Nasceu há quatro meses (fez ontem) numa madrugada, no mesmo dia que aquela revolução. O relato do parto foi sendo adiado, porque, não sei, acho que o encarei como a coisa mais natural do mundo e, como tal, sem merecimento de grandes parangonas. Devo dizer, para quem não sabe, que calhou-me (fiz por isso?) ter três partos completamente diferentes. O primeiro cesariana. O segundo com ventosa e o terceiro normal.
Do primeiro para o último passaram dez anos e não há comparação possível na forma como os profissionais de saúde lidavam e lidam com as parturientes. Eu tive uma obstetra fabulosa na primeira gravidez, que me fez uma cesariana para eu não passar a noite sozinha (ela terminava o turno) no hospital a tentar dilatar quando parecia haver poucas possibilidades de isso acontecer. Que me perguntou o que queria fazer e eu escolhi a cesariana, porque ela me disse que era o que faria no meu lugar. Da segunda vez escolhi de outra forma. E da terceira também (o único parto não induzido). E o podermos decidir, dentro das possibilidades existentes, sobre o nosso parto faz toda a diferença.
Do Nicolau comecei com os primeiros sintomas de trabalho de parto às 37 semanas, com a perda do rolhão mucoso, ou parte dele. Ele nasceu três semanas depois e esses dias foram os mais esgotantes da minha vida. Fui duas ou três vezes ao hospital com contracções e suspeita de perda de líquido amniótico, mas estava tudo bem. No dia 27 de Abril, depois de uma noite em claro, e uma ida à urgência de manhã, estava desolada com a perspectiva de termos de marcar a indução no dia seguinte. As contracções não me deixavam em paz, mas tentava ignorá-las por saber que não estava em trabalho de parto activo. Mas por volta das 17h00 percebi que tinha começado. Pedi ao Jaime para contar quanto tempo duravam enquanto lhe apertava a mão e ele disse que mais de um minuto. Não eram ritmadas. Tanto vinham de dez em dez minutos como de sete em sete, ou 15 minutos. Decidimos que era melhor arrancar para o hospital. O Jaime levou-me com os miúdos e voltou para casa para esperar pela babysitter. Passava das 19h00. Fui atendida pelo querido dr. Abushab que me disse: "Oh linda, isto não deve ser para hoje, só tens dois dedos de dilatação". Ao que eu respondi: "Ah, então é para hoje doutor, acredite". Seguiu-se o ctg com as enfermeiras a gabar as minhas contracções e depois uma espera interminável, cá fora, numa sala de espera cheia de gente. Durante as contracções respirava e segurava-me num corrimão que lá havia. A certa altura comecei a dar pontapés na parede. Liguei ao Jaime a perguntar se demorava. Às 21h00 entrei pela porta dentro e pedi ajuda. Estava com três para quatro dedos de dilatação. Podia ser internada, mas não havia sala de partos. Pedi para vir cá fora caminhar, disseram-me que era melhor ficar sentada. Perguntei se podia chamar o Jaime (tinha chegado entretanto) e ele veio sentar-se ao meu lado no corredor.
