Nunca me tinha sentido assim

3.9.15
Não compreendo o que se passa na Europa, e não é só por causa da imagem do menino morto que deu à costa, há já algum tempo que não percebo o que se passa nesse continente (é estranho sentir-me já tão distante). Também não faço a mais pequena ideia do que se passa na Ásia, ou nos outros continentes.
Podia até ter uma opinião sobre determinados assuntos, porque já se sabe que não é preciso ter muitos conhecimentos sobre as coisas para se opinar sobre elas, mas nem isso. Bem, talvez tenha sobre o batom da Ana, a nossa empregada, mas nem acerca desse detalhe, muitíssimo interessante, saberia discorrer, creio eu.
Não sei o que me aconteceu. Estou numa espécie de hibernação mental. Nem o livro do Terzani, que terminei hoje, me tirou desta letargia.
E isto seria muito bom se eu estivesse a usufruir desta falta do que fazer, ou se esta apatia fosse a capa natural do frenesim que costuma revolver-me as entranhas perante um novo desafio, mas não é nada disso. Não se passa nada. E isso é muito estranho, quando se passa tanto.

Estamos bem

1.9.15



Estava a aterrar em Timor-Leste, depois de uma escala em Singapura desafiante (juntem jetlag + crianças pequenas com jetlag + quarto alugado no airbnb, numa casa com mais dois quartos alugados com várias camas +  apanhar um taxi, onde o taxista quase não conta, já que tudo é controlado por um "sistema"), e pensei que devia sentir alguma coisa especial ao avistar a ilha dali de cima. Pensei que era gaja para me emocionar, mas depois olhei para o Isaac, o mais entusiasta nestas coisas das descolagens e aterragens dos aviões, e vi que tinha adormecido a 30 segundos de aterrar em Timor. Era esse o sentimento certo - um certo sossego. Emocionei-me na mesma, nunca vou ser capaz de controlar sentimentos.

Depois cheguei à minha casa timorense, vi as papaias, as frangipanis, os detalhes curiosos (chamemos-lhes assim) espalhados pela casa, os timorenses que vivem à nossa volta, com as suas bancas de legumes e as campas dos mortos enterrados ao lado. Ouvi o toké que vive no jardim e os galos dos vizinhos e lembrei-me da Helena. Não deve faltar muito para o bicho que canta tão bem começar a irritar-me (conseguiram-no fotografar e aquilo é um sardão medonho), para deixar de me rir quando a água acaba e tenho de sair do banho para ligar o motor que puxa a água do poço, para abrir guerra contra a Natureza que insiste em entrar pela casa dentro, para me chatear com este mar de gente que vive à nossa volta e que acorda quando o dia nasce.

Mas, para já, estou só a stressar com a novidade de ter uma empregada em casa todos os dias. Além do lixo é o meu maior stress. Podem odiar-me à vontade.

Às 4h da madrugada

27.8.15
A insónia não é novidade a esta hora da madrugada. Tem sido assim nos últimos dias deste longo mês de Agosto.
Agosto foi sempre o mês mais longo do ano, também isso não é novidade.
O hotel, sim, é novo. Novo para mim, porque o chão gasto e o cheiro a desodorizante deixam claro que de novo tem pouco.
Daqui a umas horas começa a longa viagem que nos levará para a casa nova. Não gosto muito da ideia de passar tanto tempo dentro de um avião, ou melhor, de três aviões, mas todos parecem calmos (e não é só porque estão a dormir) e isso tranquiliza-me.
Lisboa não parece a mesma, sem uma casa a que chamemos nossa, mas soube-me bem o caril de camarão com quiabos e o chacuti de frango, no meu restaurante preferido.
Não sei se já tinha dito que daqui a umas horas começa a longa viagem que nos levará para a casa nova. Não é bem uma mudança de casa como todas as outras, sobretudo com tantas lágrimas misturadas, mas no fundo é isso: vamos mudar de casa.

“Boa noite, não se preocupe. Boa sorte!”

19.8.15
Isto não está fácil. A minha mãe complicou, como sempre, a minha vida. Entrou num processo tal, nas últimas semanas, que se tornou incapaz de cuidar da minha avó (ela culpa a minha avó da vida miserável que tem, eu culpo a minha mãe de complicar a minha vida. Isto é tudo um ciclo, como se sabe).
Depois de arrumar a minha casa em Lisboa, no sentido literal, tenho estado a arrumar a casa da minha mãe nos dois sentidos – literal e figurado. Limpo a merda dos gatos, dos meus e não só, que vivem aqui; limpo a merda das galinhas; limpo a merda das sanitas. Procuro um Centro de Dia para a minha avó e vejo-a pedir à minha mãe, em desespero, que não a abandone.
Desespero com o desespero das duas.
Decido não me deixar abater, já que não é novidade para mim que esta casa tem a capacidade de deitar abaixo todos os filhos da minha mãe, menos (aparentemente) o meu irmão mais novo, que é o que vive mais distante, por enquanto.
Decido não me abater, dizia, e mantenho a ideia de marcar um jantar para me despedir dos meus amigos. No processo das mensagens, via telemóvel novo, isto é, smartfone usado, engano-me num receptor e, depois de corrigir o erro, recebo a seguinte resposta: “Boa noite, não se preocupe. Boa sorte!".
Choro compulsivamente. Não sou de ferro, foda-se!

Sabedoria popular

12.8.15
Visto isso o problema da minha mãe está relacionado com o momento da concepção, e eu não vou entrar em detalhes, porque a minha avó contou-me o sucedido muito envergonhada, acrescentando que nunca tinha falado do assunto a ninguém.
Mas nem tudo está perdido, porque se o médico da cabeça que eu sugeri for bom e ela tomar os remédios pode ser que as coisas se componham.

