Querida Bea,
Terminou o ano lectivo. O mais desafiante e estranho ano lectivo de todos até ao momento. Cometeste erros, divertiste-te, superaste dificuldades, desiludiste-te e aprendeste muito (espero). Estás cada vez mais autónoma, sem dúvida, mas não vem nenhum mal ao mundo se tiveres em consideração alguns conselhos meus, pois não? Se pensares bem eu até sou uma pessoa com bom senso (espero).
Nunca duvides que tenho, temos, muito orgulho em ti e não é por seres mais ou menos arrumada que isso vai mudar.
A sério, não precisas de arrumar se isso vai contra a tua religião, ou filosofia de vida, mas como já te dissemos algumas vezes há certas práticas que ajudam a preservar os utensílios que fazem parte do dia-a-dia. Por exemplo, se o forno nunca, ou muito raramente, for limpo provavelmente terá de ir para o lixo daqui a uns tempos. Em muito menos tempo do que se for limpo de vez em quando, quero eu dizer.
E tentar que tudo aquilo que usamos dure mais tempo é uma das atitudes mais ecológicas que podemos ter. Sim, eu sei que não comes carne mais por questões éticas do que ecológicas mas umas e outras cruzam-se.
Depois, quando te digo que há mais vida para além dos amigos e de namorar, eu sei que é difícil acreditar, muito por que não há assim tanto mais, na verdade, sobretudo quando se tem 17 anos, mas há todo um percurso que precisas de trilhar para chegar onde queres, mesmo que não saibas ao certo o que fazer com a tua vida.
E também é sempre bom não esqueceres de onde vens, o que te trouxe até aqui. Mais do que o receio que tomes más decisões, que faças escolhas menos acertadas, custa-me que não escolhas a música seguinte nas nossas viagens de carro, que não sugiras o destino da próxima viagem connosco, que não peças aos teus irmãos para te deixarem em paz, que não tenhas aquelas conversas intermináveis, que eu deixava de ouvir a certa altura. É doloroso isto de deixar que vás à tua vida.
Neste teu percurso é bom que estejas a aproveitar a paisagem, a sorver todos os momentos, mas precisas de estar calçada, agasalhada para o frio e protegida do sol. Precisas de te alimentar e essas coisas que temos de ser nós, enquanto responsáveis pelo teu bem-estar, a providenciar. Mas nós não somos só os teus providenciadores, pois não? (não, pois não?)
Eu quero que tu vás até onde quiseres ir, mesmo não tendo a certeza até onde te levará essa vontade, e temendo que precises mais de mim do que eu e tu achamos que precisas, mas estou aqui para ti. Estarei sempre aqui para ti. Faz o teu caminho e fá-lo de maneira a que sintas orgulho nele.
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Cartas da Póvoa #1
5.3.18
Jaime,
Comecei por escrever "Querido Jaime" mas depois soou-me estranho. Serei assim tão pouco afectuosa, ao ponto de não me lembrar de te chamar querido, alguma vez? Bom, talvez seja melhor não responderes a esta pergunta.
Quando comecei esta coisa das cartas para encurtar a distância entre mim e a Bea estava longe de imaginar que estava a pouco tempo de ficar mais próxima dela e mais distante de ti.
Mas eis-nos aqui às voltas com mais um Cisne Negro. Confesso que depois do impacto deste acontecimento imprevisível, estou ansiosa pela "explicação que o faz parecer menos aleatório e mais previsível do que aquilo que é na realidade". Já vais avançado na leitura do livro, ou nem por isso?
É das poucas coisas que gosto em mim, a de continuar a acreditar piamente que os livros têm todas as respostas.
Faz hoje precisamente duas semanas que saíste daqui e ainda não conseguimos descobrir a hora certa para nos encontramos na pontas dos dedos. E isto quase que podia ser sensual se não metesse telemóveis e conversas desencontradas mas, bom, ele há gostos para tudo...
Parece que estás longe há imenso tempo e, no entanto, ainda não passou tempo suficiente para me sentir familiarizada com a tua ausência.
O que mais me custa é não saber o que estás a pensar, a sentir, o que te faz rir, o que te exaspera, o que te enternece. Ou seja, o que me custa na tua ausência é a falta da tua presença. Não gozes, a gramática nem sempre está preparada para o que queremos dizer.
Às vezes, muitas vezes, consigo estar um bocadinho contigo nas coisas que me escreves mas tens escrito pouco, contado pouco.
O que mais me custa é não saber o que estás a pensar, a sentir, o que te faz rir, o que te exaspera, o que te enternece. Ou seja, o que me custa na tua ausência é a falta da tua presença. Não gozes, a gramática nem sempre está preparada para o que queremos dizer.
Às vezes, muitas vezes, consigo estar um bocadinho contigo nas coisas que me escreves mas tens escrito pouco, contado pouco.
No outro dia, depois do Correntes d' Escrita, dei por mim a pensar no monte de banalidades que teria partilhado contigo. Sabias que o João Tordo é gago? E o Valério Romão, sabes, que escreve sobre família é um gajo, pareceu-me, que apreciaria jantar cá em casa. Não mais do que nós apreciaríamos jantar com ele, obviamente. A Isabela é diferente do que imaginava e o texto que o Sandro William Junqueira leu surpreendeu-me.
Sobre o evento só te disse que tinha gostado muito e não me demorei no assunto, mas se estivesses aqui provavelmente tinha inventado uma relação entre os cactos da Isabela, o escaravelho do Valério, as mulheres do Mû Mbana e o Mar da Ana Margarida de Carvalho. Contei-te que a audiência do Cine-Teatro Garret começou a cantar espontaneamente "O mar enrola na areia"? Os poveiros se não existissem tinham de ser inventados (e nunca esta expressão fez tanto sentido)!
Os miúdos estão bem, parece-me que cisnes negros são uma coisa muito mais natural para eles. Eu é que continuo às voltas com as escolhas e as decisões que tomamos a pensar neles, mas o Nicolau tem dado umas pistas com aquela do "nós só queremos ter uma mãe feliz!" e a outra, "o problema é nós não sabermos que coisas te vão chatear".
Na semana passada fiz uma massa de frango que terias apreciado, apesar de ser uma especialidade tua. Hoje vou cozinhar amêijoas, mas daquelas congeladas que já vêm sem casca. Deve resultar bem num arroz malandro.
Sobre o evento só te disse que tinha gostado muito e não me demorei no assunto, mas se estivesses aqui provavelmente tinha inventado uma relação entre os cactos da Isabela, o escaravelho do Valério, as mulheres do Mû Mbana e o Mar da Ana Margarida de Carvalho. Contei-te que a audiência do Cine-Teatro Garret começou a cantar espontaneamente "O mar enrola na areia"? Os poveiros se não existissem tinham de ser inventados (e nunca esta expressão fez tanto sentido)!
Os miúdos estão bem, parece-me que cisnes negros são uma coisa muito mais natural para eles. Eu é que continuo às voltas com as escolhas e as decisões que tomamos a pensar neles, mas o Nicolau tem dado umas pistas com aquela do "nós só queremos ter uma mãe feliz!" e a outra, "o problema é nós não sabermos que coisas te vão chatear".
Na semana passada fiz uma massa de frango que terias apreciado, apesar de ser uma especialidade tua. Hoje vou cozinhar amêijoas, mas daquelas congeladas que já vêm sem casca. Deve resultar bem num arroz malandro.
Cartas de Díli #6
17.9.17
Querida Bea,
Como sabes não escrevo esta carta de Díli mas de Lisboa. Ia dizer a tua cidade, mas será?
Temos falado muito do acidente mas também me parece que temos, ou tenho, evitado falar de alguns aspectos desse acidente. Eu sempre achei que se alguma vez estivesse metida numa tragédia com algum dos meus filhos morreria de sofrimento, se não tivesse morrido dos ferimentos. Mas estávamos as duas no banco de trás do carro e eu simplesmente não me lembro de nada.
O neurocirurgião disse que perante um trauma o cérebro desliga e eu, que fico sempre fascinada com a forma como o nosso corpo funciona, não pude deixar de ficar agradecida, além de maravilhada.
Mas era eu ali, certo? Não era só um corpo a reagir a um trauma. E tu estavas comigo.
Sei que a partir do momento em que fiquei consciente acreditei que ia ficar tudo bem. O Jaime, não sei se me disse mas tenho quase a certeza que o pensou, considerou que esse meu optimismo só podia ser um sinal de que não estava bem, ou tão consciente quanto isso. Mas eu dou-lhe todos os descontos. Como se faz com os nossos super heróis.
Amanhã é o teu primeiro dia de escola e não imaginas como é maravilhoso estar contigo nesta altura do ano. Quer dizer, imaginas, porque é bastante óbvio, já que não consigo esconder o entusiasmo ainda que ensombrado pela perspectiva de ver os teus irmãos irem embora com o pai, para irem também eles para a escola, que fica a 14 mil quilómetros daqui.
Céus, como vou ser capaz de me despedir deles?
Isto que eu ando a dizer sobre eles ficarem connosco até esta tua nova vida ficar mais consolidada é mesmo verdade. Eles podiam fazer o primeiro trimestre em homeschooling e depois retomavam as aulas em Díli. Mas estou a complicar, eu sei, só por me sentir incapaz de estar longe deles ainda que por pouco tempo.
Podes dizer que também fiz o mesmo contigo e não foi assim tão dramático (não??), mas é fácil perceber as diferenças. Além de teres sido tu a pedir-me, já estavas noutra idade e com outra autonomia. É claro que apesar de precisares de mim por perto, a minha presença não é determinante para o teu dia-a-dia como é para eles.
Enfim, mas mudemos de assunto. Estarmos em Lisboa todos juntos, dois anos depois de termos ido embora daqui, sobretudo contigo a começar a escola, deixa-me nostálgica.
