Parece que a Maria Kondo anda outra vez nas bocas do mundo por causa da Netflix. Nunca utilizei o método e não é agora que vou começar, mas, e antecipando-me à próxima tendência, comecei a ler sobre Feng Shui.
Eu sei, eu sei, devia arranjar um emprego como as pessoas (não sei se ainda há o call center do BPI - o link diz respeito ao comentário do post), mas é tão mais divertido saber qual o Ming Gua de cada pessoa da nossa família. Por exemplo, de que outra forma poderia saber que aqui em casa temos dois trigramas Li, dois Dui e um Quian?
E depois, pessoas, não vai ser mais bonito andarmos a falar de Yi Jing em vez de como se deve dobrar a roupa?
Para mim, aos 75 anos
24.1.19
Miúda (posso continuar a chamar-nos miúda, certo?), falar com o meu eu futuro é, claramente, muito mais difícil do que falar com o do passado, mas sinto que tenho de o fazer. Por alguma razão parece-me importante saberes como me estou a sentir agora, em vez daquilo que te lembras sobre como me sentia.
Eu tenho 45 anos e apesar de vários indicadores - como a quantidade de colesterol no meu plasma, os cabelos brancos e o aumento considerável da cintura - me mostrarem isso persistentemente, tenho tendência para o esquecer e achar que é impossível estar na meia idade.
Ter filhos pequenos ajuda a afastar-me dessa realidade, mas contra factos não há argumentos. Suponho que te estejas a rir por me sentir velha aos 45, quando tenho 75 anos, e imagino que os últimos 30 anos tenham corrido bem. Talvez, até, muito bem. Também pode ter-se dado o caso de já ter morrido e ser eu de uma outra dimensão que está a ler isto e se assim for nem sei o que dizer, apesar de me parecer espectacular.
Em qualquer dos casos, estou a falar com outra Calita, mesmo estando a falar comigo própria. É estranho!
Dizia que tenho 45 anos e, mesmo sentido-me distante da idade adulta madura, a sensação de estar a meio do caminho está muito presente. Aquela sensação de quem está em viagem e a certa altura precisa de parar, olhar para o mapa, fazer contas e ponderar se segue como planeado, ou se muda o trajecto.
Não tenho noção de alguma vez ter feito planos para a minha vida. Eu queria coisas como conhecer o mundo e viver numa cidade grande, mas passava grande parte dos meus dias a imaginar como iria ser arrebatada por um belo príncipe.
As coisas não aconteceram como imaginei, mas aqui estou depois de viver nas duas maiores cidades do país, de ter conhecido algum mundo, talvez mais do que alguma vez sonhei que poderia conhecer, e a partilhar os meus dias com um príncipe.
E se muitas vezes tenho a certeza que era aqui que queria chegar - o que não deixa de ser curioso, porque regressei, aos 45 anos, às origens, o que não era de todo o meu objectivo -, outras não consigo deixar de pensar no que falta fazer. Mas isso, curiosamente, ou não, já não me angustia tanto como antes. O que não significa que viva tranquilamente, apesar de este último ano civil ter sido, provavelmente, o mais tranquilo da minha existência. Um ano de arrumações, talvez. De recolher os móveis espalhados por diferentes arrecadações (montar o beliche dos rapazes, desmontar o beliche e, há uma semana, montá-lo novamente), de nos encaixarmos todos juntos de novo, ficar a saber qual o meu lugar na estrutura da família ascendente.
Ajuda, e às vezes nem por isso, estar numa espécie de compasso de espera pelo arranque de um projecto profissional em que estou a colaborar com o Jaime. Estar numa cidade pequena, com praias que fazem esquecer o resto, também.
Há sempre grãos de areia, às vezes calhaus, na engrenagem, óbvio. O diagnóstico da depressão da mais velha, as pequenas decisões que podem fazer toda a diferença na vida deles os três, as crenças individuais que nenhum dos dois adultos quer abdicar e o medo. No fundo, o medo resume tudo.
Ainda tenho medo aos 75 anos? Espero muito que estejas a ler este post na cabana, no meio de um monte não muito distante do mar, com um bom vinho que tiraste da adega para o efeito, na mesa junto à janela onde costumas escrever. Mesmo com medo, porque não? O medo nunca me paralisou, com certeza não vai ser agora. Talvez o Jaime esteja a assar umas castanhas no forno para comerem daqui a nada e rirem-se os dois pela falta de dentes.
Quando era criança sonhei contigo, tinhas o cabelo muito branco e um ar sorridente, foi tão real que pensei que era velha e estava a sonhar comigo quando era criança. Talvez estejas, agora, a escrever a carta para ti aos 45 anos. Gostava mesmo muito de conseguir lê-la.
