Esta pandemia tem feito a vida negra a muita gente a mim fez, se calhar, a pior coisa que me poderia acontecer: zero vontade de ler. Desisto de quase todos os livros logo nas primeiras páginas, ou fico tempos infinitos para os terminar. Só o Lillias Fraser me levou outra vez para aquele estado de ausência que os livros me costumam levar, mas e pegar noutro?
Não ter doces
Enganei-me ao comprar papel higiénico e trouxe rolos de papel de cozinha. Rimo-nos todos muito, só por isso valeu a pena a troca. E ficam bastante bem no quarto-de-banho.
Os meus filhos andam a fazer ninhos pela casa, isto é, a montar a tenda de campismo em sítios nada próprios. Deve ser o equivalente deles às minhas folhas varridas.
Há cada vez mais pessoas doentes, e conversas de doenças, à nossa volta, nem todas sobre Covid. Nós, os que escapamos não só às doenças, como aos isolamentos profilácticos, começamos a sentir que somos uma raridade, sobretudo quando estamos a viver num dos concelhos de risco extremo.
O Nicolau fez este inquérito ao pai:
1- O que te faz feliz?
2- O que te faz infeliz?
3- Qual o teu maior medo?
4- O que gostas mais de fazer na vida?
O Jaime respondeu: 1) ver-vos felizes 2) doenças nas pessoas que gosto 3) não sei 4) passear com a família, de preferência de autocaravana. Depois fez-lhe as mesmas perguntas, as respostas foram: 1) viajar 2) não ter doces 3) apanhar o Covid 4) andar de bicicleta.
Procrastinar
Imaginem se eu não fosse feminista
Prometo não ter mais ideias sobre férias, ok? Foi só querer usar os domingos a passear para vir a ordem do confinamento. Bom, mas antes disso ainda conseguimos fazer um programa, desta vez a cinco.
A Bea veio dormir à Póvoa e os irmãos acharam que ela tinha de ir experimentar um restaurante onde somos nós a cozinhar na mesa. É um daqueles clássicos, aonde as famílias vão em romaria, com comida realmente boa e um pudim abade de priscos que nos deixa felizes.
Depois, como queríamos deixá-la em casa aproveitámos para ir ver a exposição da Yoko Ono e passear no Treetop Walk. Ir a Serralves é sempre bom, sobretudo quando as exposições valem a pena. Quer dizer, logo no início fiquei espantadíssima por ver, na instalação de korakrit Arunanondchai, uma planta a mexer-se e a questionar-me se haveria algum tipo de sensores. Quando percebi que era um dos meus filhos que estava a conseguir tal proeza não deu para continuar concentrada no que estava a ver (benditas as crianças que visitam exposições sem necessidade de correr e apontar o dedo demasiado perto das obras).
Para piorar a Yoko Ono fez umas instalações interactivas, em que a pessoas podiam pintar, ou carimbar. E como explicar aos meus ricos filhos que nem todas as obras careciam de intervenção, sobretudo a do martelo pendurado?
Resumindo, o Jaime gostou mais da exposição O Sol Não Se Move, Capítulo 35, eu não consegui ver nada muito atentamente, a Bea disse qualquer coisa sobre a Yoko lhe parecer um bocado hippie pedante e todos adorámos passear pela copa das árvores.
O que me deixou perturbada foi ver a Yoko Ono como artista, quando achava que era só a namorada do John Lenon e fazia umas coisas. E ver toda a exposição de R.H. Quaytman convencida que era um homem. O machismo está-nos entranhado.
Culpa
Estava a ver o Dave Chapelle a fazer piadas sobre as violações de Bill Cosby, com um certo desconforto, e a pensar nas mudanças que têm ocorrido na sociedade, muito graças ao movimento #MeToo, quando comecei a ouvir todo o discurso dele dirigido a um carnívoro - ''Sim, ele come carne, mas salva pessoas. E salva mais pessoas do que os animais que mata''.
