Tenho sempre mais perguntas do que respostas

17.5.26
Tenho pensado na história que contamos a nós próprios sobre a nossa vida (acontece-me amiúde). No caso das pessoas, como eu, que andam a falar sobre a vida delas na internet , há anos, é fácil perceber que a escrita serve, sobretudo, para exorcizar demónios, para nos livrarmos daquilo que nos preocupa. É claro que há quem consiga trabalhar a escrita, torná-la matéria literária, quer por força da disciplina, quer naturalmente, mas, regra geral, neste registo diarístico o que sobressai são as preocupações, aquelas emoções que não conseguimos transformar em matéria. 
E apesar de ultimamente se andar a falar sobre a nossa capacidade de mudar a vida, mudando a forma como pensamos, a tal da neuroplasticidade, eu sou o que sou e quero continuar a exorcizar os meus demónios da mesma forma.
Neste momento, há duas coisas que me preocupam, o "insucesso" escolar dos meus filhos e a mudança de casa. Provavelmente isto são dois, ou vários, posts diferentes, aliás, acho que não tenho falado de outra coisa neste blog a não ser de filhos e mudanças de casas, por isso não vamos contrariar esta tendência,  até porque eu gosto de remar contra a maré e não vejo interesse em atirar mais achas para a fogueira da hiperpolítica.
Tinha pensado começar pelo insucesso (sem aspas, porque apesar de o sucesso ser um conceito relativo, não há como não determinar o sucesso e o insucesso escolar) dos meus filhos, mas percebi que precisava de ter mais dados sobre o nosso sistema de Educação para provar o meu ponto de vista - que não passa pela desvalorização da escola, antes pelo contrário, é mais sobre questionar o meu posicionamento face ao ensino que temos (tudo é política). Assim sendo, fico-me pela mudança de casa.
É claro que eu gostava de falar sobre isso com um contrato de arrendamento assinado, mas ou somos recusados depois de entregar os documentos que pedem - recibos de vencimento, declaração de IRS, fiador -, ou somos aceites e passado uma semana somos informados que afinal o preço já não é 850€ por um T2, mas 1000€. Portanto, a mudança de casa ainda não aconteceu, mas estamos nesse processo e não consigo deixar de pensar que ou estou a ter um ''déjà vu'', ou estou a ter uma oportunidade de começar de novo do mesmo ponto de partida, mas com mais 30 anos em cima.
Isso não deveria assustar-me, afinal agora sei para o que vou (sei?). Há 30 anos fui cheia medo e de sonhos, agora vou com dois filhos menores, dois gatos, uma cadela e um companheiro de vidas. E vou cheia de medo e de sonhos na mesma. Quer dizer que não cresci? Quer dizer que estou a ser castigada, ou premiada? Porque será tão difícil contar uma versão da minha vida que me sirva? Devo sair daqui como Calita, ou Carla*, o nome que mais ouço quando se dirigem a mim, nos últimos anos. Ainda hoje ao almoço o meu filho mais novo disse qualquer coisa sobre não saber qual era o meu nome, afinal. Tenho sempre mais perguntas que respostas e isso é bom, não é?

*Se até o Jaime, que sempre me chamou Calita, marca uma mesa para mim no nome Carla (ver a fotografia ali em cima), deve querer dizer alguma coisa 





Não ficou tudo bem

11.3.26

Colhi flores neste mesmo dia, há cinco anos, e usei um candeeiro como jarra.
Quando digo neste mesmo dia refiro-me a 11 de março, mas o dia não é o mesmo, como sabemos. Tentei sobrepô-los, como dois rolos de filme, e inventar um novo dia. Fazer da minha vida isso: dias sobrepostos e reinventados. Não tenho a certeza que isso não aconteça já, desde o princípio dos tempos.
Há cinco anos estávamos a viver o acontecimento mais surreal da nossa vida coletiva, a pandemia, que nos fez ter consciência disso mesmo, de uma existência coletiva, e no dia 11 saí para caminhar, porque era permitido, e apanhei flores no caminho.
Hoje saí para ir trabalhar e apanhei um autocarro até ao metro, depois mudei de linha e depois desci o morro. Não vi flores no caminho.
A pandemia foi controlada e a existência coletiva foi esquecida. A pandemia já não nos mata, matamo-nos uns aos outros, numa guerra a seguir a outra. É surreal, mas não parece tão surreal como a pandemia, porque não afeta o nosso dia a dia. Os miúdos vão à escola, nós vamos trabalhar e fazer compras sem esgostar o papel higiénico. Até viajamos evitando o espaço aéreo ocupado pelos mísseis. Parece que há vários tipos, ouvi de passagem, talvez me dedique a fazer uma lista de todos os que foram nomeados nas notícias, só porque adoro listas, como se sabe.
Ia ficar tudo bem, não ia?

Monte dos Vendavais

21.2.26

Li o Monte dos Vendavais na mesma semana em que saiu o filme da Emerald Fennell. Não tinha a certeza de o ter lido, apesar de ter a história muito presente, talvez por causa do filme de 1992. Tanto que no momento em que Mr. Lokwood está a dormir na cama que fora de Catherine e sonha que parte o vidro para calar o abeto ''a embater na janela da gelosia, impelido pelo vento forte que soprava, ululante'', e uma mão agarra-lhe o braço comecei a ouvir na minha cabeça a música da Kate Bush.

Seja como for, comprei a edição da Relógio D'Água, porque continuo com todos os meus livros dentro de caixotes e li-a em poucos dias. Não vou estar aqui com dissertações sobre o livro, porque não faltam opiniões e críticas sobre esta obra intensa e perturbadora, mas apeteceu-me opinar sobre o filme, que a minha filha ''obrigou-me'' a ir ver. Foi ela, aliás, que me apresentou a Fennell, primeiro com Saltburn e depois Uma Miúda com Potencial e me falou da catrefada de haters que a realizadora tem.

Fui, então, ao cinema com a certeza de que iria ver uma versão de O Monte dos Vendavais muito diferente da que já tinha visto (e que mal recordo, na verdade) e que este filme da Fennel teria muito pouco a ver com a história do livro. E, sim, confirmaram-se ambas as certezas, mas isso não significa que não seja um filme que vale muito pena ver. Primeiro, porque apresenta alguma ideias do livro que não me tinham ocorrido, como o papel da Nelly na vida das personagens. Eu vi-a sempre como uma governanta que está a contar a versão dela da história, é certo, e é óbvia a influência dela sobre os protagonistas, mas nunca a vi como a ''vilã'', como a chamou a minha filha e como foi retratada no filme. Depois, claro, há toda a carga sensual e sexual, que nunca é assumida no livro e que, no filme, serve para explicar não só a obsessão de Heathcliff e Catherine como a relação de Heathcliff e Isabella. Mesmo que se trate de uma ''sensualidade grotesca e boçal de burlesco adolescente que faz lembrar Benny Hill'', como descreveu Jorge Mourinha, no Público, não deixa de ser uma perspetiva interessante, a meu ver. Também me pareceu muito interessante a personagem do pai e do irmão de Cathy ser a mesma, no filme, bem como outros detalhes que não correspondendo ao que Emily Brontë escreveu foram bem trabalhados. Depois há a banda sonora considerada por muita gente, ou pela gente que eu vou lendo, a melhor coisa do filme. Não conhecia Charli XCX, não fiquei com uma vontade por aí além de conhecer, mas a banda sonora é impactante. 