Da tua sempre,
Eu adulta madura
Eu tenho 45 anos e apesar de vários indicadores - como a quantidade de colesterol no meu plasma, os cabelos brancos e o aumento considerável da cintura - me mostrarem isso persistentemente, tenho tendência para o esquecer e achar que é impossível estar na meia idade.
Ter filhos pequenos ajuda a afastar-me dessa realidade, mas contra factos não há argumentos. Suponho que te estejas a rir por me sentir velha aos 45, quando tenho 75 anos, e imagino que os últimos 30 anos tenham corrido bem. Talvez, até, muito bem. Também pode ter-se dado o caso de já ter morrido e ser eu de uma outra dimensão que está a ler isto e se assim for nem sei o que dizer, apesar de me parecer espectacular.
Em qualquer dos casos, estou a falar com outra Calita, mesmo estando a falar comigo própria. É estranho!
Dizia que tenho 45 anos e, mesmo sentido-me distante da idade adulta madura, a sensação de estar a meio do caminho está muito presente. Aquela sensação de quem está em viagem e a certa altura precisa de parar, olhar para o mapa, fazer contas e ponderar se segue como planeado, ou se muda o trajecto.
Não tenho noção de alguma vez ter feito planos para a minha vida. Eu queria coisas como conhecer o mundo e viver numa cidade grande, mas passava grande parte dos meus dias a imaginar como iria ser arrebatada por um belo príncipe.
As coisas não aconteceram como imaginei, mas aqui estou depois de viver nas duas maiores cidades do país, de ter conhecido algum mundo, talvez mais do que alguma vez sonhei que poderia conhecer, e a partilhar os meus dias com um príncipe.
E se muitas vezes tenho a certeza que era aqui que queria chegar - o que não deixa de ser curioso, porque regressei, aos 45 anos, às origens, o que não era de todo o meu objectivo -, outras não consigo deixar de pensar no que falta fazer. Mas isso, curiosamente, ou não, já não me angustia tanto como antes. O que não significa que viva tranquilamente, apesar de este último ano civil ter sido, provavelmente, o mais tranquilo da minha existência. Um ano de arrumações, talvez. De recolher os móveis espalhados por diferentes arrecadações (montar o beliche dos rapazes, desmontar o beliche e, há uma semana, montá-lo novamente), de nos encaixarmos todos juntos de novo, ficar a saber qual o meu lugar na estrutura da família ascendente.
Ajuda, e às vezes nem por isso, estar numa espécie de compasso de espera pelo arranque de um projecto profissional em que estou a colaborar com o Jaime. Estar numa cidade pequena, com praias que fazem esquecer o resto, também.
Há sempre grãos de areia, às vezes calhaus, na engrenagem, óbvio. O diagnóstico da depressão da mais velha, as pequenas decisões que podem fazer toda a diferença na vida deles os três, as crenças individuais que nenhum dos dois adultos quer abdicar e o medo. No fundo, o medo resume tudo.
Ainda tenho medo aos 75 anos? Espero muito que estejas a ler este post na cabana, no meio de um monte não muito distante do mar, com um bom vinho que tiraste da adega para o efeito, na mesa junto à janela onde costumas escrever. Mesmo com medo, porque não? O medo nunca me paralisou, com certeza não vai ser agora. Talvez o Jaime esteja a assar umas castanhas no forno para comerem daqui a nada e rirem-se os dois pela falta de dentes.
Quando era criança sonhei contigo, tinhas o cabelo muito branco e um ar sorridente, foi tão real que pensei que era velha e estava a sonhar comigo quando era criança. Talvez estejas, agora, a escrever a carta para ti aos 45 anos. Gostava mesmo muito de conseguir lê-la.
Da tua sempre,
Eu adulta madura
Há sensações universais 13
8.1.19
"[A cultura] Tem a ver com a maneira como procuramos uma certa elegância na nossa relação com o mundo, como nos damos com os outros, como usamos o nosso tempo, como a música entra na nossa vida, como os livros nos acompanham. O resto é dispensável.", Francisco José Viegas na revista Grandes Escolhas de dezembro.
Então, Bom Ano
3.1.19
Tenho muitas vezes pena dos meus filhos, às vezes por terem nascido no auge da destruição do planeta, outras por me terem como mãe, outras por terem tido azar com o Sistema Nacional de Educação que apanharam. Não me interpretem mal, tenho mesmo noção de que poderiam ter mais azar, as possibilidades são infindáveis.
