Os mundos

23.5.17

Há o mundo lá fora. Com os atentados terroristas. As peças de teatro. Crianças de babete. O chiar dos comboios. Migas de vinho. Velhos tristes. O frio das frinchas. Bodas de prata. Refugiados e outros desalojados. Auto-estradas. Com o futuro sempre no presente. O nevoeiro cerrado. Com os olhos nos olhos nos cafés. E o iodo que vem do mar.
Há o meu mundo. Com o som das vassouras que varrem os quintais. O pássaro que caiu do ninho. O gato que veio da rua e o cão matou. As crianças a cantarem na igreja de Motael. O medo. Sempre o medo (E se eles caem. E se eles se afogam. E se eles ficam doentes. E se eu fico doente. E tu, vais estar sempre aqui?). As papaias sumarentas. Os sorrisos forçados. Os sorrisos verdadeiros.  As crianças a aprenderem que "Ela é feita para apanhar/ Ela é boa de cuspir". E o lixo que vai para o mar.
E há o mundo das redes sociais.

Cartas de Lisboa #1

17.5.17
Mamã linda,
Como sempre, a minha vida é um filme (se isso se deve a acontecimentos ou simplesmente à minha tendência para dramatizar [primeira e última vez que me vais ver a admitir isto] é algo debatível, mas eu diria que é uma mistura pouco saudável dos dois). Há coisas muito boas, como ter finalmente encontrado OS meus amigos que ouvem os meus dramas e se riem quando é altura de rir, choram comigo quando é altura disso e têm de ser impedidos de dar murros às pessoas que me chateiam ou finalmente sentir que me enquadro mesmo no ambiente da minha escola. Há coisas pequenas também muito boas, daquelas coisas discretas que sem atenção nem se notam, como andar a descobrir tanta mais música incrível (ouve Liniker - Zero, de nada) do que o costume ou já não querer saber do que vejo ao espelho antes de sair de casa porque a maior parte dos complexos já se foram, ou até ter ganho completamente o hábito de desenhar ao ponto de ter encontrado aí mais um porto seguro (tipo como antes só tinha a música e até certo ponto a leitura). Entretanto voltei a ler, acabei ontem o The Great Gatsby (pela terceira vez), estou a meio do Guerra e Paz e estou também a reler o Persuasão (ainda me estou a habituar aos 20mil nomes diferentes do primeiro, e acho que desta vez estou a gostar ainda mais do segundo). Também comecei a ler poesia, descobri que existe mais poesia além da que aprendemos em português e da que o meu pai faz questão de recitar nas piores alturas para as pessoas mais desinteressadas por poesia de sempre e comecei mesmo a gostar muito. Até, quem diria, voltei a escrever e estou a tentar aprender uma peça de piano (das a sério e não as minhas “musiquinhas”, que já agora estão cada vez mais parecidas com música a sério). Talvez já seja óbvio a este ponto, mas arte tem sido o meu refúgio e sinceramente sem estas coisas não sobreviveria.
As saudades funcionam mais ou menos em ondas. Estão sempre lá, mas afetam-me de formas diferentes dependendo de sei lá eu o quê. Por exemplo, como vou a pé para casa todos os dias passo pela escolinha dos meninos. Às vezes isso deixa-me um sorriso na cara, uma certa nostalgia, como hoje. Outras vezes só não desato a chorar porque estou em público (e mesmo assim). Tal como as coisas boas, a falta que sinto de todos vocês tem coisas grandes e coisas pequenas. Ou seja, há o óbvio que já toda a gente sabia que se ia sentir, tipo nunca estar convosco e não termos os nossos fins de semana. Mas ninguém me avisou que eu ia ficar vulnerável quando as minhas sobrancelhas começassem a ficar nojentas porque quero que seja a minha mamã a arranja-las, nem que eu ia ouvir música fixe e pensar imediatamente “será que o jaime aprovaria?” (ou essa questão ser o que me ajuda a escolher roupa de manhã quando acordo com tempo suficiente para pensar em seja o que for), nem que eu ia estar a fazer trabalhos e sentir falta dessas lindas pestes a interromperem-me (imagine-se) porque já que vou acabar por me distrair de vez em quando ao menos que seja por dois rapazes tão lindos como os nossos.
No outro dia estava a pensar como é que eu seria quando fosse velha e depois apercebi-me de que ia ser velha e ia morrer e comecei a ter uma crise existencial e fiquei meia hora sentada no chão da casa de banho a pensar no Isaac e como eu o compreendo (isso ainda não me passou muito, por isso não vou falar mais de envelhecimentos nem nada do género).
Estou prestes a escolher a área que vou estudar nos próximos dois anos e daqui a 3 semanas as aulas acabam, mas não estou particularmente nervosa com nenhum dos dois (ahahahahahahaahahahahahahahaahahahahahahahahahahahah). Ok, pronto, não estou super segura da minha decisão (logo eu sempre tão pouco indecisa não percebo), mas acredito que é a decisão certa e se não for olha depois trata-se disso (uma crise existencial de cada vez, por favor).
Acho que já mencionei isto algumas vezes, mas preciso mesmo de sair de casa. Não consigo viver num ambiente tão tenso, muito menos sabendo que há uma solução que me trará tanta mais felicidade. Eu sinto, literalmente, o mundo à minha volta a chamar por mim. As exposições às 19 que são muito tarde para dias de escola, os concertos aos fins de semana para os quais não tenho idade (porque se no cartaz diz +13 só pode significar +20), os amigos que me ligam numa sexta à meia noite a precisar de companhia porque estão à beira de um ataque de pânico que eu não posso ajudar porque nunca na vida poderia sair a uma hora tão escandalosa. Entre tantas e tantas outras coisas. Sabes aqueles meus feelings de bruxa? Aqueles assustadores porque como raio é que eu adivinhei? Eu tenho esse feeling em relação a isto. Eu tenho a certeza que vou ser muito mas muito mais feliz. Tens noção do que é sentires-te tão pouco em casa que preferes estar na escola (com ou sem aulas, não interessa) do que no sítio onde vives?Tens.
Enfim, eu tenho um trabalho de desenho para acabar e também não posso gastar todos os assuntos numa carta, não é?
Beijinhos (para todos),
Bea

