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O futuro

12.1.16

Ilustração de Reginaldo Prandi no livro "Ifá, o adivinho"

Nunca o futuro me pareceu uma coisa tão irreal e distante como agora. Até aqui eu conseguia imaginar o que seria o meu futuro. Tinha até vários caminhos alternativos: Seria uma jornalista como a Martha Gelhorn e conheceria o mundo. Ou trabalharia na redacção de um jornal e teria uns quantos filhos de um homem inteligente. Ou teria uma casa sustentável no campo, com vacas, árvores de fruto e um estúdio para escrever e fazer potes de barro. Em qualquer dos casos teria um apartamento na cidade e amigos interessantes. E escreveria.
É claro que nunca fui como a Martha Gelhorn e, apesar de ter três filhos de dois homens inteligentes, o trabalho nas redacções por onde passei não foi bem o que tinha imaginado. 
Também não tenho a casa sustentável nem as vacas, mas tenho árvores de fruto e uma máquina de costura. 
Ou seja, eu estou já no futuro, por isso não sei mais o que esperar, a não ser que as crianças cresçam saudáveis e felizes. Será bonito, espero eu, ver que adultos se tornarão, mas isso será a vida deles e não a minha.
Depois, li um artigo sobre o mundo nos próximo 20 anos e fiquei a pensar que, realmente, devo ter muito pouco de futurista. É que, apesar de não saber o que esperar do meu próprio futuro, estou convencida que nos próximos 20 anos, por muito que a tecnologia continue a evoluir, vai ser difícil corrigir os erros que cometemos até agora. É, acho que nos próximos 20 anos a humanidade devia olhar para trás, basicamente. O futuro, portanto, está no passado. Sempre esteve (acho que nem eu percebo exactamente o que estou a dizer).

À procura da felicidade (num sábado à noite)

14.6.15
Ontem à noite aluguei um filme bastante parvo. Até certa altura estava com esperança que fosse nonsense mas não, era mesmo só mau. De qualquer forma, achei que devia tomar nota das descobertas sobre o que é a felicidade, que o psiquiatra foi fazendo ao longo da sua viagem.

1- Fazer comparações pode comprometer a felicidade.
2- Muitos pensam que a felicidade é ser mais rico, ou mais importante.
3- Muitos só vêem a felicidade como uma coisa futura.
4- Felicidade pode ser a liberdade de amar mais do que uma mulher ao mesmo tempo.
5- Às vezes, a felicidade é não saber a verdade toda.
6- Evitar a infelicidade não conduz à felicidade.
7- Essa pessoa fá-lo sentir-se predominantemente a) Bem ou b) Mal?
8- Felicidade é seguir a nossa vocação.
9- Felicidade é ser-se amado pelo que somos.
10- Guisado de bata-doce.
11- O medo é um entrave à felicidade.
12- Felicidade é sentirmo-nos completamente vivos.
13- Felicidade é saber como festejar.
14- Ouvir é amar.
15- A nostalgia já não é o que era.

Gnocchi

3.6.14
foto daqui
A certa altura do livro, Siri Hustvedt diz ao marido, Paul Auster, que foi precisamente para conhecer pessoas, como o homem que encontraram num restaurante, que quis ir viver para Nova York. Curiosamente, a tal pessoa fascinante que conheceram tinha nascido na mesma cidade que ela, no Estado do Minnesota, mas não é essa coincidência que me interessa agora.
Hoje, almocei gnocchi pela primeira vez na minha vida e aquele prato de pedaços de batata com farinha continha duas evidências que costumam passar-me despercebidas:
1- é a possibilidade de continuar a fazer coisas pela primeira vez, até ao resto da minha vida, que faz com que nunca esteja bem no mesmo sítio.
2- com dois, ou três ingredientes básicos, básicos, podem fazer-se coisas incrivelmente boas!

Sou uma vassoura

12.3.14
Nos últimos tempos tenho ido ao Porto com alguma frequência por várias razões, mas, a última foi porque precisei de rever a doutora Soledade (espero que ela tenha perdido o papel onde apontou o nome do blog) e foi espectacular sair de lá com a certeza de que já sei quem sou. 
Sou uma vassoura, aquela coisa muito útil, que nunca se consegue arrumar muito bem. 