Estivemos ali pouco mais de uma hora. Eu comecei a ficar com medo de não conseguir lidar com a dor. Gemia baixinho. O Jaime tentava fazer-me rir. Chegou a minha vez de ser internada. Preencher formulários, tomar um duche quente, mudar de roupa e seguir para a sala de partos. Eram 23h00. "Quando posso levar a epidural?", perguntei. "Quer a epidural?", perguntou o médico. "Sim, sim, por favor", respondi. "Pode levar já". A enfermeira dizia que não estava a respirar bem, para relaxar. Eu sentia todos os meus músculos em tensão, mas não conseguia relaxar. E depois de uma avaliação ao colo do útero muito dolorosa chegou a epidural. A seguir entrou o Jaime e ficámos a conversar serenamente (com muito poucas interrupções) até à altura em que as contracções começaram a ficar insuportáveis. Novo reforço de epidural, já com a bolsa rebentada. Por volta das 2h30 comecei a ter vontade de fazer força. Chamei a enfermeira, ela pediu-me para fazer força e disse que estava quase. Às 3h00, a enfermeira disse que estava na hora e foi chamar a médica. Ela entrou, disse "quando quiser" e três minutos depois o Nicolau saiu, o meu menino. Nesses minutos que antecedem o nascimento, pude senti-lo claramente desta vez, há uma energia que toma conta de nós. Por momentos desaparece tudo o que está à nossa volta. Somos nós e o nosso filho (e um bocado de medo que a dor que parece queimar nos possa endoidecer). E depois é só ele. Tocar-lhe, sentir-lhe o cheiro, ouvi-lo chorar (o Nicolau demorou a chorar), dar-lhe a mama. E depois somos os três. Com pena de não estarmos os cinco.
Foi assim. Um parto sereno como o próprio Nicolau.
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Sinestesias
13.5.11
Cheiro a leite, a recém-nascido, a estrugido, a areia dos gatos, a lóquios, a salmão fumado, a suor, a pão acabado de fazer, a amargo, a xixi, a ferrugem, a pó e a roupa a corar. Às vezes também cheiro a chuva.
Ainda o puerpério
10.5.11
Sim, sim, estou bem, obrigada, operacional e com uma barriga de grávida de cinco meses e melões em vez de mamas. Ontem, até se deu o caso do pai ir trabalhar umas horas (apesar de estar a gozar a licença de paternidade a que tem direito) e eu ter tido, assim, a oportunidade de ver como vai ser a minha vida daqui para a frente, sozinha em casa com dois bebés. É claro que chorei. Mas ao fim do dia tive a visita de amigas e reconciliei-me novamente com a minha existência ao jantar. Porque, já se sabe, uma mesa com comida e bebida e amigos à volta é tudo o que precisamos para estar bem. E de dormir, claro, mas isso lá para 2013, quem sabe...
αἱμορροΐς
3.5.11
Eu, agora, se fosse uma gaja mesmo, mesmo como deve ser, e no seguimento das belas fotos da barriga, do menino e tal, escarrapachava aqui as hemorróidas que trouxe do hospital, porque isto é tudo muito bonito mas há sempre o outro lado da moeda, e esse eu gostava de ter coragem de mostrar, não só para chocar os mais incautos, como para manter uma certa coerência.
E, pronto, ainda não é desta que digo que me doem as mamas (o que é um facto), mas posso dizer que me dói o rabo!
E, pronto, ainda não é desta que digo que me doem as mamas (o que é um facto), mas posso dizer que me dói o rabo!
E pronto
20.4.11
Já se fala na indução. Se não fosse estar tudo tão bem com o Nicolau (parece que é um gajo como deve ser: rijo e atlético) e o médico ter-me chamado "linda" e mandar-me para casa descansar e fazer sexo, era gaja para estar mesmo, mesmo deprimida. É que pensei que era desta que entrava em trabalho de parto sem hormonas artificiais...
Pronúncias
15.4.11
O dr. Shadi Abushab disse que eu estava óptima e o bebé excelente!!!!Estou???? Ainda bem, então, até daqui a uma semana. Já dentro do taxi com passadeiras (tapetes de trapos) nos bancos pus-me a pensar que nem que tivesse vinte filhos me habituaria a esta coisa do "tire lá a roupa, então, e deite-se ali" e que nunca tinha apanhado um médico indiano, que me pareceu tremendamente eficiente e simpático, mas ainda assim prefiro a médica brasileira. Não sei porquê, e correndo o tremendo risco de parecer preconceituosa (não há como não parecê-lo quando se gosta tanto de generalizações), meti na cabeça que os médicos que falam o português do outro lado de Atlântico são mais sensíveis à dor e aos males físicos e emocionais no geral.