Quanto à escolha bastante criticável dos atores acho, honestamente, que era indiferente, ou talvez tenha só gostado de ver a Margot Robbie e o Jacob Elordi juntos independentemente de representarem as personagens de Brontë, porque aquilo que Cathy e o Heathcliff são não é representável. É como diz Hélia Correia no prefácio: ''Esta paisagem [North York Moors] é o que se esconde no tema íntimo de Wuthering Heiths. Uma dissolução da Natureza e uma dissolução do indivíduo, o todo, uno e confuso, que é anterior ao sexo e à mortalidade''. Cathy e Heathcliff não são um par romântico, são outra coisa que não se consegue explicar, mas não me choca vê-los como Emerald Fennel os vê.

Saí do cinema com vontade de ler o livro e ver o filme, outra vez. 

Trabalhadores #3

12.2.26

Chamo-me Leandro Pereira e tenho 45 anos. Prefiro usar os meus dois sobrenomes quando fizer alguma coisa especial, como escrever um livro, por exemplo. O meu primeiro trabalho foi como professor de inglês, isso quando eu tinha 17 anos, em São Paulo. Depois troquei esse trabalho para ser agente de vendas da Varig, que era a TAP brasileira, e fiquei lá uns três anos. Em 2002, quando a empresa começou a despedir funcionários em massa, eu fui um dos que saiu e fiquei desempregado algum tempo. Um ano depois, mais ou menos, eu consegui um trabalho como estagiário na biblioteca da ECA (Escola de Comunicações e Artes) da Universidade de São Paulo, que é basicamente onde se formam muitos dos atores e atrizes conhecidos no Brasil, pelo menos na área do Teatro. Fiquei lá uns quatro anos e em 2007 fui trabalhar como almoxarife numa microempresa que tinha duas sócias e três funcionários, eu era um deles. Era uma empresa que vendia bijuteria e a minha função era registar toda a matéria prima que entrava e tudo o que saía. Basicamente só trabalhava com números. Este trabalho durou um ano e daqui fui pela primeira vez para Portugal, em 2008. Fiz um curso de nadador salvador e trabalhei um Verão na Costa da Caparica, foi no ano em que a Lehman Brothers faliu. Depois voltei para São Paulo, mas em 2009, depois de ter sido incentivado pelas pessoas que tinha conhecido em Portugal, decidi ir tirar o curso de Línguas, Literaturas e Culturas na Universidade Nova de Lisboa. Ingressei no curso em setembro de 2009 e em Março de 2010 comecei a trabalhar como recepcionista de um hostel e fiquei lá meio que intermitentemente até 2018. O salário não dava para pagar as minhas contas, por isso tinha a ajuda da minha família e em 2015 comecei a fazer revisão de texto, um trabalho que mantenho até hoje, para empresas brasileiras.

Em 2023 mudei-me para Frankfurt e comecei a trabalhar como bartender, que passou a ser o trabalho principal, porque com a Inteligência Artificial o trabalho de revisão de texto já não é igual. Eu vim parar a Frankfurt por causa de um mestrado, mas acabei abandonando o curso, porque eu não conseguia pagar as minhas contas. Estudar foi o que me levou a mudar de país, mas depois nunca termino os estudos, porque o trabalho acaba por ser a questão fundamental, porque é preciso dinheiro pagar contas, não é?

Eu não costumo votar nas eleições, apesar de poder votar nos três países, com algumas exceções. Por exemplo, não posso votar na eleição principal alemã, mas posso votar nas locais, sendo residente. No Brasil é o contrário, sendo brasileiro morando fora, eu só posso votar nas presidenciais. Em Portugal já não sei bem, como tenho dupla nacionalidade eu acho que posso votar nas legislativas e presidenciais. No entanto, eu não voto em nenhum país. Eu já votei estando fora do Brasil quando me sentia próximo o suficiente para saber o que está acontecendo, mas muitas vezes por força das questões práticas do dia a dia eu me sinto desconectado do que está acontecendo e prefiro não votar, porque eu sinto-me muito responsável pelo meu voto. Se pudesse votar somente em um país, votaria no Brasil. 

Fora do Brasil, o país onde estive mais tempo foi em Portugal, mas eu prefiro viver aqui em Frankfurt, porque aqui eu tenho condições financeiras que nunca teria em Portugal. Se eu tiver de fazer uma média de quanto ganhei por mês no último ano, eu diria entre 1200 e 1300 euros, e pago de renda 500 euros. Renda fria, sem as outras despesas. De renda quente, com luz, água, gás e internet vai para cerca de 900€. A diferença entre estar aqui, ou em Portugal é que o meu salário é para uma média de 23 horas por semana. Se eu trabalhar as 40 horas que se trabalham em Portugal, ganho o dobro. Além disso, acho que arranjar emprego em Portugal é mais difícil e mesmo quando não é mais difícil é mal pago. Eu não conseguiria viver no Porto com as condições com que vivo aqui.

As pessoas escolhem governos que não estão preocupados com o bem estar dos que mais precisam, porque historicamente as pessoas mais pobres têm uma tendência a se projetarem na possibilidade de em algum dia serem da classe média alta e muito do conservadorismo que se enraíza na classe média baixa é por causa dessa projeção. 

Um conselho? Eu diria que ninguém nasceu para trabalhar. Ninguém é obrigado a dar suor e sangue para fazer dinheiro, mas sendo essa uma obrigação de praticamente cem por cento das pessoas, eu acho que é um ato de civilidade dar o nosso melhor, porque não é uma questão de orgulho, de provar nada para ninguém, é simplesmente tentar tirar um pouco de peso das outras pessoas, porque estamos todos no mesmo processo. Eu posso achar que não vou gastar a minha energia a dar lucro para o dono da empresa, mas o dono da empresa tem não sei quantos funcionários e se eu não fizer o meu trabalho eu estou a prejudicar as outras pessoas. É uma questão de empatia. De civilidade.

