20/05/13

Desafios

Berro menos com os putos desde que aderi ao berra-me baixo, é um facto. Até comecei a reparar que o pai também lhes berra ocasionalmente (não sei se ele berrava antes, ou se eu nunca tinha reparado), mas a verdade é que os berros não me preocupam muito. Ou seja, levantar a voz para ser ouvida no meio do chinfrim que fazem todos ao mesmo tempo parece-me natural, ainda que possam haver formas mais criativas (eu tinha um professor que começava a sussurrar, quando a turma perdia as estribeiras e aquilo funcionava). Muitas vezes começo a bater palmas, outras faço um shiu com tanta força (e com tantos perdigotos à mistura) que se ouve do outro lado da rua e às vezes, mais raramente, faço coisas parecidas com a dança da chuva. Eles calam-se, claro, e concordam em partilhar os brinquedos, brincar sem arrancar cabelos, ou deixar de atirar água para fora da banheira, mas dali a pouco está tudo igual outra vez. E isto é extremamente cansativo, já se sabe.
Mas dizia que não são os berros que me preocupam por aí além (será que é porque berro menos?), o que me preocupa é o constante ranger dos dentes, o revirar dos olhos, o praguejar baixinho, em suma, a falta de paciência. E a falta de paciência tem um remédio santo, que não se compra nas farmácias, ou se calhar compra-se, mas não tenho a receita. Ir a uma festa de amigos, beber dry martinis, dançar e cantar aos gritos, é um deles e posso garantir que resulta (ver o FCP ser tri-campeão também). 
Pais felizes, filhos felizes, certo Magda

17/05/13

Fusão

Há uns tempos li qualquer coisa sobre os projectos de vida das pessoas precisarem de um longo caminho para amadurecerem, ou encontrarem a melhor forma de se exprimir. E parece-me que começo a saber exactamente o que isso quer dizer.
Quando recomecei a costurar, ou seja, quando me mudei para Lisboa, sentia que podia fazer alguma coisa "importante" com a máquina de costura e as agulhas de tricot, mas não sabia exactamente o quê. Por isso, fui aprender a fazer quilts, a tricotar meias, a costurar coisas que nunca tinha costurado antes. Viver a pouca distância da Retrosaria foi determinante nas minhas escolhas e no meu percurso, mas foram precisos quatro anos para que as minhas experiências se cruzassem com as do Jaime para nascer aquele que esperamos que venha a tornar-se o nosso projecto de vida.
Parece que tivemos uma ideia luminosa e pusemos mão à obra, não parece? Mas não, a Oporto Lobers andava nas nossas cabeças há anos, nós é que ainda não sabíamos disso.

16/05/13

Magia

A mim nunca ocorreu escrever crónicas do autocarro, porque apesar da minha tendência para desenhar personagens à volta dos passageiros frequentes, ao ponto de às vezes me parecer que somos velhos conhecidos e quase meter conversa para perguntar a uma como está o irmão irresponsável, ou a outra se estão a correr bem os tratamentos para a infertilidade, a verdade é que as carreiras que tenho frequentado são muito pobres em acontecimentos. Quando andava no 35, sim, ocorriam umas quantas intercorrências com merecimento de destaque, mas agora no 701, tirando um motorista louco que insulta todos os automobilistas e peões nas passadeiras e que põe o rádio nas alturas, não há nada de interessante a relatar.
Mas no outro dia houve assim uma espécie de intervalo e, como toda a gente sabe, nos intervalos há publicidade e na publicidade há mocinhas giras.
Ela deveria ter uns 16, ou 17 anos. Preciso de dizer mais alguma coisa? Pois, mas eu digo na mesma, que a juventude, só por si, não é tudo. 16 anos, cabelo castanho escuro, comprido e liso, espalhado pelas costas daquela forma rebelde e incerta dos cortes de cabelo modernos. Um pele lisa (tão lisa, meu deus!) e trigueira. Uma mistura de curiosidade e ingenuidade no castanho dos olhos e toda uma graça nos gestos, no andar, no sentar do metro e setenta de um corpo de 16 anos. Ainda por cima vestida da forma mais elegante que existe: uns jeans (justos, obviamente), uma camisola larga, com elástico em baixo, e umas All Star. Pareceu-me a visão da perfeição. Que deleite!
Mas depois a gaja saca de um magnum sandwich e põe-se a mastigá-lo de boca aberta. Por um momento sorri, agradecida por a miúda não se pôr a lamber o gelado, mas depois fiquei com pena por se ter quebrado aquele momento mágico.