Eu, numa relação bondage?
12.4.11
-Olha, provavelmente vou arrepender-me, porque ambos queremos que estejas em casa o máximo de tempo possível quando nascer o bebé, mas se puderes acho melhor meteres uns dias de férias agora, porque preciso de ti - disse-lhe eu.
-OK, vou ver o que posso fazer - respondeu ele.
E assim, desde ontem, temos o gajo a controlar as coisas em casa; a levar-nos, contrariado, à praia, para que a mais velha se atire ao mar gelado da Caparica, o mais novo coma toda a areia que lhe apeteça e aqui a foca possa andar/rebolar de um lado para o outro, enquanto trauteia "Suor e Fantasia", a imitar o JP Simões, porque a "vida é difícil sempre foi", a ver se o parto se despacha a começar.
Também por isso posso dar-me ao luxo de encostar-me ali no sofá, com o sol a entrar pela janela, de livro na mão a pensar que mais uma vez o "Ulisses", do James Joyce, se impõe na minha vida (depois de tanto ouvir a minha amiga Mrs. Woolf falar do livro) e a tentar encontrar uma razão para isso, como a circularidade das viagens de que fala Vila-Matas, por exemplo, mas a única coisa que me ocorre (e que não tem rigorosamente nada que ver com o livro, acho eu) é que vivo numa relação bondage com o fim da minha gravidez. E eu, que achava que se alguma vez entrasse neste tipo de fetiche seria para dominar, vejo-me completamente dominada pela coisa.
Todos os sinais de que o trabalho de parto está para começar estão presentes e quando começam as contrações (desde domingo que chegam mansinhas e aumentam de intensidade durante duas horas, depois diminuem, depois acabam, depois recomeçam) eu fico à espera de novas indicações a ver se será preciso ligar à babysitter, atenta a todas as sensações, com todos os poros do meu ser a ser controlados por esse poder.
De maneira que agora, pronto, estou para aqui a sentir-me vítima de maus tratos e a achar que mereço, porque na realidade eu não estou ansiosa que o Nicolau nasça. Eu estou é com vontade que a gravidez termine para resolver uma série de coisas práticas que têm de ser resolvidas e isso é muito pouco condizente com todas as coisas bonitas ligadas ao nascimento.
-OK, vou ver o que posso fazer - respondeu ele.
E assim, desde ontem, temos o gajo a controlar as coisas em casa; a levar-nos, contrariado, à praia, para que a mais velha se atire ao mar gelado da Caparica, o mais novo coma toda a areia que lhe apeteça e aqui a foca possa andar/rebolar de um lado para o outro, enquanto trauteia "Suor e Fantasia", a imitar o JP Simões, porque a "vida é difícil sempre foi", a ver se o parto se despacha a começar.
Também por isso posso dar-me ao luxo de encostar-me ali no sofá, com o sol a entrar pela janela, de livro na mão a pensar que mais uma vez o "Ulisses", do James Joyce, se impõe na minha vida (depois de tanto ouvir a minha amiga Mrs. Woolf falar do livro) e a tentar encontrar uma razão para isso, como a circularidade das viagens de que fala Vila-Matas, por exemplo, mas a única coisa que me ocorre (e que não tem rigorosamente nada que ver com o livro, acho eu) é que vivo numa relação bondage com o fim da minha gravidez. E eu, que achava que se alguma vez entrasse neste tipo de fetiche seria para dominar, vejo-me completamente dominada pela coisa.
Todos os sinais de que o trabalho de parto está para começar estão presentes e quando começam as contrações (desde domingo que chegam mansinhas e aumentam de intensidade durante duas horas, depois diminuem, depois acabam, depois recomeçam) eu fico à espera de novas indicações a ver se será preciso ligar à babysitter, atenta a todas as sensações, com todos os poros do meu ser a ser controlados por esse poder.