Há uns anos eu achava que íamos chegar a um estado de evolução em que olharíamos para os tempos em que comíamos carne como agora olhamos para a idade média. Nessa altura era vegetariana, mas provavelmente fartei-me de ser evoluída sozinha. Agora, como mais carne do que deveria e com mais gula, mas não consigo deixar de sentir uma certa culpa.
Sair sem sair
No domingo passado, como não podíamos circular entre concelhos, fomos almoçar à minha mãe. E isso até poderia não ser digno de registo se, de cada vez que vou a casa da minha mãe, não fosse como ir às grutas de Morutaumorubara, em Balibó, Timor-Leste.
Suponho que não tenho qualquer registo dessa viagem, aqui no blog, por ter sido uns dias antes do acidente, mas acreditem que há muitas similitudes entre a ida a essa gruta e os almoços em casa da minha mãe. Aquela ansiedade antes de entrar por não sabermos o que nos espera, o susto com os morcegos a sobrevoar as nossas cabeças no escuro, a vontade de fugir e ficar ao mesmo tempo.
O momento alto, no domingo, foi a diversão depois de termos atolado o carro num terreno que a minha mãe nos pediu para ir ver. O bacalhau também estava muito bom. O pior foi a sensação de não ter feito nada do que me propus.
Bojador e Clarinhas
No quarto domingo fomos a Viana do Castelo, ou melhor, fomos visitar o antigo Navio-Hospital Gil Eannes, porque já conhecemos relativamente bem a ''Pérola do Minho''.
Era escusado ter perguntado se sabiam quem era Gil Eannes para depois não saber responder onde era ao certo o Cabo Bojador. Só me ocorria Vidigueira, por causa do vinho. Enfim, tenho sido um flop como guia turística.
É claro que toda a gente adorou visitar o navio e ninguém achou nada daquilo claustrofóbico, tirando eu.
O almoço foi num restaurante muito sui generis, que antes era um Bingo, mas, além de não ter uma carta de vinhos decente, é caro para o que oferece.
Como a Natário está fechada ao domingo, regressamos pela EN13 para comprar Clarinhas de Fão. Comi quatro.
Poeira
Ontem, estava a ver a Serif a limpar o pó das máquinas de secar da lavandaria e lembrei-me do pó do deserto do Saara que chega à Amazónia e de como me pareceu bonita a ideia de estarmos todos ligados pela poeira.
Fiquei à procura de encontrar a mesma poesia naquele pó compacto, repleto de queratinócitos e outros vestígios de diferentes pessoas, mas não consegui.
Hemester
O mais importante
Respondi a uma mensagem do Jaime que tinha almoçado bacalhau, mais especificamente ''uma badana desenxabida'', porque não tinha a consistência certa, nem o sal necessário. Enquanto a mensagem seguia o seu destino eu seguia em direcção à minha infância, ao sítio onde os termos badana e desenxabida eram proferidos frequentemente.
Muitos de nós cresceram em casas onde a cozinha era o centro de tudo, mesmo nas casas, como a minha, em que não se cozinhava nada de especial. Ainda assim, enterneci-me e espantei-me com a proximidade da minha infância. Mas, a alimentação, essa eterna prioridade dos seres humanos, continua a governar a minha existência daí, talvez, não ser tão estranha a rapidez com que chego às cozinhas de outros tempos.
E se é na cozinha que procuro alguma ordem na minha vida, ao ponto de ficar desorientada se não jantar sempre à mesma hora, é noutras pequenas coisas que me concentro para controlar a ansiedade (quando não bebo): na camisola que estou a tricotar, nos vasos, no silêncio.
Algumas pessoas dirão que isso é valorizar o que é mais importante. Não é. As plantas crescem sem mim, a camisola é só mais uma camisola e o silêncio, bom, o silêncio é uma preciosidade fácil de encontrar para quem o procura.
O mais importante é que gostem de mim e isso tenho valorizado muito pouco.