E apesar de estarmos a atravessar um momento para o complicado delicio-me com as nossas conversas, com as ameixas (que posso lavar com água da torneira!!!!!), com o preço do vinho, com o peixe, as refeições que fazemos juntos, o casaco que me aconchega e o som do jogo do Porto e os gritos de "GOOOOOOLO" que chegam da sala.
Somos muito mais isto. Não importa em que cidade estejemos a viver, desde que possamos estar juntos.
Tenho a cabeça amassada e um aperto no coração, mas sei que vai correr tudo bem (será que ainda não recuperei?).
Sabes o que podemos fazer? Acenar e sorrir.
Como sabes não escrevo esta carta de Díli mas de Lisboa. Ia dizer a tua cidade, mas será?
Temos falado muito do acidente mas também me parece que temos, ou tenho, evitado falar de alguns aspectos desse acidente. Eu sempre achei que se alguma vez estivesse metida numa tragédia com algum dos meus filhos morreria de sofrimento, se não tivesse morrido dos ferimentos. Mas estávamos as duas no banco de trás do carro e eu simplesmente não me lembro de nada.
O neurocirurgião disse que perante um trauma o cérebro desliga e eu, que fico sempre fascinada com a forma como o nosso corpo funciona, não pude deixar de ficar agradecida, além de maravilhada.
Mas era eu ali, certo? Não era só um corpo a reagir a um trauma. E tu estavas comigo.
Sei que a partir do momento em que fiquei consciente acreditei que ia ficar tudo bem. O Jaime, não sei se me disse mas tenho quase a certeza que o pensou, considerou que esse meu optimismo só podia ser um sinal de que não estava bem, ou tão consciente quanto isso. Mas eu dou-lhe todos os descontos. Como se faz com os nossos super heróis.
Amanhã é o teu primeiro dia de escola e não imaginas como é maravilhoso estar contigo nesta altura do ano. Quer dizer, imaginas, porque é bastante óbvio, já que não consigo esconder o entusiasmo ainda que ensombrado pela perspectiva de ver os teus irmãos irem embora com o pai, para irem também eles para a escola, que fica a 14 mil quilómetros daqui.
Céus, como vou ser capaz de me despedir deles?
Isto que eu ando a dizer sobre eles ficarem connosco até esta tua nova vida ficar mais consolidada é mesmo verdade. Eles podiam fazer o primeiro trimestre em homeschooling e depois retomavam as aulas em Díli. Mas estou a complicar, eu sei, só por me sentir incapaz de estar longe deles ainda que por pouco tempo.
Podes dizer que também fiz o mesmo contigo e não foi assim tão dramático (não??), mas é fácil perceber as diferenças. Além de teres sido tu a pedir-me, já estavas noutra idade e com outra autonomia. É claro que apesar de precisares de mim por perto, a minha presença não é determinante para o teu dia-a-dia como é para eles.
Enfim, mas mudemos de assunto. Estarmos em Lisboa todos juntos, dois anos depois de termos ido embora daqui, sobretudo contigo a começar a escola, deixa-me nostálgica.
E apesar de estarmos a atravessar um momento para o complicado delicio-me com as nossas conversas, com as ameixas (que posso lavar com água da torneira!!!!!), com o preço do vinho, com o peixe, as refeições que fazemos juntos, o casaco que me aconchega e o som do jogo do Porto e os gritos de "GOOOOOOLO" que chegam da sala.
Somos muito mais isto. Não importa em que cidade estejemos a viver, desde que possamos estar juntos.
Tenho a cabeça amassada e um aperto no coração, mas sei que vai correr tudo bem (será que ainda não recuperei?).
Sabes o que podemos fazer? Acenar e sorrir.
Cartas de Lisboa #3
22.7.17
Querida progenitora,
Estou neste momento na ribeira das naus, sentada numa mantinha a ouvir o Leyder a tocar guitarra (o Hotel Califórnia, note-se, como o nosso Paulinho gostaria) com o Alex, um alemão a fazer backpacking pela Europa porque se aborreceu da sua aldeia num belo dia de verão e apetecia-me estar a escrever à mão, mas há que ser prática e não escrever a mesma porcaria duas vezes não é? A minha vida ultimamente tem sido isto. Como sabes, as condições em casa não são ideais por isso esta comunidadezinha que se criou neste belo sítio está a saber muito bem.
Passam-se os dias neste verão que eu tenho a certeza que será inesquecível assim, sentada na ribeira (numa zona que como o nome indica tem o rio Tejo ao lado [todos sabemos que o Douro seria preferível, mas não deixa de ser agradável] e tem um espaço com relvinha e umas quantas árvores) a conhecer pessoas novas todos os dias e a passar 12 horas por dia com pessoas que conheci neste sítio há um mesito e tal mas com quem já ganhei a confiança de quem acampou 4 dias seguidos e sabe todas as maniasinhas das pessoas desde que acorda até que se deita e mesmo enquanto dorme.
Aqui conversamos sobre tudo e mais alguma coisa, desde as coisas mais disparatadas até às mais sérias possíveis, temos ataques de riso que duram horas, trocam-se olhares de cumplicidade, convidamos os turistas que se sentam por aqui a sentarem-se connosco e partilhamos as nossas experiências e culturas e inspiramo-nos todos uns aos outros. Também vamos a concertos de vez em quando e todos os domingos estamos no outjazz, porque não somos assim tão inúteis (ainda que seja um termo carinhoso frequentemente usado neste grupo). É indiscritivelmente lindo, e nem quero saber se indiscritivelmente existe.
E já te falei do Musa? Se já, não deve ter sido grande coisa, porque não me lembro disso. Na quarta feira dia 28, graças a uma amiga da Arroio, mas que conheci na ribeira, fui com ela e mais dois amigos dormir no acampamento. No dia seguinte juntou-se o resto do grupo, incluindo a Francisca e a Joana e mais pessoas maioritariamente da Arroio que conheci principalmente na ribeira. Não existem mesmo palavras para descrever o quão bom foi o ambiente nesses dias. Não existiam dias específicos nem sequer o resto do mundo, nós entrámos numa bolha de boa onda e felicidade que não foi perturbada por nada. Passámos os dias na praia até às 16 da tarde e depois íamos para o recinto dos concertos e passávamos lá o resto do dia a dançar ao som dos concertos e pelas 2 quando acabavam ainda íamos para a praia conversar e só aí é que íamos para as tendas. Apanhei um senhor escaldão mas acredita que valeu a pena.
Ainda por cima, daqui a menos de uma semana já estou convosco e também com a Rita, e vamos passar mais de um mês perfeito, e a seguir disso inicia-se mais um ciclo entusiasmante em vários aspetos.
Mal posso esperar por tudo, já estou a morrer de saudades de todos vocês. Como estão? Já sabes que estou super orgulhosa do teu trabalho na Abut, certo? É mesmo a tua cara.
Enfim, vou voltar para o universo da ribeira, sessões de filosofia esperam-me.
Beijinhos e até já (sabe tão bem).
Estou neste momento na ribeira das naus, sentada numa mantinha a ouvir o Leyder a tocar guitarra (o Hotel Califórnia, note-se, como o nosso Paulinho gostaria) com o Alex, um alemão a fazer backpacking pela Europa porque se aborreceu da sua aldeia num belo dia de verão e apetecia-me estar a escrever à mão, mas há que ser prática e não escrever a mesma porcaria duas vezes não é? A minha vida ultimamente tem sido isto. Como sabes, as condições em casa não são ideais por isso esta comunidadezinha que se criou neste belo sítio está a saber muito bem.
Passam-se os dias neste verão que eu tenho a certeza que será inesquecível assim, sentada na ribeira (numa zona que como o nome indica tem o rio Tejo ao lado [todos sabemos que o Douro seria preferível, mas não deixa de ser agradável] e tem um espaço com relvinha e umas quantas árvores) a conhecer pessoas novas todos os dias e a passar 12 horas por dia com pessoas que conheci neste sítio há um mesito e tal mas com quem já ganhei a confiança de quem acampou 4 dias seguidos e sabe todas as maniasinhas das pessoas desde que acorda até que se deita e mesmo enquanto dorme.
Aqui conversamos sobre tudo e mais alguma coisa, desde as coisas mais disparatadas até às mais sérias possíveis, temos ataques de riso que duram horas, trocam-se olhares de cumplicidade, convidamos os turistas que se sentam por aqui a sentarem-se connosco e partilhamos as nossas experiências e culturas e inspiramo-nos todos uns aos outros. Também vamos a concertos de vez em quando e todos os domingos estamos no outjazz, porque não somos assim tão inúteis (ainda que seja um termo carinhoso frequentemente usado neste grupo). É indiscritivelmente lindo, e nem quero saber se indiscritivelmente existe.
E já te falei do Musa? Se já, não deve ter sido grande coisa, porque não me lembro disso. Na quarta feira dia 28, graças a uma amiga da Arroio, mas que conheci na ribeira, fui com ela e mais dois amigos dormir no acampamento. No dia seguinte juntou-se o resto do grupo, incluindo a Francisca e a Joana e mais pessoas maioritariamente da Arroio que conheci principalmente na ribeira. Não existem mesmo palavras para descrever o quão bom foi o ambiente nesses dias. Não existiam dias específicos nem sequer o resto do mundo, nós entrámos numa bolha de boa onda e felicidade que não foi perturbada por nada. Passámos os dias na praia até às 16 da tarde e depois íamos para o recinto dos concertos e passávamos lá o resto do dia a dançar ao som dos concertos e pelas 2 quando acabavam ainda íamos para a praia conversar e só aí é que íamos para as tendas. Apanhei um senhor escaldão mas acredita que valeu a pena.
Ainda por cima, daqui a menos de uma semana já estou convosco e também com a Rita, e vamos passar mais de um mês perfeito, e a seguir disso inicia-se mais um ciclo entusiasmante em vários aspetos.
Mal posso esperar por tudo, já estou a morrer de saudades de todos vocês. Como estão? Já sabes que estou super orgulhosa do teu trabalho na Abut, certo? É mesmo a tua cara.