De maneira que agora, pronto, estou para aqui a sentir-me vítima de maus tratos e a achar que mereço, porque na realidade eu não estou ansiosa que o Nicolau nasça. Eu estou é com vontade que a gravidez termine para resolver uma série de coisas práticas que têm de ser resolvidas e isso é muito pouco condizente com todas as coisas bonitas ligadas ao nascimento.
Esperança
9.4.11
Esperar é no que se transforma a nossa vida quando estamos no fim do tempo da gravidez. Esperamos pela nossa vez no ctg, pela dilatação, pelo bebé. Estamos de esperanças e vivemos dela, da esperança. Nunca se está tão perto da vida, desse estranho milagre, como quando parimos um filho. E se calhar por isso, também, nunca se está tão perto da morte ao mesmo tempo. Hoje, tivemo-la ali ao lado, na sala de espera do hospital, com aquele pai a chorar daquela maneira. Era um choro tão grande que ainda não consegui separar-me dele.
Breve relato (relativamente escatológico) em jeito de ponto de situação
7.4.11
sábado: mudança para a casa nova*.
domingo: almoço e lanche cozinhado na cozinha nova, com pratos, panelas e copos no sítio. Alguns livros e alguma roupa no sítio.
segunda-feira: hospital depois de uma tarde com contrações do tipo wrestling**. Tudo Ok, regresso a casa.
terça-feira: perda do coiso com nome nojento. 38 anos festejados com comida goesa e prenda bordada.
quarta-feira: audição da pequena com muita caminhada e escadas até chegar a casa. Depois do jantar consegui o feito de chegar à cama e responder a perguntas ao mesmo tempo.
quinta-feira: sono turbulento com contrações do tipo grindhouse*** e que continuam agora em modo western****.
*está-se muito bem aqui.
**estas contrações são assim chamadas porque são como as chapadas: doem mais por não servirem para nada.
***estas são aquelas que nos podem pôr a guinchar como porcos em dia de matança, coisa que não acontece, naturalmente, porque somos gente que sabe lidar com a dor e que acha esta coisa de parir o mais natural do mundo e tal e tal. O nome é inspirado mais no filme do Tarantino do que no género dos anos 70, porque o realizador tem uma forma de apresentar carnes despedaçadas que fazem lembrar a dor deste tipo de contrações.
****estas são aquelas mais ligadas ao desconforto do que à dor. Os westerns estão cheios dessa sensação com aquelas roupas no meio daquele sol e daquele pó. É uma falta de ar, é o que é.
P.S a temática cinéfila ocorreu-me enquanto me contorcia na cama mas acredito que este sítio tenha contribuído de alguma forma.
domingo: almoço e lanche cozinhado na cozinha nova, com pratos, panelas e copos no sítio. Alguns livros e alguma roupa no sítio.
segunda-feira: hospital depois de uma tarde com contrações do tipo wrestling**. Tudo Ok, regresso a casa.
terça-feira: perda do coiso com nome nojento. 38 anos festejados com comida goesa e prenda bordada.
quarta-feira: audição da pequena com muita caminhada e escadas até chegar a casa. Depois do jantar consegui o feito de chegar à cama e responder a perguntas ao mesmo tempo.
quinta-feira: sono turbulento com contrações do tipo grindhouse*** e que continuam agora em modo western****.
*está-se muito bem aqui.
**estas contrações são assim chamadas porque são como as chapadas: doem mais por não servirem para nada.
***estas são aquelas que nos podem pôr a guinchar como porcos em dia de matança, coisa que não acontece, naturalmente, porque somos gente que sabe lidar com a dor e que acha esta coisa de parir o mais natural do mundo e tal e tal. O nome é inspirado mais no filme do Tarantino do que no género dos anos 70, porque o realizador tem uma forma de apresentar carnes despedaçadas que fazem lembrar a dor deste tipo de contrações.
