Dia-a-dia

26.6.21

Por falar em vida real, ultimamente não me sai da cabeça um episódio da Quinta Dimensão. Já perdi horas à procura dele numa lista de episódios, mas não encontrei. O mais provável é que fosse da outra série, Os Limites do Terror.

Nesse episódio os tripulantes de uma nave espacial estavam a servir de hospedeiros a um ser alienígena. Vemos os corpos humanos embrulhados numa espécie de casulo e um dos tripulantes a dar conta do que está a acontecer e a tentar trazer a nave de volta para Terra. Depois de muitas peripécias e analepses na história, percebemos que para os humanos serem melhores hospedeiros recebem do seu parasita doses elevadas de dopamina e outras substâncias responsáveis pelo bem-estar. Por isso, nenhum deles tem verdadeira noção do que lhes está a acontecer, designadamente o tripulante que durante todo o filme está a tentar salvar a nave e que afinal, ficamos a saber no fim, é um dos hospedeiros como os restantes. Estão todos presos em casulos e cada qual está a viver a sua mentira. 

Que é o que me parece, muitas vezes, que acontece à minha volta. Toda a gente a viver as suas mentiras, sem se importarem com o facto de estarmos todos condenados. 

Medida imprópria

24.6.21

Gosto de ler diários. É um registo que me agrada mesmo muito (algumas pessoas devem lembrar-se da minha obsessão com o diário da Virginia Woolf) por me interessar a vida real das pessoas, seja lá o que isso for. De tal forma que dei por mim a gostar de ler o meu próprio diário, o que mantive durante uns tempos na versão papel.

segunda-feira, 2 de Julho 2018

''As crianças estão de férias. É impressionante o quanto tempo nos ocupam. Não que faça alguma coisa que interesse quando elas estão na escola. Os meus níveis de auto-estima estão novamente abaixo do razoável. Sendo a razoabilidade uma medida imprória no que toca ao amor, mesmo o amor próprio. Amanhã vamos para a praia.''

Fomos felizes

31.5.21

As pessoas podem escolher ser felizes, ou cumpridoras. Claro que há quem seja feliz a cumprir com as suas obrigações, mas não confundamos realização com felicidade.

Perante a impossibilidade de ser feliz, escolho fazer a minha a parte para manter a engrenagem oleada. Não me traz felicidade, mas a sensação de dever cumprido é parecida com felicidade, não é? Depois, tiramos fotografias e contamos histórias e podemos dizer que fomos felizes. 

Sororidade

20.5.21

Por motivos que não interessam, ou por não me apetecer partilhar, fui parar à urgência de um hospital, como acompanhante. Lá dentro estavam dezenas e dezenas e dezenas de doentes sozinhos, cada qual a gerir as suas dores, medos e angústias, por isso deduzi que no meu caso devia ser necessário entrar para ir comunicando o que tinha acontecido aos diferentes especialistas que estavam a acompanhar o caso.

Não é fácil estar numa urgência hospitalar carregada de preocupações e ver tantas pessoas deitadas em macas e outras tantas em cadeiras de rodas, umas a gemer, outras a dormitar e quase todas com aquela interrogação - O que Vai Ser de Mim? - nos olhos. É impossível não pensar como será estar na pele daqueles profissionais de saúde a gerir tanta coisa ao mesmo tempo - ''Não temos especialistas de neurologia disponíveis, hoje tivemos imensos casos de AVC''.

Escusado será dizer que a faixa etária daquele grupo de pessoas devia estar acima dos 70 anos, por isso é natural que tenha reparado na Isabel. Não sei se era da minha idade, ou mais nova. Estava deitada numa maca e levantava-se muitas vezes, o que fazia com que a bata descesse pelo ombro e ficasse com uma mama de fora. Havia sempre alguém que se levantava e ia perguntar-lhe o que se passava e compunha-lhe a bata. Parecia-me tão carregado de carinho aquele gesto vindo de outras mulheres mais velhas, a ajeitar a bata para a rapariga não ficar descomposta. Logo eu que não sou dada a composturas! Mas não há situação de maior fragilidade do que aquela, a do doente à mercê dos outros. Ela não respondia a perguntas, quase não falava, só dizia ''Não aguento mais, não aguento mais''.

O Sr. João, deitado na maca com a bata meio vestida e de fralda, também queria levantar-se e sair dali. Tentou algumas vezes. Ninguém lhe compôs a bata. Como se diz sororidade no masculino?

Decorrer do ano

8.4.21


No dia em que abriram as esplanadas festejei os meus 48 anos numa mesa na praia, a comer goraz e percebes e a beber vinho toda a tarde (ali na foto ainda estava na sangria). 

A meio da noite, acordei com o barulho dos meus batimentos cardíacos e sentei-me a tentar respirar. Quando consegui normalizar a respiração e acalmar o coração voltei a deitar-me e tentei perceber de onde viria tamanha aflição. ''Será por fazer anos?'', pensei. É claro que os pensamentos nunca se apresentam assim, com um encadeamento lógico, em vez disso atabalhoam-se e uma pessoa já não sabe se está a pensar o mesmo pensamento, ou vários diferentes ao mesmo tempo.

Bom, o que pensei, no meio de tudo, foi: ''costuma-se dizer que a nossa vida sofre uma mudança de sete em sete anos, será que estou a começar um novo ciclo?'' Depois, comecei a debitar a tabuada dos sete e apercebi-me que não precisava de me preocupar, porque 7x7=49 (estava a meio da noite e tinha passado a tarde toda a beber, ok?).

Portanto, a mudança de ciclo, a acontecer, será só para o ano. Mas, depois, pus-me a rever todas as mudanças que tinham ocorrido na minha vida nos anos múltiplos de sete. Então, aos sete mudei de escola, porque a professora da primeira classe foi colocada noutra e convenceu alguns alunos, ou os pais deles, a mudarem-se com ela. Aos 14 interrompi os estudos e fui trabalhar para uma fábrica, porque o meu pai tinha morrido no ano precedente. Aos 21 entrei na faculdade, mas já tinha tentado antes, sem sucesso, por isso o ano anterior serviu para juntar dinheiro e pagar uma universidade privada. Aos 28 fui mãe pela primeira vez, mas engravidei com 27 anos. Aos 35 fui viver com o Jaime, mas separei-me, bom também me separei nesse ano, mas toda a gente sabe que os divórcios não acontecem de um momento para o outro. Aos 42 fui viver para Timor-Leste, mas tinha lá estado de férias, adivinham quando? No ano anterior, claro. 

Portanto, aguardo com ansiedade (e ataques pelo meio) o decorrer deste ano.

Metamorfose

29.3.21

Constatações ao 11.⁰ dia de isolamento profilático:

1- A minha mãe está chocada com a quantidade de papel higiénico que gastamos. Eu também, na verdade. Afinal, as pessoas que acabaram com o o stock de papel higiénico no início disto tudo sabiam o que estavam a fazer.

2-Nestes 11 dias só encomendámos duas refeições, um cozido à portuguesa para o almoço de domingo e McDonald's (teve de ser).

3- Mas para isso, para cozinhar tantas refeições em casa, contamos com a boa vontade de umas quantas pessoas, a minha mãe para as compras do supermercado, uma amiga para o talho, a querida vizinha que nos traz o pão todos os dias e a senhora da frutaria que vem entregar os legumes, fruta e ovos caseiros.

4- Lembro-me muitas vezes do livro A Metamorfose, porque acho que me está a acontecer o mesmo. Quer dizer, não pareço um insecto, acho eu, mas é como se o meu corpo estivesse desligado do cérebro, a ganhar vida própria e a moldar-se em diferentes formas. A minha cabeça, por exemplo, é tal e qual um S.

A apontar expressões das crianças desde 2006

25.3.21

Estou em casa com os miúdos desde que começou o confinamento, ou seja, há dois meses, por isso não sinto que o isolamento profilático tenha alterado a minha vida, apesar de agora ter o Jaime em casa todo o dia, não me limitar a beber ao jantar (qualquer relação causa e efeito há-de ser forçada, quero acreditar) e não sair para caminhar.

Tirando o teste positivo do Nicolau, a restante família testou negativo para o SARS-CoV-2 e não deixa de ser estranho estarmos todos fechados em casa, aparentemente, de boa saúde. Mas não me esqueço dos nervos miúdinhos a abrir o pdf na aplicação do hospital para ver o resultado. Não me esqueço da alegria ao sentir, diariamente, a temperatura normal na testa do Nicolau.  Não me esqueço das mortes provocadas pelo vírus. Não me esqueço do alívio que foi enterrar a minha avó sem Covid no caixão.

Entretanto, apesar de me parecer tudo igual aos últimos dois meses, pus-me a abrir caixas guardadas em sítios recônditos. E, além de centenas de cartas manuscritas; cartões de visita de restaurantes, médicos e pessoas de quem não me lembro; bilhetes de avião e contas de cafés de Paris; o bilhete do festival de Vilar de Mouros, de 1996, e do comboio que apanhei para regressar ao Porto, encontrei vários cadernos e agendas com apontamentos.

E estas viagens no tempo são sempre muito curiosas, mas não vou discorrer sobre isso, agora. Das várias coisas que achei piada, retive duas definições da Bea que, na altura, decidi apontar: "cabelo apalpado" e "chão cremeloso".


Falta de ar

22.3.21


Faz hoje um ano que brindámos com os vizinhos e nessa altura não me ocorreu que dali a um ano ainda poderíamos estar em confinamento e muito menos que o vírus se fizesse convidado para entrar aqui em casa.

É isso mesmo. Quando a Primavera começou a dar o ar da sua graça e a primeira fase do desconfinamento teve início, ligaram da escola a dizer que tínhamos de ir buscar o Nicolau, porque havia um caso positivo na turma. No dia seguinte chegaram os códigos para marcar o teste e ontem ligaram a dar a resultado: Positivo.

Há tanto tempo a lidar com esta pandemia, a saber de tantos casos e mesmo assim a não conseguir deixar de ficar chocada com uma notícia destas. Agora não sei se esta falta de ar é Covid, ou ansiedade. 

Na dúvida, Beba-se

19.3.21

Estava a vaguear perto da estante e cruzei-me com o livro Amor e Ódio. Fiquei espantada por não me lembrar que o tinha - acontece-me cada vez mais, isso e não me lembrar do que li - e abri-o numa página à sorte: 

L

''Je suis certain que la journée ne sera pas comme elle a comencé, parce que dés que le soleil tombe, je bois, dizia Gainsbourg à Rock & Folk em Abril de 1979. Este gato-bravo opera uma ligeira distorção da Katalepsis estóica. Na dúvida não suspende o juízo: bebe.

Pode não parecer, mas saber como vamos acabar o dia devia ser motivo de grande ansiedade. Um erro de percepção faz com que os humanos se preocupem apenas com o dia seguinte. Julgam que o que estão a viver está garantido, apenas os interessando o que ainda não respiraram. Mal.

O nosso dia é um reino emprestado e devemos cuidar dele como de um tesouro. Beber ao começo da noite, como Gainsbourg, pode ser uma homenagem, mas também uma abdicação. Na dúvida, beba-se.''


Ironias

15.3.21
Recomeçou o ritual de acordar e ir para a escola. Ir mesmo, vestir e sair de casa em vez de pôr um casaco por cima do pijama e ir para outro quarto. Infelizmente, esse ritual só começou para o mais novo, que era precisamente o que preferia continuar em casa. O mais velho, que não vê a hora de poder voltar à escola, tem de esperar mais três semanas. Portanto, estamos metade a desconfinar e outra metade confinada.