manhã, confirmamos que a Maia não respira, mas se calhar está viva. Demoramos sempre a acreditar na morte. Sabemos que vamos ter de pegar nela, depois de colocar o cobertor na caixa de cartão. Ela está morta mas não vai para dentro da caixa sem alguma coisa que a aconchegue. É a primeira vez que lidamos com os aspectos práticos da morte de um animal de estimação. Talvez ela não esteja morta, apesar das evidências. Demoramos sempre a acreditar na morte. Cubro-a com o cobertor e fecho a caixa. Agradeço-lhe mais uma vez ter feito parte da nossa vida. Entrego a caixa ao Jaime para a levar à casa da minha mãe, para a enterrar. Sei que teve uma vida longa e feliz, supondo que sei o que é a felicidade para um gato.

Subo e o Isaac chama por mim. Vou ao quarto dar-lhe os parabéns e ele pergunta onde foi o pai. Invento qualquer coisa e digo-lhe que pode vir deitar-se na minha cama, se quiser. Não consigo evitar as lágrimas que correm como rios dos olhos para as orelhas, mas eles não percebem, felizmente (o Nicolau também se tinha juntado a nós). O Isaac faz anos, merece a festa que idealizou. Estamos à espera do Jaime para abrir a prenda. Depois vamos sair para ir buscar o bolo, os amigos e seguir para o Porto. Pode ser que ele não se aperceba que a Maia não está, ela já não se fazia notar muito nos últimos dias. Não tenho a certeza de conseguir travar a nascente dos olhos, mas consigo.

Mais tarde, no final do dia, quando lhe disse que estávamos tristes por a Maia não estar em casa, tanto um como outro demoraram a perceber. ''Fugiu de casa?''- perguntou um. ''Está no veterinário?'' - perguntou o outro. O Isaac chorou desalmadamente e sentiu-se culpado por não ter percebido o que tinha acontecido - ''não vês que parece que eu não me preocupo com a Maia'', dizia entre soluços. O Nicolau quase não chorou.

De todos os que vivem comigo, a Maia era a que estava há mais tempo. E o Isaac o que mais se preocupava com ela, por isso gostou da ideia de a nossa gata, de a minha gata, ter escolhido ir para um sítio melhor num dia tão especial.

Bom ano

17.9.19

Devo estar deprimida, ou seja, devo estar consciente do que se passa à minha volta, porque o início deste ano lectivo não se encheu de confetes, que são as expectativas que todos criamos à volta da vida das nossas crianças.
Dei por mim a fazer comentários jocosos às fotografias das criancinhas no primeiro dia de escola até o facebook me mostrar uma ''memória'' de 2011, onde constavam as minhas criancinhas no primeiro dia de escola, precisamente.
Por causa disso fiz umas pesquisas aqui no blog e só não fiquei pasmada com o que já enchi a minha vida de domesticidade, porque ainda tenho muito presente esses maravilhosos e terríveis tempos do passado recente (a sério que eu fazia posts destes? e destes? _____ [inserir emoji com ar aterrorizado, ou outro que se adeqúe] e isto só na etiqueta 'lavores'!)
Bom, mas a domesticidade não é tão aterradora agora, o que quer dizer que os filhos pequenos dão mesmo muito trabalho, mas não deixa de ser aborrecida. Não a parte de preparar e destinar os legumes, ou regar as plantas e fazer bolos com o Nicolau, mas quase tudo o resto. Vocês sabem, limpar, arrumar, encaixar os tupperwares e respectivas tampas no armário, varrer o cotão, lavar as piaçabas, mesmo achando que deviam ir para o lixo...
Não tem de ser dramático, até temos máquinas que lavam louça e roupa, só que é. Sobretudo, porque nem todas(os) podemos ser a Sarah Affonso que confirmou ''o seu projecto plástico nas pequenas coisas do quotidiano, sem distinção entre artes maiores e menores, entre pintura e bordado, entre cerâmica e desenho de jardim''.
Emília Ferreira, directora do Museu Nacional de Arte Contemporânea/Museu do Chiado, até diz que a quinta de Bicesse, que Sarah Affonso comprou com Almada Negreiros, ''é a continuação lógica da diversificação artística que as vanguardas valorizavam .''
Se ao menos as vanguardas de agora valorizassem montras, se calhar eu podia aspirar a ser artista (inserir mais emojis).