Enfim, vou voltar para o universo da ribeira, sessões de filosofia esperam-me.
Beijinhos e até já (sabe tão bem).
Cartas de Díli #5
9.7.17
Querida Bea,
Esta carta se calhar vai ser mais curta do que as anteriores, porque estou cansada. Podia continuar a adiar escrevê-la até me sentir com mais energia, ou com as ideias mais claras, mas estou convencida que obrigar-me a manter uma periodicidade é importante.
Estou a meio de uma semana diferente, e intensa, de trabalho com o workshop de jornalismo para crianças e devo dizer que tem sido uma experiência e tanto.
Quando me perguntam como está a correr eu não sei bem o que responder, porque para mim está a ser muito interessante e frustrante ao mesmo tempo.
Primeiro, porque trabalhar com crianças, mesmo não sendo uma novidade, é sempre um desafio. E depois, é muito complicado ver todo o potencial daqueles miúdos e não saber como convencê-los a usar essas capacidades, porque nem eles sabem que as têm.
Há ali miúdos incríveis, que desenham como nunca vi, que riem como nunca vi, que choram, que se controlam, que se esforçam e lutam como sabem.
Só passaram três dias (apesar de me parecerem três semanas) mas já sei de cor quase todos os nomes, mesmo que os pronuncie incorrectamente, já consolei birras de cansaço, já pus pensos em feridas, já sanei conflitos e já dei abraços de mimo (sim, sem pedirem, imagina).
Além disso, acho que começam a ter uma ideia da estrutura de uma notícia. Não sabem escrevê-la, ainda, ou não todos, pelos menos, mas sabem o que é o título, a legenda da foto e que o texto deve responder às perguntas Quem? O Quê? Onde? Quando? e Porquê?
Não tenho a certeza se o orgulho com que me mostram os resultados é por terem concluído a tarefa pedida, ou por sentirem que aprenderam qualquer coisa. Suponho que na cabeça deles uma coisa implica a outra, mas sabemos que nem sempre é assim.
Por outro lado, os teus irmãos, que passam as manhãs no "Summer Camp" e as tardes em casa com a Domingas estão no pico da carência afectiva, tipo, ao ponto de irem para debaixo do coqueiro que é o único sítio da casa para onde não podem ir, porque nesta altura estão sempre a cair cocos.
Não te rias (sim, estou mesmo a ver-te gozar comigo), há mais casos de mortes com cocos na cabeça do que com ataques de crocodilos, lembras-te? Ainda por cima, desde que estou cá só vi um crocodilo, contra três cocos que me acordaram a meio da noite a cair no chão.
Não é que a estatística me interesse por aí além, enquanto disciplina, mas eu guardo uma lista de formas de morrer surreais e nem imaginas as coisas absurdas que acontecem.
Entretanto, a semana acabou e não te enviei a carta. Depois do terceiro dia de trabalho fiquei doente, com tosse, mas o ben-u-ron resolveu a coisa e sobrevivi à primeira semana. Agora, estou mais ou menos em pânico com a que começa amanhã.
Também já dei por mim a pensar que vou sentir a falta deles. São quase todos irritantes e maravilhosos na mesma proporção.
Enfim, é bem possível que esta experiência esteja a ser a mais intensa desde que estou em Timor, porque mexe com o meu lado mais ingénuo. Aquele que olha para estas crianças, que são o futuro deste país, e acredita que pode fazer alguma diferença com as palavras.
Esta carta se calhar vai ser mais curta do que as anteriores, porque estou cansada. Podia continuar a adiar escrevê-la até me sentir com mais energia, ou com as ideias mais claras, mas estou convencida que obrigar-me a manter uma periodicidade é importante.
Estou a meio de uma semana diferente, e intensa, de trabalho com o workshop de jornalismo para crianças e devo dizer que tem sido uma experiência e tanto.
Quando me perguntam como está a correr eu não sei bem o que responder, porque para mim está a ser muito interessante e frustrante ao mesmo tempo.
Primeiro, porque trabalhar com crianças, mesmo não sendo uma novidade, é sempre um desafio. E depois, é muito complicado ver todo o potencial daqueles miúdos e não saber como convencê-los a usar essas capacidades, porque nem eles sabem que as têm.
Há ali miúdos incríveis, que desenham como nunca vi, que riem como nunca vi, que choram, que se controlam, que se esforçam e lutam como sabem.
Só passaram três dias (apesar de me parecerem três semanas) mas já sei de cor quase todos os nomes, mesmo que os pronuncie incorrectamente, já consolei birras de cansaço, já pus pensos em feridas, já sanei conflitos e já dei abraços de mimo (sim, sem pedirem, imagina).
Além disso, acho que começam a ter uma ideia da estrutura de uma notícia. Não sabem escrevê-la, ainda, ou não todos, pelos menos, mas sabem o que é o título, a legenda da foto e que o texto deve responder às perguntas Quem? O Quê? Onde? Quando? e Porquê?
Não tenho a certeza se o orgulho com que me mostram os resultados é por terem concluído a tarefa pedida, ou por sentirem que aprenderam qualquer coisa. Suponho que na cabeça deles uma coisa implica a outra, mas sabemos que nem sempre é assim.
Por outro lado, os teus irmãos, que passam as manhãs no "Summer Camp" e as tardes em casa com a Domingas estão no pico da carência afectiva, tipo, ao ponto de irem para debaixo do coqueiro que é o único sítio da casa para onde não podem ir, porque nesta altura estão sempre a cair cocos.
Não te rias (sim, estou mesmo a ver-te gozar comigo), há mais casos de mortes com cocos na cabeça do que com ataques de crocodilos, lembras-te? Ainda por cima, desde que estou cá só vi um crocodilo, contra três cocos que me acordaram a meio da noite a cair no chão.
Não é que a estatística me interesse por aí além, enquanto disciplina, mas eu guardo uma lista de formas de morrer surreais e nem imaginas as coisas absurdas que acontecem.
Entretanto, a semana acabou e não te enviei a carta. Depois do terceiro dia de trabalho fiquei doente, com tosse, mas o ben-u-ron resolveu a coisa e sobrevivi à primeira semana. Agora, estou mais ou menos em pânico com a que começa amanhã.
Também já dei por mim a pensar que vou sentir a falta deles. São quase todos irritantes e maravilhosos na mesma proporção.
Enfim, é bem possível que esta experiência esteja a ser a mais intensa desde que estou em Timor, porque mexe com o meu lado mais ingénuo. Aquele que olha para estas crianças, que são o futuro deste país, e acredita que pode fazer alguma diferença com as palavras.
Cartas de Lisboa #2
19.6.17
Boas tardes (ou seja qual for a expressão mais apropriada para a situação da estimada leitora [peço desculpa aos fãs do blogue mas refiro-me apenas à minha mãe porque não há garantia de que vocês não sejam assassinos em série ou pior, apoiantes do trump, e portanto não posso afirmar que são estimados]),
Estão quase 40 graus em lisboa, portanto não prometo que o conteúdo desta carta faça muito sentido.
Na verdade, esta já é a quinta carta que te escrevo, mas entre entregas de portefólios e escolhas de áreas e a agitação natural de início de férias (que só morreu este fim de semana porque os amigos mais próximos estão fora e está demasiado calor para eu ter motivação para estar com os amigos menos próximos) acabo sempre por não as acabar. Para resumir o conteúdo das últimas 3, desenvolvi uma obssessão gigante por ABBA e descobri assim todo um novo método de lidar com raiva, tristeza, ou seja o que for (um destes dias devia gravar, porque dançar com raiva deve ser das coisas mais hilariantes que se pode observar), descobri um novo mundo em tinta da china que eu até agora odiava mas que me tem dado ótimos resultados (tipo uma tendinite no pulso por desenhar demais) e já te devo ter contado entretanto pelo querido facebook mas escolhi ir para Gravura e Serigrafia. Na semana das aulas abertas (onde se podem visitar as várias oficinas para ajudar na escolha da área), eu fui toda feliz e contente mais ou menos convencida de que queria ir para RPE à oficina de Gravura (vou esclarecer para futura referência que Gravura e Serigrafia é o nome do curso mas provavelmente vou-me sempre referir ao mesmo apenas como Gravura e mais uma vez que RPE é reprodução plástica para espetáculo ou seja cenografia e figurinos) e lixei-me. Não é que eu, finalmente mais ou menos decidida, finalmente sem crises existenciais chego à oficina de Gravura e saio quase a chorar porque não sei o que fazer da minha vida? Tive um ano inteiro tranquila com a escolha porque já tinha uma ideia mais ou menos final e uns dias antes de ter fazer a escolha é que vem a confusão? Imaginas o drama, não imaginas? Enfim, acabei por decidir seguir o meu curaçón e apesar de ainda não ter 100% de certeza que foi a decisão certa, estou confiante de que vão ser uns bons 2 anos dos quais eu vou ter muitas saudades no futuro.
Entretanto, não sei se sabes, foi-me oferecida a oportunidade de ir viajar com uma amiga a Timor. Vai ser incrível, estou farta de pensar nisso. Mal posso esperar por lhe mostrar a Areia Branca e o cristo rei, a fantástica ilha de Jaco e toda a aventura que será lá chegar e claro, Liquiça (we'll always have Liquiça). Vou é ter de visitar um casal de bêbedos e os seus dois gunas superheróis, mas olha, há sempre um preço a pagar pelas coisas boas :P
Vá, todos sabemos que não é verdade. Quer dizer, é, porque nenhum dos títulos é particularmente injusto, mas acho que não é preciso dizer as saudades que tenho vossas.
No outro dia estava a descer a rua Garret e vi um homem (senhor? gajo? rapaz? ahhhhhhh não sei) alto, de cabelo preto, a usar calças de ganga e uma t-shirt branca e com uma mochila azul às costas a entrar naquela coisinha que vai dar ao ex-escritório do Jaime e quase que corri atrás dele. Quase. Tenho mesmo muitas saudades vossas. Dos nossos almoços com ótimas conversas sejam estas filosóficas, políticas, sobre música (mais com o Jaime) ou até as conversas em que chegamos à conclusão que à exceção do Jaime tu claramente tens mau gosto em espécimes masculinos pelo menos do ponto de vista físico.