A medida certa

31.1.26
Tenho saudades de voar. Só voei nos sonhos, por isso devia dizer que tenho saudades de sonhar que voo (a primeira pessoa do singular do verbo voar resulta numa palavra estranha, o vê e os dois ós assim juntos parecem exatamente o contrário daquilo que querem dizer). Não sei como costumam voar nos sonhos, eu começo sempre por correr e depois vou dando uns saltos, cada vez mais altos, até ficar a pairar no ar como o super-homem, ou a mulher maravilha. Que sensação! Não há outra que se lhe compare nas coisas que fazemos acordados, ou nas coisas que eu faço, porque há pessoas que, certamente, têm sensações incríveis a saltar de paraquedas, a escalar montanhas e outras atividades do género. Eu não, eu sou comedida. Não preciso dessa adrenalina, mas preciso de outras coisas, claro, todos temos os nossos corrimões, o meu é o vinho, porque, e lá vou eu citar mais uma vez  Manuel Vilas, ''o álcool ajuda à criação da vida como espaço político. Nos seres humanos, o álcool até cria a ideia de que a vida é uma força sem limites, e de que a vida tem sentido''. 
É estranho estar a demorar tanto tempo para acabar o ''E, de repente, a alegria'', o que quer dizer que não estou propriamente presa à leitura, e ao mesmo tempo ficar com tantas ideias agarradas a mim*. Uma delas é a de que nós frequentamos as pessoas. O escritor fala disso a propósito de amigos que teve em tempos, com quem passou momentos maravilhosos, e que do nada deixaram de se falar, de se encontrar. ''Foram-se essas amizades ou, melhor dizendo, morreram. A língua espanhola tinha e tem um verbo para tudo isso. É o verbo «frequentar.» Pode-se dizer de alguém: «frequentei-o nesse tempo». Indica-se com isso que houve uma relação, e esconde-se a natureza dessa relação, suspende-se o conteúdo dessa natureza dentro de uma ambiguidade amável. Porque os seres humanos passam por este mundo criando muitas relações que ninguém sabe em que se fundam. Umas vezes foram amizade, outras coincidências familiares, simpatias, interesses comuns, outras não se sabe o quê.''
A outra é a de que aquilo que nos destrói é também o que nos eleva, como o álcool. "(...)a minha vida no álcool, isso é que foi um inferno. Nossa Senhora, aqueles meses, aquela destruição, mas também aquela euforia, pois, agora que penso melhor, houve em todos os momentos da minha vida alguma forma de alegria. Quão incompreensível é a alegria, que às vezes também põe a máscara do desespero''.
Se eu pensar melhor, estas duas ideias fazem parte de mim há muito tempo. Quem me conhece bem sabe que estou constantemente a questionar a amizade, o que significa, quem são os meus amigos, que papel ocupam na minha vida. 
E o vinho. Não digo álcool, porque quase só bebo vinho e muito ocasionalmente cerveja. Questiono-me muitas vezes sobre vinho, porque sei que bebo demais - e agora, pelos vistos, um copo por dia, é demais, e gosto de me debruçar sobre as razões que me levam a fazê-lo. Quase sempre é precisamente para deixar de pensar, uma vez que é extremamente cansativo viver com os loopings de pensamentos que circulam na minha cabeça, mas estou a aprender a encarreirá-los e a encontrar a medida certa do álcool. E, não, não estou a falar dos 0,05% de Finn Skårderud. E, sim, gostei muito do filme.

*Além das ideias, são as coincidências deste livro, como a de Manuel Vilas ter estado na Póvoa de Varzim, no Correntes D'escrita, em 2019, e escrever sobre isso. E sobre o mar da cidade. Tão bem que ele descreve este mar que procuro todos os dias! 


Uma história japonesa de amor

18.1.26

Quando vi o filme da Sue Brooks fiquei impressionada. Não sei explicar porquê, mas fiquei com aquelas personagens a rondar-me os pensamentos durante muito tempo. Acho que foi a contenção, toda a intensidade que aquela contenção exigia. Havia todo um universo na distância entre os dois personagens, nos silêncios, nos olhares (fui rever o trailer e não se parece nada com o que digo, mas é como me recordo do filme). E os atores, claro. Acho que foi o primeiro filme da Toni Collette que vi e achei-a incrível, tal como o Gotaro Tsunashima. Tenho a impressão que fiquei um bocado apaixonada por ele, ou melhor, pelo personagem dele. Ao ponto de, na altura, ter ficado nervosa a ligar para a embaixada do Japão, em Lisboa, para pedir umas fotografias para o Jornal. 
Eu estava a substituir a secretária da revista Fugas - sim, o meu percurso profissional podia ter sido como o de quase toda a gente que conhecia naquela época (pois, foi no século passado): acabar o curso, estagiar e ficar a trabalhar como jornalista, só que eu tenho Saturno não sei onde e por isso preciso de escalar o Kilimanjaro, em vez de só atravessar a rua, para chegar a algum lado. Como dizia, eu estava na Fugas e precisava de uma fotos para ilustrar uma notícia sobre a Expo 2005, na província de Achi, no Japão, e liguei para a embaixada, porque muito provavelmente fui eu que escrevi esse artigo - eu era um bocado fascinada pelas exposições internacionais, depois de ter visitado a Expo 98 e, sobretudo, a de Hannover em 2000, esta enquanto jornalista da Forum Ambiente, e não tinha outra forma (ou orçamento) para arranjar imagens.
Liguei, então, para a embaixada algo nervosa, como referi, não só por estar a falar ao telefone, que é uma coisa que sempre me deixou desconfortável, como por saber que do outro lado estava alguém como o Hiromitsu, alguém que partilhava a mesma cultura. Eu sei que é parvo, mas que querem? 
E lembrei-me disto porque me cruzei com a palavra komorebi, lá está, não podemos dizer só mal das redes sociais, quando estas permitem que nos cruzemos com palavras. Li o significado de komorebi e pensei que é preciso ser uma língua, nós somos a(s) língua(s) que falamos*, muito especial para ter uma palavra assim.

