Decorrer do ano

8.4.21


No dia em que abriram as esplanadas festejei os meus 48 anos numa mesa na praia, a comer goraz e percebes e a beber vinho toda a tarde (ali na foto ainda estava na sangria). 

A meio da noite, acordei com o barulho dos meus batimentos cardíacos e sentei-me a tentar respirar. Quando consegui normalizar a respiração e acalmar o coração voltei a deitar-me e tentei perceber de onde viria tamanha aflição. ''Será por fazer anos?'', pensei. É claro que os pensamentos nunca se apresentam assim, com um encadeamento lógico, em vez disso atabalhoam-se e uma pessoa já não sabe se está a pensar o mesmo pensamento, ou vários diferentes ao mesmo tempo.

Bom, o que pensei, no meio de tudo, foi: ''costuma-se dizer que a nossa vida sofre uma mudança de sete em sete anos, será que estou a começar um novo ciclo?'' Depois, comecei a debitar a tabuada dos sete e apercebi-me que não precisava de me preocupar, porque 7x7=49 (estava a meio da noite e tinha passado a tarde toda a beber, ok?).

Portanto, a mudança de ciclo, a acontecer, será só para o ano. Mas, depois, pus-me a rever todas as mudanças que tinham ocorrido na minha vida nos anos múltiplos de sete. Então, aos sete mudei de escola, porque a professora da primeira classe foi colocada noutra e convenceu alguns alunos, ou os pais deles, a mudarem-se com ela. Aos 14 interrompi os estudos e fui trabalhar para uma fábrica, porque o meu pai tinha morrido no ano precedente. Aos 21 entrei na faculdade, mas já tinha tentado antes, sem sucesso, por isso o ano anterior serviu para juntar dinheiro e pagar uma universidade privada. Aos 28 fui mãe pela primeira vez, mas engravidei com 27 anos. Aos 35 fui viver com o Jaime, mas separei-me, bom também me separei nesse ano, mas toda a gente sabe que os divórcios não acontecem de um momento para o outro. Aos 42 fui viver para Timor-Leste, mas tinha lá estado de férias, adivinham quando? No ano anterior, claro. 

Portanto, aguardo com ansiedade (e ataques pelo meio) o decorrer deste ano.

Metamorfose

29.3.21

Constatações ao 11.⁰ dia de isolamento profilático:

1- A minha mãe está chocada com a quantidade de papel higiénico que gastamos. Eu também, na verdade. Afinal, as pessoas que acabaram com o o stock de papel higiénico no início disto tudo sabiam o que estavam a fazer.

2-Nestes 11 dias só encomendámos duas refeições, um cozido à portuguesa para o almoço de domingo e McDonald's (teve de ser).

3- Mas para isso, para cozinhar tantas refeições em casa, contamos com a boa vontade de umas quantas pessoas, a minha mãe para as compras do supermercado, uma amiga para o talho, a querida vizinha que nos traz o pão todos os dias e a senhora da frutaria que vem entregar os legumes, fruta e ovos caseiros.

4- Lembro-me muitas vezes do livro A Metamorfose, porque acho que me está a acontecer o mesmo. Quer dizer, não pareço um insecto, acho eu, mas é como se o meu corpo estivesse desligado do cérebro, a ganhar vida própria e a moldar-se em diferentes formas. A minha cabeça, por exemplo, é tal e qual um S.

A apontar expressões das crianças desde 2006

25.3.21

Estou em casa com os miúdos desde que começou o confinamento, ou seja, há dois meses, por isso não sinto que o isolamento profilático tenha alterado a minha vida, apesar de agora ter o Jaime em casa todo o dia, não me limitar a beber ao jantar (qualquer relação causa e efeito há-de ser forçada, quero acreditar) e não sair para caminhar.