****estas são aquelas mais ligadas ao desconforto do que à dor. Os westerns estão cheios dessa sensação com aquelas roupas no meio daquele sol e daquele pó. É uma falta de ar, é o que é.
P.S a temática cinéfila ocorreu-me enquanto me contorcia na cama mas acredito que este sítio tenha contribuído de alguma forma.
Grávidas elefantes versus grávidas focas
23.3.11
Eu espero/quero/ambiciono/desejo profundamente que este seja o último post sobre gravidez. Não há paciência para estar grávida e muito menos para falar sobre isso. Mas há coisas que precisam de ser ditas sobre uma terceira gravidez (ou quarta se contarmos com a que não passou do primeiro trimestre), tais como:
1) Esperar horas num consultório médico é a melhor coisa que nos pode acontecer: não temos os outros filhos a guinchar à nossa volta e podemos ler, fazer tricot, passar pelas brasas...o paraíso, portanto (o Mrs. Dalloway, por exemplo, regressa à estante, ou melhor para dentro de um dos caixotes)!!
2) É absolutamente indiferente se já estivemos grávidas antes, os sintomas nunca são iguais. E as contracções, essas grandessíssimas "amigas", parecem-nos sempre o início do trabalho de parto, sejam as que têm o nome do estúpido do médico inglês, sejam outras para as quais ainda hão-de inventar outro nome.
3) Sim, se é um facto que a ansiedade não vive colada a uma terceira gravidez, como se da própria placenta se tratasse, também é verdade que deixamos de ter disponibilidade e energia para hidroginásticas, caminhadas e afins. Assim, em vez de elefantes afogueados parecemos focas deprimidas (lembrete para outra vida: se tiver três filhos é começar a pari-los aos vinte anos).
4) E, por fim, ter consultas com um obstetra apenas a partir das 36 semanas, ou programar uma mudança de casa para as 37 semanas, nunca seria possível enquanto elefante afogueado.
1) Esperar horas num consultório médico é a melhor coisa que nos pode acontecer: não temos os outros filhos a guinchar à nossa volta e podemos ler, fazer tricot, passar pelas brasas...o paraíso, portanto (o Mrs. Dalloway, por exemplo, regressa à estante, ou melhor para dentro de um dos caixotes)!!
2) É absolutamente indiferente se já estivemos grávidas antes, os sintomas nunca são iguais. E as contracções, essas grandessíssimas "amigas", parecem-nos sempre o início do trabalho de parto, sejam as que têm o nome do estúpido do médico inglês, sejam outras para as quais ainda hão-de inventar outro nome.
3) Sim, se é um facto que a ansiedade não vive colada a uma terceira gravidez, como se da própria placenta se tratasse, também é verdade que deixamos de ter disponibilidade e energia para hidroginásticas, caminhadas e afins. Assim, em vez de elefantes afogueados parecemos focas deprimidas (lembrete para outra vida: se tiver três filhos é começar a pari-los aos vinte anos).
4) E, por fim, ter consultas com um obstetra apenas a partir das 36 semanas, ou programar uma mudança de casa para as 37 semanas, nunca seria possível enquanto elefante afogueado.
As grandes questões da maternidade
17.3.11
34 semanas + 4 dias
Faço a depilação? Deixo mais lá para a frente? Levo os pêlos comigo a fazer pandant com as camisas de dormir?
Hakuna Matata
15.3.11
Se eu fosse o Galal estaria tudo muito bem, mas estou tão longe de atingir a sabedoria de Cossery, para quem fazer nada é uma actividade interior, que não está relacionada com preguiça, mas sim com reflexão!
Já Villa-Matas acha que uma pessoa deve dedicar-se tranquilamente a fazer nada, que é o que fazem os artistas que já sabem tudo. Chama-lhe a solução Duchamp, no Diário Volúvel.
Já Villa-Matas acha que uma pessoa deve dedicar-se tranquilamente a fazer nada, que é o que fazem os artistas que já sabem tudo. Chama-lhe a solução Duchamp, no Diário Volúvel.
