Realidade e ficção

22.6.17

Foto daqui

Estava a virar a esquina para entrar na minha rua e um miúdo, mesmo à minha frente, abre as asas do morcego que tem nas mãos e guincha. Dei um pulo, assustada. Ele riu-se. "Pobre morcego", pensei. Talvez estivesse morto.
Tenho andado rodeada de morte. Das personagens: a Marta Téllez, do Javier Marías; das pessoas que morreram no incêndio; das pessoas que são também personagens: o João Jorge, do Bruno Viera Amaral; da minha lista de "Formas de morrer que não lembram a ninguém", retiradas das notícias.
Acordo todos os dias entre as 4h00 e as 5h00, assustada e volto a adormecer. Li qualquer coisa sobre isso querer dizer que um poder superior está a tentar comunicar comigo. Mas devo ser eu a querer comunicar, como a Hilda Hilst - Calita pedindo contacto.
No meio deste torpor, causado pelo calor e pelo anti-histamínico, misturo a realidade e a ficção. São difíceis de distinguir de qualquer das formas.

Cartas de Lisboa #2

19.6.17
Boas tardes (ou seja qual for a expressão mais apropriada para a situação da estimada leitora [peço desculpa aos fãs do blogue mas refiro-me apenas à minha mãe porque não há garantia de que vocês não sejam assassinos em série ou pior, apoiantes do trump, e portanto não posso afirmar que são estimados]),

Estão quase 40 graus em lisboa, portanto não prometo que o conteúdo desta carta faça muito sentido.
Na verdade, esta já é a quinta carta que te escrevo, mas entre entregas de portefólios e escolhas de áreas e a agitação natural de início de férias (que só morreu este fim de semana porque os amigos mais próximos estão fora e está demasiado calor para eu ter motivação para estar com os amigos menos próximos) acabo sempre por não as acabar. Para resumir o conteúdo das últimas 3, desenvolvi uma obssessão gigante por ABBA e descobri assim todo um novo método de lidar com raiva, tristeza, ou seja o que for (um destes dias devia gravar, porque dançar com raiva deve ser das coisas mais hilariantes que se pode observar), descobri um novo mundo em tinta da china que eu até agora odiava mas que me tem dado ótimos resultados (tipo uma tendinite no pulso por desenhar demais) e já te devo ter contado entretanto pelo querido facebook mas escolhi ir para Gravura e Serigrafia. Na semana das aulas abertas (onde se podem visitar as várias oficinas para ajudar na escolha da área), eu fui toda feliz e contente mais ou menos convencida de que queria ir para RPE à oficina de Gravura (vou esclarecer para futura referência que Gravura e Serigrafia é o nome do curso mas provavelmente vou-me sempre referir ao mesmo apenas como Gravura e mais uma vez que RPE é reprodução plástica para espetáculo ou seja cenografia e figurinos) e lixei-me. Não é que eu, finalmente mais ou menos decidida, finalmente sem crises existenciais chego à oficina de Gravura e saio quase a chorar porque não sei o que fazer da minha vida? Tive um ano inteiro tranquila com a escolha porque já tinha uma ideia mais ou menos final e uns dias antes de ter fazer a escolha é que vem a confusão? Imaginas o drama, não imaginas? Enfim, acabei por decidir seguir o meu curaçón e apesar de ainda não ter 100% de certeza que foi a decisão certa, estou confiante de que vão ser uns bons 2 anos dos quais eu vou ter muitas saudades no futuro.
Entretanto, não sei se sabes, foi-me oferecida a oportunidade de ir viajar com uma amiga a Timor. Vai ser incrível, estou farta de pensar nisso. Mal posso esperar por lhe mostrar a Areia Branca e o cristo rei, a fantástica ilha de Jaco e toda a aventura que será lá chegar e claro, Liquiça (we'll always have Liquiça). Vou é ter de visitar um casal de bêbedos e os seus dois gunas superheróis, mas olha, há sempre um preço a pagar pelas coisas boas :P
Vá, todos sabemos que não é verdade. Quer dizer, é, porque nenhum dos títulos é particularmente injusto, mas acho que não é preciso dizer as saudades que tenho vossas.
No outro dia estava a descer a rua Garret e vi um homem (senhor? gajo? rapaz? ahhhhhhh não sei) alto, de cabelo preto, a usar calças de ganga e uma t-shirt branca e com uma mochila azul às costas a entrar naquela coisinha que vai dar ao ex-escritório do Jaime e quase que corri atrás dele. Quase. Tenho mesmo muitas saudades vossas. Dos nossos almoços com ótimas conversas sejam estas filosóficas, políticas, sobre música (mais com o Jaime) ou até as conversas em que chegamos à conclusão que à exceção do Jaime tu claramente tens mau gosto em espécimes masculinos pelo menos do ponto de vista físico.

