Bom ano

17.9.19

Devo estar deprimida, ou seja, devo estar consciente do que se passa à minha volta, porque o início deste ano lectivo não se encheu de confetes, que são as expectativas que todos criamos à volta da vida das nossas crianças.
Dei por mim a fazer comentários jocosos às fotografias das criancinhas no primeiro dia de escola até o facebook me mostrar uma ''memória'' de 2011, onde constavam as minhas criancinhas no primeiro dia de escola, precisamente.
Por causa disso fiz umas pesquisas aqui no blog e só não fiquei pasmada com o que já enchi a minha vida de domesticidade, porque ainda tenho muito presente esses maravilhosos e terríveis tempos do passado recente (a sério que eu fazia posts destes? e destes? _____ [inserir emoji com ar aterrorizado, ou outro que se adeqúe] e isto só na etiqueta 'lavores'!)
Bom, mas a domesticidade não é tão aterradora agora, o que quer dizer que os filhos pequenos dão mesmo muito trabalho, mas não deixa de ser aborrecida. Não a parte de preparar e destinar os legumes, ou regar as plantas e fazer bolos com o Nicolau, mas quase tudo o resto. Vocês sabem, limpar, arrumar, encaixar os tupperwares e respectivas tampas no armário, varrer o cotão, lavar as piaçabas, mesmo achando que deviam ir para o lixo...
Não tem de ser dramático, até temos máquinas que lavam louça e roupa, só que é. Sobretudo, porque nem todas(os) podemos ser a Sarah Affonso que confirmou ''o seu projecto plástico nas pequenas coisas do quotidiano, sem distinção entre artes maiores e menores, entre pintura e bordado, entre cerâmica e desenho de jardim''.
Emília Ferreira, directora do Museu Nacional de Arte Contemporânea/Museu do Chiado, até diz que a quinta de Bicesse, que Sarah Affonso comprou com Almada Negreiros, ''é a continuação lógica da diversificação artística que as vanguardas valorizavam .''
Se ao menos as vanguardas de agora valorizassem montras, se calhar eu podia aspirar a ser artista (inserir mais emojis).

A minha forma de ser

5.9.19
Num diálogo hipotético dizia a alguém: ''se calhar não gostas da minha forma de ser'' e depois fiquei a ouvir o eco ''forma de ser... forma de ser... forma de ser...''. Enfim, é o que dá acordar às quatro da manhã. Adiante.
Quando estava a sentir o sono a chegar novamente, achei que devia apontar para me lembrar quando acordasse, mas não tenho lápis nem papel na mesinha de cabeceira. Pelos visto não foi necessário.
A expressão ficou a ecoar na minha cabeça por me parecer provocatória, como se para sermos tivéssemos de partir de uma forma, isto é, de um molde. Como se no início houvesse uns quantos moldes e a partir daí se formassem todas as pessoas.
Não sei se me calhou um molde mais defeituoso, ou se a minha matéria não tinha o que era necessário, como quando um bolo afunda no meio, para a minha forma de ser tornar-se menos apreciada.
Seja como for, há pessoas muito irritantes que conseguem ser interessantes e ter uma vida boa, como a Lindsay e o Frank, por exemplo. E não me venham com o detalhe de essas pessoas serem personagens, que toda a agente sabe que a realidade ultrapassa, muitas vezes, a ficção.

Agosto é fodido

26.8.19
Quando me perguntam há quanto tempo regressei de Timor, tenho de pensar duas vezes, porque vim viver para a Póvoa em Janeiro de 2018, pelo que a resposta ''há um ano'' não é muito desfasada, mas já estava em Lisboa desde Setembro de 2017, portanto estou cá, em Portugal, há dois anos.
E por aqui se vê que um ano pode não fazer tanta diferença na vida de uma pessoa, como um minuto, que há-de ter sido o tempo que demoramos a tomar a decisão de eu e os miúdos não regressarmos a Timor.
Não é sempre claro quando estamos a viver um desses momentos decisivos. Muitas vezes só em retrospectiva percebemos isso. Aquele beijo, aquela viagem, aquela entrevista de emprego...
Outras vezes, essa percepção pode ser muito evidente no momento em que está a acontecer, mas é raro, acho eu.
Foi um momento desses, ou vários, que me trouxe aqui, às minhas novas funções de ''vineuse'', que é uma categoria inventada pela Dora.
E agora, com os rapazes a passar muito tempo no armazém da vinharia, mais por vontade deles do que nossa, é inevitável pensar o que guardarão eles destes momentos. Espero que o roblox e o Filipe Neto não ocupem mais espaço na gaveta da memória do que as garrafas em volta e as conversas sobre vinho.
Mas o vinho tem um poder especial, que leva alguns deles, a dada altura, ''a cruzar-se na vida de muita gente e a fazer parte da sua história e da sua passagem terrena'', como contou o Pedro Garcias na maravilhosa crónica, em três partes, ''O dilema de António perante uma garrafa de Henri Jayer de 1970''. Por isso, eu sei que será o vinho, as histórias à volta do vinho, que eles guardarão destas férias grandes.