Tirando o teste positivo do Nicolau, a restante família testou negativo para o SARS-CoV-2 e não deixa de ser estranho estarmos todos fechados em casa, aparentemente, de boa saúde. Mas não me esqueço dos nervos miúdinhos a abrir o pdf na aplicação do hospital para ver o resultado. Não me esqueço da alegria ao sentir, diariamente, a temperatura normal na testa do Nicolau.  Não me esqueço das mortes provocadas pelo vírus. Não me esqueço do alívio que foi enterrar a minha avó sem Covid no caixão.

Entretanto, apesar de me parecer tudo igual aos últimos dois meses, pus-me a abrir caixas guardadas em sítios recônditos. E, além de centenas de cartas manuscritas; cartões de visita de restaurantes, médicos e pessoas de quem não me lembro; bilhetes de avião e contas de cafés de Paris; o bilhete do festival de Vilar de Mouros, de 1996, e do comboio que apanhei para regressar ao Porto, encontrei vários cadernos e agendas com apontamentos.

E estas viagens no tempo são sempre muito curiosas, mas não vou discorrer sobre isso, agora. Das várias coisas que achei piada, retive duas definições da Bea que, na altura, decidi apontar: "cabelo apalpado" e "chão cremeloso".


Falta de ar

22.3.21


Faz hoje um ano que brindámos com os vizinhos e nessa altura não me ocorreu que dali a um ano ainda poderíamos estar em confinamento e muito menos que o vírus se fizesse convidado para entrar aqui em casa.

É isso mesmo. Quando a Primavera começou a dar o ar da sua graça e a primeira fase do desconfinamento teve início, ligaram da escola a dizer que tínhamos de ir buscar o Nicolau, porque havia um caso positivo na turma. No dia seguinte chegaram os códigos para marcar o teste e ontem ligaram a dar a resultado: Positivo.

Há tanto tempo a lidar com esta pandemia, a saber de tantos casos e mesmo assim a não conseguir deixar de ficar chocada com uma notícia destas. Agora não sei se esta falta de ar é Covid, ou ansiedade. 

Na dúvida, Beba-se

19.3.21

Estava a vaguear perto da estante e cruzei-me com o livro Amor e Ódio. Fiquei espantada por não me lembrar que o tinha - acontece-me cada vez mais, isso e não me lembrar do que li - e abri-o numa página à sorte: 

L

''Je suis certain que la journée ne sera pas comme elle a comencé, parce que dés que le soleil tombe, je bois, dizia Gainsbourg à Rock & Folk em Abril de 1979. Este gato-bravo opera uma ligeira distorção da Katalepsis estóica. Na dúvida não suspende o juízo: bebe.

Pode não parecer, mas saber como vamos acabar o dia devia ser motivo de grande ansiedade. Um erro de percepção faz com que os humanos se preocupem apenas com o dia seguinte. Julgam que o que estão a viver está garantido, apenas os interessando o que ainda não respiraram. Mal.

O nosso dia é um reino emprestado e devemos cuidar dele como de um tesouro. Beber ao começo da noite, como Gainsbourg, pode ser uma homenagem, mas também uma abdicação. Na dúvida, beba-se.''


Ironias

15.3.21
Recomeçou o ritual de acordar e ir para a escola. Ir mesmo, vestir e sair de casa em vez de pôr um casaco por cima do pijama e ir para outro quarto. Infelizmente, esse ritual só começou para o mais novo, que era precisamente o que preferia continuar em casa. O mais velho, que não vê a hora de poder voltar à escola, tem de esperar mais três semanas. Portanto, estamos metade a desconfinar e outra metade confinada. 

Ponto da situação

9.3.21

Faço parte do grupo de pessoas que viveram bem com o primeiro confinamento e que no segundo se está a passar. Não assim ao ponto de querer bater em pessoas (em muitas pessoas, pronto), ou rasgar todas as fitas autocolantes dos bancos dos jardins e marginais, mas, ainda assim, com vontade de tomar inibidores selectivos da recaptação da serotonina para ver se lavo o cabelo mais vezes e troco de roupa de vez em quando.

