Uma pessoa triste

8.2.20

Dois anos depois de ter regressado a Portugal voltei a sentir-me como antes de sair daqui. Voltei a acordar sem vontade de sair da cama, a ter de fazer um esforço para executar as tarefas mais básicas, a engatar os pensamentos uns nos outros, a ter medo de enlouquecer...
Tem vindo a acontecer, claro, não foi assim de repente, mas percebi claramente que tinha chegado ao mesmo ponto quando dei por mim a ler a entrevista póstuma a George Steiner no El País, a ponderar assinar o Expresso Digital para ver o que Kirk Douglas, ou Issur Danielovitch Demsky, disse aos 100 anos a propósito da sua longevidade, que atribuiu ao amor e às longas conversas com a mulher, Anne Buydens, a fazer scroll down no artigo sobre Dorothy Parker e, por causa disso, ir procurar a Mesa Redonda de Alonquin. Tudo isto sem retirar grande prazer das leituras e com a sensação de que devia estar a fazer outra coisa.
Não tenho feito as caminhadas habituais, deve ser por isso. Fiquei a pensar se os meus filhos olham para mim como uma mãe deprimida, mesmo que não saibam exactamente o que isso significa (nem eu, por acaso) e mandei mensagem à que já tem idade para perceber. Ela respondeu: «Não me lembro em que ponto é que realmente me apercebi disso, até porque durante muito tempo foi só um conceito abstracto, mas sinto que sempre tive a noção que eras ''triste''».
Pronto, se calhar eu sou uma pessoa triste, com muitos momentos de alegria e outros de grande alegria. Não há-de vir grande mal ao mundo por causa disso.

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