21/10/14

Diz que é uma espécie de nostalgia

A Beatriz cresce todos dias e eu sinto-a a afastar-se um bocado mais todos os dias. É assim que deve ser.
O Isaac recusa-se a crescer, custa-lhe horrores. Diz mesmo, em prantos, isto é, com a goelas abertas e os olhos cheios de lágrimas, que quer voltar a ser bebé.
O Nicolau, esse, está sempre bem desde que o deixemos dormir com a touca da piscina, ou sair de casa de camisola interior e calções.
Não estou segura de ter feito o melhor que podia em relação a eles e em relação a mim. A minha vida, em retrospectiva, parece sempre uma coisa pastosa, como se me movesse dentro de gelatina.
Às vezes olho para eles e fico quase chocada ao aperceber-me que são os meus filhos. Como se eu não tivesse nada a ver com o que eles são (e será que tenho?).
Quantos testes de gravidez fiz? Quantas vezes chorei grávida? Quantos nomes lhes dei antes dos deles? Quantas noites perdi? Quantas feridas curei? Quantas abri? Quantas vezes o coração apertou? Quantas expandiu? Não sei. Mas é muito verdade que depois de os expulsarmos do nosso corpo, eles deixam de ser nossos, todos os dias um bocadinho mais.

18/10/14

Amigos imaginários

A minha avó - que até há pouco tempo conseguiu esconder que sofria de incontinência, para não ser obrigada a usar fraldas - gosta de salientar muitas vezes que sou devota de S. Felix. Eu não nego, porque sei que é a única forma de ela continuar a achar que não me afastei para sempre dos caminhos da fé.
E é verdade que em tempos S. Félix foi o meu amigo mais ou menos imaginário.
Eu vinha da escola, com o meu guarda chuva não sei de que cor, e pedia-lhe (ao santo, não ao guarda chuva) para fazer com que a minha mãe estivesse bem disposta quando eu entrasse em casa; Ou que me ajudasse a lidar com a caxineira da escola que me humilhava todos os dias e me punha a chorar no recreio da secundária, como se eu fosse um bebé de três anos. E ele, como bom amigo, ajudava-me.
Eu só lhe pedia ajuda em casos extremos e a única vez em que recorri a outra "amizade" foi quando o meu pai morreu. Nessa altura pedi à nossa senhora de Fátima, uma vez que ele morreu numa viagem ao santuário, que fizesse o enorme favor de não o deixar morrer, mas quando lhe fiz o pedido ele já estava morto, só que eu ainda não sabia.

(este intervalo, provavelmente só necessário para mim, é para passar aos dias de hoje)

Amanhã é sábado e os miúdos costumam ter natação aos sábados, às 9h da manhã. É o pai quem costuma ir com eles, mas não está cá e eu esqueci-me de depilar as pernas e de experimentar o fato de banho, que já não deve servir-me.
Assim de repente não me ocorre nada menos agradável do que começar o dia a acordar cedo, vestir um fato de banho que mostra todas as misérias e levar dois putos bem dispostos, muito, muito bem disposto, até à piscina.
Mas eis que o telefone toca - e eu atendo - para me dizerem que amanhã não há natação (será que ainda tenho amigos mais ou menos imaginários? Se assim for, preciso muito de ajuda para explicar que me servi da ficha de leitura do Isaac como base de copos).
A verdade é que muitas vezes sinto falta dessa comunhão. Dessa sensação de pertença, que revi no filme da Helena (tenho de falar deste grande momento cinematográfico num outro post), mas suponho que ainda terei de dar umas quantas voltas de carrossel até saber quando parar.

15/10/14

A vida

Isaac, em prantos - Mamaaaaaaaaã, o pai diz que acabou a brincadeira, que temos de lavar os dentes para ir dormir.

Eu - Pronto, Isaac, se ele disse é porque acabou mesmo. Se calhar, depois de lavar os dentes podes fazer uma brincadeira mais calma, antes de ir dormir.

Isaac - Qual, qual? Tens de me dizer que brincadeira.

Eu - Hmmmm e que tal ler uma história, ou ver um bocadinho do Gru?

Isaac, novamente em prantos - Mas isso não são brincadeiras, isso é...isso é a vida!

13/10/14

É isso

Eu não sei se é desta circunstância outonal, ou dos filmes que ando a ver de enfiada (vieram montar os cabos e ficamos com as têvêscines abertas), mas voltei ao estado porque-raio-andamos-todos-a-viver-de-uma-forma-tão-vazia-de-sentido?
Pessoalmente acho que é porque me tornei umas dessas pessoas de meia idade conformadas e um bocado balofas que vão ao celeiro comprar drenantes, porque fazem retenção de líquidos e estão gordas por causa do DIU e tomam comprimidos para estabilizar os humores.
Essas pessoas podiam mudar de estilo de vida, ter uma alimentação rica em fenilalanina e triptofano, correr à chuva e ao sol, trabalhar, relativizar, sair com os amigos, pedir muitas vezes aos filhos para as pentearem, mas depois é certo e sabido que alguma coisa se intrometeria nesta rotina. Uma garrafa de vinho aqui, um joelho fodido ali, o talho fechado, o multibanco fora de serviço e pronto.
É tudo muito cansativo, basicamente.

07/10/14

Ainda a brincar às casinhas

Estou a gostar muito desta brincadeira, porque tenho encontrado verdadeiros achados, mesmo aqui ao lado de casa, que encaixam muito bem nas outras peças.
É o caso das quatro cadeiras que outrora pertenceram ao Hotel Suisso Atlântico, aqui na primeira foto a serem remodeladas.Reparem que nem o incentivo à calendário Pirelli (isso queria ali a Catarina) foi descurado.


