Posso chorar?

5.7.20
Depois da telescola, um dos grandes desafios enquanto pais tem sido gerir a histeria do Isaac com os jogos online (um deles, claro, há outros, muitos outros, como seria de esperar numa família com três filhos).
Num desses momentos em que ele está a arrancar cabelos e a chorar porque a internet não funciona, ou o telemóvel bloqueou, perguntei-lhe calmamente (sem me descabelar, ameaçar que nunca mais o deixava jogar aquele jogo, ou mandá-lo para a cama indiferente aos gritos de dor, como se o estivesse a torturar) -  Achas mesmo que chorar dessa forma resolve alguma coisa?
- (depois de longa pausa a acalmar-se para conseguir falar) Se eu morrer tu não vais chorar?
- Sabes que sim, vou chorar muito.
- E isso vai trazer-me de volta?
- Não
- E vais deixar de chorar?
- Não
- Então, posso chorar mesmo sabendo que não resolvo nada?

Uma lulik

1.7.20

Às vezes, um gesto, um som, ou qualquer outra coisa leva-me a determinados momentos do passado que julgava esquecidos. Chego a duvidar que tenham existido e penso se não será imaginação minha. Aconteceu ontem, depois de jantar, enquanto conversava com o Jaime e rabiscava num guardanapo.
Faço isso, parece, de ir rabiscando, passando uns riscos por cima de outros, começar a ver formas e explorá-las. Foi assim que acabei a desenhar uma uma lulik no meio de uma chuva que caía na vertical, num guardanapo (deitei-o fora, por isso não posso mostrar o desenho).
Foi quando vi o desenho que regressei a 2002, ao curso de Direitos Humanos da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Lá estava eu sentada na secretária a rabiscar no caderno enquanto o Joaquim Fidalgo falava, quando a minha colega do lado, uma búlgara de cabelo curto, susurrou: ''such a nice drawing''.

Acabaram as aulas

26.6.20
Hoje termina, oficialmente, o ano lectivo (na verdade, já o tinha dado por terminado há mais de uma semana) e nunca umas férias escolares foram tão desejadas pelos pais como estas. Ninguém sabe o que vai fazer com as crianças nos próximos dois meses, mas que importa? A escola acabou! YEEEEEEEEEEEEEEEEAH!

Ensinar educação

22.6.20
Numa conversa, na vinharia, com uma pessoa que tem uma daquelas histórias de vida que dá vontade de escrever um livro, lembrei-me da minha vontade de fugir com o circo de cada vez que a tenda era montada no terreiro. À medida que a conversa decorria voltei a pensar no assunto que tem ocupado algumas partes dos meus dias, e noites (apesar do anti-histamínico que me põe a dormir como uma pedra).
Algumas das pessoas mais interessantes que tenho conhecido tiveram uma infância pouco convencional, sem pais muito preocupados com a melhor forma de educar, com as técnicas mais eficazes para adormecer e alimentar as suas crias, ou com diagnósticos de PHDA, Dislexia e Discalculia. Os pais faziam o que sabiam e o que podiam sem perder muito tempo a pensar no assunto. 
Agora pensamos, questionamos e atormentamo-nos muito com a educação dos filhos. Um dia destes, na minha caminhada, não consegui evitar sorrir quando uma menina pequena, talvez com 5 anos, ao perceber que o cachorro a obedecia, perguntou à mãe: ''Foste tu que lhe ensinaste educação?''
Não há pais que não queiram o melhor para os seus filhos (bom, haverá alguns com patologias que os incapacitam de ter essa aspiração), mas é bastante óbvio que o mundo está cheio de pessoas que confundem o que é melhor para si próprios com o que é melhor para os seus filhos. Provavelmente, sou uma delas.
Por isso, queria voltar a pensar em mim mais como pessoa do que como mãe. Um mãe é sempre uma pessoa, uma pessoa nem sempre é uma mãe. E queria continuar a ser capaz de não ceder a pressões sociais para fazer o que é suposto. Se eu viver a minha vida como me apetecer, que não é mais do que aproveitar o melhor de estar aqui, é garantido que os meus filhos serão bem educados, apesar de eu não ter fugido com o circo. 

Fazer listas

19.6.20
Passaram quase seis semanas desde o último post do diário da quarentena e quando me ponho a pensar nisso parece que não aconteceu nada durante esse tempo e parece que aconteceu tudo. As pessoas saíram para a rua, revi amigos e familiares presencialmente, festejei dois aniversários, fui a dois velórios e um funeral, provei um Pet Nat, um arinto e um rosé, que me encheram as medidas (literalmente), cortei o cabelo (''uma mulher que corta o cabelo é uma mulher que quer mudar de vida'', como alguém diz neste filme, se bem me lembro), espalhei ideias em vários papéis e perdi-os, desisti da dieta, recomecei-a e desisti novamente, aprendi mantras, recebi a notícia de um cancro num familiar, tricotei um bocadinho, comecei a ver a série ''La casa de papel'' em família, que tem dado azo a conversas engraçadas, fui respirando com mais ou menos dificuldades, fiz vários piqueniques, entrevistei três pessoas ligadas ao Varzim Sport Clube e não li um único livro. 
Fazer listas é sempre a melhor forma de retomar o que quer que seja, incluindo o blog. 

