Pão com passas

21.7.17
O título é emprestado da minha To do list. Lá, diz que além de pão com passas tenho de fazer umas revisões de textos, enviar uns e-mails e escrever este post, que já está nos rascunhos, há uns dias, com "Foi encontrado um casal congelado e conservado nos Alpes, que desapareceu há 75 anos".
Usar o primeiro item da minha lista foi uma tentativa de desbloqueio que não faço ideia como vai resultar, porque não estou a ver qual a relação entre a notícia do casal congelado, que me fez lembrar o filme 45 Anos, e pão com passas.
Até pus no google Charlotte Rampling + raisin bread e nada. Não há qualquer ligação, aparentemente.
Como não há na compra da fruta dragão, no dia da campanha do CNRT em Díli, a não ser o facto de ter sido eu a comprá-la, de estar com ela na mão e ver passar os barcos com as bandeiras do partido do Xanana rumo a Tasitolu.
Como não há na ausência de prémio na raspadinha Futu Manu (luta do galo), logo a seguir a saber que a minha avó estava a ser operada no Hospital de S. João.
Ou o meu cão gostar de bolachas Maria, ao ponto de as enterrar cuidadosamente com o focinho, e as anonas ficarem podres antes de amadurecerem.
Quer dizer, estou eu a comprar a fruta e a ver a caravana no mar e a raspar a Futu Manu e a ouvir a minha mãe e a dar bolachas ao cão e ver as anonas pretas e daqui a pouco a fazer pão com passas. Sou eu a ligação entre isso tudo.
Uma pessoa, realmente, precisa de chegar a velha para compreender os filósofos.

Cartas de Díli #5

9.7.17
Querida Bea,

Esta carta se calhar vai ser mais curta do que as anteriores, porque estou cansada. Podia continuar a adiar escrevê-la até me sentir com mais energia, ou com as ideias mais claras, mas estou convencida que obrigar-me a manter uma periodicidade é importante.
Estou a meio de uma semana diferente, e intensa, de trabalho com o workshop de jornalismo para crianças e devo dizer que tem sido uma experiência e tanto.
Quando me perguntam como está a correr eu não sei bem o que responder, porque para mim está a ser muito interessante e frustrante ao mesmo tempo.
Primeiro, porque trabalhar com crianças, mesmo não sendo uma novidade, é sempre um desafio. E depois, é muito complicado ver todo o potencial daqueles miúdos e não saber como convencê-los a usar essas capacidades, porque nem eles sabem que as têm.
Há ali miúdos incríveis, que desenham como nunca vi, que riem como nunca vi, que choram, que se controlam, que se esforçam e lutam como sabem.
Só passaram três dias (apesar de me parecerem três semanas) mas já sei de cor quase todos os nomes, mesmo que os pronuncie incorrectamente, já consolei birras de cansaço, já pus pensos em feridas, já sanei conflitos e já dei abraços de mimo (sim, sem pedirem, imagina).
Além disso, acho que começam a ter uma ideia da estrutura de uma notícia. Não sabem escrevê-la, ainda, ou não todos, pelos menos, mas sabem o que é o título, a legenda da foto e que o texto deve responder às perguntas Quem? O Quê? Onde? Quando? e Porquê?
Não tenho a certeza se o orgulho com que me mostram os resultados é por terem concluído a tarefa pedida, ou por sentirem que aprenderam qualquer coisa. Suponho que na cabeça deles uma coisa implica a outra, mas sabemos que nem sempre é assim.
Por outro lado, os teus irmãos, que passam as manhãs no "Summer Camp" e as tardes em casa com a Domingas estão no pico da carência afectiva, tipo, ao ponto de irem para debaixo do coqueiro que é o único sítio da casa para onde não podem ir, porque nesta altura estão sempre a cair cocos.
Não te rias (sim, estou mesmo a ver-te gozar comigo), há mais casos de mortes com cocos na cabeça do que com ataques de crocodilos, lembras-te? Ainda por cima, desde que estou cá só vi um crocodilo, contra três cocos que me acordaram a meio da noite a cair no chão.
Não é que a estatística me interesse por aí além, enquanto disciplina, mas eu guardo uma lista de formas de morrer surreais e nem imaginas as coisas absurdas que acontecem.
Entretanto, a semana acabou e não te enviei a carta. Depois do terceiro dia de trabalho fiquei doente, com tosse, mas o ben-u-ron resolveu a coisa e sobrevivi à primeira semana. Agora, estou mais ou menos em pânico com a que começa amanhã.
Também já dei por mim a pensar que vou sentir a falta deles. São quase todos irritantes e maravilhosos na mesma proporção.
Enfim, é bem possível que esta experiência esteja a ser a mais intensa desde que estou em Timor, porque mexe com o meu lado mais ingénuo. Aquele que olha para estas crianças, que são o futuro deste país, e acredita que pode fazer alguma diferença com as palavras.