De mais duas, como esta aqui em baixo, dos Móveis Olaio.

E ainda este maravilhoso roupeiro escolar que está no meu quarto.

02/10/14

Coisas menos soltas do que parecem

Antes de começarmos a jantar o Isaac perguntou se não podíamos ir ver o pôr-do-sol a um restaurante. Ficámos ali entre o riso enternecedor e a nostalgia. Era o que fazíamos com frequência em Timor.

Os meus gatos vivem agora em casa da minha mãe. Estão velhos, sobretudo a Maya (quase 15 anos), para tantas mudanças.
Tenho saudades dos meus gatos. Ouço-os a atirar coisas ao chão e sinto-os a saltar para cima da cama.

Parece que vai haver uma festa, disse-me o Isaac. As pessoas já não vão morrer e por isso vão fazer uma festa. Como não sabe sabe onde é, não pode dizer-me se posso ir.

É a terceira vez que choro tanto no fim de um livro. A primeira foi com "O Princepezinho", a segunda com o "A Origem" e agora com "O Mundo Ardente".

A alma dos filhos

"O Félix sempre dissera que admirava e apoiava o trabalho dela, mas viajava para aqui e acolá por causa do trabalho e telefonava-lhe para avisar que ia chegar tarde, ou que mudara de voo, e a Harry ficava em casa a tomar conta da Maisie e do Ethan. Sim, sim, sim, disse ela, tinha tido ajuda, toda a ajuda que quisera, mas não se pode entregar a alma dos filhos aos cuidados de outras pessoas. E, embora a Maisie tivesse sido uma criança relativamente fácil, o Ethan fora difícil, hipersensível e propenso a explosões. As necessidades vorazes dele tinham-na, por vezes, engolido por completo".

Siri Hustvedt, O Mundo Ardente, D. Quixote, 2014

30/09/14

Desconstruir a maternidade*

Primeira reunião na escola nova. É tudo o que se pode esperar de uma escola: boa educadora; espaço simpático, com recreio ao ar livre; refeições confeccionadas na escola; pessoal atento e descontraído; projecto pedagógico centrado na autonomia das crianças e uma participação exemplar dos pais na vida escolar. Esta última parte é que era escusada. É que é tão exemplar que saí de lá a sentir-me uma nódoa.
Só por causa disso amanhã vou a uma manifestação, pronto.
Ainda por cima, de regresso a casa, é só mães com os seus bebés nos slings a cantar no meio da rua, a perguntarem aos meus filhos como se chamam, a conversarem alegremente comigo - "adeus, adeus vamos comprar salada para o jantar" -, a exibirem toda a sua magnificência maternal às mães aliviadas por finalmente poderem deixar os filhos na escola, mas que ainda não perderam aquele ar desgrenhado de quem não aprendeu (nem nunca vai aprender) essa técnica, essa forma de arte, que é o funambulismo.
Não há volta a dar, para uns isto é como tentar o equilíbrio em cima de uma corda, para outros é um simpático passeio à beira mar, onde não falta o sol, nem a brisa amena. Não quer dizer que estes últimos sejam melhores mães e pais. São é mães e pais mais felizes (ui, no que me fui meter, agora terei de falar na parentalidade positiva).
Eu sei que pais mais felizes têm filhos mais felizes, claro, mas e se a minha felicidade depender de esquecer que eles existem durante uns tempos (horas, dias, meses, não sei...), isso é melhor para eles? Provavelmente nem notariam grandes diferenças, uma vez que está tudo na minha cabeça (quantas vezes procuro esquecer que existem quando estou no sofá a ler, enquanto eles pintam a manta e as paredes e os sofás...) e depois, quem sabe, até podia envolver-me mais na vida escolar.

*Falo em maternidade, porque sou mãe, mas podia falar em paternidade. Quando inventarem um nome para as duas coisas que não comece com "P" (parentalidade, pais... ) avisem.

29/09/14

O meu pequeno grande

Eu podia dizer tantas coisas sobre o quinto aniversário do meu filho - do meu primeiro filho rapaz, do meu primeiro filho com o Jaime - mas não consigo deixar de pensar nas preocupações escondidas naqueles olhos.
O Isaac, aos cinco anos, está preocupado com o facto de envelhecer significar morrer. No entanto, o que mais o atormenta no dia do aniversário são os dentes. Lembrou-se que um dia destes lhe vão cair os dentes e ele, pelos vistos, não quer nada disso.
Quer os nossos beijos e os nosso braços à volta dele e isso, no fundo, é quase tudo. O resto é o que é.

28/09/14

Estranho

Quando venho escrever um post (e a maior parte das vezes nem sei bem sobre o quê), releio os três, ou quatro anteriores, não vá eu repetir um assunto, como se não estivesse aqui a falar sempre da mesma coisa. Quase sempre encontro gralhas, ou um erro de conjugação qualquer. Hoje encontrei a repetição do mesmo adjectivo três vezes neste post: "(...) que elas [as cobras] andam estranhas"; "Há um silêncio quase estranho" e "É um lugar estranho, este onde cresci." Isto num post com cinco frases.
E como "Palavrar" é o vinho que estou a beber neste momento e a linguagem, ou a importância da palavra é um dos temas focado no absolutamente maravilhoso livro que estou a ler (Inês, se não o compraste, ainda, eu empresto-te), parece-me que isto anda tudo ligado.
Só ainda não consegui encontrar justificação para o regresso das hemorróides, a não ser que papos atrás das orelhas que desaparecem para dar lugar a papos no cu tenha uma explicação transcendente que me ultrapasse.