Cuidar

11.8.15
Andamos uma vida inteira a correr atrás do Amor, esse mesmo com maiúsculas, o verdadeiro e único. Acreditamos, mesmo quando não acreditamos, que existe a pessoa certa para nós. Ou talvez até mais do que uma. Não sei se porque está escrito em todo o lado, em palavras e não só, ou se os nossos átmos estão programados para isso.
Seja como for, é bonito quando acontece, mesmo quando não acontece e nós achamos que sim. Uma pessoa fica feliz. Uma pessoa encontra sentido nesta confusão toda. Uma pessoa brilha e sorri muito mais. Se calhar brilha, porque sorri.
E isso é tudo muito bonito. Muito bonito mesmo. Mas, aqui entre nós que ninguém nos ouve, o verdadeiro achado, a verdadeira felicidade é juntarem-se pessoas que gostam de ser cuidadas a pessoas que gostam de cuidar.
Ou então ser como Elisabeth de York.

Do que eu gosto é de vinho, mas há execpções

6.8.15
Acordei, na segunda-feira, completamente em pânico, porque me tinha esquecido de enviar o texto para a semana da cerveja do Lifecooler. Nunca me tinha acontecido tal coisa na vida e até saltei da cama (coisa rara, sobretudo àquela hora da manhã).
Depois de trocados alguns SMS, percebi que estava no timing, que era esta semana que deveria enviar o texto, e abracei o meu superego. Acho que o achei espectacular e tudo.
É claro que esta alegria e auto-valorização duraram pouco tempo, por não ter conseguido escrever o texto que gostaria, e ainda por cima cheio de gralhas (obrigada Nelson, pela edição), mas acho que, mesmo assim, vou continuar a ter em boa conta este meu nível de consciência.
E nem sequer quero saber se é completamente ultrapassado citar Freud, sei é que o meu superego, ou o referente mais actual, tem feito algumas coisas por mim bastante interessantes, como mostrar-me erros ortográficos em sonhos, que me passaram despercebidos quando os escrevi acordada, corrigidos pela minha professora de História do 11.º ano.
Sim, já me aconteceu acordar uma manhã completamente em pânico, depois de ver num sonho uma antiga professora escrever no quadro preto, com a sua letra magnífica de professora primária, uma palavra que eu tinha escrito mal num e-mail, e que na altura nem sequer me tinha apercebido.

No fundo, eu sou a Paris Hilton

30.7.15
Tenho andado muito ocupada com as arrumações da casa, como se nota, e tenho dado por mim envolta em nostalgias estranhas, do género: "é a última vez que estendo roupa neste estendal (suspiro)", ou, "amanhã é a última vez que os meninos tomam banho nesta casa (suspiro)", e "só vou subir e descer estes três andares, que parecem seis, mais meia dúzia de vezes" (suspiro, ou melhor, yupiiiiiii!).
Enfim, esse tipo de coisas e mais as outras que nos assaltam o pensamento quando estamos a fazer actividades mecânicas e aborrecidas.
A mim, por exemplo, acontece-me pensar que preciso de perder barriga, e que tenho de comprar um dente (o pré-molar que parti na passagem de ano 2013), e que se houvesse uma forma de levantar as mamas é que era. Depois, pergunto-me a que propósito e, por mais que queira culpar a sociedade, os estereótipos, a modernidade, a frivolidade, e sei lá quantas mais coisas acabadas em "dade", a verdade é que uma parte de mim gosta de ser objecto de desejo, de cobiça. É um bocadinho parvo, eu sei, apesar de natural, no sentido em que faz parte do ser humano querer ser desejado - os bebés são adoráveis por uma questão de sobrevivência, ponto.
É um bocadinho parvo, dizia, porque eu não preciso propriamente de "arranjar marido", e não faz parte de mim precisar de atributos físicos para me sentir valorizada como pessoa, mas a verdade é que é para aí que o meu pensamento corre, quando se liberta nas tarefas mecânicas.
Acho que é por isso que os exercícios de escrita automática sempre me aterrorizaram. No fundo, no fundo eu sou a Paris Hilton.

Rose te vá bien

28.7.15

Este desenho, feito em Montmartre quando estive em Paris pela primeira vez, correu praticamente todas as casas onde vivi, ou seja oito casas (sem contar as que dividi quartos), e nunca esteve pendurado/colado numa parede. Nem sei bem porquê, talvez por toda a gente o achar feio.
Eu sei que não é lá grande retrato mas não consigo desfazer-me dele. Lembra-me o quanto fiquei fascinada com o ambiente de Montmartre e o espanto de me ver tão bonita num desenho (e parecida com a Kirstie Alley do Cheers), para logo a seguir ouvir a minha professora de Psicologia dizer que eu eu era muito mais bonita na realidade. A mesma professora do "rose te vá bien", sobre a camisola que tinha vestido nesse dia. Tenho de vestir mais vezes cor-de-rosa.
E o desenho vai voltar para o sótão da minha mãe.

Eles

25.7.15


Há muitas razões para estar encantada com esta enorme mudança que vamos fazer (e os caixotes à minha espera, dia após dia, enquanto eu invento milhares de coisas mais importantes, tipo fazer vestidos para mim e assim), mas a que mais me entusiasma é o facto de este cenário poder acontecer fora de portas. Ou seja, em vez de andarem a correr nus pela casa como se fossem índios, vão poder ser mesmo índios a correr fora de casa, no nosso jardim com frangipanis e uma papaeira.
Além disso, não terão de falar com o pai através de um computador, ele vai estar ali connosco.
Podíamos fazer o mesmo no Minho, ou no Alentejo, com buganvílias e uma figueira? Podíamos, mas não era a mesma coisa.