Memórias sensoriais

13.5.17
Com este clima nunca me tinha ocorrido tricotar, mas como pretendemos ir a Portugal no Natal resolvi trazer lãs e agulhas da última vez que lá estivemos.
Um dia destes estava na sala com o ar condicionado ligado (os desta casa funcionam mesmo bem) a montar e contar malhas e ouvi um camião a passar na rua. Nesse momento pensei que estava na casa da rua Maria, em Lisboa. O som lá fora, que me pareceu um eléctrico, a temperatura normal da sala e o tricot criaram esse momento, bastante confuso, devo dizer.
Mas não foi a primeira vez. Já antes, também nesta casa, estava deitada e um carro a apitar na rua fez-me acreditar que era a peixeira que costuma passar de manhã na minha aldeia.
Ficamos sempre com marcas dos sítios, parece. Estranho é as minhas memórias sensoriais não me levarem ao meu Porto.

Cartas de Díli #2

8.5.17
Querida Bea,

      Já estamos instalados na nossa casa nova. Fica perto do mar e tem um jardim muito bonito. Eu sei que o Jaime já te mostrou a casa no skype, por isso poupo-te os detalhes, menos o dos macacos. Sim, temos macacos, vi-os ontem em cima do telhado e apesar de não apreciar por aí além a espécie, não consegui deixar de ficar enternecida e quase maravilhada a olhar para os dois animaizinhos que se coçavam e nos miravam com igual interesse.
      Depois, fiquei a saber que os macacos mudaram-se para esta zona da cidade quando foram expulsos do jardim de Lecidere . Compreendo-os muito bem, é definitivamente a melhor localização para se viver em Díli.
      A casa tem um quarto de hóspedes com casa de banho e, muitas vezes, imagino que é o teu quarto. Eu sei que não gostas do calor e da lentidão dos dias em Timor mas, acho, haverias de gostar desta casa. Tem uma luz boa e um silêncio justo. Aos domingos de manhã ouvimos a missa da igreja de Motael e o Nicolau a andar de patins na sala.
      Escusado será dizer que ainda não comecei o meu plano de acordar cedo para caminhar junto ao mar, mas eu e os meus planos falhados são um clássico nesta família.
      Além da mudança de casa não aconteceu nada de muito relevante nas últimas semanas. Houve o momento da caixa de legumes da FarmPro (uma ONG que trabalha com agricultores de Ermera e faz entregas a quem subscrever o serviço) que me encheu de entusiasmo, não só por gostar do projecto mas porque é impossível não ficar radiante perante a variedade de verduras: brócolos, couve-flor, espargos, quiabos, rúcula, courgette, beringelas, etc.
      Também tivemos uma manhã fabulosa na praia do Cristo Rei. Estava maré alta e o mar tinha ondas, muitas ondas. Dá para acreditar? E imagina que chegámos a ter um bocadinho de frio quando saímos da água e tudo. Uma maravilha!
      Portanto, uma caixa de legumes e uma manhã de praia foram as coisas que me fizeram feliz por estes dias. Vamos considerar que isso é uma coisa boa, ok? Até porque a caixa de legumes também tinha ovos e morangos e, além disso, eu sou de gostar de coisas simples, como lambuzar-me de papaia e anona acabadas de colher, ver o pôr do sol na areia branca (agora que falo nisso já não vejo um há muito tempo) e estender-me a ler um livro.
      Ah, li o da Isabela Figueiredo, "A Gorda" e lembrei-me de quando a Carla nos perguntou, a mim e à Helena, se sabíamos de alguma casa para emprestar à Isabela para ela conseguir terminar o livro. Foi quando estivemos a três juntas no Porto e o Jaime teve a ideia de usar uma banheira como carrinho de rolamento, na Grande Descida de Carros Artesanais, lembras-te?
      Só mais uma coisa, vai ver o Guardiões da Galáxia 2. Acho que é impossível não gostar, mesmo sem legendas em chinês e bahasa. A banda sonora é soberba.