* E as escolhas que fazemos

Pedras e abacates

14.1.26


Hoje sonhei que estava ao telefone com uma amiga, a Inês, a falar sobre a minha tia. Estava a descer o escadório e a falar ao telemóvel, coisas que raramente faço. Subo aquelas escadas com alguma frequência, mas nunca, ou raramente, as desço e não me lembro quando foi a última vez que peguei no telemóvel para ligar a alguém, quanto mais para desabafar sobre um assunto que me anda a perturbar. Também é cada vez mais raro lembrar-me dos sonhos, por isso achei que devia ficar registado.
Eu estava já nos últimos lanços das escadas, a ver o mar ao longe, com o pinheiro manso em primeiro plano, a falar com a Inês, que estava sentada à secretária, na redação, rodeada de papéis e com ar bastante preocupado, não por causa do que lhe estava a dizer (adoro esta omnisciência nos sonhos), sobre sentir-me muito mal por não poder fazer nada pela minha tia, que teve um AVC e foi para um lar. O meu tio, o marido dela, que tem uma forma rara de Parkinson, também está, estão juntos, mas eu só falava na minha tia. Estava bastante emocionada, chorei ao telefone (eu que não falo ao telefone, quanto mais chorar) e a Inês parou uns momentos o que estava a fazer. Entretanto, já era noite e vi que estava a subir uma procissão de velas, eram imensas pessoas com velas acesas e achei tão bonito que interrompi o que estava a dizer para exclamar: ''Oh, é uma procissão de velas, Inês!''
Comecei a descer a rua e fiquei com medo de não conseguir passar pelo meio das pessoas para chegar a casa, acelerei o passo e vi que no meio da estrada estava uma espécie de brasão desenhado com pedras de diferentes tamanhos, mais ou menos como se costuma ver nos tapetes de flores, mas aqui eram pedras. Estranhamente a procissão parou mesmo antes da entrada da minha casa, por isso eu pude chegar sem grandes complicações. Só que, assim que me vi em frente à casa, a procissão eclipsou-se. Ou passou muito rápido sem eu dar conta, porque estavam algumas pessoas à minha volta, os que ficam sempre para trás, talvez. Eu estava a olhar para as paredes escavacadas da casa, aparentemente as pedras usadas para o tal brasão, ou lá o que era, saíram da minha casa, mas não me parecia mal. Parecia o início de qualquer coisa. 
Lembrei-me do sonho quando estava a fazer a minha habitual caminhada das folgas e assim que cheguei a casa pus-me a olhar para as paredes (de outra cor que não brancas, como no sonho), mas o que me prendeu a atenção foi o abacateiro, plantado pela minha mãe sete anos antes de a minha avó morrer, portanto há 10 anos, e que ainda não deu um único abacate. É verdade que está plantado num sítio inusitado, mas está bastante frondoso e já foi podado. Talvez não veja razão para o fazer uma vez que a minha avó, para quem o abacateiro foi plantado, já não está aqui para comer abacates. Como se as árvores decidissem se querem dar frutos, ou não, como se não seguissem o curso natural da vida. 
 

Sem assunto

8.1.26
Fotografia de uma pós-festa partilhada numa das últimas festas

Há muito tempo não me acontecia achar que tenho de escrever sem ter um assunto sobre o qual falar. Deve ser o efeito Ano Novo misturado com ressaca do pós-festas (e foram muitas, além do Natal, Passagem d'Ano e duas festas de aniversário, festejámos os Reis),  mais o regresso às rotinas dos horários escolares. Seja o que for aqui estou sem saber o que dizer, mesmo com tanto a acontecer no mundo. Na verdade, o mundo não me interessa, estou demasiado enterrada na trincheira do metro-bulot-dodot para me interessar pelo que quer que seja. 
Há coisas que me fazem levantar os olhos, claro, os meus filhos, obviamente, que agora não dão autorização para publicar as minhas fotos favoritas onde eles aparecem; entrevistas a pessoas fora do comum, que também parece que passaram pelo mundo sem se interessarem muito pelo que as rodeava; as respostas de André Pestana durante a entrevista aos 11 candidatos presidênciais - eu já fui assim, uma defensora apaixonada daquilo em que acredito, mas parece que, hoje, as muitas que fui estão mais distantes do que habitualmente; os textos da Sónia, que por mais de uma vez me fizeram querer pagar-lhe um café, mas deu sempre erro, deve ser o Universo a lembrar-me que sou pobre; preparar um almoço especial¹ para a minha família, a que eu criei, e vestir um vestido em vez das habituais calças de fato-de-treino, mesmo que seja um vestido que já foi confundido com um robe; A playlist "What's your name" que o Rei, ou melhor, o Imperador² das playlists do Spotify está a fazer com a colaboração da família e que consiste em escolher uma música com o nome de uma pessoa por ordem alfabética, por exemplo, neste momento estamos na letra J e a música mais votada até agora foi a James Bond, do Iggy Pop (eu votei no Bowie, apesar de ter ficado na dúvida em relação à "Jesus was a social drinker"); O último espectáculo do Ricky Gervais, "Mortality", apesar de não ser tão bom como o anterior.
Bem, agora reparo que não ando assim tão apática e entrincheirada como me parecia. É para isso, sobretudo, que servem os blogs, para nos vermos, mais do que para nos mostrarmos.


¹ Quinoa com batata doce e avelãs caramelizadas, massa com pesto de pistacios, cheesecake basco e pudim
² Também conhecido como Jaime, ou pai

Passar pelo tempo

28.12.25
Estamos todos habituados a ouvir, e alguns de nós a dizer, "isso foi noutra vida", como se todos vivêssemos várias vidas numa só. E é verdade, não sendo verdade. Há nove anos vivia outra vida.
No livro "E, de repente, a alegria", Manuel Vilas refere-se muitas vezes ao passado como uma sucessão de memórias que não temos a certeza de terem acontecido, ou então sou eu que penso assim e li coisas que ele não escreveu.
Tenho muitas vezes a sensação de que em alguns momentos me encontro com essa que fui noutras vidas. A que sou agora - mãe de dois adolescentes e uma jovem adulta que já saiu de casa, trabalhadora por conta de outrem num emprego desinteressante e mal pago, mulher com um homem à procura de si, pessoa no encalço do seu lugar - não é nenhuma daquelas que viveu outras vidas, mas sou todas ao mesmo tempo. 
A certa altura Manuel Vilas diz, e isto não é um post sobre o livro que estou a ler, ou não era para ser, que está morto aquele que foi em 1980, embora por vezes fale com ele. No meu caso não é assim, todas as que fui estão vivas ao mesmo tempo. Não sei se se nota muito que ando obcecada com o tempo, a passagem do tempo e a não linearidade do mesmo. Estou aqui a passar para o computador o que escrevi ontem numa folha de rascunho, enquanto olhava para os potenciais clientes de vinho do Porto que passavam na rua, e estou a festejar o meu décimo quinto aniversário a comer arroz de lampreia (e a odiar) num restaurante em Apúlia, com aquela alegria imensa de quem está a fazer uma coisa que as outras famílias fazem, ao contrário da minha, mas depois o carro avariou e tudo voltou a ser uma merda, isto é, voltou tudo ao normal. 
Consigo fazer isto muito bem, juntar diferentes memórias de diferentes tempos e lugares e ver-me lá a olhar para esses momentos. Por isso, é uma pena deixar tanta coisa por registar. Fiquei um bocado desiludida ao confirmar que tinha escrito tão pouco sobre as viagens que fiz, por exemplo. Não devia deixar de escrever, porque é assim que muitas vezes consigo lembrar-me da pessoa que fui, ou reconstruir essa memória, como quando vemos uma fotografia em criança. Se bem que é mais fácil reconstruir memórias com imagens do que com palavras. As palavras deixam poucos espaços em branco. E escrever sobre a nossa vida é uma belíssima forma de passar pelo tempo.