Chegada a este ponto, e depois de reler várias vezes o que escrevi, parece não fazer muito sentido o que estou para aqui a dizer. Acho que não sei o que quero dizer, na verdade.
No fundo, estou mergulhada em incertezas, como é natural, numa espécie de turvação (turvidade), como se estivesse debaixo de água.
Mas é Agosto, já devia saber. Foi num Agosto que morreu o meu pai e foi num Agosto que tive um acidente grave de carro.
Pois é, só agora me apercebi que faz hoje dois anos que sobrevivi a um acidente de carro. Tenho de celebrar.

Embebedai-vos

14.8.19

Calcei umas meias com um buraco, vesti um sutiã que já devia ter ido para lavar e pensei: ''Espero não ter de ir ao hospital''.
Eu, como toda a gente, espero nunca ter de ir ao hospital, mas é preciso calçar umas meias rotas e um sutiã encardido para me lembrar disso. Bom, mas a ter de ir é sempre melhor ir apresentável, claro.
Depois ocorreu-me: ''Quantas pessoas andarão, hoje, na rua com as misérias escondidas, como eu?'' Ainda não tinha acabado de calçar a segunda meia e senti-me inundada por uma onda de solidariedade e enternecimento por todos os seres humanos que passam a vida a tentar ser iguais aos outros.
E logo a seguir ainda relacionei isso tudo com o poema de Baulelaire, aquele que manda as pessoas embebedarem-se ''Para não sentir o fardo do tempo que parte vossos ombros e verga-vos para a terra, é preciso embebedar-vos sem tréguas./ Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, a escolha é vossa. Mas embebedai-vos.''
Está visto que virtude não é coisa que sirva para me embebedar. O que vale é estar rodeada de vinho. E poesia também não me falta!

Escolher os problemas

7.8.19

Pela primeira vez, desde que os rapazes nasceram, temos de pensar o que fazer com eles durante as férias de Verão. O que fazer com eles no sentido de para onde os despachar e não o que fazermos juntos.
Este é um tema que, obviamente, já fez correr muita tinta e ocupou sei lá eu quantos gigabytes na rede, mas, que novidade(!!), ainda não tinha falado nisso (acho eu).
As pessoas têm filhos, as que têm, e naturalmente têm de os alimentar, agasalhar, educar. Isso, às vezes, pode ser mesmo muito complicado, outras muito simples. Depende de muitos factores.
Seja como for, as férias dos miúdos são um problema para muitos pais desde que as mulheres começaram a trabalhar fora de casa e as famílias se dispersaram.
No nosso caso não temos precisado de nos preocupar com as férias da escola, porque eu estive sempre disponível, isto é, sem emprego, ou sem um trabalho com horários.
Não é o caso deste Verão. Por isso, em Julho pagámos para estarem em Actividades de Tempos Livres (ATL), a fazer coisas que gostam, e em Agosto vamos gerindo um dia de cada vez: as manhãs com um de nós, umas tardes com a avó, outras no trabalho connosco (na foto estão com o primo mais novo, no dia em foi baptizado).
Conseguir isto, conciliar o trabalho com a vida familiar, é uma pequena vitória que vale a pena registar. Até porque  demorou 18 anos e  tivemos de criar o nosso próprio emprego para o conseguir.
Mas, há sempre um mas, criar o próprio emprego é quase como criar um filho. Temos de o alimentar todos os dias, ajudá-lo a crescer e dedicar-lhe tempo. Portanto, para resolver um problema foi preciso criar outro.
Parece-me que a ideia de que devemos procurar os problemas com os quais não nos importamos de viver, em vez daquilo que nos faz feliz, faz bastante sentido.