A casa nova

4.5.17

O Sr. Abel começou a podar a sebe de buganvílias. Acho que lá para Junho deve terminar. Não por causa do tamanho da sebe, que até é grande, mas porque vai podando aos bocadinhos, uns dez minutos por dia. Depois senta-se a olhar para o infinito. Aprecio-lhe sobremaneira esta forma de passar os dias. Há quem precise de fazer workshops e retiros para conseguir fazer isso, note-se. E, afinal, é muito simples: Um salário para os bens essenciais, um sítio para esticar o corpo durante a noite e tempo livre.
Pelo menos é o que parece visto de dentro da casa com cinco divisões mais a sala e a cozinha. E um closet. Não sei se o Sr. Abel consideraria um closet um bem essencial. 
Parece-me tudo excessivo na nova casa, menos o jardim. Não me importo nada de ter um jardim grande e frondoso, porque os jardins têm mosquitos (e muita fauna em geral) que, juntamente com o calor, são grandes aliados do anti-burguesismo. 

Ora bem

2.5.17
Mudei de casa e até aqui nada de novo, certo?
Quase certo, porque nunca antes tive um jardim assim. Ele tem:

Bananas


Limas (com muita sombra)

Carambolas

Fruta com nome desconhecido (para mim) que termina em nona (que aqui significa amante)


Outro nome desconhecido mas cujo fruto não é apreciado

Papaias

e Cocos
Ah, e o mar está logo ali, ao virar da esquina.

Cartas de Díli #1

24.4.17
Querida Bea,

      Quando nos separámos pela primeira vez, e eu ainda não sabia que as separações seguintes seriam igualmente dolorosas, decidi que devia escrever-te cartas com uma certa regularidade. Cheguei até a pensar que o ideal, mesmo, era fazer dessas cartas uma crónica mensal num jornal, porque assim não só me obrigaria a escrever, como conseguiria ser uma cronista a sério. Só que, depois de sondar uma ou outra pessoa sobre essa possibilidade, acabei por desistir da ideia.
      Acontece que desta última vez que estivemos juntas voltei a sentir essa vontade, muito por causa da prenda de aniversário que a Inês me deu, sabes? Não me lembro se te cheguei a mostrar (já estás habituada a estes meus lapsos de memória). Então, ela trouxe-me do Brasil um conjunto de cartas escritas por 12 mulheres em diferentes partes do mundo. Chama-se "Queria Ter Ficado Mais Tempo" e é da editora Lote 42. Ainda só li quatro, as de Buenos Aires, Tóquio, Berlim e Istambul, gostei mais desta última. Não sei como serão as outras cartas mas por enquanto a ideia parece-me melhor do que o conteúdo.
      E já que comecei a falar em livros, deixa-me dizer-te que tens toda a razão em relação ao "Burma Chronicles", realmente eu e o Guy Delisle temos muitas coisas em comum neste livro, se calhar foi por isso mesmo que a Luísa o quis oferecer-me. Aquela cena de ele ter grandes ideias sobre lançar uma revolução prostrando-se todos os dias em frente à casa da Aung San Suu Kyi, ou dar arroz todas as manhãs aos monges, e no dia seguinte continuar a fazer as mesmas coisas de sempre; os encontros de pais para as crianças brincarem e a dele ser a única que não tem ama; toda a gente a achar que ele desenha cartoons como hobby; aquilo de estar sempre a pensar como é que as pessoas vão levar todas as tralhas quando regressarem; a noção do quanto se está desconectado da realidade quando a maior preocupação é não se encontrar água tónica da Schweppes em lado nenhum (definitivamente deve ser a preocupação mais comum a todos os expatriados por esse mundo não ocidental fora); a ida a Bangkok com a lista de compras; o deixar de lavar a loiça aos fins-de-semana porque tem empregada (por falar nisso, a Domingas já voltou e deve estar a odiar esta segunda-feira) e por aí fora.
      O livro é mesmo espectacular e mostra bem o universo dos expatriados em geral e dos que trabalham em ONG em particular.
      Enfim, acho que seria mais fácil aproveitar esta experiência se, tal como ele, tivesse uma profissão e não um hobby, mas a verdade é que quem mais desconsidera o meu trabalho sou eu. Nem mesmo o que faço na Timor Aid consigo valorizar. Eu contei-te que estava a colaborar com esta ONG local no catálogo de Tais de Baucau, não contei? É bastante interessante o trabalho que eles fazem, mas eu só tenho de editar os textos em português. O tema não podia ser melhor- tecidos tradicionais, teares e técnicas de tecelagem e tinturaria. Talvez um dia possa ir com eles num trabalho de campo e escrever sobre isso.
      Entretanto, temos a festa de aniversário do Nicolau (como odeio fazer festas de miúdos) e amanhã, se conseguirmos, vamos festejar o 25 de Abril em casa de uns amigos. Depois, fazes tu 16 anos e pela primeira vez na nossa vida não vamos estar juntas no dia do teu aniversário. Já decidi que vou fazer um bolo na mesma e vamos cantar-te os parabéns aqui. Isto se não piorar desta alergia que me atacou assim que cheguei a Díli. A culpa é do ar condicionado mas o jet lag não ajuda nada. Aliás, estamos todos mais para lá do que para cá (esta expressão é bastante intrigante, apercebo-me agora), mas também não me admira com a viagem que fizemos: Porto-Lisboa-Istambul-Hongkong-Bali-Díli.
      Apesar de me custar sair de Portugal apercebo-me que aos poucos vamo-nos instalando, isto é, fazendo de Timor uma segunda casa. Vamos fazer mais uma mudança e tudo. Já estamos aqui há pouco mais de um ano e meio, quer dizer, estava na altura, tendo em conta o corrupio dos últimos anos. Depois, não usei a ida a Portugal para aqueles detalhes mundanos como cortar o cabelo e ir à depilação, deixei isso para fazer no regresso e toda a gente sabe que este é o tipo de coisas que nos faz sentir em casa. Acho eu.
      Na verdade já não sei nada sobre o que significa estar em casa, sobretudo depois de ir ao Bolhão, logo a seguir à nossa despedida em Campanhã, e ver aquela banca da fruta, quem entra pela Sá da Bandeira, a vender mais lichias e fruta dragão do que maçãs e pêras.