Além de traumatizados, como estão os rapazes? E o Douro, sofreu alguma consequência pelo homicídio ou o advogado disse que ele tecnicamente não sabia o que estava a fazer e safou-se?
Acho que descobrir que os bichos morreriam de qualquer das formas é das melhores coisas porque nunca me irei esquecer do ato heróico (agora inútil) do pobre Jaiminho com essas criaturas cujo nome deveria claramente ser Hitchcocks ou então aqueles-coisos-que-voam-em-Laclubar.
Um completo aparte que eu acho que devia ser mencionado, como resposta ao teu primeiro parágrafo da carta #3, é que me tenho apercebido cada vez mais que eu sou aquilo que sou graças principalmente a ti e ao Jaime. Com ele posso falar melhor depois, mas gostava mesmo que tivesses noção que não és, de todo, resumida a "uma mãe bastante depressiva, uma jornalista frustrada". És, de longe, a melhor mãe que conheço. Consegues nomear um par de mãe e filha com uma relação tão boa como a nossa? Eu não. Fizeste e continuas a fazer um ótimo trabalho em educar os teus filhos ouvindo e respeitando na mesma todos os sentimentos deles e aquilo por que estão a passar. Sim, podes não ser a pessoa mais paciente do mundo nem a mais bem-disposta. Mas é assim que gostamos (imenso) de ti, e gostava de ter palavras para descrever melhor o impacto positivo que tens em toda a gente à tua volta.
Em relação à aphantasia, acho que melhorou bastante. Desde que entrei na Arroio que consigo mais ou menos visualizar. No fundo, apercebi-me de que sempre o consegui, mas é de uma forma diferente da das outras pessoas. As minhas imagens não são muito nítidas, e raramente são coisas literais. Por exemplo, agora quando fecho os olhos e me concentro, consigo ver-vos aos quatro a jantar, mas é de uma forma muito Wes Andersoniana e a imagem não é muito clara. Pode mais ou menos ser comparado a um ecrã de cinema muito muito muito muito longe de mim. Basicamente, a escola está a ajudar-me a desenvolver ferramentas para finalmente conseguir ver o que a minha imaginação esquisita e muito ativa sempre criou. Ou então ando a ter alucinações induzidas pela atmosfera provavelmente infestada com drogas à porta da escola.
Estão quase 40 graus em lisboa, portanto não prometo que o conteúdo desta carta faça muito sentido.
Na verdade, esta já é a quinta carta que te escrevo, mas entre entregas de portefólios e escolhas de áreas e a agitação natural de início de férias (que só morreu este fim de semana porque os amigos mais próximos estão fora e está demasiado calor para eu ter motivação para estar com os amigos menos próximos) acabo sempre por não as acabar. Para resumir o conteúdo das últimas 3, desenvolvi uma obssessão gigante por ABBA e descobri assim todo um novo método de lidar com raiva, tristeza, ou seja o que for (um destes dias devia gravar, porque dançar com raiva deve ser das coisas mais hilariantes que se pode observar), descobri um novo mundo em tinta da china que eu até agora odiava mas que me tem dado ótimos resultados (tipo uma tendinite no pulso por desenhar demais) e já te devo ter contado entretanto pelo querido facebook mas escolhi ir para Gravura e Serigrafia. Na semana das aulas abertas (onde se podem visitar as várias oficinas para ajudar na escolha da área), eu fui toda feliz e contente mais ou menos convencida de que queria ir para RPE à oficina de Gravura (vou esclarecer para futura referência que Gravura e Serigrafia é o nome do curso mas provavelmente vou-me sempre referir ao mesmo apenas como Gravura e mais uma vez que RPE é reprodução plástica para espetáculo ou seja cenografia e figurinos) e lixei-me. Não é que eu, finalmente mais ou menos decidida, finalmente sem crises existenciais chego à oficina de Gravura e saio quase a chorar porque não sei o que fazer da minha vida? Tive um ano inteiro tranquila com a escolha porque já tinha uma ideia mais ou menos final e uns dias antes de ter fazer a escolha é que vem a confusão? Imaginas o drama, não imaginas? Enfim, acabei por decidir seguir o meu curaçón e apesar de ainda não ter 100% de certeza que foi a decisão certa, estou confiante de que vão ser uns bons 2 anos dos quais eu vou ter muitas saudades no futuro.
Entretanto, não sei se sabes, foi-me oferecida a oportunidade de ir viajar com uma amiga a Timor. Vai ser incrível, estou farta de pensar nisso. Mal posso esperar por lhe mostrar a Areia Branca e o cristo rei, a fantástica ilha de Jaco e toda a aventura que será lá chegar e claro, Liquiça (we'll always have Liquiça). Vou é ter de visitar um casal de bêbedos e os seus dois gunas superheróis, mas olha, há sempre um preço a pagar pelas coisas boas :P
Vá, todos sabemos que não é verdade. Quer dizer, é, porque nenhum dos títulos é particularmente injusto, mas acho que não é preciso dizer as saudades que tenho vossas.
No outro dia estava a descer a rua Garret e vi um homem (senhor? gajo? rapaz? ahhhhhhh não sei) alto, de cabelo preto, a usar calças de ganga e uma t-shirt branca e com uma mochila azul às costas a entrar naquela coisinha que vai dar ao ex-escritório do Jaime e quase que corri atrás dele. Quase. Tenho mesmo muitas saudades vossas. Dos nossos almoços com ótimas conversas sejam estas filosóficas, políticas, sobre música (mais com o Jaime) ou até as conversas em que chegamos à conclusão que à exceção do Jaime tu claramente tens mau gosto em espécimes masculinos pelo menos do ponto de vista físico.
Além de traumatizados, como estão os rapazes? E o Douro, sofreu alguma consequência pelo homicídio ou o advogado disse que ele tecnicamente não sabia o que estava a fazer e safou-se?
Acho que descobrir que os bichos morreriam de qualquer das formas é das melhores coisas porque nunca me irei esquecer do ato heróico (agora inútil) do pobre Jaiminho com essas criaturas cujo nome deveria claramente ser Hitchcocks ou então aqueles-coisos-que-voam-em-Laclubar.
Um completo aparte que eu acho que devia ser mencionado, como resposta ao teu primeiro parágrafo da carta #3, é que me tenho apercebido cada vez mais que eu sou aquilo que sou graças principalmente a ti e ao Jaime. Com ele posso falar melhor depois, mas gostava mesmo que tivesses noção que não és, de todo, resumida a "uma mãe bastante depressiva, uma jornalista frustrada". És, de longe, a melhor mãe que conheço. Consegues nomear um par de mãe e filha com uma relação tão boa como a nossa? Eu não. Fizeste e continuas a fazer um ótimo trabalho em educar os teus filhos ouvindo e respeitando na mesma todos os sentimentos deles e aquilo por que estão a passar. Sim, podes não ser a pessoa mais paciente do mundo nem a mais bem-disposta. Mas é assim que gostamos (imenso) de ti, e gostava de ter palavras para descrever melhor o impacto positivo que tens em toda a gente à tua volta.
Em relação à aphantasia, acho que melhorou bastante. Desde que entrei na Arroio que consigo mais ou menos visualizar. No fundo, apercebi-me de que sempre o consegui, mas é de uma forma diferente da das outras pessoas. As minhas imagens não são muito nítidas, e raramente são coisas literais. Por exemplo, agora quando fecho os olhos e me concentro, consigo ver-vos aos quatro a jantar, mas é de uma forma muito Wes Andersoniana e a imagem não é muito clara. Pode mais ou menos ser comparado a um ecrã de cinema muito muito muito muito longe de mim. Basicamente, a escola está a ajudar-me a desenvolver ferramentas para finalmente conseguir ver o que a minha imaginação esquisita e muito ativa sempre criou. Ou então ando a ter alucinações induzidas pela atmosfera provavelmente infestada com drogas à porta da escola.
Cartas de Díli #4
14.6.17
Querida Bea,
Agora que as férias da escola já começaram, tenho tido poucas notícias tuas. Espero que seja por andares entretida com coisas boas.
Na semana passada sempre fui fazer o tal trabalho de campo com a Timor Aid e lembrei-me muitas vezes daquela conversa que tivemos no Museu do Budismo Mundial, em Kandy, lembras-te?
Perguntaste-me se a minha vida era muito diferente da que tinha sonhado/imaginado para mim. Lembrei-me disso, porque andar no terreno a pesquisar sobre tais, a descobrir coisas fascinantes sobre estes tecidos e a conhecer novos sítios foi das coisas mais entusiasmantes que fiz nos últimos meses (e o entusiasmo é tudo. Já te disse isto muitas vezes).
Nessa conversa em que te contava o que tinha imaginado para mim e em que te revelava, pensava eu, como acabei numa vida bastante diferente, mostraste-me que eu tinha conseguido fazer exactamente aquilo que tinha sonhado. Tinha filhos, tinha trabalhado como jornalista e estava a viajar por muitos sítios do mundo.
Pois, de facto. Só que não é bem assim (ou é?). Acabei por ser uma mãe bastante depressiva, uma jornalista frustrada e as viagens são pagas com o salário do Jaime. Mas, sim, estou a viver a vida que escolhi e tem sido bem interessante.
Ainda agora interrompi a carta para observar um pássaro na árvore em frente à janela e fiquei uns bons minutos a vê-lo coçar-se com o bico, naqueles movimentos rápidos que as galinhas também têm.
[Um aparte. Tenho pensado muito em galinhas. Nas conversas que ouvi ao longo da pesquisa, e que não conseguia acompanhar por causa da língua, ficava muitas vezes a olhar para as galinhas. São animas fascinantes. Também nunca mais me esqueci daquele sonho que tiveste em criança, sobre as pessoas que queriam falar com as galinhas, quando elas não falavam inglês. Só uma achava que sabia, mas não era verdade e os maus vieram matá-la. Isto foi em Agosto de 2006, tinhas cinco anos (as vantagens de ter um blog nunca devem ser questionadas).]