Eu sou a cigarra*, pronto.

27.1.14
Agora a sério, será assim tão mau eu querer ter mais dias assim - mexilhões, cerveja de pressão como deve ser e sexo? Eu não estou a dizer que os outros, os do estrugido, da roupa que não seca, dos putos que só sabem gritar, do dinheiro que não dá até ao fim do mês, do vomitado dos gatos, não façam parte, aliás, sem estes os outros não teriam o mesmo interesse, mas eu não tenho de me sentir mal por achar que faz muito mais sentido aproveitar a vida do que viver em função do "dia de amanhã".
(E não me venham com o dinheiro, que eu já apanhei mexilhões no Magoito e não preciso de pagar (ainda) para ter sexo. Só me falta aprender a fazer cerveja).

*da versão do La Fontaine, porque duvido que fosse gaja para estar 17 anos à espera de emergir da terra para aproveitar umas semanas e morrer. Ou então, é mesmo isto (que acabei de descobrir): a vida é 70 por cento de preparação e 30 por cento de gozo. 

Quimera

29.10.13
Falta-me sempre qualquer coisa. Ao longo de toda a minha vida tem sido assim. À medida que vou crescendo essa qualquer coisa parece que vai diminuindo, mas nunca desaparece. Tenho tido momentos de plenitude, naturalmente, mas nunca alcancei esse sítio vasto de satisfação. 
Posso continuar à procura, acho que não tenho outra hipótese, aliás, mas esta dor no ombro do lado direito incomoda-me. 
Não se consegue alcançar verdades com dores nas articulações.

Os insondáveis mistérios da vida

10.10.13
Com a premissa de que o ser humano se adapta a qualquer situação, penso frequentemente se seria capaz de viver em circunstâncias desumanas e se é suposto prepararmos os nossos filhos para o pior (às vezes parece que é). Penso no Zé Francisco, na Manuela e no Ludgero, na Irma Lópes Aurélio e nos 300 migrantes que morreram à procura de uma vida melhor. Penso nos caminhos, no milhares de cruzamentos, que terão trazido todas estas pessoas até aqui. Estas e não outras.
A sério, tenho de deixar de tentar perceber os insondáveis mistérios da vida.

P.S O Jaime lá foi e desta vez demora-se mais no outro lado do mundo. Também nunca vou perceber porque nos custa tanto estar afastados, quando até deviam saber bem umas férias um do outro.

Carne e peixe

10.9.13
Eu nunca vi um homem a amanhar peixe numa peixaria nem uma mulher a cortar carne num talho. Estive assim uma boa meia hora a pensar nisto, antes de adormecer, ontem à noite. Pareceu-me lógico o peixe ser das mulheres e a carne dos homens, mas o contrário também faz sentido. 
E pronto, era só isso.

Não me consumam

29.7.13
Vou fazer aquela coisa absolutamente inconsequente que é defender as pessoas que só conseguem ver o copo meio vazio.
Eu sei, eu sei, são umas pobres coitadas que não sabem aproveitar a vida, que perdem tempo (precioso nesta vida que são dois dias e um já está acabar) a olhar para a metade vazia e mais não sei quê, mas deixem que vos esclareça uma coisa: o copo está efectivamente meio vazio. Se ele estava cheio e foi bebido até meio, ficou meio vazio. Se ele estivesse vazio e fosse enchido até meio, aí sim, poder-se-ia dizer que estava meio cheio. Digo eu, que sou pouca dada a tratados filosóficos, apesar de esse ser um dos meus projectos jamais confessáveis em público, devo admitir.
Mas estou a fugir ao que interessa, que é defender as pessoas que vêem o copo meio vazio. Ora, como generalizar é um dos meus passatempos preferidos, vou, então, numerar algumas características, positivas que bastem, das pessoas referidas:

1) apesar de, regra geral, serem pessoas que adoram falar de si próprias têm perfeita noção de que existem outras pessoas, todas diferentes entre si, no mundo;

2) por isso, nos dias bons, conseguem gostar das pessoas que vêem o copo meio cheio, ao contrário destas que passam a vida a fazerem aquelas sentirem-se montes de esterco;

3) quando são mulheres estão-se a marimbar para o facto da tampa da sanita estar levantada ou baixada, ou para os cabelos que se esqueceram de recolher do gargalo da banheira;

4) estão fartinhas de saber o milagre que é estar vivo, seja porque viram muitos filmes, ou porque lhes morreram pessoas fundamentais, ou porque sabem, ponto, mas isso não as torna cegas em relação ao facto de meio copo ter ido à vida.