Trabalhar

27.3.17

Andar a pé em Díli é difícil. Perguntem a qualquer pessoa e todos dirão o mesmo. O calor, o pó, o trânsito e, nalguns casos, o assédio verbal desmotiva qualquer caminhante. Mas eu insisto em continuar a andar pelo meu pé, porque é uma coisa que preciso de fazer, quase como preciso de respirar. Por isso, sempre que possível, isto é, quando estou sem as crianças em casa, que apesar de poderem acompanhar-me, já que têm boas pernas para isso, vão o caminho todo a queixarem-se de tudo e mais alguma coisa, vou a pé ao supermercado. Demoro 20 minutos. 
Nesse percurso cruzo-me quase sempre com o vizinho que vende apostas numa mesa pequena e que me cumprimenta calorosamente com um: "Bom dia senhora, onde vai?" E eu respondo que vou passear, ou vou ao supermercado, ou comprar umas coisas, depende. 
No outro dia, decidi ir tomar o pequeno almoço ao da Terra que é um sítio que tem umas panquecas muito boas e um batido de kefir maravilhoso. Ao passar pelo vizinho fui cumprimentada calorosamente, como sempre, mas desta vez ele perguntou-me se ia trabalhar e eu, automaticamente, respondi que sim. 
Depois de já ter comido as minhas panquecas a simpática funcionária, pergunta-me: "Hoje não trabalha, senhora?" e eu automaticamente respondo: "Não, hoje não trabalho, estou de folga".
Fiquei bastante intrigada por nessa manhã diferentes pessoas quererem saber da minha vida profissional, mas se calhar deu-se uma daquelas coincidências de estarem os dois a aprender português e a palavra do dia ter sido "trabalhar". 
Quando me fui embora, e enquanto caminhava em direcção ao supermercado para tomar café, pus-me a pensar nas minhas respostas, e como automaticamente respondi ao que esperavam ouvir, e depois mais alguém me cumprimentou: "Bom dia, senhora professora".