Temos todos a tendência de comparar a infância dos nossos filhos à nossa (temos, não temos?) e apesar de termos em comum a ameaça do fim do mundo (no nosso caso era a Guerra Fria e a possibilidade de alguém poder carregar num botão e matar-nos a todos), pais com problemas (e que fumavam em todo o lado, incluindo no quarto), e uma Educação cheias de altos e baixos, parece-me que tive mais sorte do que eles. Muito porque ninguém esperava grande coisa de mim, ou seja, cresci sem expectativas, ou só com as que criei para mim. É claro que também passei pela pressão de me superar, toda a gente passou em algum momento da vida, a diferença foi nunca termos precisado de o fazer tão novos. Bem, a infância só por si já é uma superação constante, não era preciso atirar-lhes com tantos desafios, acho eu. Mas talvez estejamos a criar uma nova geração, mais capaz, mais evoluída e até, quem sabe, mais feliz.
Mas toda esta conversa só para dizer que ao ver o filme Ralph vs Internet (que não foi o melhor filme das férias de Natal, o melhor foi o Homem-Aranha, que é só espectacular!) tive a certeza de que eles neste particular têm muito mais sorte do que nós. Ok, nós tivemos o Vasco Granja, é um facto, mas um filme que goza com os contos infantis, que critica a Internet de uma forma inteligente, que procura derrubar estereótipos e com piada fez-me sentir feliz por eles. Ah, e eles também gostaram muito.
P.S 1 Eu sei que devia começar o ano com um post cheio de ideias novas, e tal, em vez de terminar este, que tinha começado há uma semana, mas melhores dias virão.
P.S 2 A foto foi tirada pelo Isaac no Museu Amadeo Souza-Cardoso, porque achou a ''senhora gordinha como a mamã''
P.S 1 Eu sei que devia começar o ano com um post cheio de ideias novas, e tal, em vez de terminar este, que tinha começado há uma semana, mas melhores dias virão.
P.S 2 A foto foi tirada pelo Isaac no Museu Amadeo Souza-Cardoso, porque achou a ''senhora gordinha como a mamã''
Sabedoria
17.12.18
Disse, ou pensei, muitas vezes que a forma como temos vindo a encarar o trabalho é incompatível com a forma como temos vindo a encarar a maternidade/paternidade. É óbvio que é possível trabalhar e educar crianças felizes, não tenho é a certeza que isso possa ser feito nos moldes que temos. Horas a mais metidos num emprego nem sempre bem pago, crianças submetidas a pressões surreais e esta sensação omnipresente de que o mundo, como o conhecemos, está a ruir.
Enfim, cada pessoa, cada família, encaixa-se no sistema como pode, mas é cada vez mais evidente que o jogo está a mudar e não é claro que as regras sejam conhecidas.
Talvez por isso se ande a falar tanto de espiritualidade (até o Abrunhosa, quer dizer!). Parece-me que a necessidade de parar e olhar mais para dentro de nós está para uma determinada faixa etária como o varfine para a terceira idade. Mas posso estar enganada, claro.
Seja como for, podemos sempre contar com o pragmatismo do povo e a sabedoria que carrega. Como não ficar de bem com a vida, quando vamos na rua, a puxar a gola do casaco para proteger o nariz do frio, e ouvimos ao nosso lado, no meio da conversa de duas idosas: ''Focinho de cão e cu de gente nunca está quente''?
P.S A árvore de Natal na foto não tem nada a ver com o que digo no texto, mas não sei o que me parece (depois de tantos anos a mostrar os nossos pinheirinhos) não pôr aqui a deste ano, sobretudo quando já não decorávamos uma árvore desde 2015.
Fugir
5.12.18
Aqui na Póvoa de Varzim (a cidade mais próxima da aldeia onde cresci, e onde frequentei a escola do 7.º ao 12.º ano, e onde estive internada duas vezes no hospital com pneumonia, e onde frequentei durante anos o dispensário juntamente com velhinhos tuberculosos, e onde quase me afoguei no mar) existe uma espécie de fascínio pela morte, que me faz lembrar Timor- Leste.
Quando nos mudámos, a minha filha não se cansava de perguntar porque raio viemos para um sítio parecido com Díli e eu achei que ela estava louca, tirando talvez a relação da cidade com o mar, só que sou obrigada a dar-lhe alguma razão.
Mas falava do fascínio pela morte, que deve ser qualquer coisa parecida com a atracção pelo abismo. Por todo o lado vêem-se afixados anúncios de necrologia. Deve haver poucas ruas por aqui sem um café, uma loja, ou tapumes de obras com um destes avisos colados. E isso até poderia passar mais ou menos despercebido a quem anda na rua metido nos seus pensamentos não se desse o caso de muita gente parar a ler e comentar com quem está ao lado.