A minha forma de ser

5.9.19
Num diálogo hipotético dizia a alguém: ''se calhar não gostas da minha forma de ser'' e depois fiquei a ouvir o eco ''forma de ser... forma de ser... forma de ser...''. Enfim, é o que dá acordar às quatro da manhã. Adiante.
Quando estava a sentir o sono a chegar novamente, achei que devia apontar para me lembrar quando acordasse, mas não tenho lápis nem papel na mesinha de cabeceira. Pelos visto não foi necessário.
A expressão ficou a ecoar na minha cabeça por me parecer provocatória, como se para sermos tivéssemos de partir de uma forma, isto é, de um molde. Como se no início houvesse uns quantos moldes e a partir daí se formassem todas as pessoas.
Não sei se me calhou um molde mais defeituoso, ou se a minha matéria não tinha o que era necessário, como quando um bolo afunda no meio, para a minha forma de ser tornar-se menos apreciada.
Seja como for, há pessoas muito irritantes que conseguem ser interessantes e ter uma vida boa, como a Lindsay e o Frank, por exemplo. E não me venham com o detalhe de essas pessoas serem personagens, que toda a agente sabe que a realidade ultrapassa, muitas vezes, a ficção.

Agosto é fodido

26.8.19
Quando me perguntam há quanto tempo regressei de Timor, tenho de pensar duas vezes, porque vim viver para a Póvoa em Janeiro de 2018, pelo que a resposta ''há um ano'' não é muito desfasada, mas já estava em Lisboa desde Setembro de 2017, portanto estou cá, em Portugal, há dois anos.
E por aqui se vê que um ano pode não fazer tanta diferença na vida de uma pessoa, como um minuto, que há-de ter sido o tempo que demoramos a tomar a decisão de eu e os miúdos não regressarmos a Timor.
Não é sempre claro quando estamos a viver um desses momentos decisivos. Muitas vezes só em retrospectiva percebemos isso. Aquele beijo, aquela viagem, aquela entrevista de emprego...
Outras vezes, essa percepção pode ser muito evidente no momento em que está a acontecer, mas é raro, acho eu.
Foi um momento desses, ou vários, que me trouxe aqui, às minhas novas funções de ''vineuse'', que é uma categoria inventada pela Dora.
E agora, com os rapazes a passar muito tempo no armazém da vinharia, mais por vontade deles do que nossa, é inevitável pensar o que guardarão eles destes momentos. Espero que o roblox e o Filipe Neto não ocupem mais espaço na gaveta da memória do que as garrafas em volta e as conversas sobre vinho.
Mas o vinho tem um poder especial, que leva alguns deles, a dada altura, ''a cruzar-se na vida de muita gente e a fazer parte da sua história e da sua passagem terrena'', como contou o Pedro Garcias na maravilhosa crónica, em três partes, ''O dilema de António perante uma garrafa de Henri Jayer de 1970''. Por isso, eu sei que será o vinho, as histórias à volta do vinho, que eles guardarão destas férias grandes.

Chegada a este ponto, e depois de reler várias vezes o que escrevi, parece não fazer muito sentido o que estou para aqui a dizer. Acho que não sei o que quero dizer, na verdade.
No fundo, estou mergulhada em incertezas, como é natural, numa espécie de turvação (turvidade), como se estivesse debaixo de água.
Mas é Agosto, já devia saber. Foi num Agosto que morreu o meu pai e foi num Agosto que tive um acidente grave de carro.
Pois é, só agora me apercebi que faz hoje dois anos que sobrevivi a um acidente de carro. Tenho de celebrar.