5) e quando se riem, quando se comovem, quando agradecem ao universo, ou quando amam fazem-no com a certeza de que é raro o que estão viver, porque sabem, sem margem para dúvidas, que o destino de um copo meio vazio é ficar vazio de vez.

Greve dos professores

19.6.13
Não me pronuncio sobre a greve dos professores da mesma maneira que não me pronunciei sobre a greve dos empresários de diversão, porque TODOS os profissionais dedicados merecem o meu respeito e têm os mesmo direitos. Fazer greve é um deles.
Ah, e tal mas os professores são mais importantes para a sociedade do que os empresários de diversão. Pois, é exactamente isso que não me apetece discutir.

É o amor?

24.4.13
Estava a ver a apresentação do filme de João Canijo e lembrei-me de quando andava de carro com a minha irmã e ela punha a cassete do Tony Carreira e cantava emocionada com os filhos (na altura só tinha dois, com quatro e sete anos) as músicas que saíam das colunas do tablier. Lembrei-me também das canções do José Cid e do Marco Paulo que saíam das colunas penduradas na torre da igreja nos dias de festa. E do Passarinho que queria voar, do Tó Maria Vinhas, que o meu pai ouvia num gira-discos (acho eu, porque não me lembro de termos um gira-discos, mas tínhamos discos, por isso...). Ouvia e cantava emocionado enquanto a minha mãe, que tinha sérios problemas com manifestações de alegria, protestava.
Há tanta coisa que se foi desligando de mim naturalmente, com o passar dos anos, mas a música, um certo tipo de música, continua a fazer-me recuar a sítios muito particulares, a sítios com uma linguagem diferente, onde, por exemplo, se usa particular em vez de privado.

Metáforas

22.1.13

É o mesmo quarto, no mesmo dia.
A vida está cheia destas coisas, de pormenores e descobertas deliciosas (a propósito, o livro é este), mas também de confusão e detalhes merdosos. E uma pessoa, dependendo do seu estado de espírito, ou personalidade, ou as duas coisas, anda por aí, ora muito contente que tem uns sofás lindos (e um sítio onde os pôr), ora muito triste que a casa está sempre caótica e mofenta.
E, no meu caso, não sei porquê, o mofo ganha quase sempre.

O caminho faz-se caminhado

9.1.13
Devo dizer que às 10h00 da manhã apetece-me dar o dia por terminado. É que as duas horas e tal que passo com eles, desde que me levanto até os deixar na escola, praticamente rebentam comigo.
Acredito que a minha mãe tem razão quando diz que somos todos uns "meias de seda", mas, caramba, duvido que uns meias de lã com tamancos aguentasse impávido e sereno ao Nestum espalhado no tapete da sala (que veio da aldeia lavado e seco, porque aqui não tenho como o lavar e secar); aos 20 minutos que levámos a chegar ao eléctrico, nós os três, mais o cão, mais a bola e mais um saco de roupa; ao vómito do Isaac quando saímos do eléctrico e, logo a seguir, ao quero fazer xixi; ao saco da roupa que ficou cheio de merda, quando o pousei no chão para o pôr a mijar; ao Nicolau a tentar agarrar o jacto do xixi...a sério, fico a suar por todos os poros.
E, depois, provavelmente, quem nos vê tão fofinhos, a cantar "olhá bola Manel", deve achar que somos tão lindos e tal e nem se apercebe que fedemos, e que tenho as costas num oito de levar o Nicolau às cavalitas, mas a verdade é essa. Nunca soube, ou nunca tive como, seguir pelo atalho mais curto e prazenteiro, parece que só sei caminhar no meio do mato a arranhar-me toda e a torcer os tornozelos nos desníveis, como se só assim tivesse a certeza de que estou mesmo a caminhar e não a passear pela vida.