Eu chamo-lhe gravidez no último trimestre, mas sem sabedoria alguma e com bastante dificuldade em reflectir.
Quase=eternidade
9.3.11
É, é uma fofura, uma delícia, uma riqueza a roçar a pirosice e tudo e tudo, mas não deixa de ser roupa para passar a ferro, um frete do caraças, portanto.
P.S parece-me que estamos em modo babyblog(?!?!)
P.S parece-me que estamos em modo babyblog(?!?!)
Uma gravidez poderá reflectir o carácter da pessoa pequena que vai nascer?
8.3.11
Grávida do Isaac criei o MUV e convenci-me que era um projecto com pernas para andar. Cheguei a ter um tema de capa, ia falar das Alterações Climáticas uma vez que se aproximava a Cimeira de Copenhaga (os timings são tiques que se apanham) e cheguei a fazer contactos com a Quinta da Aveleda, a Agência Abreu e a Lanidor (queria mostrar casos práticos e a agricultura, as viagens e a moda pareceram-me uma boa amostra de trabalhos que sofrem a influência do clima. Além disso, as três empresas estão no mercado há mais de 50 anos, o que me parece um espaço de tempo considerável para estabelecer comparações). Até sabia como ia começar a reportagem: "Quando era criança, o dia de todos os santos, que como se sabe é o dia em que a maioria das paróquias festeja os fieis defuntos, era o dia em que se usavam pela primeira vez meias-calças, um sinal de que o frio do Inverno estava a chegar. Agora, é difícil determinar quando começa, ou acaba uma estação..." e por aí fora.
Enfim, tanto a Quinta da Aveleda, como a Abreu (a Lanidor ignorou-me) revelaram que sim, muita coisa tinha mudado, mas nenhuma delas me podia garantir que a causa era o clima. O Alberto Machado, assessor de comunicação da Agência Abreu, chegou a dizer qualquer coisa como: "Acho que é uma mulher à frente do seu tempo, porque me parece que vamos chegar a essa conclusão mais cedo ou mais tarde, mas para já não lhe podemos garantir isso". Portanto, foi bonito enquanto durou e se algum editor/jornalista quiser pegar na ideia está à vontade, mas agora está aqui a prova que a ideia é minha. Adiante, que eu juro que não vinha falar de jornalismo.
Grávida do Nicolau desenvolvo uma quase obsessão pela Virginia Woolf e mergulho em workshops de patchwork, costura e tricot para sentir que produzo, que faço, que posso, que...Quererá isto dizer que o Isaac será um activista e o Nicolau um introspectivo?
Na gravidez da Bea vivia obcecada com ela, portanto isso deveria fazer dela uma narcisista. O que por acaso...
Bom, isto é um exercício demasiado rebuscado até para mim. Vou antes comer.
Enfim, tanto a Quinta da Aveleda, como a Abreu (a Lanidor ignorou-me) revelaram que sim, muita coisa tinha mudado, mas nenhuma delas me podia garantir que a causa era o clima. O Alberto Machado, assessor de comunicação da Agência Abreu, chegou a dizer qualquer coisa como: "Acho que é uma mulher à frente do seu tempo, porque me parece que vamos chegar a essa conclusão mais cedo ou mais tarde, mas para já não lhe podemos garantir isso". Portanto, foi bonito enquanto durou e se algum editor/jornalista quiser pegar na ideia está à vontade, mas agora está aqui a prova que a ideia é minha. Adiante, que eu juro que não vinha falar de jornalismo.
Grávida do Nicolau desenvolvo uma quase obsessão pela Virginia Woolf e mergulho em workshops de patchwork, costura e tricot para sentir que produzo, que faço, que posso, que...Quererá isto dizer que o Isaac será um activista e o Nicolau um introspectivo?
Na gravidez da Bea vivia obcecada com ela, portanto isso deveria fazer dela uma narcisista. O que por acaso...