A seguir pensei ir lá fora ver se descobria que árvore é esta, em frente à janela, mas fiquei com medo de me cruzar com a Domingas a pentear o cabelo. Não é medo, claro, é desconforto. Acho sempre que devo dizer alguma coisa quando ela está a pentear-se, ou sentada num banco à sombra, mas nunca sei o quê.
A Virgina Woolf fala desse "medo" em relação às empregadas nos "Diários". Ainda fui à procura de posts antigos no blog, para ver se encontrava alguma referência, mas não encontrei nada. Ainda assim li vários dos quais já não me lembrava, como um a propósito do "Mrs Dalloway". Parece que há um momento do livro em que me lembrei da personagem de um conto, o "Amor", de Clarice Lispector. E acabo o post com a seguinte frase: "Acho extraordinário que ser dona de casa no Brasil (Rio de Janeiro?), nos anos 50/60; em Londres, nos anos 20 e em Lisboa no início do século XXI seja quase a mesma coisa.".
Eu, às vezes, chego a conclusões brilhantes, tens de admitir (estou a rir às gargalhadas).
Enfim, fazer este tipo de coisas, ir à janela olhar para um pássaro e voltar ao computador, é muito habitual no meu dia-a-dia. E é uma coisa que sempre me imaginei a fazer também. Mas a nossa imaginação, no fundo, é bastante limitada, porque não visualiza a solidão, a angústia e as dúvidas. Ou, talvez seja só a minha imaginação.
Bem, pelo menos tu não tens esse problema visto sofreres de 'aphantasia'. Por falar nisso, como é estar num curso de artes com esta limitação, se é que é uma limitação?
Agora que as férias da escola já começaram, tenho tido poucas notícias tuas. Espero que seja por andares entretida com coisas boas.
Na semana passada sempre fui fazer o tal trabalho de campo com a Timor Aid e lembrei-me muitas vezes daquela conversa que tivemos no Museu do Budismo Mundial, em Kandy, lembras-te?
Perguntaste-me se a minha vida era muito diferente da que tinha sonhado/imaginado para mim. Lembrei-me disso, porque andar no terreno a pesquisar sobre tais, a descobrir coisas fascinantes sobre estes tecidos e a conhecer novos sítios foi das coisas mais entusiasmantes que fiz nos últimos meses (e o entusiasmo é tudo. Já te disse isto muitas vezes).
Nessa conversa em que te contava o que tinha imaginado para mim e em que te revelava, pensava eu, como acabei numa vida bastante diferente, mostraste-me que eu tinha conseguido fazer exactamente aquilo que tinha sonhado. Tinha filhos, tinha trabalhado como jornalista e estava a viajar por muitos sítios do mundo.
Pois, de facto. Só que não é bem assim (ou é?). Acabei por ser uma mãe bastante depressiva, uma jornalista frustrada e as viagens são pagas com o salário do Jaime. Mas, sim, estou a viver a vida que escolhi e tem sido bem interessante.
Ainda agora interrompi a carta para observar um pássaro na árvore em frente à janela e fiquei uns bons minutos a vê-lo coçar-se com o bico, naqueles movimentos rápidos que as galinhas também têm.
[Um aparte. Tenho pensado muito em galinhas. Nas conversas que ouvi ao longo da pesquisa, e que não conseguia acompanhar por causa da língua, ficava muitas vezes a olhar para as galinhas. São animas fascinantes. Também nunca mais me esqueci daquele sonho que tiveste em criança, sobre as pessoas que queriam falar com as galinhas, quando elas não falavam inglês. Só uma achava que sabia, mas não era verdade e os maus vieram matá-la. Isto foi em Agosto de 2006, tinhas cinco anos (as vantagens de ter um blog nunca devem ser questionadas).]
A seguir pensei ir lá fora ver se descobria que árvore é esta, em frente à janela, mas fiquei com medo de me cruzar com a Domingas a pentear o cabelo. Não é medo, claro, é desconforto. Acho sempre que devo dizer alguma coisa quando ela está a pentear-se, ou sentada num banco à sombra, mas nunca sei o quê.
A Virgina Woolf fala desse "medo" em relação às empregadas nos "Diários". Ainda fui à procura de posts antigos no blog, para ver se encontrava alguma referência, mas não encontrei nada. Ainda assim li vários dos quais já não me lembrava, como um a propósito do "Mrs Dalloway". Parece que há um momento do livro em que me lembrei da personagem de um conto, o "Amor", de Clarice Lispector. E acabo o post com a seguinte frase: "Acho extraordinário que ser dona de casa no Brasil (Rio de Janeiro?), nos anos 50/60; em Londres, nos anos 20 e em Lisboa no início do século XXI seja quase a mesma coisa.".
Eu, às vezes, chego a conclusões brilhantes, tens de admitir (estou a rir às gargalhadas).
Enfim, fazer este tipo de coisas, ir à janela olhar para um pássaro e voltar ao computador, é muito habitual no meu dia-a-dia. E é uma coisa que sempre me imaginei a fazer também. Mas a nossa imaginação, no fundo, é bastante limitada, porque não visualiza a solidão, a angústia e as dúvidas. Ou, talvez seja só a minha imaginação.
Bem, pelo menos tu não tens esse problema visto sofreres de 'aphantasia'. Por falar nisso, como é estar num curso de artes com esta limitação, se é que é uma limitação?
Cartas de Díli #3
30.5.17
Querida Bea,
Nem imaginas como foi bom receber a tua resposta. Quer dizer, já falamos sobre isso, claro, mas parece-me importante deixar registado. Além da alegria que vem sempre com a chegada de uma carta, foi uma surpresa ver-te falar do que sentes (sim, conseguia ver-te enquanto te lia), de uma forma quase espontânea, quando sei o que te custa olhar para dentro, ou melhor, expressar esse olhar.
Menos surpreendente é ver a pessoa em que te estás a tornar e os sentimentos que essa pessoalização provocam em mim. O espanto, a alegria imensa, o medo e o amor, como quando te vi pela primeira vez. Sim, acho que estamos sempre a reamar os nossos filhos, sem deixar de os amar como da primeira vez.
À medida que ia lendo, sem conter as lagriminhas do costume, parecia que estava a ouvir o "Father and Son" do Cat Stevens (que curiosamente faz parte da banda sonora do filme que te falei na última carta). Eu a pensar: "But take you time, think a lot/Why, think of everything you've got/For you will still here tomorrow, but your dreams may not" e tu a responder: "Now there's a way and I know that I have to go away/ I know I have to go".
Escusas de casar e assentar, evidentemente (é uma música datada, apesar dos sentimentos intemporais), mas tenho de concordar que não deves ter pressa. Só que não há uma maneira certa de perceber isto quando estamos na idade de todas as urgências.
Continua a ler, lê sempre, compõe, faz coisas que te dêem prazer e que façam sentido para ti, apaixona-te, procura os bocados de Natureza na cidade (As árvores são grandes aliadas, tanto na tristeza, como na alegria) (Lembras-te dos nossos piqueniques na Estrela?), e já agora come muitos legumes e faz exercício.
Por aqui não há nada de muito novo a acontecer, mas talvez a minha visão esteja tolhida por uma tristeza ensombrada que sempre procuro combater com excessos vários e, a maior parte das vezes, desnecessários.
Ocorreu um pequeno drama, na verdade. Lembras-te daquele gato que não salvámos tentando salvar? Pois aconteceu uma coisa semelhante. O Isaac viu um lindo gatinho bebé na rua, que é onde vivem todos os animais domésticos deste país, como sabes, e quis trazê-lo para casa. Eu hesitei, sobretudo por não saber como pôr um cão a aceitar um gato na mesma casa, mas acabei por ceder convencida que ia saber resolver o problema. Pois que me enganei redondamente (que é uma coisa que raríssimas vezes acontece, como toda a gente sabe) e tive de devolver o gato à sua "casa", prometendo ao Isaac transformado em menino da lágrima que levaríamos comida todos os dias ao animal.
Acontece que o gato deve ter gostado muito de nós e entrou por baixo do portão. O resto consegues adivinhar, certo? Isto só por si já é horrível, mas nesse momento o teu irmão começou a gritar como alguém que acabou de descobrir a pior tragédia da sua vida, um filho morto num acidente, um marido levado pelo mar, aquele choro lancinante como a dor que estão a sentir. Eu nunca tinha ouvido ninguém chorar assim, e chorei também por causa do choro dele. E por causa da minha irresponsabilidade e por continuar à procura de uma moral nas leis da Natureza.
Fiquei sem conseguir encarar o Douro durante alguns dias. Ele percebeu, mas dizia-me que era um cão, que eu não podia esperar que fosse outra coisa diferente, e voltei a fazer-lhe festas.
Entretanto, as férias estão quase aí e a tua vinda a Timor quase consegue tirar-me do tolhimento. Vai ser giro voltarmos a Jaco, ao black rock (We will allways have Liquiça), a Balibó, a Same e quem sabe a Laclubar. Acho que em Agosto não apanhamos com a "chuva" de efeméridas. Sabes que depois disso fiquei a saber que esses insectos saem da terra e só voam por uns minutos, ou seja, quando eles começaram a cair no chão não foi por causa da luta heróica do Jaime, de insecticida na mão, foi mesmo porque a certa altura morrem, ou perdem as asas, não sei ao certo. Enfim, se soubéssemos disso talvez não tivéssemos vivido aquele momento Hitchcock.
Não sei como lhes chamam aqui em Timor. Vi no livro do Agualusa que em Angola são conhecidos por Salalés e que a ele, ao narrador d' O Vendedor de Passados, sempre lhe pareceram "seres sem maldade".