O acontecimento

14.3.17
A Joss Stone veio actuar a Timor Leste e foi um acontecimento. Pelo menos para as três centenas e meia de pessoas que estiveram no Hotel Timor foi um grande acontecimento, proporcionado por dois moços que conseguiram incluir Díli na Total World Tour da banda (não há-de ser à toa que a empresa de eventos que gerem se chama No Limit).
Eu fui, claro. Não conheço quase nada do trabalho da Joss Stone, mas não ia ficar em casa quando acontece uma coisa rara destas. E gostei, achei que foi uma hora e tal muito bem passada e ainda fiquei a conhecer um bocadinho do novo projecto do Etson Caminha, que actuou no início.
Mas não é a música, nem o acontecimento em si que me traz aqui.
A certa altura a artista refere que tem muita pena por só poder estar 20 horas num país tão bonito, mas em contrapartida pode dizer que já actuou em quase todos os países do mundo. Ou pelo menos foi o que percebi.
Nessa altura pensei, a sério que há expatriados/emigrantes em todos os países do mundo? Sim, porque estes concertos não são para os locais, obviamente. Ou para todos os locais. Depois, fui confirmar por onde andou e vi, por exemplo, que no Laos o concerto foi na embaixada britânica, no Sudão numa escola internacional e no Malawi num centro de convenções.  Fiquei curiosa sobre quantas pessoas assistiram aos concertos dela por esse mundo fora (aqui os bilhetes esgotaram no mesmo dia) e pareceu-me limitado e ao mesmo tempo interessante conhecer o mundo por essa perspectiva.
Ou seja, se não puder desbravar caminhos e viver apaixonada pelo que faço, acho que podia viver como groupi da Joss Stone.

O supermercado

7.3.17

Um dia destes estava a ouvir as histórias fabulosas de um rapaz que trabalha aqui em Timor, na área da agricultura sustentável, e a pensar "meu deus, eu também quero fazer coisas assim, desbravar caminhos nunca antes desbravados, viver apaixonada pelo que faço, descobrir coisas novas sobre o Universo (nesta parte do mundo é fácil isso acontecer)", e depois fui ao supermercado.
O supermercado é o sítio onde vou mais frequentemente, não só pelas razões óbvias, mas sobretudo porque não há assim muito mais onde ir. Sim, isso mesmo. Quer dizer, há um shopping, mas não vamos falar sobre isso, e há a praia, mas como dizia no outro dia um italiano, a viver nesta parte do mundo há alguns anos, o Natal é especial, porque acontece uma vez por ano. Ou seja, quando se pode ir à praia todos os dias, a praia deixa de ser um sítio desejado.
Portanto, eu que sempre odiei supermercados agora passo a vida num. É claro que não é um supermercado qualquer (viste, Jaime, como sou tão simpática?), é o sítio onde quase toda a gente se encontra para tomar café, por exemplo, e é capaz de ser o supermercado com a melhor banda sonora do mundo.
Seja como for, depois da conversa que me pôs a pensar como seria bom desbravar caminhos nunca antes desbravados, viver apaixonada pelo que faço e descobrir coisas novas sobre o Universo fui abastecer a despensa e depois fui almoçar ameijoas e caril de camarão. Ou seja, fui à minha vidinha.
Só que o Universo é essa coisa muito engraçada e agora sempre que vou ao Páteo (Jaime, depois discutimos o preço deste post) olho para o jardim que está na foto e lembro-me da conversa com o tal rapaz, porque foi ele que fez aquilo.
Todos os dias, ou quase todos os dias, olho para aquele jardim e penso "que bom deve ser olhar para uma coisa destas e saber que fomos nós que a fizemos. Assim, tipo, fazer mesmo com as nossas mãos e que é a fazer coisas assim que ganhamos a vida".

P.S deu para perceber que o Jaime trabalha no supermercado, certo?

Bicho de estimação

23.2.17

Eu tinha uma pequena aversão a repteis que aos poucos se foi transformando numa quase relação saudável, desde que passei a viver com tekis dentro de casa.
No entanto, há um (uma?) que me anda a chatear. Eu reparei nele há uns tempo, porque ao contrário dos outros não se esconde sempre que alguém se aproxima. Antes pelo contrário, fica ali a olhar para nós, como se fossemos nós os intrusos. Nem com as duas flashadas que levou para esta fotografia ele se mexeu (será cego?).
Depois, tem um aspecto completamente diferente dos outros. É muito mais escuro e com umas patas mais parecidas com garras do que ventosas. Já andei a tentar perceber de que espécie de lagarto se trata mas não consegui.
Um dia, depois de o encontrar no meio de uns brinquedos dos miúdos, decidimos apanhá-lo e levá-lo lá para fora, só que nesse processo ele ficou sem cauda. Pois, coitadinho e tal, mas deixa lá que ela volta a crescer.
O que eu não sabia é que ia vê-la crescer, porque o bicho voltou para casa e faz questão de se pavonear por aí com a cauda em franco desenvolvimento. Outras vezes encosta-se ao lado da minha secretária e fica a fazer-me companhia como se fosse um animal de estimação.
O Jaime acha que o bicho merece o nosso respeito, no sentido de admiração. Eu acho-o feio. Um feio Almodóvar e só por isso apetece-me gostar dele, só que não consigo. Não confio nele, parece um daqueles seres capaz de tudo para ter atenção, inclusive matar outros tekis. 
Sim, estava um teki morto no chão da sala.

