Cartas da Póvoa #1

5.3.18
Jaime,

Comecei por escrever "Querido Jaime" mas depois soou-me estranho. Serei assim tão pouco afectuosa, ao ponto de não me lembrar de te chamar querido, alguma vez? Bom, talvez seja melhor não responderes a esta pergunta.
Quando comecei esta coisa das cartas para encurtar a distância entre mim e a Bea estava longe de imaginar que estava a pouco tempo de ficar mais próxima dela e mais distante de ti. 
Mas eis-nos aqui às voltas com mais um Cisne Negro. Confesso que depois do impacto deste acontecimento imprevisível, estou ansiosa pela "explicação que o faz parecer menos aleatório e mais previsível do que aquilo que é na realidade". Já vais avançado na leitura do livro, ou nem por isso?
É das poucas coisas que gosto em mim, a de continuar a acreditar piamente que os livros têm todas as respostas. 
Faz hoje precisamente duas semanas que saíste daqui e ainda não conseguimos descobrir a hora certa para nos encontramos na pontas dos dedos. E isto quase que podia ser sensual se não metesse telemóveis e conversas desencontradas mas, bom, ele há gostos para tudo...
Parece que estás longe há imenso tempo e, no entanto, ainda não passou tempo suficiente para me sentir familiarizada com a tua ausência.
O que mais me custa é não saber o que estás a pensar, a sentir, o que te faz rir, o que te exaspera, o que te enternece. Ou seja, o que me custa na tua ausência é a falta da tua presença. Não gozes, a gramática nem sempre está preparada para o que queremos dizer.
Às vezes, muitas vezes, consigo estar um bocadinho contigo nas coisas que me escreves mas tens escrito pouco, contado pouco.
No outro dia, depois do Correntes d' Escrita, dei por mim a pensar no monte de banalidades que teria partilhado contigo. Sabias que o João Tordo é gago? E o Valério Romão, sabes, que escreve sobre família é um gajo, pareceu-me, que apreciaria jantar cá em casa. Não mais do que nós apreciaríamos jantar com ele, obviamente. A Isabela é diferente do que imaginava e o texto que o Sandro William Junqueira leu surpreendeu-me.
Sobre o evento só te disse que tinha gostado muito e não me demorei no assunto, mas se estivesses aqui provavelmente tinha inventado uma relação entre os cactos da Isabela, o escaravelho do Valério, as mulheres do Mû Mbana e o Mar da Ana Margarida de Carvalho. Contei-te que a audiência do Cine-Teatro Garret começou a cantar espontaneamente "O mar enrola na areia"? Os poveiros se não existissem tinham de ser inventados (e nunca esta expressão fez tanto sentido)!
Os miúdos estão bem, parece-me que cisnes negros são uma coisa muito mais natural para eles. Eu é que continuo às voltas com as escolhas e as decisões que tomamos a pensar neles, mas o Nicolau tem dado umas pistas com aquela do "nós só queremos ter uma mãe feliz!" e  a outra, "o problema é nós não sabermos que coisas te vão chatear".
Na semana passada fiz uma massa de frango que terias apreciado, apesar de ser uma especialidade tua. Hoje vou cozinhar amêijoas, mas daquelas congeladas que já vêm sem casca. Deve resultar bem num arroz malandro. 

6 comentários:

  1. O fuso horário complica tudo. E nós complicamos tudo o resto.
    Posso aproveitar esta caixa para publicamente te dizer aquilo que já te disse centenas de vezes? Não sei viver sem ti. Sim, eu sou um mariquinhas e choro pelos cantos ou esvazio uma de tinto para não pensar tanto nisso.
    Falamos pouco é verdade. Logo nós que adoramos conversar um com o outro. Tu cismas com a distância e geres estes silêncios em modo aflição. Por vezes enquanto vagueias na minha ausência preferes colocar em causa o nosso amor como se a distância não fosse causa mas sim efeito. A distância, em nós, nunca é uma vontade. Mas tu tens esse sonho, ambição, de sermos ainda mais diferentes e de rasgarmos euros e dólares e vivermos numa cabana enquanto olhamos para os cumes das montanhas. Sempre. Todos os dias juntos. Mas para já, e pelos tantos cisnes que nos enchem a vida, ainda não dá.
    Lembras-te de que dissemos os dois, de mãos dadas a passear na Póvoa, que às tantas a cirurgia surpresa foi uma coisa boa que nos permitiu passar mais tempo juntos, mudar de vida e começar algo diferente e melhor? E que esta hérnia veio trazer novas oportunidades para eles, os três, serem mais felizes. Foram dois meses muito bons esses que passamos juntos. E quando, mesmo com um de nós quase inválido, temos dias como esses, como podemos duvidar do que seja?
    Agora não passeio contigo e vejo, todos os dias, os teus sapatos junto aos meus e lá choramingo mais um pouco. Por aqui sinto a vossa falta em todos os sítios porque em cada sítio que estou já lá estive convosco e parece-me que cada um desses sítios está vazio. Vejo o Isaac a conduzir o empilhador, vejo o Nicolau a fazer desenhos no chão da sala, vejo-os a correr no Ocean View, vejo-te ao meu lado na cama, vejo-te ao meu lado no carro, vejo os teus pés descalços pela casa.
    Hoje comecei a separar as primeiras coisas que vou enviar para Portugal. Envio email sobre o assunto mas preciso de saber que sapatos e roupa tua devo enviar. E se devo enviar os sapatos deles porque os pés deles estão sempre a crescer, não é. E os brinquedos deles. Será que vou adivinhar o que querem eles que envie? Mas não lhes vamos perguntar nada disso.
    Os dias por cá correm intensos.Tu sabes o que me exaspera. O que me enternece são pequenos sinais de carinho de algumas pessoas que por aqui se cruzam comigo. O que sinto é sobretudo uma saudade imensa. O que me faz rir são muitas coisas. Mas tu sabes que eu rio com tudo.
    E fazes-me falta de muita maneiras Calita. De tantas que nem quero pensar nisso. Os meus dedos, as minhas mãos, a minha boca ficam pobres e tristes sem o sabor da tua pele. E depois temos o resto todo. Sem desprimor pelas boas pessoas que me fazem companhia não há ninguém com quem aprecie mais matar um dia com um copo de vinho, uma massa de frango e conversas sobre tudo e sobre nada. Escolho-te sempre a ti.
    Abril está quase aí. Até lá vou chorar mais umas quantas vezes e rir-me ao ver os meninos no ecrã do meu telefone. Abril está quase aí. E Abril é sempre aquele mês, não é?
    BEIJO

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    1. Podias ter respondido por email e eu decidia se publicava :P
      Beijo

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  2. Vocês fizeram-me chorar! Esse jantar com o Valério Romão: mandem-lhe cumprimentos meus.

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    1. Eu ia fazer-me convidada mas não quis abusar!

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  3. Ainda bem que ele não respondeu por email. Ainda bem... Que bonito, que beleza. Ambos. Paula

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