Embebedai-vos

14.8.19

Calcei umas meias com um buraco, vesti um sutiã que já devia ter ido para lavar e pensei: ''Espero não ter de ir ao hospital''.
Eu, como toda a gente, espero nunca ter de ir ao hospital, mas é preciso calçar umas meias rotas e um sutiã encardido para me lembrar disso. Bom, mas a ter de ir é sempre melhor ir apresentável, claro.
Depois ocorreu-me: ''Quantas pessoas andarão, hoje, na rua com as misérias escondidas, como eu?'' Ainda não tinha acabado de calçar a segunda meia e senti-me inundada por uma onda de solidariedade e enternecimento por todos os seres humanos que passam a vida a tentar ser iguais aos outros.
E logo a seguir ainda relacionei isso tudo com o poema de Baulelaire, aquele que manda as pessoas embebedarem-se ''Para não sentir o fardo do tempo que parte vossos ombros e verga-vos para a terra, é preciso embebedar-vos sem tréguas./ Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, a escolha é vossa. Mas embebedai-vos.''
Está visto que virtude não é coisa que sirva para me embebedar. O que vale é estar rodeada de vinho. E poesia também não me falta!

Escolher os problemas

7.8.19

Pela primeira vez, desde que os rapazes nasceram, temos de pensar o que fazer com eles durante as férias de Verão. O que fazer com eles no sentido de para onde os despachar e não o que fazermos juntos.
Este é um tema que, obviamente, já fez correr muita tinta e ocupou sei lá eu quantos gigabytes na rede, mas, que novidade(!!), ainda não tinha falado nisso (acho eu).
As pessoas têm filhos, as que têm, e naturalmente têm de os alimentar, agasalhar, educar. Isso, às vezes, pode ser mesmo muito complicado, outras muito simples. Depende de muitos factores.
Seja como for, as férias dos miúdos são um problema para muitos pais desde que as mulheres começaram a trabalhar fora de casa e as famílias se dispersaram.
No nosso caso não temos precisado de nos preocupar com as férias da escola, porque eu estive sempre disponível, isto é, sem emprego, ou sem um trabalho com horários.
Não é o caso deste Verão. Por isso, em Julho pagámos para estarem em Actividades de Tempos Livres (ATL), a fazer coisas que gostam, e em Agosto vamos gerindo um dia de cada vez: as manhãs com um de nós, umas tardes com a avó, outras no trabalho connosco (na foto estão com o primo mais novo, no dia em foi baptizado).
Conseguir isto, conciliar o trabalho com a vida familiar, é uma pequena vitória que vale a pena registar. Até porque  demorou 18 anos e  tivemos de criar o nosso próprio emprego para o conseguir.
Mas, há sempre um mas, criar o próprio emprego é quase como criar um filho. Temos de o alimentar todos os dias, ajudá-lo a crescer e dedicar-lhe tempo. Portanto, para resolver um problema foi preciso criar outro.
Parece-me que a ideia de que devemos procurar os problemas com os quais não nos importamos de viver, em vez daquilo que nos faz feliz, faz bastante sentido.

Orgulho

25.7.19

Estou a escrever numa garagem e mal comecei a frase lembrei-me da Michelle Dubois. Não, não faço parte de nenhum grupo de resistência, apesar de gostar de fazer de conta que sim. Estou a escrever numa garagem, porque é o novo escritório/armazém da garrafeira que eu e o Jaime imaginamos, primeiro, e abrimos ao publico, depois. Bom, entre um e outro, a idealização e a concretização, houve um espaço de tempo considerável e bastante trabalhoso, como é fácil perceber.
Mas aqui estou eu com uma certa vontade de falar sobre as voltas que a vida dá e as tantas vidas que já vivi numa, mas não vou maçar-vos com isso. Pronto, vou só um bocado: Às vezes acontece de nos encontrarmos num determinado momento em que muitos outros momentos que vivemos vêm ter connosco.
Foi o caso da chegada destes dois vinhos na foto. Eu estou na Tua Vinharia, mas também estou em Lisboa a fazer mantas patchwork, na Rua Maestro Taborda, e a tricotar com a Rosa Pomar e a fazer crochet com a Rita Cordeiro, na Retrosaria. Também estou no momento em que conheci uma das produtoras destes vinhos, Susana Esteban, na primeira edição da Abertura das Talhas - Amphora Wine Day
Ver tantos momentos a convergirem desta forma fez-me sentir um certo orgulho. É um sentimento bom, devia senti-lo mais vezes.

O meu coração quer fugir de mim

14.7.19
Tem acontecido acordar a meio da noite, sempre à mesma hora, com aquela sensação de pânico, como se me estivesse a afogar, ou como se alguma coisa terrível estivesse para acontecer.
São sintomas comuns a cada vez mais pessoas que sofrem de doenças mentais, já se sabe, mas eu encaro-os mais como um banho de realidade. Quer dizer, não há como não ter medo das coisas terríveis que podem acontecer (e acontecem todos os dias a biliões de pessoas), o segredo é não pensar muito nelas, ou não sendo capaz de parar de pensar, não lhes dar muita importância.
Mas a meio da noite, com o coração quase a saltar cá para fora (o meu coração quer fugir de mim, muitas vezes), não é muito fácil.
Hoje, de madrugada, depois de perceber que não ia conseguir voltar a dormir, tentei entender o que me assustava. Já falei aqui sobre o meu medo, sobre ter sempre tanto medo, mas nunca me pareceu fundamental procurar a origem disso, porque a bem dizer não há como ser humano sem sentir medo. É, basicamente, uma ferramenta de sobrevivência (se calhar deveria dizer skill, é muito mais trendy).
Bom, mas eram cinco da manhã, não me apetecia sair da cama ainda de noite, por isso pus-me a fazer uma lista mental dos meus medos e cheguei à conclusão que todos se resumem a um: Medo de não ser capaz.
-Medo de não ser capaz de salvar os meus filhos das arbitrariedades da vida e de não tomar as decisões certas, nos momentos certos
-Medo de não ser capaz de estar à altura dos desafios profissionais que vão surgindo
-Medo de me render e fazer o que é suposto, ou o que os outros esperam de mim, em vez de fazer o que me dá na real gana (eu gosto de acreditar que podemos fazer o que nos apetece, desde que saibamos viver com isso)
-Medo de falhar. Esta ideia de ser uma falhada persegue-me e, às vezes, gostava de saber quando começou. Mas o dia já estava a nascer, as gaivotas guinchavam, os cães ladravam e apeteceu-me café. 

Usufruir

19.6.19

Comecei a ler este artigo e lembrei-me logo de uma certa forma de estar dos timorenses que muitos poderão associar a preguiça e que a mim sempre me pareceu revelar conhecimento, como se eles soubessem alguma coisa que nós ignoramos.
Por isso, gostava tanto de observar o tio Abel, e os timorenses com quem me fui cruzando, e continuo a achar que temos muito a aprender com as sociedades menos desenvolvidas.
Não é propriamente novidade que o aceleramento da vida moderna anda a deixar meio mundo doente e o planeta em risco, o que não parece claro é que caminho seguir para menorizar os problemas.
Um dia destes, depois de estacionar o carro e rodeados de empreendimentos comerciais por todos os lados, o Jaime perguntava-me que iriam os nossos filhos fazer, quando já está tudo praticamente feito e eu respondi que iam, precisamente, desfazer o que andámos a fazer.
Na altura não me pareceu uma resposta assim tão contundente como me parece hoje, depois de ter estado a separar e preparar os legumes que a D. Fátima trouxe, enquanto pensava nas coisas que conseguimos controlar e as outras todas, as que estão fora do nosso controle.
Suponho que tenha sido precisamente essa a razão para os nossos primórdios criarem os deuses - é melhor lavar as nabiças para o esparregado - e a bem dizer, a humanidade chegou a este estado de evolução graças  à sua capacidade de sobrevivência.
E deixar acontecer o que tiver de acontecer - que pimento maravilhoso para o gaspacho -, acreditando que nada é por acaso, ou o contrário, tudo é casual, equivale a acreditar em Deus sem os sacrifícios, nem o inferno. Por isso, não te rales, sê feliz!
O feijão verde é para uma salada com ovo. Além disso, há coisas extraordinárias no mundo, por exemplo, não sei quais são as probabilidades do Vitorino, o encantador de crocodilos, sobreviver à recolha de ADN de 17 bichos, mas calculo que sejam muito pequenas.
Enfim, nem tudo tem uma explicação, por muito necessária que seja à nossa existência. Mais vale sentarmo-nos e usufruirmos, de preferência com um copo de vinho na mão.