Florista

21.2.17

Todos os dias da semana tenho um arranjo de flores, colhidas no jardim, em cima da mesa da sala de jantar. Todos os dias é um arranjo diferente e cada um mais bonito do que o outro.
A Akita, que veio substituir a Domingas enquanto dura a licença de maternidade, devia ser florista em vez de empregada doméstica.
Todos os dias, excepto aos fins-de-semana, não consigo evitar olhar para a jarra de flores e pensar em todas as pessoas que deviam ser floristas e estão a fazer outra coisa qualquer.

Auto-retrato

13.2.17

Apetece-me deixar crescer a melena com cada vez mais brancas e ficar com uma daquelas cabeleiras mescladas que agora estão muito na moda. Só que depois apercebo-me que essas cabeleiras mesmo não sendo pintadas, exigem cuidados. Ainda por cima, os meus cabelos brancos são aqueles cabelitos que ficam no ar quando prendo o cabelo, estão a ver? (Parece que se chamam baby hair, tornando esta coisa do envelhecimento ainda mais engraçada)
Nunca nada é como imaginamos. Uma pena.

Quando falha a luz, ou quando sou a única pessoa acordada e não está a dar nada de jeito na televisão e não me apetece ler, ou jogar no telemóvel (estou viciada num jogo parecido com o Tetris), ponho-me a ver as melhores audições do Britain Got Talent no youtube e farto-me de chorar, sobretudo naquelas em que os familiares dos concorrentes não conseguem esconder o orgulho. Eu sei, tenho problemas. Também chorei no La La Land.

Já pensei várias vezes coleccionar notícias de pessoas que morrem em acidentes inusitados, como o da mulher de 29 anos que caiu de umas escadas rolantes, no World Trade Centre, em Nova Iorque, a tentar apanhar o chapéu da irmã gémea. O que é que lhe deu? Ainda por cima era treinadora de remo, como é que uma treinadora de remo se desequilibra e cai de umas escadas? A sério, se eu quisesse inventar um acidente nunca me ocorreria tal coisa.

No fim-de-semana fui à praia com os miúdos sozinha, porque o Jaime tinha de trabalhar. Sentei-me numa cadeira e avancei 50 páginas do livro, enquanto eles brincavam com outras crianças que lá estavam. De vez em quando olhava para o mar e suspirava (e perguntava-me como é que a Areia Branca se tornou uma praia tão suja nos últimos tempos) com aquela satisfação de quem tem os miúdos por ali a rir e a inventar brincadeiras, enquanto nós estamos na nossa vida.
Percebi, finalmente, porque há tanta literatura, tanto cinema e tanta arte em geral, que mostra os filhos crianças como acessórios que aparecem de vez em quando.

O livro que estou a ler é O Fim do Homem Soviético e, felizmente, é tão viciante como o Tetris, um jogo inventado na Academia Russa das Ciências (claro), em 1984. E agora fiquei a pensar se isto significa que devo voltar ao George Orwell.