Orgulho

25.7.19

Estou a escrever numa garagem e mal comecei a frase lembrei-me da Michelle Dubois. Não, não faço parte de nenhum grupo de resistência, apesar de gostar de fazer de conta que sim. Estou a escrever numa garagem, porque é o novo escritório/armazém da garrafeira que eu e o Jaime imaginamos, primeiro, e abrimos ao publico, depois. Bom, entre um e outro, a idealização e a concretização, houve um espaço de tempo considerável e bastante trabalhoso, como é fácil perceber.
Mas aqui estou eu com uma certa vontade de falar sobre as voltas que a vida dá e as tantas vidas que já vivi numa, mas não vou maçar-vos com isso. Pronto, vou só um bocado: Às vezes acontece de nos encontrarmos num determinado momento em que muitos outros momentos que vivemos vêm ter connosco.
Foi o caso da chegada destes dois vinhos na foto. Eu estou na Tua Vinharia, mas também estou em Lisboa a fazer mantas patchwork, na Rua Maestro Taborda, e a tricotar com a Rosa Pomar e a fazer crochet com a Rita Cordeiro, na Retrosaria. Também estou no momento em que conheci uma das produtoras destes vinhos, Susana Esteban, na primeira edição da Abertura das Talhas - Amphora Wine Day
Ver tantos momentos a convergirem desta forma fez-me sentir um certo orgulho. É um sentimento bom, devia senti-lo mais vezes.

O meu coração quer fugir de mim

14.7.19
Tem acontecido acordar a meio da noite, sempre à mesma hora, com aquela sensação de pânico, como se me estivesse a afogar, ou como se alguma coisa terrível estivesse para acontecer.
São sintomas comuns a cada vez mais pessoas que sofrem de doenças mentais, já se sabe, mas eu encaro-os mais como um banho de realidade. Quer dizer, não há como não ter medo das coisas terríveis que podem acontecer (e acontecem todos os dias a biliões de pessoas), o segredo é não pensar muito nelas, ou não sendo capaz de parar de pensar, não lhes dar muita importância.
Mas a meio da noite, com o coração quase a saltar cá para fora (o meu coração quer fugir de mim, muitas vezes), não é muito fácil.
Hoje, de madrugada, depois de perceber que não ia conseguir voltar a dormir, tentei entender o que me assustava. Já falei aqui sobre o meu medo, sobre ter sempre tanto medo, mas nunca me pareceu fundamental procurar a origem disso, porque a bem dizer não há como ser humano sem sentir medo. É, basicamente, uma ferramenta de sobrevivência (se calhar deveria dizer skill, é muito mais trendy).
Bom, mas eram cinco da manhã, não me apetecia sair da cama ainda de noite, por isso pus-me a fazer uma lista mental dos meus medos e cheguei à conclusão que todos se resumem a um: Medo de não ser capaz.
-Medo de não ser capaz de salvar os meus filhos das arbitrariedades da vida e de não tomar as decisões certas, nos momentos certos
-Medo de não ser capaz de estar à altura dos desafios profissionais que vão surgindo
-Medo de me render e fazer o que é suposto, ou o que os outros esperam de mim, em vez de fazer o que me dá na real gana (eu gosto de acreditar que podemos fazer o que nos apetece, desde que saibamos viver com isso)
-Medo de falhar. Esta ideia de ser uma falhada persegue-me e, às vezes, gostava de saber quando começou. Mas o dia já estava a nascer, as gaivotas guinchavam, os cães ladravam e apeteceu-me café. 