Nem imaginas como foi bom receber a tua resposta. Quer dizer, já falamos sobre isso, claro, mas parece-me importante deixar registado. Além da alegria que vem sempre com a chegada de uma carta, foi uma surpresa ver-te falar do que sentes (sim, conseguia ver-te enquanto te lia), de uma forma quase espontânea, quando sei o que te custa olhar para dentro, ou melhor, expressar esse olhar.
Menos surpreendente é ver a pessoa em que te estás a tornar e os sentimentos que essa pessoalização provocam em mim. O espanto, a alegria imensa, o medo e o amor, como quando te vi pela primeira vez. Sim, acho que estamos sempre a reamar os nossos filhos, sem deixar de os amar como da primeira vez.
À medida que ia lendo, sem conter as lagriminhas do costume, parecia que estava a ouvir o "Father and Son" do Cat Stevens (que curiosamente faz parte da banda sonora do filme que te falei na última carta). Eu a pensar: "But take you time, think a lot/Why, think of everything you've got/For you will still here tomorrow, but your dreams may not" e tu a responder: "Now there's a way and I know that I have to go away/ I know I have to go".
Escusas de casar e assentar, evidentemente (é uma música datada, apesar dos sentimentos intemporais), mas tenho de concordar que não deves ter pressa. Só que não há uma maneira certa de perceber isto quando estamos na idade de todas as urgências.
Continua a ler, lê sempre, compõe, faz coisas que te dêem prazer e que façam sentido para ti, apaixona-te, procura os bocados de Natureza na cidade (As árvores são grandes aliadas, tanto na tristeza, como na alegria) (Lembras-te dos nossos piqueniques na Estrela?), e já agora come muitos legumes e faz exercício.
Por aqui não há nada de muito novo a acontecer, mas talvez a minha visão esteja tolhida por uma tristeza ensombrada que sempre procuro combater com excessos vários e, a maior parte das vezes, desnecessários.
Ocorreu um pequeno drama, na verdade. Lembras-te daquele gato que não salvámos tentando salvar? Pois aconteceu uma coisa semelhante. O Isaac viu um lindo gatinho bebé na rua, que é onde vivem todos os animais domésticos deste país, como sabes, e quis trazê-lo para casa. Eu hesitei, sobretudo por não saber como pôr um cão a aceitar um gato na mesma casa, mas acabei por ceder convencida que ia saber resolver o problema. Pois que me enganei redondamente (que é uma coisa que raríssimas vezes acontece, como toda a gente sabe) e tive de devolver o gato à sua "casa", prometendo ao Isaac transformado em menino da lágrima que levaríamos comida todos os dias ao animal.
Acontece que o gato deve ter gostado muito de nós e entrou por baixo do portão. O resto consegues adivinhar, certo? Isto só por si já é horrível, mas nesse momento o teu irmão começou a gritar como alguém que acabou de descobrir a pior tragédia da sua vida, um filho morto num acidente, um marido levado pelo mar, aquele choro lancinante como a dor que estão a sentir. Eu nunca tinha ouvido ninguém chorar assim, e chorei também por causa do choro dele. E por causa da minha irresponsabilidade e por continuar à procura de uma moral nas leis da Natureza.
Fiquei sem conseguir encarar o Douro durante alguns dias. Ele percebeu, mas dizia-me que era um cão, que eu não podia esperar que fosse outra coisa diferente, e voltei a fazer-lhe festas.
Entretanto, as férias estão quase aí e a tua vinda a Timor quase consegue tirar-me do tolhimento. Vai ser giro voltarmos a Jaco, ao black rock (We will allways have Liquiça), a Balibó, a Same e quem sabe a Laclubar. Acho que em Agosto não apanhamos com a "chuva" de efeméridas. Sabes que depois disso fiquei a saber que esses insectos saem da terra e só voam por uns minutos, ou seja, quando eles começaram a cair no chão não foi por causa da luta heróica do Jaime, de insecticida na mão, foi mesmo porque a certa altura morrem, ou perdem as asas, não sei ao certo. Enfim, se soubéssemos disso talvez não tivéssemos vivido aquele momento Hitchcock.
Não sei como lhes chamam aqui em Timor. Vi no livro do Agualusa que em Angola são conhecidos por Salalés e que a ele, ao narrador d' O Vendedor de Passados, sempre lhe pareceram "seres sem maldade".
Cartas de Lisboa #1
17.5.17
Mamã linda,
Como sempre, a minha vida é um filme (se isso se deve a acontecimentos ou simplesmente à minha tendência para dramatizar [primeira e última vez que me vais ver a admitir isto] é algo debatível, mas eu diria que é uma mistura pouco saudável dos dois). Há coisas muito boas, como ter finalmente encontrado OS meus amigos que ouvem os meus dramas e se riem quando é altura de rir, choram comigo quando é altura disso e têm de ser impedidos de dar murros às pessoas que me chateiam ou finalmente sentir que me enquadro mesmo no ambiente da minha escola. Há coisas pequenas também muito boas, daquelas coisas discretas que sem atenção nem se notam, como andar a descobrir tanta mais música incrível (ouve Liniker - Zero, de nada) do que o costume ou já não querer saber do que vejo ao espelho antes de sair de casa porque a maior parte dos complexos já se foram, ou até ter ganho completamente o hábito de desenhar ao ponto de ter encontrado aí mais um porto seguro (tipo como antes só tinha a música e até certo ponto a leitura). Entretanto voltei a ler, acabei ontem o The Great Gatsby (pela terceira vez), estou a meio do Guerra e Paz e estou também a reler o Persuasão (ainda me estou a habituar aos 20mil nomes diferentes do primeiro, e acho que desta vez estou a gostar ainda mais do segundo). Também comecei a ler poesia, descobri que existe mais poesia além da que aprendemos em português e da que o meu pai faz questão de recitar nas piores alturas para as pessoas mais desinteressadas por poesia de sempre e comecei mesmo a gostar muito. Até, quem diria, voltei a escrever e estou a tentar aprender uma peça de piano (das a sério e não as minhas “musiquinhas”, que já agora estão cada vez mais parecidas com música a sério). Talvez já seja óbvio a este ponto, mas arte tem sido o meu refúgio e sinceramente sem estas coisas não sobreviveria.
As saudades funcionam mais ou menos em ondas. Estão sempre lá, mas afetam-me de formas diferentes dependendo de sei lá eu o quê. Por exemplo, como vou a pé para casa todos os dias passo pela escolinha dos meninos. Às vezes isso deixa-me um sorriso na cara, uma certa nostalgia, como hoje. Outras vezes só não desato a chorar porque estou em público (e mesmo assim). Tal como as coisas boas, a falta que sinto de todos vocês tem coisas grandes e coisas pequenas. Ou seja, há o óbvio que já toda a gente sabia que se ia sentir, tipo nunca estar convosco e não termos os nossos fins de semana. Mas ninguém me avisou que eu ia ficar vulnerável quando as minhas sobrancelhas começassem a ficar nojentas porque quero que seja a minha mamã a arranja-las, nem que eu ia ouvir música fixe e pensar imediatamente “será que o jaime aprovaria?” (ou essa questão ser o que me ajuda a escolher roupa de manhã quando acordo com tempo suficiente para pensar em seja o que for), nem que eu ia estar a fazer trabalhos e sentir falta dessas lindas pestes a interromperem-me (imagine-se) porque já que vou acabar por me distrair de vez em quando ao menos que seja por dois rapazes tão lindos como os nossos.
No outro dia estava a pensar como é que eu seria quando fosse velha e depois apercebi-me de que ia ser velha e ia morrer e comecei a ter uma crise existencial e fiquei meia hora sentada no chão da casa de banho a pensar no Isaac e como eu o compreendo (isso ainda não me passou muito, por isso não vou falar mais de envelhecimentos nem nada do género).
Estou prestes a escolher a área que vou estudar nos próximos dois anos e daqui a 3 semanas as aulas acabam, mas não estou particularmente nervosa com nenhum dos dois (ahahahahahahaahahahahahahahaahahahahahahahahahahahah). Ok, pronto, não estou super segura da minha decisão (logo eu sempre tão pouco indecisa não percebo), mas acredito que é a decisão certa e se não for olha depois trata-se disso (uma crise existencial de cada vez, por favor).
Acho que já mencionei isto algumas vezes, mas preciso mesmo de sair de casa. Não consigo viver num ambiente tão tenso, muito menos sabendo que há uma solução que me trará tanta mais felicidade. Eu sinto, literalmente, o mundo à minha volta a chamar por mim. As exposições às 19 que são muito tarde para dias de escola, os concertos aos fins de semana para os quais não tenho idade (porque se no cartaz diz +13 só pode significar +20), os amigos que me ligam numa sexta à meia noite a precisar de companhia porque estão à beira de um ataque de pânico que eu não posso ajudar porque nunca na vida poderia sair a uma hora tão escandalosa. Entre tantas e tantas outras coisas. Sabes aqueles meus feelings de bruxa? Aqueles assustadores porque como raio é que eu adivinhei? Eu tenho esse feeling em relação a isto. Eu tenho a certeza que vou ser muito mas muito mais feliz. Tens noção do que é sentires-te tão pouco em casa que preferes estar na escola (com ou sem aulas, não interessa) do que no sítio onde vives?Tens.
Enfim, eu tenho um trabalho de desenho para acabar e também não posso gastar todos os assuntos numa carta, não é?
