Dia #48

30.4.20

Sei que há muitas dúvidas sobre o que nos espera, mas essa é basicamente a condição de ser humano, por isso, não, não estou preocupada. Tenho medos (estou sempre a falar disso, do meu medo de tudo) e fico apreensiva com algumas notícias, mas não estou preocupada. Não estou preocupada por nós, quero dizer, e estar aqui a falar da minha preocupação pelos outros seria só um chavão bonito. Aflige-me a situação de muita gente que conheço pessoalmente e de pessoas que não conhecendo sei quem são, mas é só isso. Aflige-me e continuo com a minha vida.
E a minha vida está bem, na minha perspectiva. Ter um negócio que abriu há pouco tempo, sem uma almofada financeira para suportar a quebra face ao investimento, e não descender de uma família com recursos, deveria preocupar-me, mas eu acredito profundamente no que estamos a fazer, em termos profissionais, entenda-se. E quando eu acredito, não preciso de mais nada.
Além do amor e derivados, há pessoas que precisam de sapatos, outras de sexo, ou de carros, ou de todas as mencionadas. Eu preciso de acreditar no que faço (e de vinho, sendo que não desdenho o sexo).
Por isso, fomos apanhar maias (tenho a impressão de conhecer estas plantas como maios, mas não tenho a certeza) para proteger a vinharia e a nossa casa.

Dia #47

29.4.20
Sou quase sempre a última a sair da cama, demoro a acordar e demoro a ter vontade de me levantar. Quando o faço, ultimamente, é para ajudar os miúdos com as aulas. Um deles, o que sempre se queixou da escola, e o que tem tido piores resultados,  está a gostar desta experiência e, até, a gostar de aprender. O outro, o aluno de excelentes, está a odiar e farta-se de chorar, porque não sabemos explicar bem as coisas. Quando voltei a insistir para acompanhar as aulas em videoconferência, com a professora dele (que sabe explicar, pelos vistos), fez o seu esgar de terror e percebi que não valia a pena insistir. Se este miúdo ficou quase três meses em Timor com o pai, enquanto eu estive em Lisboa com a Bea, sem querer falar comigo no telemóvel, haveria de querer ter aulas no computador? Não me parece.
Mas, se mesmo assim não conseguíssemos reparar que são muito diferentes, um tem o cabelo quase até meio das costas, com uma franja abaixo dos olhos, e o outro usa-o rapado.
Apesar das diferenças, hoje montaram a tenda no quarto da irmã, transformado em quarto da PlayStation, e vão dormir juntos, como tem acontecido, às vezes, quando um deles sobe ou desce do beliche.
Por momentos pensei que era o amor ao campismo, mas não. Da última vez, nas ''férias da Páscoa'', puderam levar os telemóveis para a tenda e estavam à espera de poder fazer o mesmo, hoje. Quando perceberam que isso não ia acontecer, quiseram ficar na tenda na mesma, por isso nem tudo vai mal neste nosso reino.

Dia #46

28.4.20

Nesta família nascemos todos em Abril, menos o Isaac. Eu sou a primeira a festejar (a mais velha de todos) e no fim é o Nicolau, o mais novo.
Este dia valeu pela alegria deste pequeno entusiasta e irredutível menino (apesar do almoço escolhido ter sido McDonald's, ainda que largamente compensado pelo bolo oferecido pela Joana).
Obrigada, meu querido Nico!

Dia #45

27.4.20

Eu não sei como está a vossa a casa, a nossa está tão caótica como antes, ou mais. Mas pode ser de mim e não da casa.
A tranquilidade das primeiras semanas começa a dar lugar a um certo desassossego, o que até poderia não ser mau, uma vez que na medida certa é muito útil, mas nestas condições atrapalha bastante.
Bom, fez-me procurar tisanas e concluir uma das partes do casaco (sim, desisti de tricotar a Mungoche e comecei um casaco do livro japonês. Parece que funciono melhor com esquemas), portanto, nem tudo vai mal.
Quer dizer, quando o terminar e verificar que não me serve é possível que comece a chorar como os personagens de banda desenhada japonesa, aqueles que jorram água pelos cantos dos olhos, sabem? Mas posso sempre oferecê-lo a alguém, em vez disso. Ou fazer ambas as coisas.

Dia #44

26.4.20
Faltam dez minutos para terminar o 44.º dia de quarenta e só me apetece dizer que se foda o diário! Não me apetece escrever, não me apetece usar o exercício de escrita automática que aprendi na faculdade, ou os truques do curso de escrita criativa de há uns anos (andei à procura do nome do curso e deparei-me com a quantidade de coisas que fiz para me sentir útil, se calhar já me pagavam para ser consultora de qualquer coisa, digo eu).
Ou seja, não quero saber. Tenho montes* de likes no post do facebook sobre o meu aniversário de mãe pela primeira vez (sim, gostava muito de falar do orgulho e da maravilha que é ser mãe de uma criatura maravilhosa, que sei que é, mas não é o que sinto, assim sendo, vou só sorrir e acenar), por isso está tudo bem.

*obviamente depende do que cada pessoa considera montes, para mim mais de 100 são montes.