Mãe à distância

3.2.17
Muita gente tem-me perguntado sobre como é estar longe da Bea. Não tenho a certeza se sei responder.
Sei que viver longe dela, não vê-la todos os dias, não saber só de olhar como lhe correu o dia, não a ouvir atropelar-se nas palavras ou nos mutismos seleccionados, é mais fácil do que a ideia de estar longe dela. Ou seja, custa-me mais pensar nisso, do que viver isso. 
Além disso, eu sabia, desde os tempos em que eles medravam na mesma proporção em que eu definhava, que este dia haveria de chegar. O dia em que saem de casa. E esse dia é estranho, doloroso, brutal mesmo, mas esse dia chega sempre, ou espera-se que chegue.
Costuma ser aos poucos, porque eles vão mas vêm passar o fim-de-semana a casa, isto é, vêm lavar a roupa e comer refeições cozinhadas. No nosso caso foi assim de repente e por isso acho que ficámos numa espécie de limbo nas semanas seguintes.
Agora, quatro meses depois, já não temos a escova dos dentes dela no quarto-de-banho e já me habituei a tirar quatro pratos do armário.
As comunicações eram difíceis no início, ela falava muito pouco connosco e quando nos queixávamos disso ela argumentava que andava aflita a mudar de vida, a fazer novos amigos, a encaixar-se numa nova rotina. O fuso horário não ajuda nada e ainda por cima eu odeio o skype. Aquilo enerva-me, os miúdos ficam histéricos a falar ao mesmo tempo, a fazer palhaçadas para impressionar a irmã, etc. Não se consegue verdadeiramente conversar assim, nem com a internet a falhar.
Preferimos usar o messenger sempre que nos apetece, e tem funcionado. Às vezes estamos as duas acordadas e ficamos a conversar, outras respondemos uma à outra com horas de diferença.
Eu sei que ela está bem, apesar de nem sempre ser fácil, mas sobre isso não posso falar, porque seria entrar na intimidade de outra pessoa.
Posso dizer que a sinto muito crescida, entusiasmada com a escola e preocupada com o futuro. Sei quase nada do seu dia-a-dia e isso deixa-me, às vezes, profundamente nostálgica, mas ela tem quase 16 anos, mesmo que vivesse aqui em casa eu acabaria por saber pouco do que se passa na vida dela. Bem, aqui em Díli, por acaso, seria difícil não saber dada a dimensão da cidade, mas que me interessava tê-la debaixo de olho e, talvez, mais controlada pelo meio envolvente se vivia infeliz?
Eu lembro-me bem de quando tinha 16 anos e de como a minha mãe e avó tinham pouca importância para mim. Era bom saber que elas existiam e estavam lá para o que fosse preciso, claro, mas os meus amigos é que eram a minha família.
Portanto, não estou à espera que sejamos o centro da vida dela, nesta fase, mas era importante estar mais perto fisicamente nem que fosse só para levar com a ingratidão da adolescência nas bentas.
Enquanto isso não acontece vou-lhe seguindo os passos com os meios que disponho: os e-mails do pai, o google maps, o facebook e por aí fora.
Ela chama-me stalker e eu não me importo.

Ventura

31.1.17

Um dia vou conhecer muitos países, uns mais superficialmente do que outros, e vou poder dizer com alguma segurança, acho eu, onde é que me senti mais feliz, ou infeliz.Vou perceber, rapidamente, que o sítio terá menos a ver com isso do que com o quê e quem levo comigo, mas vou encontrar, de certeza, países com qualquer coisa de primordial que nos faz sentir uma espécie de bem-aventurança.
O Sri Lanka é um desses países.

Sim, fui feliz no Sri Lanka, comecemos já com o chavão. Fui feliz pela razão óbvia: o reencontro com a Bea passados três meses e meio. Fiz um grande esforço para não desabar num pranto de lágrimas assim que a vi sair da porta do aeroporto. Escusado será dizer que o pranto começou muito antes disso, porque se há coisa em que sou boa é a antecipar momentos, mas estávamos num aeroporto, no terminal das chegadas, há lá sítio mais emocionante?
Ela chegou. Eu chorei. O Jaime choramingou. Os irmãos agarraram-se a ela como lapas e foram assim até ao táxi do Sr. Siri.

O Sr. Siri (o som do nome era este, apesar de não existir nenhum parecido numa lista da internet com os 100 nomes mais comuns no Sri Lanka), tinha ido buscar-nos ao hotel nessa manhã. Nós chegámos um dia antes da Bea e por isso ficámos a saber que para entrar no aeroporto é preciso pagar. Estava explicada a quantidade de pessoas na rua à espera de quem chega. Nunca tinha ido buscar uma pessoa ao aeroporto num país onde não vivo. É estranho, porque dá-nos a paradoxal sensação de sermos dali.
Ele, o Sr. Siri, tinha comprado bananas e disse que podíamos comê-las. Os meus filhos que já vão percebendo inglês agarraram-se ao cacho e começaram a devorá-las. Eu fiquei meio sem jeito com aquele comportamento esfomeado mas cruzámo-nos com o amigo sapateiro do nosso taxista, que nos acenou da bicicleta, e as bananas deixaram de ser assunto.
Combinámos que seria ele a levar-nos a Colombo e no dia seguinte telefonámos-lhe para nos levar também a Sigiriya. Fica-se quase amigo dos taxistas, dos condutores de tuk tuk, do pescador das lagostas, do cozinheiro que as preparou para nós, porque há como que uma familiaridade boa entre todos. Por exemplo, sei quantos filhos têm os cingaleses com com quem troquei mais de meia dúzia de palavras. O Sr. Siri tem quatro, três raparigas e um rapaz.