Usufruir

19.6.19

Comecei a ler este artigo e lembrei-me logo de uma certa forma de estar dos timorenses que muitos poderão associar a preguiça e que a mim sempre me pareceu revelar conhecimento, como se eles soubessem alguma coisa que nós ignoramos.
Por isso, gostava tanto de observar o tio Abel, e os timorenses com quem me fui cruzando, e continuo a achar que temos muito a aprender com as sociedades menos desenvolvidas.
Não é propriamente novidade que o aceleramento da vida moderna anda a deixar meio mundo doente e o planeta em risco, o que não parece claro é que caminho seguir para menorizar os problemas.
Um dia destes, depois de estacionar o carro e rodeados de empreendimentos comerciais por todos os lados, o Jaime perguntava-me que iriam os nossos filhos fazer, quando já está tudo praticamente feito e eu respondi que iam, precisamente, desfazer o que andámos a fazer.
Na altura não me pareceu uma resposta assim tão contundente como me parece hoje, depois de ter estado a separar e preparar os legumes que a D. Fátima trouxe, enquanto pensava nas coisas que conseguimos controlar e as outras todas, as que estão fora do nosso controle.
Suponho que tenha sido precisamente essa a razão para os nossos primórdios criarem os deuses - é melhor lavar as nabiças para o esparregado - e a bem dizer, a humanidade chegou a este estado de evolução graças  à sua capacidade de sobrevivência.
E deixar acontecer o que tiver de acontecer - que pimento maravilhoso para o gaspacho -, acreditando que nada é por acaso, ou o contrário, tudo é casual, equivale a acreditar em Deus sem os sacrifícios, nem o inferno. Por isso, não te rales, sê feliz!
O feijão verde é para uma salada com ovo. Além disso, há coisas extraordinárias no mundo, por exemplo, não sei quais são as probabilidades do Vitorino, o encantador de crocodilos, sobreviver à recolha de ADN de 17 bichos, mas calculo que sejam muito pequenas.
Enfim, nem tudo tem uma explicação, por muito necessária que seja à nossa existência. Mais vale sentarmo-nos e usufruirmos, de preferência com um copo de vinho na mão.

Auto-ajuda

13.6.19
O último livro de auto-ajuda que comprei (sim, não foi o primeiro, mas não falemos sobre isso) foi uma espécie de brincadeira, como aquela que as crianças fazem, e todos nós já fizemos, de seguir no passeio sem pisar os riscos, ou atravessar na passadeira só nas partes brancas. Ou seja, disse a mim própria que compraria o livro que estivesse na mesa ao almoço, no Theatro - sim, este restaurante que também é livraria costuma ter livros espalhados pelas mesas, já tinha falado dele no blog das senhoras.
Isto, porque acordei num daqueles dias em que precisava de uma razão para sair da cama, além das evidentes, e almoçar num bom restaurante pareceu-me a melhor. Ao sair de casa já tinha decidido que ia trazer o livro que estivesse na mesa, fosse qual fosse, porque de certeza traria uma mensagem subliminar.
Não posso dizer que tenha percebido a mensagem, se é que tem alguma, mas também não dei o tempo por  perdido. Além disso, acho que foi por causa dele que acabei a ouvir um podcast, que é uma coisa muito pouco habitual, e a certa altura, lembrei-me de quando era pequena e ia para a cama mais cedo imaginar a minha casa. Não sei quanto tempo durou esta incursão pela minha casa imaginária, mas todos os dias eu revia-a detalhadamente e transformava-a. Também não sei se alguma das minhas casas reais se pareceram com a(s) da minha imaginação, mas parece-me que todas cumpriram o propósito que me levava a querer ir dormir mais cedo para sonhar: não ter ninguém a dizer-me como manter o meu espaço. Seria já uma manifestação de independência? É pouco provável, era muito pequena, ainda. Enfim, se calhar era mais uma brincadeira habitual de crianças, mas agora fiquei a pensar nisso e nas mais de dez casas em que vivi. 
Às tantas não é assim tão descabido ler livros de auto-ajuda (não são todos?).

A Bruxa da Areosa

6.6.19
Morreu a Agustina Bessa-Luís e eu só consigo pensar no Mário Viegas. No início dos anos 90, assisti a um espectáculo do artista, na pequena sala do Clube Naval Povoense (acho eu), com uma amiga e a mãe dela, e fiquei maravilhada com o Manifesto Anti-Dantas. Também fiquei a saber, nessa noite, que ele chamava Bruxa da Areosa a Agustina, não me lembro se Viegas o referiu em algum momento, ou se alguém comentou isso depois do espectáculo. Sei que nunca mais o esqueci e passei a referir-me à escritora da mesma forma. Achava até que não gostava dela, mesmo sem ter qualquer razão para isso. Entretanto, já li que Natália Correia e Luiz Pacheco a tratavam da mesma forma, devia ser uma espécie de guerra de classes.
Por isso, tenho ideia, nunca li nada de Agustina até há poucos anos, quando tirei da estante, meio contrariada, o Fanny Owen. Gostei muito, claro, mas pelos vistos não o suficiente para me embrenhar em mais leituras. Portanto, não se pode dizer que eu esteja no grupo minoritário da adesão absoluta à obra da escritora, mas também não me enquadro no que a recusa.
Enfim, morreu a Agustina e eu tenho muita pena de já não ser tão impressionável como aos 18 anos.