É claro que uma pessoa acaba por se habituar a conviver com a morte todos os dias e, às vezes, ocorre-me que sempre quis viver em cidades grandes para fugir desta convivência. E fugir tem as suas vantagens mas parece que não se foge para sempre.
Culpa
22.11.18
Estávamos a ouvir a Fiona Apple (sim, metemos nojo, a nossa vida é beber vinho, passear e ouvir música enquanto trabalhamos) e ele diz qualquer coisa sobre ser uma pena que uma moça com tanto talento como a Fiona editar tão pouco. Eu returco que provavelmente tem filhos.
Fez-se aquele silêncio de assunto-quase-complicado e rapidamente mudámos de tema.
Ainda há pouco fui obrigada a admitir, numa conversa de café, que ainda não vivo bem com a escolha de ter ficado com os filhos em casa.
Tenho a certeza que não podia ter feito de outra forma, mas parece que ainda falta saber viver bem com isso. Seja como for, este blog tem centenas de posts sobre este amor condimentado de contradições que nos fazem querer ficar e fugir ao mesmo tempo, não vale a pena voltar ao mesmo.
A minha filha diz que a culpa é de eu ter crescido com uma mãe niilista depressiva (acho melhor não querer saber qual a razão dos problemas dela), eu acho que a culpa é minha, obviamente. Mas isso, segundo um livro de auto-ajuda que li há muito tempo, tem a ver com o facto de eu ser primogénita num seio familiar que aniquilou a minha auto-estima (a sério, não queiram saber).
A culpa é um sentimento muito curioso, por acaso, não nos limita como o medo mas suga-nos a essência.
O que vale é que não me têm faltado ocasiões para decantar e repor o essencial.
Fez-se aquele silêncio de assunto-quase-complicado e rapidamente mudámos de tema.
Ainda há pouco fui obrigada a admitir, numa conversa de café, que ainda não vivo bem com a escolha de ter ficado com os filhos em casa.
Tenho a certeza que não podia ter feito de outra forma, mas parece que ainda falta saber viver bem com isso. Seja como for, este blog tem centenas de posts sobre este amor condimentado de contradições que nos fazem querer ficar e fugir ao mesmo tempo, não vale a pena voltar ao mesmo.
A minha filha diz que a culpa é de eu ter crescido com uma mãe niilista depressiva (acho melhor não querer saber qual a razão dos problemas dela), eu acho que a culpa é minha, obviamente. Mas isso, segundo um livro de auto-ajuda que li há muito tempo, tem a ver com o facto de eu ser primogénita num seio familiar que aniquilou a minha auto-estima (a sério, não queiram saber).
A culpa é um sentimento muito curioso, por acaso, não nos limita como o medo mas suga-nos a essência.
O que vale é que não me têm faltado ocasiões para decantar e repor o essencial.
Momentos avassaladores
13.11.18
Eu sei que estou perante uma coisa avassaladora de bonita quando me apetece chorar e, como é fácil de perceber, é raro acontecer. Mas no domingo tive não um, mas dois desses raros momentos. O primeiro a caminho do Alentejo, sob um céu carregado de nuvens que começam a dissipar-se, deixando um pequeno túnel de luz no fim da estrada vazia de carros, no exacto momento em que começa a ouvir-se Rufus Wainwright na rádio (obrigada Inês Meneses). A sério, não consegui conter-me, coisa que, felizmente, consegui mais tarde a provar o primeiro vinho do XXVI Talhas, e a ouvir o produtor falar da adega do avô. Ok, já tinha provado alguns vinhos (sem usar a cuspideira que, aliás, tinha aprendido a usar no dia anterior, no Palácio da Bolsa), quase todos muito, muito bons, mas aquele momento, lá está, foi avassalador.
Há outras formas de resistência, esta é a que eu escolho. Procurar viver momentos assim.
Só vemos o que queremos ver
6.11.18
Estava no café da Ponte, com vista para o rio Gerês, e na mesa à minha frente estava um casal a tomar o pequeno-almoço. Deviam ter uns 60 anos e não falaram um com o outro enquanto lá estive. Dei mais atenção à mulher, porque tudo nela dizia que estava no sítio certo à hora certa, a comer uma torrada com meia de leite. Até quando pegou no telemóvel para fazer um scroll rápido foi exacta. Tudo batia certo, talvez por isso me tenha parecido bonita.