Além de traumatizados, como estão os rapazes? E o Douro, sofreu alguma consequência pelo homicídio ou o advogado disse que ele tecnicamente não sabia o que estava a fazer e safou-se?
Acho que descobrir que os bichos morreriam de qualquer das formas é das melhores coisas porque nunca me irei esquecer do ato heróico (agora inútil) do pobre Jaiminho com essas criaturas cujo nome deveria claramente ser Hitchcocks ou então aqueles-coisos-que-voam-em-Laclubar.

Um completo aparte que eu acho que devia ser mencionado, como resposta ao teu primeiro parágrafo da carta #3, é que me tenho apercebido cada vez mais que eu sou aquilo que sou graças principalmente a ti e ao Jaime. Com ele posso falar melhor depois, mas gostava mesmo que tivesses noção que não és, de todo, resumida a "uma mãe bastante depressiva, uma jornalista frustrada". És, de longe, a melhor mãe que conheço. Consegues nomear um par de mãe e filha com uma relação tão boa como a nossa? Eu não. Fizeste e continuas a fazer um ótimo trabalho em educar os teus filhos ouvindo e respeitando na mesma todos os sentimentos deles e aquilo por que estão a passar. Sim, podes não ser a pessoa mais paciente do mundo nem a mais bem-disposta. Mas é assim que gostamos (imenso) de ti, e gostava de ter palavras para descrever melhor o impacto positivo que tens em toda a gente à tua volta.

Em relação à aphantasia, acho que melhorou bastante. Desde que entrei na Arroio que consigo mais ou menos visualizar. No fundo, apercebi-me de que sempre o consegui, mas é de uma forma diferente da das outras pessoas. As minhas imagens não são muito nítidas, e raramente são coisas literais. Por exemplo, agora quando fecho os olhos e me concentro, consigo ver-vos aos quatro a jantar, mas é de uma forma muito Wes Andersoniana e a imagem não é muito clara. Pode mais ou menos ser comparado a um ecrã de cinema muito muito muito muito longe de mim. Basicamente, a escola está a ajudar-me a desenvolver ferramentas para finalmente conseguir ver o que a minha imaginação esquisita e muito ativa sempre criou. Ou então ando a ter alucinações induzidas pela atmosfera provavelmente infestada com drogas à porta da escola.

Cartas de Díli #4

14.6.17
Querida Bea,

Agora que as férias da escola já começaram, tenho tido poucas notícias tuas. Espero que seja por andares entretida com coisas boas.
Na semana passada sempre fui fazer o tal trabalho de campo com a Timor Aid e lembrei-me muitas vezes daquela conversa que tivemos no Museu do Budismo Mundial, em Kandy, lembras-te?
Perguntaste-me se a minha vida era muito diferente da que tinha sonhado/imaginado para mim. Lembrei-me disso, porque andar no terreno a pesquisar sobre tais, a descobrir coisas fascinantes sobre estes tecidos e a conhecer novos sítios foi das coisas mais entusiasmantes que fiz nos últimos meses (e o entusiasmo é tudo. Já te disse isto muitas vezes).
Nessa conversa em que te contava o que tinha imaginado para mim e em que te revelava, pensava eu, como acabei numa vida bastante diferente, mostraste-me que eu tinha conseguido fazer exactamente aquilo que tinha sonhado. Tinha filhos, tinha trabalhado como jornalista e estava a viajar por muitos sítios do mundo.
Pois, de facto. Só que não é bem assim (ou é?). Acabei por ser uma mãe bastante depressiva, uma jornalista frustrada e as viagens são pagas com o salário do Jaime. Mas, sim, estou a viver a vida que escolhi e tem sido bem interessante.
Ainda agora interrompi a carta para observar um pássaro na árvore em frente à janela e  fiquei uns bons minutos a vê-lo coçar-se com o bico, naqueles movimentos rápidos que as galinhas também têm.
[Um aparte. Tenho pensado muito em galinhas. Nas conversas que ouvi ao longo da pesquisa, e que não conseguia acompanhar por causa da língua, ficava muitas vezes a olhar para as galinhas. São animas fascinantes. Também nunca mais me esqueci daquele sonho que tiveste em criança, sobre as pessoas que queriam falar com as galinhas, quando elas não falavam inglês. Só uma achava que sabia, mas não era verdade e os maus vieram matá-la. Isto foi em Agosto de 2006, tinhas cinco anos (as vantagens de ter um blog nunca devem ser questionadas).]
A seguir pensei ir lá fora ver se descobria que árvore é esta, em frente à janela, mas fiquei com medo de me cruzar com a Domingas a pentear o cabelo. Não é medo, claro, é desconforto. Acho sempre que devo dizer alguma coisa quando ela está a pentear-se, ou sentada num banco à sombra, mas nunca sei o quê.
A Virgina Woolf fala desse "medo" em relação às empregadas nos "Diários". Ainda fui à procura de posts antigos no blog, para ver se encontrava alguma referência, mas não encontrei nada. Ainda assim li vários dos quais já não me lembrava, como um a propósito do "Mrs Dalloway". Parece que há um momento do livro em que me lembrei da personagem de um conto, o "Amor", de Clarice Lispector. E acabo o post com a seguinte frase: "Acho extraordinário que ser dona de casa no Brasil (Rio de Janeiro?), nos anos 50/60; em Londres, nos anos 20 e em Lisboa no início do século XXI seja quase a mesma coisa.".
Eu, às vezes, chego a conclusões brilhantes, tens de admitir (estou a rir às gargalhadas).
Enfim, fazer este tipo de coisas, ir à janela olhar para um pássaro e voltar ao computador, é muito habitual no meu dia-a-dia. E é uma coisa que sempre me imaginei a fazer também. Mas a nossa imaginação, no fundo, é bastante limitada, porque não visualiza a solidão, a angústia e as dúvidas. Ou, talvez seja só a minha imaginação.
Bem, pelo menos tu não tens esse problema visto sofreres de 'aphantasia'. Por falar nisso, como é estar num curso de artes com esta limitação, se é que é uma limitação?

