É saudável e desejável sentirmos medo, porque o medo, meus amigos e minhas amigas, pode salvar-nos a vida, mas isso já todos sabemos. E também sabemos que, apesar disso, jamais nos podemos deixar dominar por ele, porque uma vez aí, então, acabou-se. Deixamos de viver. Ponto. No meu caso específico, e não sei porque preciso de especificar que é o meu caso, quando é evidente que é disso que se trata, mas, enfim, continuemos, fico doente. Verídico. Quando sou acometida pelo medo, fico doente. Penso, agora é que vai ser, vou para a piscina, vou gozar uma espécie de férias e depois começar de novo, comprar meias. Mas se calhar o Nicolau não devia ter ido para creche, eu (ainda) não tenho um emprego que o justifique; e se nas duas semanas em que estou sozinha com os três acontece alguma coisa; se calhar temos coisas a mais para a casa mais pequena para onde vamos viver; esta cidade (este país, este mundo?) está cheia de gente desesperada, capaz de uma loucura qualquer, como o rapaz em tronco nu, ao meu lado nas escadas, aos gritos para o oficial da polícia: "EU ESTOU FARTO DESTE PAÍS DE MERDA QUE NÃO ME DÁ ALTERNATIVAS. EU SOU UMA GAJO CALMO, MAS JÁ NÃO DÁ PARA ESTAR CALMO".
Onde é que eu ia agora mesmo? Ah, ao hospital, outra vez, porque a garganta está a apertar e disseram que tinha de voltar se a garganta apertasse. Por favor, depressa senhor taxista que estou sem ar, vou desmaiar aqui se não se despacha (ainda bem que não o disse em voz alta); já no balcão
admissão de doentes: são 20€, diz o rapaz giro, e eu faço contas de cabeça, com estes 20 já somei 60 euros à conta de uma estúpida reacção alérgica; E depois, depois o melhor médico de todos o tempos: "Está tudo bem consigo, não lhe vou fazer nada. Ocupe-se, não pense mais nisto".