No dia seguinte, quase no fim da minha caminhada, uma mulher começa a dirigir-se na minha direcção e eu vou-me afastando para lhe dar espaço e ela a desviar-se cada vez mais até ficar de frente para mim:
- Desculpe - Olhei para ela e reparei que tinha um sorriso bonito, apesar do diastema, ou talvez por isso mesmo.
- Sabe dizer-me se há algum cabeleireiro aberto, hoje? - Obviamente olhei para o cabelo curto, maravilhosamente penteado apesar do vento e sem vestígios de raízes brancas.
- Hmmm, não faço ideia, mas na Póvoa a uma segunda-feira acho muito difícil - respondi sem conseguir disfarçar a surpresa, acho eu. Ela agradeceu e continuou a andar.
Segui caminho a pensar que esta mulher tinha alguma coisa em comum com a do dia anterior. Apesar de serem completamente diferentes fisicamente tinham, lá está, a mesma exactidão.
Provavelmente a do café era só uma senhora segura de si, que obrigou o marido a sair para tomar o pequeno-almoço, e a segunda uma cabeleireira a tentar perceber se valia a pena montar um negócio na Póvoa para abrir só às segunda-feiras, mas eu vi outra coisa qualquer. Fazemos sempre isso, só vemos o que queremos ver.
Imaginar
24.10.18
Doía-me a cabeça e estava com algum sono, por isso tive de fazer um certo esforço para chegar ao fim do filme, mas fui deitar-me a pensar que devia adormecer a imaginar o meu futuro, como a Alma estava a fazer na última cena e como eu fazia em criança todas as noites.
Eu tinha uma vida paralela, ou vidas paralelas, quando ia dormir (isto depois da fase dos pesadelos e dos medos), mas ontem, quando me deitei e tentei imaginar o meu futuro, fiquei desconcertada. Eu já estava no meu futuro imaginado (parece que isto está sempre a acontecer-me, achar que estou no futuro) e não consegui ver para lá de onde estou agora. E eu até tentei imaginar a sensação de terminar o livro, de fazer trabalhos interessantes e estar em viagem, mas nada.
Isto só pode querer dizer uma de três coisas, ou a três juntas: 1) em criança não fui capaz de me imaginar muito além dos 40 anos, 2) a minha capacidade de imaginar diminuiu drasticamente com a idade, 3) preciso muito menos de fugir da minha realidade.
Em qualquer um dos dois últimos casos parece-me preocupante. Perder a capacidade de imaginar e/ou estar acomodado é uma forma de estar na vida um bocado triste. Mas já é tão violento existir - há crianças a serem violadas em campos de refugiados, ditadores a subir ao poder, andamos a comer plástico, os nossos filhos têm de mostrar conhecimentos na escola, em vez de os aprender, há mais de dois milhões de portugueses na pobreza, e desses quase 11 por cento trabalham, as alterações do clima são cada vez mais evidentes, a minha avó está muito velhinha-, como dizia, já é tão violento existir que é normal procurar algum conforto na sobrevivência.
Seja como for, consegui dormir relativamente bem. Não termos tido nenhum dos rapazes na nossa cama até de madrugada ajudou.
Eu tinha uma vida paralela, ou vidas paralelas, quando ia dormir (isto depois da fase dos pesadelos e dos medos), mas ontem, quando me deitei e tentei imaginar o meu futuro, fiquei desconcertada. Eu já estava no meu futuro imaginado (parece que isto está sempre a acontecer-me, achar que estou no futuro) e não consegui ver para lá de onde estou agora. E eu até tentei imaginar a sensação de terminar o livro, de fazer trabalhos interessantes e estar em viagem, mas nada.
Isto só pode querer dizer uma de três coisas, ou a três juntas: 1) em criança não fui capaz de me imaginar muito além dos 40 anos, 2) a minha capacidade de imaginar diminuiu drasticamente com a idade, 3) preciso muito menos de fugir da minha realidade.
Em qualquer um dos dois últimos casos parece-me preocupante. Perder a capacidade de imaginar e/ou estar acomodado é uma forma de estar na vida um bocado triste. Mas já é tão violento existir - há crianças a serem violadas em campos de refugiados, ditadores a subir ao poder, andamos a comer plástico, os nossos filhos têm de mostrar conhecimentos na escola, em vez de os aprender, há mais de dois milhões de portugueses na pobreza, e desses quase 11 por cento trabalham, as alterações do clima são cada vez mais evidentes, a minha avó está muito velhinha-, como dizia, já é tão violento existir que é normal procurar algum conforto na sobrevivência.
Seja como for, consegui dormir relativamente bem. Não termos tido nenhum dos rapazes na nossa cama até de madrugada ajudou.
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