Beijinhos (para todos),
Bea
Como sempre, a minha vida é um filme (se isso se deve a acontecimentos ou simplesmente à minha tendência para dramatizar [primeira e última vez que me vais ver a admitir isto] é algo debatível, mas eu diria que é uma mistura pouco saudável dos dois). Há coisas muito boas, como ter finalmente encontrado OS meus amigos que ouvem os meus dramas e se riem quando é altura de rir, choram comigo quando é altura disso e têm de ser impedidos de dar murros às pessoas que me chateiam ou finalmente sentir que me enquadro mesmo no ambiente da minha escola. Há coisas pequenas também muito boas, daquelas coisas discretas que sem atenção nem se notam, como andar a descobrir tanta mais música incrível (ouve Liniker - Zero, de nada) do que o costume ou já não querer saber do que vejo ao espelho antes de sair de casa porque a maior parte dos complexos já se foram, ou até ter ganho completamente o hábito de desenhar ao ponto de ter encontrado aí mais um porto seguro (tipo como antes só tinha a música e até certo ponto a leitura). Entretanto voltei a ler, acabei ontem o The Great Gatsby (pela terceira vez), estou a meio do Guerra e Paz e estou também a reler o Persuasão (ainda me estou a habituar aos 20mil nomes diferentes do primeiro, e acho que desta vez estou a gostar ainda mais do segundo). Também comecei a ler poesia, descobri que existe mais poesia além da que aprendemos em português e da que o meu pai faz questão de recitar nas piores alturas para as pessoas mais desinteressadas por poesia de sempre e comecei mesmo a gostar muito. Até, quem diria, voltei a escrever e estou a tentar aprender uma peça de piano (das a sério e não as minhas “musiquinhas”, que já agora estão cada vez mais parecidas com música a sério). Talvez já seja óbvio a este ponto, mas arte tem sido o meu refúgio e sinceramente sem estas coisas não sobreviveria.
As saudades funcionam mais ou menos em ondas. Estão sempre lá, mas afetam-me de formas diferentes dependendo de sei lá eu o quê. Por exemplo, como vou a pé para casa todos os dias passo pela escolinha dos meninos. Às vezes isso deixa-me um sorriso na cara, uma certa nostalgia, como hoje. Outras vezes só não desato a chorar porque estou em público (e mesmo assim). Tal como as coisas boas, a falta que sinto de todos vocês tem coisas grandes e coisas pequenas. Ou seja, há o óbvio que já toda a gente sabia que se ia sentir, tipo nunca estar convosco e não termos os nossos fins de semana. Mas ninguém me avisou que eu ia ficar vulnerável quando as minhas sobrancelhas começassem a ficar nojentas porque quero que seja a minha mamã a arranja-las, nem que eu ia ouvir música fixe e pensar imediatamente “será que o jaime aprovaria?” (ou essa questão ser o que me ajuda a escolher roupa de manhã quando acordo com tempo suficiente para pensar em seja o que for), nem que eu ia estar a fazer trabalhos e sentir falta dessas lindas pestes a interromperem-me (imagine-se) porque já que vou acabar por me distrair de vez em quando ao menos que seja por dois rapazes tão lindos como os nossos.
No outro dia estava a pensar como é que eu seria quando fosse velha e depois apercebi-me de que ia ser velha e ia morrer e comecei a ter uma crise existencial e fiquei meia hora sentada no chão da casa de banho a pensar no Isaac e como eu o compreendo (isso ainda não me passou muito, por isso não vou falar mais de envelhecimentos nem nada do género).
Estou prestes a escolher a área que vou estudar nos próximos dois anos e daqui a 3 semanas as aulas acabam, mas não estou particularmente nervosa com nenhum dos dois (ahahahahahahaahahahahahahahaahahahahahahahahahahahah). Ok, pronto, não estou super segura da minha decisão (logo eu sempre tão pouco indecisa não percebo), mas acredito que é a decisão certa e se não for olha depois trata-se disso (uma crise existencial de cada vez, por favor).
Acho que já mencionei isto algumas vezes, mas preciso mesmo de sair de casa. Não consigo viver num ambiente tão tenso, muito menos sabendo que há uma solução que me trará tanta mais felicidade. Eu sinto, literalmente, o mundo à minha volta a chamar por mim. As exposições às 19 que são muito tarde para dias de escola, os concertos aos fins de semana para os quais não tenho idade (porque se no cartaz diz +13 só pode significar +20), os amigos que me ligam numa sexta à meia noite a precisar de companhia porque estão à beira de um ataque de pânico que eu não posso ajudar porque nunca na vida poderia sair a uma hora tão escandalosa. Entre tantas e tantas outras coisas. Sabes aqueles meus feelings de bruxa? Aqueles assustadores porque como raio é que eu adivinhei? Eu tenho esse feeling em relação a isto. Eu tenho a certeza que vou ser muito mas muito mais feliz. Tens noção do que é sentires-te tão pouco em casa que preferes estar na escola (com ou sem aulas, não interessa) do que no sítio onde vives?Tens.
Enfim, eu tenho um trabalho de desenho para acabar e também não posso gastar todos os assuntos numa carta, não é?
Beijinhos (para todos),
Bea
Cartas de Díli #2
8.5.17
Querida Bea,
Já estamos instalados na nossa casa nova. Fica perto do mar e tem um jardim muito bonito. Eu sei que o Jaime já te mostrou a casa no skype, por isso poupo-te os detalhes, menos o dos macacos. Sim, temos macacos, vi-os ontem em cima do telhado e apesar de não apreciar por aí além a espécie, não consegui deixar de ficar enternecida e quase maravilhada a olhar para os dois animaizinhos que se coçavam e nos miravam com igual interesse.
Depois, fiquei a saber que os macacos mudaram-se para esta zona da cidade quando foram expulsos do jardim de Lecidere . Compreendo-os muito bem, é definitivamente a melhor localização para se viver em Díli.
A casa tem um quarto de hóspedes com casa de banho e, muitas vezes, imagino que é o teu quarto. Eu sei que não gostas do calor e da lentidão dos dias em Timor mas, acho, haverias de gostar desta casa. Tem uma luz boa e um silêncio justo. Aos domingos de manhã ouvimos a missa da igreja de Motael e o Nicolau a andar de patins na sala.
Escusado será dizer que ainda não comecei o meu plano de acordar cedo para caminhar junto ao mar, mas eu e os meus planos falhados são um clássico nesta família.
Além da mudança de casa não aconteceu nada de muito relevante nas últimas semanas. Houve o momento da caixa de legumes da FarmPro (uma ONG que trabalha com agricultores de Ermera e faz entregas a quem subscrever o serviço) que me encheu de entusiasmo, não só por gostar do projecto mas porque é impossível não ficar radiante perante a variedade de verduras: brócolos, couve-flor, espargos, quiabos, rúcula, courgette, beringelas, etc.
Também tivemos uma manhã fabulosa na praia do Cristo Rei. Estava maré alta e o mar tinha ondas, muitas ondas. Dá para acreditar? E imagina que chegámos a ter um bocadinho de frio quando saímos da água e tudo. Uma maravilha!
Portanto, uma caixa de legumes e uma manhã de praia foram as coisas que me fizeram feliz por estes dias. Vamos considerar que isso é uma coisa boa, ok? Até porque a caixa de legumes também tinha ovos e morangos e, além disso, eu sou de gostar de coisas simples, como lambuzar-me de papaia e anona acabadas de colher, ver o pôr do sol na areia branca (agora que falo nisso já não vejo um há muito tempo) e estender-me a ler um livro.
Ah, li o da Isabela Figueiredo, "A Gorda" e lembrei-me de quando a Carla nos perguntou, a mim e à Helena, se sabíamos de alguma casa para emprestar à Isabela para ela conseguir terminar o livro. Foi quando estivemos a três juntas no Porto e o Jaime teve a ideia de usar uma banheira como carrinho de rolamento, na Grande Descida de Carros Artesanais, lembras-te?
Só mais uma coisa, vai ver o Guardiões da Galáxia 2. Acho que é impossível não gostar, mesmo sem legendas em chinês e bahasa. A banda sonora é soberba.
Já estamos instalados na nossa casa nova. Fica perto do mar e tem um jardim muito bonito. Eu sei que o Jaime já te mostrou a casa no skype, por isso poupo-te os detalhes, menos o dos macacos. Sim, temos macacos, vi-os ontem em cima do telhado e apesar de não apreciar por aí além a espécie, não consegui deixar de ficar enternecida e quase maravilhada a olhar para os dois animaizinhos que se coçavam e nos miravam com igual interesse.
Depois, fiquei a saber que os macacos mudaram-se para esta zona da cidade quando foram expulsos do jardim de Lecidere . Compreendo-os muito bem, é definitivamente a melhor localização para se viver em Díli.
A casa tem um quarto de hóspedes com casa de banho e, muitas vezes, imagino que é o teu quarto. Eu sei que não gostas do calor e da lentidão dos dias em Timor mas, acho, haverias de gostar desta casa. Tem uma luz boa e um silêncio justo. Aos domingos de manhã ouvimos a missa da igreja de Motael e o Nicolau a andar de patins na sala.
Escusado será dizer que ainda não comecei o meu plano de acordar cedo para caminhar junto ao mar, mas eu e os meus planos falhados são um clássico nesta família.
Além da mudança de casa não aconteceu nada de muito relevante nas últimas semanas. Houve o momento da caixa de legumes da FarmPro (uma ONG que trabalha com agricultores de Ermera e faz entregas a quem subscrever o serviço) que me encheu de entusiasmo, não só por gostar do projecto mas porque é impossível não ficar radiante perante a variedade de verduras: brócolos, couve-flor, espargos, quiabos, rúcula, courgette, beringelas, etc.
Também tivemos uma manhã fabulosa na praia do Cristo Rei. Estava maré alta e o mar tinha ondas, muitas ondas. Dá para acreditar? E imagina que chegámos a ter um bocadinho de frio quando saímos da água e tudo. Uma maravilha!
Portanto, uma caixa de legumes e uma manhã de praia foram as coisas que me fizeram feliz por estes dias. Vamos considerar que isso é uma coisa boa, ok? Até porque a caixa de legumes também tinha ovos e morangos e, além disso, eu sou de gostar de coisas simples, como lambuzar-me de papaia e anona acabadas de colher, ver o pôr do sol na areia branca (agora que falo nisso já não vejo um há muito tempo) e estender-me a ler um livro.