Trabalhadores #2

11.12.25
"Eu sou a Odete Maria Martins França, tenho 54 anos e tenho três filhos. Vivo numa freguesia de Gondomar e trabalho como Guia Turística, em Vila Nova de Gaia, desde fevereiro de 2024. Tenho tido um percurso profissional muito atribulado. Para falar sobre isso tenho de falar sobre a minha família. O meu pai tinha uma oficina de ourives, começou a trabalhar aos nove anos e era cravador. Eu nasci no meio do cheiro a lacre da ourivesaria e acabei a trabalhar com o meu pai, apesar de ter tentado sempre seguir outros caminhos. Fazíamos peças em ouro, na altura era em ouro, e vendíamos às ourivesarias. 
Depois decidi seguir outro rumo e abri um Franchise da marca de roupa Tintoretto, em Gondomar. Estávamos num Centro Comercial e a certa altura as lojas começaram todas a fechar, isto no início dos anos dois mil, e demos por nós a ser a única loja num corredor quase sem luz. Então, além de todo o investimento inicial, decidimos investir noutra loja virada para a rua, mas mesmo assim não conseguimos salvar o negócio, o que foi catastrófico, para mim e para a minha sócia. Não sei o que foi, talvez a conjuntura, como se viu depois pela crise financeira que levou à Troika, mas foi terrível, lembro-me de vários suicídios.
Nessa altura eu descobri que estava grávida, porque comecei a perder sangue e soube que tinha sofrido um aborto, mas que tinha outro bebé que estava bem. Eram gémeos, portanto. Quando a minha filha do meio nasceu eu já tinha fechado a loja e fui trabalhar para uma Farmácia, duas semanas depois de ela nascer. Trabalhei lá durante cinco anos. Estava sobretudo no backoffice, mas também atendia ao balcão, sempre com supervisão, claro. Agora já não seria possível, mas na altura era. Depois voltei para a oficina, porque o meu pai estava sozinho. Ele chegou a ter mais de dez funcionários e já tinha a fundição, mas o negócio foi decaindo. Estivemos os dois sozinhos de 2016, o ano em que me separei, até ao ano do Covid. Lembro-me perfeitamente do dia em que tudo fechou, porque foi o dia em que recebi em casa a carta de aprovação da marca que eu decidi criar para vender as minhas joias, a Ama Yello
Sempre me pareceu que este negócio de família acarretava alguma dificuldades. Eu lembro-me que o ouro era taxado a 36 por cento de IVA, por exemplo, havia sempre inspeções quando tínhamos de fazer entregas e as condições de pagamento eram uma coisa surreal. Havia clientes que só pagavam as encomendas no ano seguinte. Não há nenhuma empresa que consiga sobreviver assim. O declínio da ourivesaria era muito óbvio, apesar de ter tido momentos muito bons. Na altura do Covid eu estava a trabalhar no El Corte Inglés e conciliava esse emprego com a ourivesaria, mas tornou-se evidente que tínhamos de mudar alguma coisa. Era um barco a afundar. 
Entretanto, fiquei desempregada e tive de arranjar outro emprego. Lembrei-me da experiência que tive numas férias quando tinha 18 anos e decidi mandar o meu currículo para trabalhar numa cave. A minha intenção era trabalhar em part-time, mas não era possível, por isso aqui estou. Eu vivi em França dos cinco aos 13 anos, fiz lá os primeiros anos de escola, daí dominar o francês, o que me permitiu ficar com este emprego. Não ficamos mais tempo em França, porque a minha mãe queria regressar para Portugal, tinha medo que nós, eu e a minha irmã, depois de crescermos em França quiséssemos ficar lá. O meu pai foi para França trabalhar como ourives cravador e para grandes casas, ele era mesmo muito requisitado. Para vir para Portugal recusou uma proposta da Cartier. Às vezes penso se o meu pai tivesse ficado a trabalhar na Cartier…meu Deus! 
O meu salário, cerca de mil euros líquidos, tem de dar para tudo – durante muito tempo não conseguia falar sobre isto, sobre aquela fase difícil da minha vida, eu podia ter feito como muitas pessoas fazem, declarar insolvência e não pagar nada do que devia, mas não seria o correto. Nós, eu e a minha sócia, quisemos cumprir com toda a gente, pagar tudo o que devíamos e espatifámo-nos, completamente. Não sei como sobrevivemos àquilo, tanto financeira, como emocionalmente. 
Agora, gostava de voltar a investir na minha marca de joias, porque preciso muito de criar. Não sei ainda como fazer isso, tenho de falar com uma contabilista para saber que tipo de licenças preciso, porque isto na ourivesaria é tudo muito complicado. Eu trabalho essencialmente com prata, mas também posso fazer peças de ouro por encomenda. Há uns tempos pediram-me para fazer uma aliança de casamento a partir de uns anéis da avó que estavam todos amassados, por exemplo. 
Já houve alturas em que não votei, mas desta última vez sim, e da anterior também, porque depois não posso reclamar, ou opinar, uma vez que não participei. Eu fiquei muito preocupada e chocada quando apareceu o Chega, mas agora compreendo que era necessário. Tínhamos os dois principais partidos a governar sempre da mesma forma e eu acho que os portugueses estavam a ver muita coisa a correr mal e, no fundo, esse partido veio mexer com os outros, obrigá-los a repensar e a fazer diferente. Se calhar, muitas vezes, aquilo que rejeitamos é aquilo que precisamos. 
Se tivesse de dar um conselho a alguém diria para não se preocuparem tanto. Um problema que agora parece enorme, daqui a umas semanas, ou meses já não tem tanta importância. Não temos de estar sempre bem, é, aliás, nas fases menos boas que podemos crescer, evoluir enquanto seres humanos."

Carrinho de mão

28.11.25
Eu sou do tempo dos babybloggers, daquele tempo em que íamos para a internet dizer o que nos passava pela cabeça sem medo de julgamentos, vá, sem demasiado medo. Agora, de há uns anos para cá, é impossível fazer isso. Não sei exactamente porquê, mas sei que é assim. Às vezes tento justificar esta falta de vontade de vir desabafar, como noutros tempos, com a sabedoria da maturidade, sim porque uma pessoa aprende a estar calada e repara que só lhe traz vantagens, mas não é isso (até porque se eu fosse assim tão madura não tinha saído do substack num momento de raiva por não encontrar os rascunhos). É outra coisa, é termos percebido que para estar aqui a falar da nossa vida temos de, além de ter uma vida digna desse nome, saber como embrulhá-la de acordo com os gostos actuais. Ninguém quer acordar as bestas adormecidas que de repente têm muitos comentários para fazer. E não há sítios seguros nas redes apesar de muitos de nós quererem acreditar nisso (lá tive de voltar a inscrever-me), eu sempre acreditei, porque achava que era preciso levar-me demasiado a sério para temer o que quer que fosse e nunca me dei essa importância. Mas já não acredito. Talvez porque o mundo deixou de me parecer um sítio seguro. Bom, sempre houve sítios mais seguros do que outros em várias partes do mundo e na parte que me tocava eu sentia-me segura. Agora, nem tanto. 
Quando me lembrava dos sonhos que tinha a dormir, podia tentar adivinhar o que me preocupava, actualmente faço-o nas longas insónias onde todo o tipo de monstros me ensombram. Esta noite, por exemplo, eram almas penadas, doenças em forma de pessoas, braços inumanos a levarem-me os filhos, gente a chorar de dor. 
Queria voltar a sentir-me leve, sem dores nos ombros e nos joelhos, sem este peso que carrego mas nem me lembro quando foi a última vez que me senti assim. Houve sempre qualquer coisa a pesar. Há sempre, mas também há carrinhos de mão para transportar os pesos. É só arranjar um a bom preço.