Também fui feliz no Sri Lanka porque sou sempre feliz no meio da Natureza. Deve ser uma coisa que me ficou dos tempos em que levava vacas ao posto e apanhava pinhas na bouça. E no que diz respeito à Natureza no antigo Ceilão não há como não ficar impressionada. Eu vivo numa ilha tropical, estou habituada à abundância de plantas e animais, mas como aquilo nunca tinha visto. São mais de 100 as áreas protegidas deste país e não por acaso, de certeza, a primeira reserva do Mundo foi criada aqui, no século III. Portanto, acho que só por aqui dá para se perceber a minha impressionabilidade. Depois, uma pessoa vai na estrada, ali na zona entre Dambulla e Polonnaruwa, por exemplo, e vê passar os elefantes lá ao fundo, ou abranda para para mirar um par de lagartos gigantes, Water Monitors, na berma, ou fica de boca aberta a olhar para os pássaros nas árvores, enquanto os ovos do pequeno-almoço arrefecem, ou aborrece-se com os macacos que aparecem em todo o lado.
E quando se dá o caso dessa pessoa se encontrar no meio de uma manada de elefantes, no momento em que todos os jipes do safari desligam o motor, acontece magia. Eu até gostava de explicar mas, já se sabe, a magia não se explica.

E há a viagem de comboio mais bonita do mundo. Deve ser um exagero, claro. Mas não parece. Além da viagem em si, porque para andar de comboio nem sequer é preciso um destino, como diz Paul Theroux, há o valor acrescentado da paisagem em looping (a linha faz mesmo um loop depois da estação de Demodara), da ponte com os nove arcos e dos sorrisos deles, dos meus filhos, com as cabeças de fora da janela. Não sei se podia ser noutro comboio qualquer, aquela felicidade, que não naquele a caminho de Badulla.

Ainda por cima, come-se bem no Sri Lanka, por isso as pessoas que são felizes a comer, como eu, são felizes no Sri lanka. O rice and curry é uma mistura de sabores perfeita. A parata com um café cingalês, no cume fresco de Haputale, é um milagre - transformar água e farinha num pão daqueles é como transformar água em vinho.
E depois, a cereja em cima do bolo, ao contrário da maior parte dos países asiáticos há um número bastante considerável de wine shops. Sim, é preciso descer a caves, em muitos casos, e é tudo feito com muito secretismo. Mas, quer dizer, quem é que não gosta de esperar pelo seu gangster, no meio dos caixotes de lixo, rodeada de corvos?

Já está

10.1.17

Ficar muito tempo sem escrever num diário levanta um grande problema: Deve uma pessoa seguir escrevendo, como se não tivesse havido um hiato de tempo? Na verdade, ainda não passou um mês, e não há assim tanta coisa a acontecer num mês, certo? Errado.
A vida numa ilha tropical do sudeste asiático pode ser muito aborrecida, não sei se é por isso que os expatriados bebem tanto, mas ao mesmo tempo parece que está tudo a acontecer. Como se os fragmentos dos dias formassem um todo mais claro. O que até faz sentido, porque os dias passam mais lentos e nesse abrandamento é mais fácil ver a paisagem à volta.
E vejo uma filha quase adulta e um quase recém bebé que vai este ano para a escola primária, que é aquele patamar em que os pais dão por terminada a primeira infância.
Acho que é por isso que este blog deixou de ser o diário desesperado de uma doméstica (sim, é mais giro stay-at-home-mom, mas o glamour nunca foi o meu forte e eu até acho que tentei algumas vezes).
Por isso e porque agora não tenho de limpar a casa, lavar a roupa e secá-la em cima dos aquecedores, limpar a areia dos gatos e levar os miúdos a um jardim para correrem em liberdade. Bem, esta última parte até podia ser uma coisa gira, só que nem por isso. Para mim era uma canseira. Até tinha pesadelos com o mais pequeno a cair daquela girafa do jardim da Estrela.
E até me podem vir dizer que o pior está para vir. Que quando são pequeninos é que é bom. Sim, é bom, de uma forma peculiar, mas também é tremendamente exigente. O que faz com que acredite, talvez erradamente, que a parte difícil está feita. Ou isso, ou comecei a viver naquelas bolhas em que se põe lá dentro o que nos interessa.
É que a bem dizer eu nunca me preocupei tão pouco com a educação deles como no último ano (e até tenho um filho sem vontade nenhuma de aprender o currículo escolar), mas a sensação que tenho é que tudo está a correr bastante bem (sim, eu acabei de escrever isto).
Pois, mas isto não aconteceu durante o mês em que não escrevi aqui, poderão dizer-me. Pois claro que não, isso tem vindo a acontecer.
O que aconteceu no último mês foram as mesmas coisas de sempre. Hoje, por exemplo, acordei tarde, fui mordida por formigas assassinas, porque não reparei que a toalha do banho estava cheia delas outra vez, e depois comi uma panqueca feita no micro-ondas, porque o gás acabou precisamente quando ia começar a fazê-la no fogão.
Mas também aconteceu uma viagem com um reencontro ansioso e uma despedida dramática. Com momentos de contemplação que só as viagens proporcionam e com a sensação (um pouco intensificada pelo fim da leitura do livro "O Grande Bazar Ferroviário", no fim da viagem) de que esta parte da vida já está. Passemos à seguinte.