Ah, li o da Isabela Figueiredo, "A Gorda" e lembrei-me de quando a Carla nos perguntou, a mim e à Helena, se sabíamos de alguma casa para emprestar à Isabela para ela conseguir terminar o livro. Foi quando estivemos a três juntas no Porto e o Jaime teve a ideia de usar uma banheira como carrinho de rolamento, na Grande Descida de Carros Artesanais, lembras-te?
Só mais uma coisa, vai ver o Guardiões da Galáxia 2. Acho que é impossível não gostar, mesmo sem legendas em chinês e bahasa. A banda sonora é soberba.
Cartas de Díli #1
24.4.17
Querida Bea,
Quando nos separámos pela primeira vez, e eu ainda não sabia que as separações seguintes seriam igualmente dolorosas, decidi que devia escrever-te cartas com uma certa regularidade. Cheguei até a pensar que o ideal, mesmo, era fazer dessas cartas uma crónica mensal num jornal, porque assim não só me obrigaria a escrever, como conseguiria ser uma cronista a sério. Só que, depois de sondar uma ou outra pessoa sobre essa possibilidade, acabei por desistir da ideia.
Acontece que desta última vez que estivemos juntas voltei a sentir essa vontade, muito por causa da prenda de aniversário que a Inês me deu, sabes? Não me lembro se te cheguei a mostrar (já estás habituada a estes meus lapsos de memória). Então, ela trouxe-me do Brasil um conjunto de cartas escritas por 12 mulheres em diferentes partes do mundo. Chama-se "Queria Ter Ficado Mais Tempo" e é da editora Lote 42. Ainda só li quatro, as de Buenos Aires, Tóquio, Berlim e Istambul, gostei mais desta última. Não sei como serão as outras cartas mas por enquanto a ideia parece-me melhor do que o conteúdo.
E já que comecei a falar em livros, deixa-me dizer-te que tens toda a razão em relação ao "Burma Chronicles", realmente eu e o Guy Delisle temos muitas coisas em comum neste livro, se calhar foi por isso mesmo que a Luísa o quis oferecer-me. Aquela cena de ele ter grandes ideias sobre lançar uma revolução prostrando-se todos os dias em frente à casa da Aung San Suu Kyi, ou dar arroz todas as manhãs aos monges, e no dia seguinte continuar a fazer as mesmas coisas de sempre; os encontros de pais para as crianças brincarem e a dele ser a única que não tem ama; toda a gente a achar que ele desenha cartoons como hobby; aquilo de estar sempre a pensar como é que as pessoas vão levar todas as tralhas quando regressarem; a noção do quanto se está desconectado da realidade quando a maior preocupação é não se encontrar água tónica da Schweppes em lado nenhum (definitivamente deve ser a preocupação mais comum a todos os expatriados por esse mundo não ocidental fora); a ida a Bangkok com a lista de compras; o deixar de lavar a loiça aos fins-de-semana porque tem empregada (por falar nisso, a Domingas já voltou e deve estar a odiar esta segunda-feira) e por aí fora.
O livro é mesmo espectacular e mostra bem o universo dos expatriados em geral e dos que trabalham em ONG em particular.
Enfim, acho que seria mais fácil aproveitar esta experiência se, tal como ele, tivesse uma profissão e não um hobby, mas a verdade é que quem mais desconsidera o meu trabalho sou eu. Nem mesmo o que faço na Timor Aid consigo valorizar. Eu contei-te que estava a colaborar com esta ONG local no catálogo de Tais de Baucau, não contei? É bastante interessante o trabalho que eles fazem, mas eu só tenho de editar os textos em português. O tema não podia ser melhor- tecidos tradicionais, teares e técnicas de tecelagem e tinturaria. Talvez um dia possa ir com eles num trabalho de campo e escrever sobre isso.
Entretanto, temos a festa de aniversário do Nicolau (como odeio fazer festas de miúdos) e amanhã, se conseguirmos, vamos festejar o 25 de Abril em casa de uns amigos. Depois, fazes tu 16 anos e pela primeira vez na nossa vida não vamos estar juntas no dia do teu aniversário. Já decidi que vou fazer um bolo na mesma e vamos cantar-te os parabéns aqui. Isto se não piorar desta alergia que me atacou assim que cheguei a Díli. A culpa é do ar condicionado mas o jet lag não ajuda nada. Aliás, estamos todos mais para lá do que para cá (esta expressão é bastante intrigante, apercebo-me agora), mas também não me admira com a viagem que fizemos: Porto-Lisboa-Istambul-Hongkong-Bali-Díli.
Apesar de me custar sair de Portugal apercebo-me que aos poucos vamo-nos instalando, isto é, fazendo de Timor uma segunda casa. Vamos fazer mais uma mudança e tudo. Já estamos aqui há pouco mais de um ano e meio, quer dizer, estava na altura, tendo em conta o corrupio dos últimos anos. Depois, não usei a ida a Portugal para aqueles detalhes mundanos como cortar o cabelo e ir à depilação, deixei isso para fazer no regresso e toda a gente sabe que este é o tipo de coisas que nos faz sentir em casa. Acho eu.
Na verdade já não sei nada sobre o que significa estar em casa, sobretudo depois de ir ao Bolhão, logo a seguir à nossa despedida em Campanhã, e ver aquela banca da fruta, quem entra pela Sá da Bandeira, a vender mais lichias e fruta dragão do que maçãs e pêras.
Quando nos separámos pela primeira vez, e eu ainda não sabia que as separações seguintes seriam igualmente dolorosas, decidi que devia escrever-te cartas com uma certa regularidade. Cheguei até a pensar que o ideal, mesmo, era fazer dessas cartas uma crónica mensal num jornal, porque assim não só me obrigaria a escrever, como conseguiria ser uma cronista a sério. Só que, depois de sondar uma ou outra pessoa sobre essa possibilidade, acabei por desistir da ideia.
Acontece que desta última vez que estivemos juntas voltei a sentir essa vontade, muito por causa da prenda de aniversário que a Inês me deu, sabes? Não me lembro se te cheguei a mostrar (já estás habituada a estes meus lapsos de memória). Então, ela trouxe-me do Brasil um conjunto de cartas escritas por 12 mulheres em diferentes partes do mundo. Chama-se "Queria Ter Ficado Mais Tempo" e é da editora Lote 42. Ainda só li quatro, as de Buenos Aires, Tóquio, Berlim e Istambul, gostei mais desta última. Não sei como serão as outras cartas mas por enquanto a ideia parece-me melhor do que o conteúdo.
E já que comecei a falar em livros, deixa-me dizer-te que tens toda a razão em relação ao "Burma Chronicles", realmente eu e o Guy Delisle temos muitas coisas em comum neste livro, se calhar foi por isso mesmo que a Luísa o quis oferecer-me. Aquela cena de ele ter grandes ideias sobre lançar uma revolução prostrando-se todos os dias em frente à casa da Aung San Suu Kyi, ou dar arroz todas as manhãs aos monges, e no dia seguinte continuar a fazer as mesmas coisas de sempre; os encontros de pais para as crianças brincarem e a dele ser a única que não tem ama; toda a gente a achar que ele desenha cartoons como hobby; aquilo de estar sempre a pensar como é que as pessoas vão levar todas as tralhas quando regressarem; a noção do quanto se está desconectado da realidade quando a maior preocupação é não se encontrar água tónica da Schweppes em lado nenhum (definitivamente deve ser a preocupação mais comum a todos os expatriados por esse mundo não ocidental fora); a ida a Bangkok com a lista de compras; o deixar de lavar a loiça aos fins-de-semana porque tem empregada (por falar nisso, a Domingas já voltou e deve estar a odiar esta segunda-feira) e por aí fora.
O livro é mesmo espectacular e mostra bem o universo dos expatriados em geral e dos que trabalham em ONG em particular.
Enfim, acho que seria mais fácil aproveitar esta experiência se, tal como ele, tivesse uma profissão e não um hobby, mas a verdade é que quem mais desconsidera o meu trabalho sou eu. Nem mesmo o que faço na Timor Aid consigo valorizar. Eu contei-te que estava a colaborar com esta ONG local no catálogo de Tais de Baucau, não contei? É bastante interessante o trabalho que eles fazem, mas eu só tenho de editar os textos em português. O tema não podia ser melhor- tecidos tradicionais, teares e técnicas de tecelagem e tinturaria. Talvez um dia possa ir com eles num trabalho de campo e escrever sobre isso.
Entretanto, temos a festa de aniversário do Nicolau (como odeio fazer festas de miúdos) e amanhã, se conseguirmos, vamos festejar o 25 de Abril em casa de uns amigos. Depois, fazes tu 16 anos e pela primeira vez na nossa vida não vamos estar juntas no dia do teu aniversário. Já decidi que vou fazer um bolo na mesma e vamos cantar-te os parabéns aqui. Isto se não piorar desta alergia que me atacou assim que cheguei a Díli. A culpa é do ar condicionado mas o jet lag não ajuda nada. Aliás, estamos todos mais para lá do que para cá (esta expressão é bastante intrigante, apercebo-me agora), mas também não me admira com a viagem que fizemos: Porto-Lisboa-Istambul-Hongkong-Bali-Díli.
Apesar de me custar sair de Portugal apercebo-me que aos poucos vamo-nos instalando, isto é, fazendo de Timor uma segunda casa. Vamos fazer mais uma mudança e tudo. Já estamos aqui há pouco mais de um ano e meio, quer dizer, estava na altura, tendo em conta o corrupio dos últimos anos. Depois, não usei a ida a Portugal para aqueles detalhes mundanos como cortar o cabelo e ir à depilação, deixei isso para fazer no regresso e toda a gente sabe que este é o tipo de coisas que nos faz sentir em casa. Acho eu.
Na verdade já não sei nada sobre o que significa estar em casa, sobretudo depois de ir ao Bolhão, logo a seguir à nossa despedida em Campanhã, e ver aquela banca da fruta, quem entra pela Sá da Bandeira, a vender mais lichias e fruta dragão do que maçãs e pêras.
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