Slow

26.11.12
O dia começou como quase todos os outros dias: muita movimentação pela casa, com a televisão ligada às 7h00 da manhã (a única pessoa que quer acabar com a televisão cá em casa é a mesma que se levanta e, antes sequer de fazer xixi, vai ligá-la), os miúdos a disputar brinquedos, a Bea a pentear o cabelo (não sei se esta casa é mesmo muito pequena, ou se de facto a escova no cabelo dela faz muito barulho) e eu de olhos fechados, debaixo dos cobertores, a dizer a mim própria é de noite, é noite, isto é um sonho, não é possível. E depois, muito devagar, começo a pensar se terei deixado a roupa deles separada, se há alguma coisa preparada para o almoço da Bea...Já aconteceu saírem de casa e eu ficar a dormir (sim, sim, o desgraçado do homem que vai trabalhar para sustentar a família, ainda tem de vestir os meninos e levá-los à escola, uma pouca vergonha!), mas não foi o caso. Hoje, os pequenos ficaram em casa a ver se recuperavam definitivamente das maleitas víricas, antes de irem recolher novas estirpes ao infectário, e a primeira coisa que pensei foi: "espero que amanhã estejam bons para ver se volto à vida normal" e logo a seguir: "espera aí, qual vida normal?"
Já passaram quase três meses desde que o Nicolau foi para a creche e eu ainda não tenho uma rotina. É verdade que mudei de casa, é verdade que eles têm estado, em média, dois dias em casa e três na escola e que toda a família esteve doente mais vezes nestes últimos meses, do que nos últimos três anos, mas claramente não é suposto demorarmos tanto tempo a chegar a algum lado. Não só perdemos a capacidade de esperar pelas coisas, como achamos anormal parar para descansar, pensar, recuperar, etc. Eu sei que já ninguém fala do movimento slow, mas tenho pena, porque me parece muito mais interessante do que a tendência minimalista de que tanto se fala.

Sou uma pessimista cheia de optimismo

25.10.12
Sou apanhada desprevenida pelas coisas boas da vida mais frequentemente do que o contrário. Ou seja, fico sempre mais assarapantada num momento de felicidade do que de tristeza, ou desespero. Mas, apesar disso, sou uma pessoa optimista. Se não o fosse não teria tomado as opções que tomei até agora - estou sempre à espera, ou à procura, de melhor. E, por isso, estou sempre a desiludir-me.

Perspectivas

27.9.12


Ao descer em direcção à estação de metro Baixa/Chiado, o Nicolau às cavalitas do pai, feliz da vida no meio de tanta gente, e o Isaac pela minha mão, ligeiramente perturbado no meio de tanta gente, estranhei-me ali. Pareceu-me que passou uma fracção de segundo desde que deixei o Porto, a cidade onde a Beatriz nasceu e viveu até aos sete anos, vim para Lisboa, arranjei emprego, deixei o emprego, tive mais dois filhos, mudei de casa duas vezes (e vou mudar outra), fiz novos amigos.
E agora ali estava eu a contornar a Igreja do Loreto, quase a chegar ao quiosque, com um dos meus rapazinhos pela mão, na cidade onde ele nasceu e vive há quase três anos, ou há menos de uma fracção de segundo.
Já a hora e meia que passámos dentro da estação de metro, para assistir às cantorias da mais velha, pareceu-me um ano e meio. Um é porque queria vir para casa, o outro jogar badminton com a chupeta. Aquilo foi um corrupio de desce escada rolante, sobe escada rolante, desce escada rolante, sobe escada rolante, corre atrás de um, corre atrás de outro, enquanto o coro cantava, e bem, diga-se de passagem.
No final lá viemos para casa de rastos, maltrapilhos e um com o lábio rebentado, claro. Ou felizes, como se usa dizer agora.

Despejar o lixo*

30.8.12
1. Segundo a psicanálise é daquilo que não nos lembramos que somos feitos.
2. Eu venho de uma longa linhagem de mulheres provedoras do sustento sem, no entanto, deixarem de ser as principais cuidadoras dos filhos.
Ia jurar que encontrava uma relação entre as duas coisas, mas sinceramente não estou a ver, e estou farta de pensar nisso.

*uma das grandes utilidades de um blog (eu tentei assumir o blogue, porque tenho a mania de evitar estrangeirismos, mas prefiro mesmo blog, está bem?)