15/05/13

Perguntas que gostava mesmo de saber a resposta

As mulheres que afirmam que o gajo que escolheram para passar o resto da vida é mais um filho para tratar fazem-no por autocomiseração, ou orgulho? E, em qualquer um dos casos, a sério que isso faz algum sentido?

13/05/13

Do fim-de-semana

Posso adiantar que este fim-de-semana bebi vinho. Também escrevi um post muito engraçado, com um título mesmo, mesmo espirituoso, que tinha a ver com o facto de eu ter descoberto que afinal o Brecht não se chama Bertolt, mas sim Bertlot e outras coisas que já não me lembro, mas que de certeza eram fantásticas, porque eu estava a dormir e, como já referi várias vezes, é a dormir que eu tenho uma vida que é uma riqueza.
Entretanto, aconteceu mais ou menos de repente (não necessariamente este fim-de-semana) de os dois rapazes começarem a conversar um com o outro, assim do género conversas profundas, como: "zaquii, a mamã?" "A mamã está a dormir, Nicolau, chama antes pelo pai"; e de a rapariga estar da minha altura e com umas mamas enormes.

10/05/13

Isto podia ser a letra de uma canção da Adelaide Ferreira*

Este fim-de-semana vou costurar, limpar a casa, comer bolas de berlim. Vou ter sono, vou lembrar-me de não berrar quando estiverem os dois pegados, ou talvez nem me apeteça berrar, porque afinal eles são lindos, vou ter saudades da Bea, vou beber vinho com o Jaime e sorrir-lhe. Vou sorrir ponto. Vou planear menus e dietas e picar folhas frescas de acelga (seja lá o que isso for) para as rugas. Vou finalmente comprar os óculos novos e vou ao jardim jogar à bola. Vou à retrosaria comprar batting e vou trazer tecidos e lãs, de certeza. Se calhar vou pintar as unhas. Talvez veja um filme.

* mas é só uma espécie de declaração de intenções

P.S O Nicolau já está bem.

09/05/13

Decisões

Decidi, pela terceira vez este mês, que ia começar uma dieta. Correu tudo muito bem até à hora de jantar, por isso decidi que tenho de deixar de decidir fazer dietas.

08/05/13

Respirar

Todas as noites, antes de adormecer, penso nas coisas terríveis que não aconteceram aos meus filhos. Todas as noites inspiro profundamente, retenho o ar, expiro profundamente retenho a ausência de ar, volto ao início e repito a mesma coisa meia dúzia de vezes para afastar as imagens terríveis que vêm invariavelmente ter comigo. Acontecem a tanta gente, essas coisas terríveis, é óbvio que também podem acontecer comigo. É doentio, mas não consigo afastar-me desses pensamentos. Por isso, ontem, quando o Nicolau acordou a gritar com dores nas pernas, incapaz de se segurar em pé, eu pensei: pronto, chegou o dia em que vou enfrentar a pior coisa da minha vida.
Deixei de saber respirar. E não respirei mais, acho, até ouvir o "não é nada de grave".

06/05/13

Perguntas que eu gostava mesmo de saber a resposta

Eu não sou a única mãe no mundo que se está a marimbar para o dia da mãe, pois não?

03/05/13

Crónicas do autocarro

Há a crónica do peidorreiro (Flatulência), claro, ou a das badalhocas com os penates em cima dos bancos (Ulisses) e a da mulher que foi salva pelo cigarro (Tragédia), e que me ficou gravada na memória para todo o sempre, além das crónicas sobre a Clarineide. Mas há muito mais no livro que junta todas as Crónicas do autocarro, do Manuel Jorge Marmelo. Custa 5€ e como diz a Dora, no seu jeito imbatível, vale mesmo a pena.