Dia #60

11.5.20
Primeiro dia da dieta cumprido (até agora, ainda faltam umas duas horas para ir dormir), mas tirando uma visita de estudo às igrejas românicas de Rio Mau e Rates, que decidimos fazer por causa da matéria que o Isaac está a dar na disciplina de História, foi um dia bastante improdutivo.
Ontem tivémos o primeiro almoço com familiares e mesmo que se evitem beijos e outros contactos é impossível manter-se a distância em convívios destes. Também pude confirmar, com a minha irmã e o meu irmão, que trabalham na indústria, que pouca coisa mudou em termos laborais nas redondezas. As fábricas continuam abertas e os operários a trabalhar normalmente, agora de máscara.
Chegámos à conclusão que provavelmente já fomos infectados com o vírus sem revelar sintomas, ou temos tido sorte. Também temos tido cuidado, bastante cuidado, mas sabemos que isso só por si não é garantia de nada.
Por isso adoptámos a máxima ''Não deixem de ser felizes'' e procuramos cumpri-la. Em dieta é muito difícil, devo dizer!
O diário fica por aqui, mas o Covid-19, certamente, ainda vai ter bastantes entradas neste blog.
Saúde e boa sorte. Tchim Tchim!

Dia #59

10.5.20
Está decidido. Amanhã começo a dieta.

Dia #57

9.5.20
Como foi preciso fazer uma entrega de vinho, tarefa do Jaime uma vez que eu não conduzo, tive de ir para a loja enquanto ele esteve fora. Durante o percurso, de cerca de 10 minutos de casa à vinharia, debaixo de uma chuva torrencial, primeiro, e chuviscos depois, ia a pensar nas vantagens, e desvantagens, de sermos um casal a trabalhar juntos. Não tenho qualquer dúvida que o nosso negócio ganha na mesma proporção que a nossa vida pessoal perde, mas não deve ser difícil encontrar um meio termo qualquer. A ver vamos.
Depois, foi preciso inserir no site as novidades para serem incluídas na newsletter e, apesar de não haver uma periodicidade fixa, decidi que isso tinha de ficar pronto hoje. Ou seja, as crianças passaram o dia na Netflix a ver o Flash. Deve faltar um dia, ou dois, para eu começar a odiar a Netflix, apesar do Seinfeld.

Dia #56

8.5.20
O número de casos positivos com Covid-19 aumentou, quanto querem apostar em como poucas pessoas ouviram/leram que foram feitos mais testes e, portanto, é normal que isso tenha acontecido? Apesar de precisarmos de ter bodes expiatórios para tudo, ainda vai demorar a perceber que medidas foram eficazes no combate a esta pandemia e que erros podiam ter sido evitados. Já se sabe que os prognósticos são sempre eficazes depois do jogo, ou, dito de uma forma mais erudita, após a ocorrência de um acontecimento altamente improvável é arquitectada uma explicação que o faz parecer menos aleatório e mais previsível do que é na realidade.
Enfim, não me interessa nada disso, já temos Netflix, que é a modernização do gesto de tapar os ouvidos e cantar para não ouvir o que se passa à volta. 

Dia #55

7.5.20
Faltam cinco dias para acabar o diário da quarentena, porque a partir da próxima semana vamos alternar dias de trabalho na vinharia. Até aqui fiquei em teletrabalho e o Jaime na loja, sendo que ele não deixou de trabalhar em casa e eu de ir à loja sempre que necessário, mas a partir de agora vou ter de cumprir horários e vestir-me para sair.
Obviamente, vou levar a minha máscara da Pescada para usar no atendimento ao público, mas espero não ter de usá-la na rua. Se tiver é mau sinal.
Em duas ou três semanas, passámos do princípio de que só os profissionais de saúde devem usar máscaras para vamos fabricar máscaras e salvar o mundo.
Esta semana fomos buscar comida a um restaurante que ofereceu nada mais nada menos do que uma máscara em tecido, com o belo do arco-iris a dizer ''vai ficar tudo bem''. Eu acredito que vai ficar tudo bem, para uns, para outros nem tanto.
Sabemos que o distanciamento social, lavar as mãos e não tossir/espirrar para cima das pessoas são cuidados que temos de ter nos próximos tempos (que devíamos ter desde sempre, aliás, menos o distanciamento social, uma vez que precisamos muito de abraços), mas daí até a nossa sobrevivência depender do uso de máscaras, parece-me um exagero. Mas é uma opinião baseada unicamente no bom senso, sem qualquer fundamentação científica (que não será difícil encontrar se formos à procura dela), posso estar completamente errada.
E opiniões há muitas, como os chapéus, mas não agradeçam às pessoas por sairem de casa para irem trabalhar e garantirem que o país continua a funcionar, para depois olharem-nas de soslaio por quererem aproveitar o sol. O trabalho não pode ser a razão mais importante para correr riscos!