Bom, isto é um exercício demasiado rebuscado até para mim. Vou antes comer.
Mentir é pecado?*
25.2.11
Senhora mãe das gémeas peço muita desculpa, mas menti-lhe quando nos encontramos, no parque infantil, e me disse que eu também ia ser quase mãe de gémeos e eu respondi que, ainda assim, é melhor com alguma diferença de idades do que nenhuma, porque nem imagino como deve ser difícil dois da mesma idade ao mesmo tempo. Menti, porque raramente me encontro com mães tão despenteadas como eu, que tratam os filhos por tu e genuinamente simpáticas. Porque a verdade é que acho que tem muita sorte por ter tido dois filhos e apenas nove meses de gravidez.
* Reparem que nem os pecados capitais, nem os mandamentos da lei de Deus ("não levantar falsos testemunhos" não é bem a mesma coisa que mentir) referem a mentira como pecado.
* Reparem que nem os pecados capitais, nem os mandamentos da lei de Deus ("não levantar falsos testemunhos" não é bem a mesma coisa que mentir) referem a mentira como pecado.
Afinal
22.2.11
não fiquei descansadinha. A tensão subiu e o palavrão pré eclampsia instalou-se em vários recantos do cérebro. Lá fui, então, enfaixar-me em cintos e gelatinas, tirar sangue e outros fluídos menos nobres, medir a tensão e coisas assim. E como deixei o Mrs. Dalloway em casa não tenho coisas inteligentes para dizer.
A boa notícia é que anda aí um blog como nunca vi.
A boa notícia é que anda aí um blog como nunca vi.
A começar as 32 semanas
21.2.11
Para não variar acho que o Nicolau vai nascer prematuro. É claro que estou aqui descansadinha agarrada aos rins (que apertam e desapertam), porque dos outros dois achava o mesmo e depois foi preciso obrigá-los a sair, tadinhos, quando já passava das 40 semanas, já que não havia meio de entrar em trabalho de parto. E, não, não estou preocupada por não ter absolutamente nada de nada preparado. Preocupa-me que ele não seja forte o suficiente para aguentar tanta trapalhada se resolver sair tão pequenino.
Optimismo
8.2.11
O Isaac ainda não dorme de noite, o que é óptimo porque assim já estamos encarreirados para o próximo.
Começo a ter alguma dificuldade em manter-me acordada durante o dia, por isso vivo numa espécie de limbo onírico muito propício à esquizofrenia, o que pode ser bastante criativo, um dia destes.
E pareço um hipopótamo (com 29 semanas, o tamanho da minha barriga corresponde às 35 semanas de gravidez do Isaac), portanto animo o dia a várias crianças quando corro (ou tento correr) atrás do pequeno no parque.
Começo a ter alguma dificuldade em manter-me acordada durante o dia, por isso vivo numa espécie de limbo onírico muito propício à esquizofrenia, o que pode ser bastante criativo, um dia destes.
E pareço um hipopótamo (com 29 semanas, o tamanho da minha barriga corresponde às 35 semanas de gravidez do Isaac), portanto animo o dia a várias crianças quando corro (ou tento correr) atrás do pequeno no parque.
Umbigo
24.1.11
Tirando essa coisa ternurenta do Isaac oferecer bolachas ao Nicolau, esmagando-as contra o meu umbigo (suspeito que ele acha que é o umbigo que se chama Nicolau), a gravidez chegou àquela fase aborrecida. Sim, a gravidez, no geral, é um aborrecimento mas esta estava a passar bastante despercebida. Agora, ele é cãibras na barriga, ele é os ilíacos a gemer toda a noite, ele é o sono a apoderar-se novamente de todo o meu ser...Ainda assim é a gravidez que tenho menos pressa que termine. Não só porque, em princípio, será a última, mas sobretudo porque a ideia de ter dois bebés em casa começa a parecer-me um bocado assustadora.
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