Ser ouvidos

12.6.17

Andei uma semana pelos distritos (um dia escrevo sobre o que é que isso quer dizer, porque só quem vive, ou viveu, em Timor sabe exactamente o que significa), com três timorenses a fazer um levantamento sobre tais - os tecidos tradicionais.
Poupo-vos o chorrilho de frases feitas sobre o sorriso das crianças ranhosas, a hospitalidade das comunidades, a vida simples que parece seguir indiferente a carências várias.
Por um lado, porque eu própria não tenho tenho paciência para ler essas baboseiras, e depois de que serve sentir-me tocada pela vida dos outros quando sei que vou chegar a casa, mais cedo ou mais tarde (aqui é garantidamente sempre mais tarde), e comer o que me apetecer e tomar banho de chuveiro e beber duas garrafas de vinho?
É verdade que eu tenho tendência a reagir emocionalmente em certas situações. Por exemplo, no museu onde trabalhei, tive de me esconder no cockpit do avião a fingir, porque uma das crianças do grupo que eu estava a orientar tinha leucemia. De outra vez cruzei-me com um bebé, filho de uma das mães solteiras que a instituição onde eu trabalhava acolhia, e quando cheguei a casa desatei num pranto tal que ninguém sabia como me acudir.
Não foi o caso nesta minha experiência. Nem mesmo com a avó de 60 anos a amamentar o neto que está a criar, porque lhe morreu a filha.
Senti-me embalada pelas conversas que não entendia. Via as crianças penduradas nas mamas das mães, sentia a subida do leite e sabia que não tinha de amamentar. Que liberdade! não há liberdade maior.
As mulheres respondiam às perguntas, falavam das tradições da comunidade, riam-se,
sempre com crianças a fazer ninho nos colos.
Em todas as casas havia um mar de gente, que come e dorme e faz tudo o que se faz numa casa, mesmo com cortinas em vez de paredes e em vez de portas. A privacidade é muito subvalorizada nesta ilha.
Não me sentei no chão de terra batida, ou no cimento, uma única vez, porque há sempre uma cadeira de plástico para as visitas, e um naperon para a mesa.
Pareceu-me tudo muito familiar, como uma memória.
Depois entrava no carro e seguia sem crianças a querer fazer ninho no meu colo, a perguntar se falta muito, a abrir a janela para vomitar. Que liberdade!
Quando cheguei a casa vi a Elza Soares no computador. É pouco mais nova que a minha avó e é um gosto ouvi-la, como é ouvir as histórias que a minha avó inventa sobre o tráfico de droga em frente à escola primária. Mas já ninguém quer ouvir a minha avó. Eu ouvia a Elza e pensava na minha avó e nas mulheres dos distritos e percebi que é tudo sobre isso, sobre querermos ser ouvidos.

O que me preocupa

2.6.17
Eu sei que devia estar preocupada com as provas de aferição e os exames globais e o aproveitamento escolar das crianças e tudo o que possa pôr em causa o sucesso deles no futuro, mesmo que eu não faça a mais pequena ideia do que isso seja, até porque tenho vivido neste engano de que o importante é que tenham saúde e sejam felizes.
Devia estar preocupada com esta dor de lado que me apanha o rim, e talvez o fígado e um bocado do estômago e às vezes o intestino grosso e que aparece e desaparece, mas uma pessoa fica a pensar nisso, porque não vai para nova e nasceu num país onde as doenças são troféus, enormes troféus, cada um mais elaborado e cheio de recocós do que o outro e isto fica entranhado nos genes.
E a paz no mundo, meu deus, devia estar preocupada com a paz no mundo, como as misses do Universo, que é feito delas, já agora? O mundo está a precisar que se faça alguma coisa.
Mas não, não. Eu estou preocupada com os pensos higiénicos que deixei inadvertidamente no balde do lixo da casa de banho e que foram devidamente recolhidos com o restante lixo da casa para serem depositados lá fora, na lixeira que está no passeio, para serem farejados pelos cães que os espalharão na estrada, deixando assim à vista de toda a gente os vestígios da minha feminidade.