Terra Nova

15.11.25


Ando há muito tempo, ia dizer anos, mas tenho evitado, apesar de ser difícil, olhar para o tempo de uma forma linear, portanto, o que quero dizer é: tenho andado a pensar em assinar a versão digital do Público, o que acabou finalmente por acontecer por causa de uma reportagem que junta dois temas aparentemente improváveis: Os territórios ocupados por Israel e vinho. 
Assim que comecei a ler, percebi que tinha de continuar até ao fim e não me pareceu bem pedir mais uma vez a uma das minhas amigas para me enviar o artigo. Depois de pagar os 30€ pela assinatura semestral (que equivale a 1 kg de carne, um pacote de cereais, uma lata das grandes de grão-de-bico, dois abacates e duas garrafas de vinho¹, no supermercado; ou um polvo e uma embalagem de rolos de cozinha), fui à procura de alguma referência sobre quem tinha ''encomendado'' aquela reportagem e confirmei que foi apoiada pela fundação Investigative Journalism for Europe (IJ4EU). E além de ler sobre o que já sabíamos - Israel conquistou os montes Golã à Síria, em 1967, durante a Guerra de Seis Dias, expulsando cerca de 95% da população síria, fiquei a saber que a Adega dos Montes Golã (Golan Heights Winery) é um dos maiores exportadores israelitas de vinho e que na última década as exportações de vinho israelita duplicaram, atingindo os 57 milhões de euros anualmente. 
A reportagem, além de dar conta da estratégia de Israel para aumentar o seu território ocupando outros países e livrando-se das populações como lhe aprouver, foca-se no facto de Israel estar a produzir vinho num território ocupado e anexado ilegalmente. E apesar de esta anexação nunca ter sido reconhecida pela União Europeia e pelas Nações Unidas, os vinhos dos Golã são vendidos como ''produtos de Israel''. É como diz o académico que fez um estudo da indústria vinícola naquela região: “A Adega dos Montes Golã ajudou a criar uma nova imagem da região – não como um território ocupado, um lugar de guerras e de sangue, mas como o lugar onde se produz vinho, onde se cria a ‘Europa em Israel’.”²
Escusado será dizer que o maior comprador destes vinhos é os EUA (72%) e, na Europa, a França (9%). 
Obviamente quis saber quais são os vinhos ''israelitas'' produzidos neste território e ia-me caindo tudo quando me deparei com um vinho que se chama Terra Nova. Não consegui saber muitas coisas a não ser que se trata de uma adega fundada em 2006 por três sócios de uma cooperativa de Kanaf e que produz 15 mil garrafas por ano, mas fiquei com a pulga atrás da orelha. 
Outra coisa que não tem nada a ver com esta reportagem, mas que me deixou tão estupefacta como o vinho israelita dos Golã, foi deparar-me com esta notícia (tentei associar o link do Haaretz, mas não foi possível, o título é qualquer coisa como "Agora é a altura certa para visitar os montes Golã [só tem de ignorar os bombardeamentos do Hezbollah])". Na verdade não deveria ter ficado tão espantada quanto isso, tendo em conta a impressão que os grupos de turistas israelitas deixam por onde passam (perguntem a quem trabalha em turismo).

¹ Uma garrafa da Adega Cooperativa de Silgueiros e outra da Symington

² Partindo do princípio que alguém tinha uma  imagem, seja ela qual for, daquela região

Trabalhadores #1

11.11.25
"Eu chamo-me Nazaré Maria Lopes Macedo, tenho 64 anos e sou empregada de limpeza. Ganho o salário mínimo e trabalho oito horas por dia. Comecei a trabalhar já nem sei bem com que idade, não foi assim muito nova, já tinha vinte e tal anos. Eu estava a estudar. O meu pai era funcionário público e a minha mãe estava em casa. Somos três irmãos. Já trabalhei como assistente médica numa clínica que havia em Santa Catarina e adorava. Estou nas limpezas há uns 15 anos. Nunca casei. 
Sempre vivi no Porto, agora estou a viver provisoriamente num quarto, porque tive de sair do apartamento onde vivia. É o costume, é aquilo que se sabe, as casas são para os turistas. Continuo à procura de uma casa, porque a esperança é a última a morrer. 
Eu voto em todas as eleições, porque acredito que as coisas podem mudar e aquilo que eu mais gostava de ver era habitações para as pessoas deixarem de viver na rua. É uma vergonha para o nosso país ver tanta gente a dormir na rua, nunca se viu tanta gente como agora. Tiram-se as pessoas das casas para dar lugar aos que vêm de fora. As casas precisam de obras, sim senhora, mas não tem jeito nenhum as pessoas serem postas na rua. Não é justo. 
Aquilo que eu gostava de dizer aos jovens é que tenham juízo e levem o futuro para a frente."

Querido Blogger

29.10.25
Fui escrever para outro sítio na expectativa de encontrar uma aplicação mais fácil de usar, já que aqui mudaram as coisas, algumas coisas pelo menos, e não me parece que mudaram para melhor, mas pode ser de mim. Acontece que não escrevi mais, como pensei que faria e não gostei muito de me ver ali, no susbstack, porque parece que estou numa daquelas salas com múltiplas reflexões em espelhos, com várias pessoas reflectidas neles. Aqui, sou só eu a olhar para mim num daqueles espelhos para onde posso entrar. Não sei, identifico-me mais contigo, mas talvez não tenha dedicado tempo suficiente ao que me parece ser uma espécie de linkdin de artistas. 
Eu gosto de acompanhar as tendências e arriscar mudanças, mas não há mal nenhum em ficar onde nos sentimos mais confortáveis, pois não? Por isso, aqui me tens. 
No outro dia, trouxe da biblioteca uns livro de Camilo Castelo Branco, um com as memórias do cárcere e outro com as cartas dispersas, e fiquei com a sensação de estar perante um grande escritor demasiado enredado nos seus dramas pessoais, que são os mesmos que ele projecta nas suas histórias. Quer dizer, é até ridículo eu estar com estas considerações quando conheço tão pouco da obra cameliana, mas é este o pão nosso de cada dia, toda a gente a opinar sobre tudo como se fosse especialista em vários assuntos. Isto para dizer que se o Camilo regressasse do mundo dos mortos¹ ele escreveria num blogue e não no substack. Acho eu. Na verdade, decidi (re)ler Camilo, porque precisava de saber mais sobre a sua passagem pela Póvoa de Varzim, depois de ver uma exposição que lhe é dedicada no Museu Municipal. Precisar é capaz de ser uma hipérbole, uma vez que não sei quando vou dar utilidade a estas recolhas de informação, mas se sinto que tenho de fazer uma coisa faço. Outra coisa que sinto que preciso de fazer é definir a classe trabalhadora. Quem são os trabalhadores que Raquel Varela quer, e bem, defender? Somos todos os que trabalham por conta de outrém? São os que estão no fim da cadeia? O operariado? Eu realmente gostava de ver estas pessoas revoltarem-se, mas a grande maioria está demasiado cansada, desinformada e amargurada para isso. Pode até acontecer de se revoltarem (quem me dera poder assistir a isso), mas não será pelas causas mais nobres. Nunca é. Só nas histórias que contamos. 