No mesmo dia vi os filmes Os Amantes e Histórias das Mulheres do Meu País. Curiosamente, tinha lido no dia anterior sobre o documentário da Rosanna Arquette Searching for Debra Winger e fiquei com vontade de saber mais acerca da actriz que nos pôs a chorar baba e ranho no Laços de Ternura. Porque,  como dizia Clara Queiroz no filme da Raquel Freire, as mulheres não são diferentes dos homens, mas têm uma história diferente. 

Encontrámos a Catrina abandonada e trouxemo-la para casa no dia 20 de Novembro de 2019 (acabei de confirmar com o Nicolau, que tem a data na ponta da língua), sobretudo por não termos conseguido dizer não a tantas súplicas, lágrimas e promessas. Escusado será dizer que é raro serem eles a levar a cadela à rua. Normalmente vai o Jaime de manhã e eu ao final do dia. Com o Jaime ela vai sem trela, comigo não. A ideia de ela se distrair e ser apanhada por um carro na estrada, deixa-me em pânico. O Jaime diz que ela não é parva e que obedece, mas já aconteceu estar num jardim sem trela e ela desaparecer a correr atrás de um cão e ignonar os meus chamados. Não vale a pena, não consigo evitar pensar em tudo o que pode correr mal. Com os miúdos é a mesma coisa. Ninguém imagina o que sofro cada vez que vou andar de bicicleta com eles e ainda hoje não sei como sobrevivi aos parques infantis, quando ia sozinha com os dois, ainda muito pequenos. A diferença é que com eles eu sei como é importante dar-lhes autonomia e disfarço. Suo muito e fico com vontade de vomitar, mas deixo andar, porque é preciso. Bom, menos quando me parece que estão quase a cair de precipícios e aí guincho que nem uma louca. Aconteceu nas Fisgas do Ermelo, no Caramulinho e no Miradouro do Cervo, só para dar alguns exemplos. Com a cadela não vejo necessidade de stressar, vai de trela, não tenho nada para lhe ensinar. 

Estamos todos em contagem decrescente para saber se as aulas presenciais recomeçam para a semana. Há uma vaga hipótese de as escolas abrirem para o ensino básico, além das creches e pré-escolar. Continuo admirada com a resilência de professores e alunos, mas não deixa de ser óbvio que isto é muito mau para todos.

Todos os meus planos de tentar ter uma alimentação saudável e organizar cenas foram por água abaixo.

Às vezes sonho que estou no estrangeiro, no meio de pessoas sem máscara. Um dia estava numa rua de Dehli com milhares de pessoas a respirarem umas para cima das outras, no outro a beber copos em Tóquio (nunca estive em nenhuma destas cidades).

Jardim do Morro

25.2.21

Diálogo hipotético entre mim e a minha mãe ao 42.º dia de confinamento: 

Mãe - Não, nunca penses nisso, eu não tenho essa vontade comigo. Eu não sou capaz de me matar.

Filha - Mas já pensaste nisso.

Mãe - Não, isso que estás a pensar não foi bem assim. Nós saímos de casa para ir à missa da Misericórdia.

Filha -  E foi só na camioneta que decidiste comprar um bilhete sem destino?

Mãe - Não sei, acho que sim. A minha ideia era ir ter com a Celeste e mostrar-lhe os meus três filhos para ela ver o que estava a destruir.

Filha - Ela também tinha dois filhos, devia saber.

Mãe - Sim, mas era uma miúda. Tinha sido mãe com 16 anos. Eu estava consumida pelos ciúmes, que queres? Mas nunca pensei matar-me. Só quando estávamos a atravessar a ponte D. Luís é que me ocorreu que podia atirar-me com vocês. Mas fazia como? atirava um de cada vez e depois eu?

Filha- Mas, já que estávamos no Porto, não fomos à casa da Celeste, porquê?