Dia #43

25.4.20
Festejar o 25 de Abril em confinamento é capaz de ter ampliado a necessidade de liberdade, porque não me lembro de me ter emocionado tanto no ano passado, ou no anterior, como neste.
Todos os anos compro cravos (tirando quando vivi em Timor) e todos os anos me lembro do que fiz neste dia há 19 anos*, porque foi a véspera do nascimento da Bea: Fui ao cinema com o pai dela, e com um casal amigo. Perdi tempos infinitos a tentar descobrir qual foi o filme (achava que nunca me ia esquecer), mas não consegui. 
Uns anos depois apaixonei-me e tive dois filhos desse amigo (que também não se lembra qual foi o filme), mas isso é outra história.
A História que se comemora hoje é a que começou a mudar o nosso país há 46 anos,  mas este é o diário de um indivíduo (ou uma indivídua se preferirem), que já aprendeu a não esperar mudar o mundo. 

*Acho que acontece com todos os pais haver um A.F e um D.F (antes dos filhos e depois dos filhos) e as datas passarem a contar a partir daí. Talvez por isso o meu poema da liberdade seja o dela.

Dia #42

24.4.20
O Jaime descobriu a Michelle Gurevich, que é o que estou a ouvir neste momento e, por certo, vou continuar por muitos e muitos momentos, tendo em conta o comportamento OCD do melómano cá de casa.
Bom, seja como for, começa a ficar claro que também vamos retirar coisas boas disto tudo, não começa?
Provavelmente ainda falta algum tempo para isto (nem sei quantos problemas cabem nesta palavrinha) passar, mas já se começa a notar um certo frenesim para voltar tudo ao ''normal''.
Por mim, podíamos ficar assim desde que tivesse mais liberdade de movimentos para poder soltar os miúdos na Natureza e encontrar-me com algumas pessoas.
Entretanto, lembrei-me que devia ter apontado pequenas coisas que fui descobrindo com o confinamento, como as cebolas de Barcelos. Há uma mercearia aqui perto de casa que vende fruta e legumes, com a origem da mesma escrita à mão, num pequeno papelão. A salsa, a alface e os limões são do quintal dela, mas isso não está escrito em lado algum.
Então, as cebolas de Barcelos fizeram-me perceber o que significa ao certo este legume ter muitas camadas. Por cada camada normal, há uma película quase transparente e muito fina, que não se deixa picar e cai na panela inteira, ou enrola-se nos dedos.
Não se pode comparar à descoberta da Michelle Gurevich, mas já tinha saudades de fazer coisas destas, de juntar cebolas de Barcelos e uma cantora e compositora canadiana no mesmo post.


Dia #41

23.4.20
É assim, estou a tentar viver o melhor possível com o que tenho (e tenho quase tudo o que preciso), mas isto começa a ficar aborrecido. Aborrecido é melhor do que problemático, mas como ando a dormir pouco (e eu nunca durmo pouco, a não ser quando amamento bebés), quer dizer que vamos ter problemas.
Espero conseguir usar os meus indian clubs, que chegaram hoje, para o bem.

P.S Valeu a festa de aniversário de uma amiga, que distribuiu bolas de berlim pelas nossas casas.

Dia #40

22.4.20

Os miúdos perguntaram, ao jantar, se já tínhamos comido alguma vez uma hóstia e a partir daí surgiu uma conversa entre o engraçado e o perturbador. Isto, precisamente, no 40.º dia de quarentena, ou seja o mesmo número de dias em que Jesus esteve no deserto, segundo as escrituras.
Às tantas, é fácil arranjar uma ligação entre isto tudo - o castigo, a quarentena, o ter acontecido na época pascal, etc. Cada qual, indivíduo ou cultura, tem a sua própria interpretação, mas não é isso que me interessa, agora, porque hoje foi o dia em que os meus filhos não me pareceram tão parvos como habitualmente parecem.
Uma vez que precisámos de ir os dois para a vinharia, eles ficaram em casa sozinhos durante uns 45 minutos. Foi o suficiente para chegar a casa e ver um bolo de iogurte no forno. Ligaram antes a perguntar se o podiam fazer, claro, e quando os autorizei a ligar o forno já estava a caminho de casa, mas não estava nada à espera de encontrar tudo tão orientado. Não havia lixo à vista e a loiça estava na banca coberta com água. Nem a falta de óleo no armário os demoveu, utilizaram o óleo usado para fritar rissóis, que estava na própria garrafa, é um facto, mas para reciclar.
Eu não provei, ainda, mas eles dizem que sabe a bola de Berlim. 

Dia #39

21.4.20
Estamos muito perto do quadragésimo dia de quarentena, talvez por isso a minha mãe me tenha convidado para almoçar no dia 3 de Maio, sem se esquecer de referir que o meu irmão tinha aceitado o convite. Continuo sem perceber a razão de ela achar que eu quero competir com os meus irmãos, mas há-de haver uma justificação, quase de certeza.
Acho que foi isso que me pôs a pensar que está a chegar o momento de voltar tudo ao normal e eu, estranhamente, não fiquei nada aliviada.
Não estou preocupada com a doença, tenho medo de ir parar ao hospital e não haver camas, ventiladores, ou o que mais for preciso e morrer por causa disso, claro, mas nesta fase da pandemia tudo indica que esse risco é menor. Também não receio o sofrimento, porque acho que se aguentei a chikungunya, também aguento o covid-19. E mesmo sabendo que não é bem assim, é um bom descargo de consciência. Quanto ao medo pela minha família é tão habitual que nem o associo a esta pandemia.
Acho que é a sensação, familiar q.b, de não me sentir preparada para sair do casulo e enfrentar o mundo outra vez, ainda por cima, a partir da Póvoa de Varzim. A falta de energia para recomeçar um trabalho que tinha praticamente acabado de começar também tem o seu peso. E, por falar nisso, também há todo um conjunto de regueifas que não sei em que roupa encaixar para conseguir sair de casa relativamente composta.