¹ O que não é uma coisa que Camilo desconsiderasse, como se pode ler no prefácio da 5.ª edição do Amor de Perdição, em 1879: ''Se, por virtude da metempsicose, eu reaparecer na sociedade do século XXI, talvez me regozije de ver outra vez as lágrimas em moda nos braços da retórica, e esta 5.ª edição do Amor de perdição quasi esgotada.''

O diagnóstico

28.9.25
A minha filha foi diagnosticada com PHDA (Perturbação de Hiperatividade/Défice de Atenção) e eu pensei em várias coisas ao mesmo tempo. Primeiro, isto porque no discurso verbal temos de apresentar as ideias por uma ordem, lembrei-me da história de uma amiga que vivia em Timor (podia dizer conhecida, mas não existe isso naquela ilha) e que sofreu um acidente nos tumultos de 2006, quando levou com uma pedra no rosto. Durante algum tempo ela pensou que nunca iria conseguir abrir a boca, mais do que o suficiente para enfiar a comida e mastigar com dificuldade, sem ser submetida a uma cirurgia complexa e com uma recuperação dolorosa. A mãe sugeriu que procurassem outro especialista para ouvir outra opinião, mas o diagnóstico foi o mesmo - tem de ser operada. O seguinte disse o mesmo e, finalmente, o terceiro (ou quarto, já não me lembro quantos é que ela consultou) disse-lhe para não se preocupar, que ela ia acabar por recuperar e voltar ao normal naturalmente. Quando saíram do consultório, a mãe disse-lhe: "Estás a ver? Nunca devemos desistir, só temos de continuar a procurar um médico que nos diga o que queremos ouvir". E, realmente, ela acabou por recuperar.
A minha filha achava, há muito tempo, que tinha PHDA, depois de ter sido diagnosticada com depressão por um pedopsiquiatra para logo a seguir o diagnóstico ser retirado, assim como a medicação, pelo mesmo especialista. Mais tarde, veio o da bipolaridade por uma psiquiatra e, finalmente, o diagnóstico que ela procurava. 
A segunda coisa que pensei foi como é que não vi? Eu eduquei-a, eu passei anos da minha vida de volta dela, e durante oito anos só dela, antes de nascerem os irmãos, eu não tirei os olhos, os braços, o peito de cima dela, o que é que me escapou? Eu sei que o diagnóstico desta perturbação é raro nas crianças do sexo feminino, mas será que deveria ter ido à procura dele?
Toda a gente dizia que ela era uma criança diferente, "genial", mas para mim era uma criança normal. Era a minha menina, que chorava sempre que tinha de ir para a creche e infantário, que adorava brincar às lojas, que gostava de comer e depois deixou de gostar, que adorava o Sérgio Godinho e a Floribela. Quando foi para a primária a professora mandou-a sair da sala com o colega, porque não paravam de falar. Eles saíram e foram bater à porta de outra sala. Foi a professora que me contou, a queixar-se de ela não parar de falar e a elogiar-lhe o desenrasque. Em Lisboa, noutra escola primária, foi seleccionada para debater na Assembleia Municipal e conseguiu que a escola tivesse um novo ginásio, mas quando tinha de fazer os trabalhos de casa levantava-se e sentava-se mil vezes e não era assim tão raro cair para trás com a cadeira. Para mim era normal, tanto uma coisa, como outra. 
Já no conservatório de música a directora de turma disse-me que ela devia ir a uma psicóloga, porque achava que ela podia ser bipolar. Eu achava que ela era adolescente, mas fomos para o hospital psiquiátrico da infância e adolescência, que serviu basicamente para ela começar a interessar-se por psicologia. 
Não vi, porque apesar de tudo ela era boa aluna e uma criança feliz. Na adolescência já não me parecia tão feliz, mas quem é feliz nessa fase da vida? Depois, apesar da auto-exigência, da volatilidade dos interesses, eu acreditava que ia ficar tudo bem. Até ter deixado de ficar. 
Quando falámos sobre isso ela disse-me que tendo em conta que a doença, ou condição, tem uma forte componente genética e que o Isaac provavelmente sofre do mesmo (houve uma professora na primária que achou que ele poderia ser hiperativo), a probabilidade de eu sofrer de PHDA é considerável. Não dei grande importância a esse pormenor, porque não ando à procura de diagnósticos, por enquanto, mas no outro dia estava na biblioteca a ler as Memórias do Cárcere, de Camilo Castelo Branco, e peguei no telemóvel para procurar o realizador do filme O Quadrado, porque devo ter pensado em Estocolmo, onde queremos ir juntas, e quis confirmar se o museu era nessa cidade (é em Gutemburgo) e ocorreu-me se a catadupa de pensamentos sem ligação aparente uns com os outros seria um sintoma desta condição. 


Ser o que somos

6.9.25
Estou a ler o diário de Fernão de Magalhães e a achar tudo fascinante¹ - a descrição dos povos que vai encontrando, a linguagem técnica da rota e das embarcações, a forma meticulosa de relatar os acontecimentos e certas observações como esta: "(...) andámos a singrar o mar Pacífico no qual Deus, na sua sabedoria infinita, parece que Se esqueceu de pôr terras, ilhas e gentes para melhor proveito das criaturas que habitam neste mundo''. Mas o que mais me deixou espantada foi perceber que a maior parte do diário é sobre as intrigas da corte e as guerrilhas entre os tripulantes. 
O homem é o protagonista de uma verdadeira epopeia e não há um único relato apaixonado sobre tempestades, monstros marinhos, perigos à espreita e por aí fora. Quase de certeza encontro esses relatos nos registos de Pigaffeta (há um ou outro que aparece no livro, mais direccionado ao heroísmo de Magalhães), uma vez que os escritores são mais sensíveis aos fenómenos da Natureza, da humana e da natural por assim dizer, mas sei lá se vai continuar a apetecer-me ler sobre a circum-navegação.²
Estava a dizer que o que me deixou espantada foi o quanto o relato das intrigas, e problemas entre os seus pares e a Corte, ocupa as páginas do diário, mas se calhar não deveria espantar-me. O problema é sempre as pessoas. 
Todos os dias confronto-me com essa realidade, mas não foi sempre assim. Não sei se estou diferente,  ou se estou só a trabalhar no sítio errado. Infelizmente, ainda (!!!!!!) é com as pessoas do trabalho que se passa mais tempo.