Existência

1.7.17
Nunca me ocorreu que se pudesse alugar (que dizer comprar) um filme de ficção científica indie no clube de vídeo (que dizer na loja de cópias manhosas de filmes) de Colmera, apesar de se encontrar de tudo no meio daqueles milhares de DVDs. Mas foi exactamente o que aconteceu e por isso ontem vimos o Bokeh.
É um filme apocalíptico diferente da maioria dos filmes que eu vi sobre o fim do mundo sem, no entanto, deixar de ser desconcertante. Mas aquilo que mais nos surpreendeu foi os miúdos ficarem a vê-lo com um interesse nunca antes demonstrado num filme de adultos.
Aliás, quando lhes dissemos que podiam ver, pensámos que iam desistir passados três minutos e meio, como é costume, só que aguentaram quase até ao fim. Desistiram na penúltima cena, com o Isaac a chorar, e fizeram-nos prometer que lhes contávamos o fim no dia seguinte.
Ao Isaac contei, ainda antes de ele adormecer, que o filme tinha sido um sonho da protagonista e que tudo tinha acabado bem (sim, menti-lhe com quantos dentes tenho) e na manhã seguinte, ainda meia a dormir, respondi ao Nicolau que sim, que as pessoas tinham aparecido todas outra vez.
Não há grandes coisas a acontecerem no filme (se virem o trailer, praticamente viram o filme), o que torna todo este interesse por parte deles ainda mais surpreendente.
É como se as grandes questões existenciais existissem ainda antes de nós.

Férias

28.6.17

Era muito raro chegar ao blog e não saber o que escrever. Agora, acontece-me ficar com a página em branco a pensar se tenho realmente alguma coisa importante para dizer.
Não há nada de muito assinalável a acontecer na minha vida (mas alguma vez houve?). Vejo os meses a ficar para trás no calendário: Maio, fim-de-semana radical; Junho, Calita out, ficha pt, ficha matemática, ficha est. meio, FERIADO, aferição pt, aferição mt, S. JOÃO, Fim da escola do Isaac, Fim da escola do Nicolau. 
A sebe de buganvílias, que o Sr. Abel, afinal, conseguiu podar antes de Maio terminar, mesmo no final, já está exuberante outra vez. 
As férias grandes começaram, o que significa que é Verão (como, se é sempre Verão?) e que esta casa vai ficar virada do avesso. 
Faltam 31 dias para chegar a Bea.

Realidade e ficção

22.6.17

Foto daqui

Estava a virar a esquina para entrar na minha rua e um miúdo, mesmo à minha frente, abre as asas do morcego que tem nas mãos e guincha. Dei um pulo, assustada. Ele riu-se. "Pobre morcego", pensei. Talvez estivesse morto.
Tenho andado rodeada de morte. Das personagens: a Marta Téllez, do Javier Marías; das pessoas que morreram no incêndio; das pessoas que são também personagens: o João Jorge, do Bruno Viera Amaral; da minha lista de "Formas de morrer que não lembram a ninguém", retiradas das notícias.
Acordo todos os dias entre as 4h00 e as 5h00, assustada e volto a adormecer. Li qualquer coisa sobre isso querer dizer que um poder superior está a tentar comunicar comigo. Mas devo ser eu a querer comunicar, como a Hilda Hilst - Calita pedindo contacto.
No meio deste torpor, causado pelo calor e pelo anti-histamínico, misturo a realidade e a ficção. São difíceis de distinguir de qualquer das formas.

Cartas de Lisboa #2

19.6.17
Boas tardes (ou seja qual for a expressão mais apropriada para a situação da estimada leitora [peço desculpa aos fãs do blogue mas refiro-me apenas à minha mãe porque não há garantia de que vocês não sejam assassinos em série ou pior, apoiantes do trump, e portanto não posso afirmar que são estimados]),

Estão quase 40 graus em lisboa, portanto não prometo que o conteúdo desta carta faça muito sentido.
Na verdade, esta já é a quinta carta que te escrevo, mas entre entregas de portefólios e escolhas de áreas e a agitação natural de início de férias (que só morreu este fim de semana porque os amigos mais próximos estão fora e está demasiado calor para eu ter motivação para estar com os amigos menos próximos) acabo sempre por não as acabar. Para resumir o conteúdo das últimas 3, desenvolvi uma obssessão gigante por ABBA e descobri assim todo um novo método de lidar com raiva, tristeza, ou seja o que for (um destes dias devia gravar, porque dançar com raiva deve ser das coisas mais hilariantes que se pode observar), descobri um novo mundo em tinta da china que eu até agora odiava mas que me tem dado ótimos resultados (tipo uma tendinite no pulso por desenhar demais) e já te devo ter contado entretanto pelo querido facebook mas escolhi ir para Gravura e Serigrafia. Na semana das aulas abertas (onde se podem visitar as várias oficinas para ajudar na escolha da área), eu fui toda feliz e contente mais ou menos convencida de que queria ir para RPE à oficina de Gravura (vou esclarecer para futura referência que Gravura e Serigrafia é o nome do curso mas provavelmente vou-me sempre referir ao mesmo apenas como Gravura e mais uma vez que RPE é reprodução plástica para espetáculo ou seja cenografia e figurinos) e lixei-me. Não é que eu, finalmente mais ou menos decidida, finalmente sem crises existenciais chego à oficina de Gravura e saio quase a chorar porque não sei o que fazer da minha vida? Tive um ano inteiro tranquila com a escolha porque já tinha uma ideia mais ou menos final e uns dias antes de ter fazer a escolha é que vem a confusão? Imaginas o drama, não imaginas? Enfim, acabei por decidir seguir o meu curaçón e apesar de ainda não ter 100% de certeza que foi a decisão certa, estou confiante de que vão ser uns bons 2 anos dos quais eu vou ter muitas saudades no futuro.
Entretanto, não sei se sabes, foi-me oferecida a oportunidade de ir viajar com uma amiga a Timor. Vai ser incrível, estou farta de pensar nisso. Mal posso esperar por lhe mostrar a Areia Branca e o cristo rei, a fantástica ilha de Jaco e toda a aventura que será lá chegar e claro, Liquiça (we'll always have Liquiça). Vou é ter de visitar um casal de bêbedos e os seus dois gunas superheróis, mas olha, há sempre um preço a pagar pelas coisas boas :P
Vá, todos sabemos que não é verdade. Quer dizer, é, porque nenhum dos títulos é particularmente injusto, mas acho que não é preciso dizer as saudades que tenho vossas.
No outro dia estava a descer a rua Garret e vi um homem (senhor? gajo? rapaz? ahhhhhhh não sei) alto, de cabelo preto, a usar calças de ganga e uma t-shirt branca e com uma mochila azul às costas a entrar naquela coisinha que vai dar ao ex-escritório do Jaime e quase que corri atrás dele. Quase. Tenho mesmo muitas saudades vossas. Dos nossos almoços com ótimas conversas sejam estas filosóficas, políticas, sobre música (mais com o Jaime) ou até as conversas em que chegamos à conclusão que à exceção do Jaime tu claramente tens mau gosto em espécimes masculinos pelo menos do ponto de vista físico.

Além de traumatizados, como estão os rapazes? E o Douro, sofreu alguma consequência pelo homicídio ou o advogado disse que ele tecnicamente não sabia o que estava a fazer e safou-se?
Acho que descobrir que os bichos morreriam de qualquer das formas é das melhores coisas porque nunca me irei esquecer do ato heróico (agora inútil) do pobre Jaiminho com essas criaturas cujo nome deveria claramente ser Hitchcocks ou então aqueles-coisos-que-voam-em-Laclubar.

Um completo aparte que eu acho que devia ser mencionado, como resposta ao teu primeiro parágrafo da carta #3, é que me tenho apercebido cada vez mais que eu sou aquilo que sou graças principalmente a ti e ao Jaime. Com ele posso falar melhor depois, mas gostava mesmo que tivesses noção que não és, de todo, resumida a "uma mãe bastante depressiva, uma jornalista frustrada". És, de longe, a melhor mãe que conheço. Consegues nomear um par de mãe e filha com uma relação tão boa como a nossa? Eu não. Fizeste e continuas a fazer um ótimo trabalho em educar os teus filhos ouvindo e respeitando na mesma todos os sentimentos deles e aquilo por que estão a passar. Sim, podes não ser a pessoa mais paciente do mundo nem a mais bem-disposta. Mas é assim que gostamos (imenso) de ti, e gostava de ter palavras para descrever melhor o impacto positivo que tens em toda a gente à tua volta.

Em relação à aphantasia, acho que melhorou bastante. Desde que entrei na Arroio que consigo mais ou menos visualizar. No fundo, apercebi-me de que sempre o consegui, mas é de uma forma diferente da das outras pessoas. As minhas imagens não são muito nítidas, e raramente são coisas literais. Por exemplo, agora quando fecho os olhos e me concentro, consigo ver-vos aos quatro a jantar, mas é de uma forma muito Wes Andersoniana e a imagem não é muito clara. Pode mais ou menos ser comparado a um ecrã de cinema muito muito muito muito longe de mim. Basicamente, a escola está a ajudar-me a desenvolver ferramentas para finalmente conseguir ver o que a minha imaginação esquisita e muito ativa sempre criou. Ou então ando a ter alucinações induzidas pela atmosfera provavelmente infestada com drogas à porta da escola.

Cartas de Díli #4

14.6.17
Querida Bea,

Agora que as férias da escola já começaram, tenho tido poucas notícias tuas. Espero que seja por andares entretida com coisas boas.
Na semana passada sempre fui fazer o tal trabalho de campo com a Timor Aid e lembrei-me muitas vezes daquela conversa que tivemos no Museu do Budismo Mundial, em Kandy, lembras-te?
Perguntaste-me se a minha vida era muito diferente da que tinha sonhado/imaginado para mim. Lembrei-me disso, porque andar no terreno a pesquisar sobre tais, a descobrir coisas fascinantes sobre estes tecidos e a conhecer novos sítios foi das coisas mais entusiasmantes que fiz nos últimos meses (e o entusiasmo é tudo. Já te disse isto muitas vezes).
Nessa conversa em que te contava o que tinha imaginado para mim e em que te revelava, pensava eu, como acabei numa vida bastante diferente, mostraste-me que eu tinha conseguido fazer exactamente aquilo que tinha sonhado. Tinha filhos, tinha trabalhado como jornalista e estava a viajar por muitos sítios do mundo.
Pois, de facto. Só que não é bem assim (ou é?). Acabei por ser uma mãe bastante depressiva, uma jornalista frustrada e as viagens são pagas com o salário do Jaime. Mas, sim, estou a viver a vida que escolhi e tem sido bem interessante.
Ainda agora interrompi a carta para observar um pássaro na árvore em frente à janela e  fiquei uns bons minutos a vê-lo coçar-se com o bico, naqueles movimentos rápidos que as galinhas também têm.
[Um aparte. Tenho pensado muito em galinhas. Nas conversas que ouvi ao longo da pesquisa, e que não conseguia acompanhar por causa da língua, ficava muitas vezes a olhar para as galinhas. São animas fascinantes. Também nunca mais me esqueci daquele sonho que tiveste em criança, sobre as pessoas que queriam falar com as galinhas, quando elas não falavam inglês. Só uma achava que sabia, mas não era verdade e os maus vieram matá-la. Isto foi em Agosto de 2006, tinhas cinco anos (as vantagens de ter um blog nunca devem ser questionadas).]
A seguir pensei ir lá fora ver se descobria que árvore é esta, em frente à janela, mas fiquei com medo de me cruzar com a Domingas a pentear o cabelo. Não é medo, claro, é desconforto. Acho sempre que devo dizer alguma coisa quando ela está a pentear-se, ou sentada num banco à sombra, mas nunca sei o quê.
A Virgina Woolf fala desse "medo" em relação às empregadas nos "Diários". Ainda fui à procura de posts antigos no blog, para ver se encontrava alguma referência, mas não encontrei nada. Ainda assim li vários dos quais já não me lembrava, como um a propósito do "Mrs Dalloway". Parece que há um momento do livro em que me lembrei da personagem de um conto, o "Amor", de Clarice Lispector. E acabo o post com a seguinte frase: "Acho extraordinário que ser dona de casa no Brasil (Rio de Janeiro?), nos anos 50/60; em Londres, nos anos 20 e em Lisboa no início do século XXI seja quase a mesma coisa.".
Eu, às vezes, chego a conclusões brilhantes, tens de admitir (estou a rir às gargalhadas).
Enfim, fazer este tipo de coisas, ir à janela olhar para um pássaro e voltar ao computador, é muito habitual no meu dia-a-dia. E é uma coisa que sempre me imaginei a fazer também. Mas a nossa imaginação, no fundo, é bastante limitada, porque não visualiza a solidão, a angústia e as dúvidas. Ou, talvez seja só a minha imaginação.
Bem, pelo menos tu não tens esse problema visto sofreres de 'aphantasia'. Por falar nisso, como é estar num curso de artes com esta limitação, se é que é uma limitação?

Ser ouvidos

12.6.17

Andei uma semana pelos distritos (um dia escrevo sobre o que é que isso quer dizer, porque só quem vive, ou viveu, em Timor sabe exactamente o que significa), com três timorenses a fazer um levantamento sobre tais - os tecidos tradicionais.
Poupo-vos o chorrilho de frases feitas sobre o sorriso das crianças ranhosas, a hospitalidade das comunidades, a vida simples que parece seguir indiferente a carências várias.
Por um lado, porque eu própria não tenho tenho paciência para ler essas baboseiras, e depois de que serve sentir-me tocada pela vida dos outros quando sei que vou chegar a casa, mais cedo ou mais tarde (aqui é garantidamente sempre mais tarde), e comer o que me apetecer e tomar banho de chuveiro e beber duas garrafas de vinho?
É verdade que eu tenho tendência a reagir emocionalmente em certas situações. Por exemplo, no museu onde trabalhei, tive de me esconder no cockpit do avião a fingir, porque uma das crianças do grupo que eu estava a orientar tinha leucemia. De outra vez cruzei-me com um bebé, filho de uma das mães solteiras que a instituição onde eu trabalhava acolhia, e quando cheguei a casa desatei num pranto tal que ninguém sabia como me acudir.
Não foi o caso nesta minha experiência. Nem mesmo com a avó de 60 anos a amamentar o neto que está a criar, porque lhe morreu a filha.
Senti-me embalada pelas conversas que não entendia. Via as crianças penduradas nas mamas das mães, sentia a subida do leite e sabia que não tinha de amamentar. Que liberdade! não há liberdade maior.
As mulheres respondiam às perguntas, falavam das tradições da comunidade, riam-se,
sempre com crianças a fazer ninho nos colos.
Em todas as casas havia um mar de gente, que come e dorme e faz tudo o que se faz numa casa, mesmo com cortinas em vez de paredes e em vez de portas. A privacidade é muito subvalorizada nesta ilha.
Não me sentei no chão de terra batida, ou no cimento, uma única vez, porque há sempre uma cadeira de plástico para as visitas, e um naperon para a mesa.
Pareceu-me tudo muito familiar, como uma memória.
Depois entrava no carro e seguia sem crianças a querer fazer ninho no meu colo, a perguntar se falta muito, a abrir a janela para vomitar. Que liberdade!
Quando cheguei a casa vi a Elza Soares no computador. É pouco mais nova que a minha avó e é um gosto ouvi-la, como é ouvir as histórias que a minha avó inventa sobre o tráfico de droga em frente à escola primária. Mas já ninguém quer ouvir a minha avó. Eu ouvia a Elza e pensava na minha avó e nas mulheres dos distritos e percebi que é tudo sobre isso, sobre querermos ser ouvidos.

O que me preocupa

2.6.17
Eu sei que devia estar preocupada com as provas de aferição e os exames globais e o aproveitamento escolar das crianças e tudo o que possa pôr em causa o sucesso deles no futuro, mesmo que eu não faça a mais pequena ideia do que isso seja, até porque tenho vivido neste engano de que o importante é que tenham saúde e sejam felizes.
Devia estar preocupada com esta dor de lado que me apanha o rim, e talvez o fígado e um bocado do estômago e às vezes o intestino grosso e que aparece e desaparece, mas uma pessoa fica a pensar nisso, porque não vai para nova e nasceu num país onde as doenças são troféus, enormes troféus, cada um mais elaborado e cheio de recocós do que o outro e isto fica entranhado nos genes.
E a paz no mundo, meu deus, devia estar preocupada com a paz no mundo, como as misses do Universo, que é feito delas, já agora? O mundo está a precisar que se faça alguma coisa.
Mas não, não. Eu estou preocupada com os pensos higiénicos que deixei inadvertidamente no balde do lixo da casa de banho e que foram devidamente recolhidos com o restante lixo da casa para serem depositados lá fora, na lixeira que está no passeio, para serem farejados pelos cães que os espalharão na estrada, deixando assim à vista de toda a gente os vestígios da minha feminidade.

Cartas de Díli #3

30.5.17
Querida Bea,

Nem imaginas como foi bom receber a tua resposta. Quer dizer, já falamos sobre isso, claro, mas parece-me importante deixar registado. Além da alegria que vem sempre com a chegada de uma carta, foi uma surpresa ver-te falar do que sentes (sim, conseguia ver-te enquanto te lia), de uma forma quase espontânea, quando sei o que te custa olhar para dentro, ou melhor, expressar esse olhar.
Menos surpreendente é ver a pessoa em que te estás a tornar e os sentimentos que essa pessoalização provocam em mim. O espanto, a alegria imensa, o medo e o amor, como quando te vi pela primeira vez. Sim, acho que estamos sempre a reamar os nossos filhos, sem deixar de os amar como da primeira vez.
À medida que ia lendo, sem conter as lagriminhas do costume, parecia que estava a ouvir o "Father and Son" do Cat Stevens (que curiosamente faz parte da banda sonora do filme que te falei na última carta). Eu a pensar: "But take you time, think a lot/Why, think of everything you've got/For you will still here tomorrow, but your dreams may not" e tu a responder: "Now there's a way and I know that I have to go away/ I know I have to go".
Escusas de casar e assentar, evidentemente (é uma música datada, apesar dos sentimentos intemporais), mas tenho de concordar que não deves ter pressa. Só que não há uma maneira certa de perceber isto quando estamos na idade de todas as urgências.
Continua a ler, lê sempre, compõe, faz coisas que te dêem prazer e que façam sentido para ti, apaixona-te, procura os bocados de Natureza na cidade (As árvores são grandes aliadas, tanto na tristeza, como na alegria) (Lembras-te dos nossos piqueniques na Estrela?), e já agora come muitos legumes e faz exercício.
Por aqui não há nada de muito novo a acontecer, mas talvez a minha visão esteja tolhida por uma tristeza ensombrada que sempre procuro combater com excessos vários e, a maior parte das vezes, desnecessários.
Ocorreu um pequeno drama, na verdade. Lembras-te daquele gato que não salvámos tentando salvar? Pois aconteceu uma coisa semelhante. O Isaac viu um lindo gatinho bebé na rua, que é onde vivem todos os animais domésticos deste país, como sabes, e quis trazê-lo para casa. Eu hesitei, sobretudo por não saber como pôr um cão a aceitar um gato na mesma casa, mas acabei por ceder convencida que ia saber resolver o problema. Pois que me enganei redondamente (que é uma coisa que raríssimas vezes acontece, como toda a gente sabe) e tive de devolver o gato à sua "casa", prometendo ao Isaac transformado em menino da lágrima que levaríamos comida todos os dias ao animal.
Acontece que o gato deve ter gostado muito de nós e entrou por baixo do portão. O resto consegues adivinhar, certo? Isto só por si já é horrível, mas nesse momento o teu irmão começou a gritar como alguém que acabou de descobrir a pior tragédia da sua vida, um filho morto num acidente, um marido levado pelo mar, aquele choro lancinante como a dor que estão a sentir. Eu nunca tinha ouvido ninguém chorar assim, e chorei também por causa do choro dele. E por causa da minha irresponsabilidade e por continuar à procura de uma moral nas leis da Natureza.
Fiquei sem conseguir encarar o Douro durante alguns dias. Ele percebeu, mas dizia-me que era um cão, que eu não podia esperar que fosse outra coisa diferente, e voltei a fazer-lhe festas.
Entretanto, as férias estão quase aí e a tua vinda a Timor quase consegue tirar-me do tolhimento. Vai ser giro voltarmos a Jaco, ao black rock (We will allways have Liquiça), a Balibó, a Same e quem sabe a Laclubar. Acho que em Agosto não apanhamos com a "chuva" de efeméridas. Sabes que depois disso fiquei a saber que esses insectos saem da terra e só voam por uns minutos, ou seja, quando eles começaram a cair no chão não foi por causa da luta heróica do Jaime, de insecticida na mão, foi mesmo porque a certa altura morrem, ou perdem as asas, não sei ao certo. Enfim, se soubéssemos disso talvez não tivéssemos vivido aquele momento Hitchcock.
Não sei como lhes chamam aqui em Timor. Vi no livro do Agualusa que em Angola são conhecidos por Salalés e que a ele, ao narrador d' O Vendedor de Passados, sempre lhe pareceram "seres sem maldade".