Mãe - Porque antes de ir apanhar o Taxi para casa dela, vocês viram um parque logo a seguir à ponte (jardim do Morro) e eu não consegui tirar-vos de lá. Estavam tão felizes! adormeci no banco e só acordei quando me vieram dizer que tinham fome.

Filha - Tínhamos quantos anos? 

Mãe - Ora bem, o teu irmão mais novo ainda não tinha nascido, por isso devias ter 9, a tua irmã 8 e o teu irmão ia fazer 6. Mas eles dizem que se lembram desse dia como um passeio muito feliz!

Filha - Sim, eu também. Achei estranho mas gostei muito desse dia. 

Pequenas coisas

19.2.21

Sou sempre a última a sair da cama. Ouço o Nicolau nas aulas, o Isaac a acordar ruidosamente (tal como continuará pelo dia fora), o Jaime na cozinha a fazer sumo e café, ou a tirar a louça da máquina, ruidosamente, e penso no que tenho para fazer. Quando acontece, como hoje, de ter de ir a algum sítio, neste caso ao dentista, significa que tenho de lavar o cabelo e pensar no que vestir. E assim, ir ao dentista, uma consulta só para confirmar que está tudo bem, passa a ser a coisa mais importante que tens para fazer. E já que te vestiste e lavaste o cabelo passas no teu trabalho, a caminho de casa, e ajudas a fazer reposição de stock na vinharia, consideras lavar os vidros da montra, mas vai chover no fim-de-semana, é melhor deixar para depois, e confirmas encomendas. Depois guardas umas wafer da Paupério para os miúdos e uma garrafa de vinho para ti e regressas a casa.

Mas, normalmente, quando acordo e penso no que tenho para fazer são só pequenas coisas - as refeições, talvez secar roupa no aquecedor, ou na lavandaria, fazer uma caminhada, mandar mensagem à Catarina por causa da psicóloga e estar aqui em casa para o que acontecer. Claro que há a humidade dos tectos para lavar, o site para actualizar, os TPC dos miúdos para controlar e mil coisas para ler e escrever, mas isso não é urgente. 

E é urgente o quê, afinal? Viro-me para o outro lado e penso no poema de Eugénio de Andrade, mas não sei de cor. 

Desculpas

13.2.21


Como quase todos os pais não consigo deixar de estar preocupada com o tempo que os meus filhos passam em frente a um ecrã, sem ser para assistir às aulas. E se por um lado me parece justo que nos intervalos joguem com os amigos, ainda que virtualmente, por outro fico em estado de choque quando ouço o mais novo a pedir à Siri da Google para contar uma piada e a perguntar-lhe se está feliz.

Apesar de achar que a geração digital não está perdida e que, muito provavelmente, os humanos desenvolverão umas competências e perderão outras, tentámos adiar ao máximo que eles usassem dispositivos tecnológicos, mas tenho a certeza que teria sido melhor adiar muito mais. Porque, sempre que os vejo na praia a brincar, ou a caminhar na serra, tenho a certeza que essa é sempre a melhor forma de passar o tempo.

Mas, por estes dias, estamos ainda mais fechados em casa porque, além da chuva, um tem aulas de manhã e outro tem aulas de tarde. Bem tento que leiam, sem sucesso, e tento convencer-me que ainda estão a tempo de descobrir o grande prazer da leitura, mesmo sabendo que é pouco provavél que esta seja uma geração leitora. Mas, depois leio sobre Platão considerar, no século IV a.C., que a escrita destruia a memória - «Se os homens aprenderem a escrever, tal implementará o esquecimento das suas almas; deixarão de exercitar a memória, pois passarão a depender do que está escrito»*- e quando olho para tudo o que a humanidade conseguiu fazer nos séculos seguintes, sossego. 


*Uma História da Leitura, Alberto Manguel, Editorial Presença, 1998