Outro assunto completamente diferente, sem deixar de estar relacionado com eu ser uma pessoa diferente do que fui, decidi sair do grupo que escreve semanalmente (ou quando calha) sobre o mesmo tema. Estou numa fase da minha vida em que preciso de ver os resultados das minhas acções. Pode ser por causa daquilo da dopamina, não sei, mas não quero estar num projecto só porque é giro, quero estar com uma intenção, quero vê-lo crescer e florescer no meu tempo de vida, que não sei qual é, mas é sempre pouco. É verdade que muitas vezes uma semente cai em terreno fértil e cresce sem qualquer cuidado, mas por norma uma semente precisa de água e sol, às vezes sombra, para florescer e continuar a crescer. Não tenho qualquer dúvida que o Largo (o nome que decidimos dar ao colectivo) pode vir a ser um belíssimo jardim - já é um conjunto de canteiros bem bonitos, mas eu preciso de outra coisa. 
Seja como for, foi muito bom fazer parte deste projecto: escrevi textos de que gosto bastante e outros nem tanto, descobri o substack, e com ele pessoas que andam a dizer coisas muito interessantes, e percebi que quero continuar a escrever num blog quando me apetecer, sem subscritores e sem preocupações com temas. Escrever para mim. 


¹ Tenho a noção de todas as implicações das Descobertas, além do heroísmo que nos permitiu conhecer o mundo, e sei que apesar de só termos um vislumbre, neste diário, das barbáries e explorações dos povos indígenas, é evidente a convicção dos portugueses/castelhanos da sua superioridade em relação aos outros humanos. Mesmo assim continuo fascinada.

² Parece que nos apontamentos que ele escreveu, depois de ter entregado o diário que fez a bordo das naus, Trinidad na ida e Victoria na volta, ao rei D. Carlos, há uma série de textos eróticos a roçar a pornografia, pelo que talvez me apeteça ler.

Terapia

11.7.25
O que eu queria era estar numa residência artística para escrever. Quer dizer, para criar já que é isso que se faz numa residência artística, cria-se. Ora, eu podia criar galinhas, como a minha mãe faz, ou podia criar filhos, se já não estivessem criados (a que idade consideramos as crias humanas criadas?), também há muita arte nisso, mas eu queria escrever. Isto é, queria ser paga para o fazer, ou melhor, queria ver o que aconteceria se tivesse um ano sem qualquer outra obrigação que não fosse escrever.
Quase aposto que bloquearia. Ou não. Passaria muito tempo a tricotar e a caminhar, isso é certo, para arrumar ideias, que é o que se procura com a terapia, e sairia de lá com umas quantas páginas e algumas camisolas e cobertores. E aceitaria que a conjugação de uma série de factores aleatórios, incluíndo a insuficiência de talento, não me permitiu chegar onde queria.
Aceitação. É na aceitação que se encontra a redenção, não é?  Eu sempre confundi aceitação com acomodação e isso não é para mim. Não quero acomodar-me. Mas o que descobri com o tempo - é, a passagem do tempo tem as suas vantagens -, é que a aceitação pode demorar uma vida inteira, porque não podemos aceitar aquilo que não conhecemos e o auto-conhecimento é das coisas mais incómodas que podemos experienciar.
Dito assim até pareço muito entendida, mas isto é puro senso comum. As terapias que fiz ao longo da vida resumem-se a dois tratamentos para a depressão (sobretudo drogas e pouca análise), algumas experiências mais ou menos esotéricas e muita observação à minha volta.
Ainda não sei quem sou, mas estou a caminho de descobrir, espero, porque saber quem somos, no sentido Junguiano do termo, resolve a maioria dos nossos problemas, reais ou inventados, se não mesmo todos. 

Outras terapias:



Salvação

4.7.25
Desta vez achei que tinha de arriscar um haiku:

Salvação sweet
No sal da água do mar
Corri para ti

No original tinha escrito alva, em vez de sweet, mas depois fui ver O Salvado, hoje, e a Olga Roriz usa a palavra sweet relacionada com salvação, ou assim entendi, já não sei. Que beleza de espectáculo! 
Estou farta de dizer e vou continuar a insistir: A ARTE SALVA.
A certa altura ela diz: O mundo pode desabar mas a poesia salva (estou a parafrasear, porque não decorei).
Não tenho quaquer dúvida. Só a arte nos pode salvar. 

Não bebo cerveja

27.6.25

quando como sardinhas assadas, ou bacalhau cozido. Não bebo cerveja ao jantar, a não ser que vá comer uma francesinha.
Não bebo cerveja tão frequentemente como bebo vinho. E quando bebo é quase sempre Super Bock. Também bebi muita Tiger em Timor-Leste e Bintang na Indonésia. Na Tailândia bebi Singha e em Amesterdão Brouweriij'tij.
Mas não bebo cerveja, a não ser que esteja a comer tremoços numa tarde de Verão, francesinhas, como já mencionei, ou depois de uma empreitada como fazer mudanças, ou acartar entulho das obras.
Seria melhor dizer: bebo cerveja às vezes, mas não é esse o tema.
Tenho a certeza que há uma lista, algures, que incluí cerveja. 

Caramelo

20.6.25
Há filmes, ou guiões, que ficam gravados, mesmo que não nos lembremos do nome, ou dos nomes dos actores/actrizes que os protagonizam. Aconteceu-me recentemente com o Rosetta, a propósito da tábua de salvação que um emprego é para tanta, tanta gente. Vasculhei em todo o lado, isto é, no google, à procura do filme, perguntei a amigos e nada. Até que me apareceu uma notícia sobre Émilie Dequenne em Cannes e fez-se luz na minha cabeça.
Com Caramelo não foi assim. Neste caso nunca me esqueci do nome do filme, nem do salão de beleza, onde se cruzam as cinco mulheres da história, e de vez em quando lembro-me dele, sobretudo da personagem Jamale, protagonizada por Gisèle Aouad.
Jamale é uma mulher de meia idade, divorciada e modelo em part-time. Há uma entrevista, ou um casting, para participar num anúncio, ou algo do género, e na sala de espera estão umas quantas mulheres mais jovens. Então, Jamale vai ao quarto de banho sujar a saia para parecer que lhe veio o período. É dessa forma que se sente menos deslocada. 
A lista de compras que publiquei no último post começa com pensos higiénicos e confesso que pensei se me apeteceria publicá-la, quando tenho tantas espalhadas, como esta por exemplo, que está no caderno onde escrevi este post (hoje estou de folga e estava no café à espera da Helena): 
- cebolas roxas 
- queijo brie 
- massa folhada 
- iogurte grego 
- manteiga de amendoim 
- bacon fatiado (será que tenho bacon em todas?) 
- atum 
Depois pensei de onde me terá vindo o pudor, já escrevi aqui sobre pensos higiénicos e outras coisas bem mais escatológicas, sem grandes preocupações e agora penso duas vezes antes de publicar umas coisa tão banal? será da idade? 
Também não sei porque é que uma coisa tão apelativa como o caramelo me trouxe até duas actrizes que, fiquei a saber hoje, já morreram.

Outros caramelos: