No fim-de-semana tivemos a feliz ideia de ir ver onde nasce o rio Tua. Uma desculpa como outra qualquer para irmos comer alheiras e posta à mirandesa à origem.
E já que íamos para Trás-os-Montes nada como aproveitar para estarmos mais próximos da Natureza.
Já lá estávamos no alpendre da casa onde dormimos, a beber vinho saído das proximidades, enquanto as crianças corriam livres e descalças, claro, quando o Nicolau se aproximou e perguntou se podia ter formigas como animais de estimação (antes tinha tentado com um escaravelho, sem sucesso). Nós dissemos que seria muito difícil, mas não quisemos dissuadi-lo. Ele acabaria por perceber sozinho.
Passados poucos minutos ele aproxima-se com o copo das formigas e começa a esmagá-las.
- Nicolau, estás a matar as formigas?
- Sim, vou comê-las?
- Mas não se mata animais de estimação!!
- Queres que as coma vivas?
Ora bem, eu não queria que ele as comesse, vivas ou mortas , mas fiquei sem saber o que responder ao certo. Nós comemos porcos, vacas, galinhas e outros animais que são mortos para o efeito, portanto fica difícil argumentar.
Esta capacidade que eles têm de me desconcertar surpreende-me sempre e é muito por isso que ser mãe é tão extraordinário.
Aborrecida
18.5.18
Nas minhas caminhadas costumo encontrar um casal a beijar-se. É sempre um casal diferente mas quase no mesmo sítio, no passeio à beira mar, em frente a uma esplanada fechada. E todos beijam-se como se se despedissem.
Olho para os prédios do outro lado e imagino que há ali uns quantos apartamentos que todas as manhãs ficam vazios, mais vazios que os outros, com a roupa da cama a cheirar aos corpos que se beijam, agora, já lavados e vestidos.
Estranho não ter encontrado casais que se beijam nos passeios nas outras cidades por onde caminhei tantas vezes.
Às vezes cruzo-me com um senhor que anda com um rádio portátil ao ombro. Não consigo identificar a música que ouve.
Hoje fui molhar os pés na água gelada do Atlântico.
Talvez não esteja a tornar-me na pessoa aborrecida que pareço.
Causa e efeito
11.5.18
Haverá, com certeza, evoluções sociais, revoluções económicas, conjugações astrológicas que justifiquem isto de estarmos todos na mesma altura a olhar para a nossa vida, a tentar entender o caminho percorrido e a pensar no que fazer a seguir.
Há quem lhe chame meia idade, parece. Ou condição humana. Ou ainda a angústia do contribuinte na altura de preencher o modelo 3.
Depois, há quem esteja, como a criança mais nova aqui de casa, a tentar compreender como isto tudo começou:
- Há uma coisa que eu não compreendo, mamã
- O quê?
- Todas as mães nascem das mães, não é?
- É
- Até mesmo os pais, não é?
- É
- Então, como é que a primeira mãe teve filhos se o pai ainda não tinha nascido para lhe dar sementes?
Estive quase para lhe dizer que há muito, muito tempo as mulheres não precisavam dos homens para engravidar, como n'A Fenda, da Doris Lassing, mas o Isaac que estava a ouvir a conversa rematou com um: "Oh Nicolau, mas não vês que quando Deus fez a mulher também fez um homem?"
Voltando à meia idade, recebi uma mensagem da minha rica filha com um vídeo, que dizia: "És tu tal e qual". Quem me conhece, e quem já leu aqui centenas de posts sobre a minha luta com a domesticidade, sabe que não sou nada assim ("não eras", diz ela, a minha rica filha, sublinhado e tudo com o tom certo de voz), mas é um facto que agora tenho necessidade de ter mais arrumação à minha volta do que há uns anos. Que raio de pessoa me estou eu a tornar?
Em conversa com o Jaime desabafava que nos últimos 10 anos a minha vida mudou radicalmente (o que eu adoro exageros!). Tenho menos amigos; estou quase "maníaca" das limpezas e tenho sono antes da meia-noite. Isto para referir as coisas más, logo a seguir atirei com as boas (parece que a meditação funciona mesmo): um grande amor na minha vida; mais resolvida e segura em muitos aspectos; uma família feliz.
O que não percebi na altura, até porque não conseguimos terminar a conversa, foi a provável relação causa e efeito entre umas e outras.
Entretanto apontei no meu caderno que tenho de ler Debaixo do Vulcão, por causa da frase "No se puede vivir sin amar". Há muitos livros que fiquei com vontade de ler por causa destas entrevistas que a Céu anda a fazer, mas este de Malcolm Lowry senti que era obrigatório.
Deve estar tudo relacionado.
Deve estar tudo relacionado.
Séries
15.4.18
Nas férias da Páscoa a minha filha viciou-me na série do momento, La Casa de Papel, e ontem, enquanto via quatro episódios de seguida, com a mesma voracidade com que emborcava a garrafa de vinho, pensei que alguma coisa essencial há-de ter mudado desde que podemos ver séries assim.
Além das normais diferenças geracionais, entre mim e a minha filha há um grande fosso. Tem de haver, porque uma geração que cresce sem ter de esperar uma semana para ver Ficheiros Secretos é totalmente diferente de nós. E a nossa tendência é olhar para eles com uma certa sobranceria, claro, mas também, no meu caso, com espanto e desconcerto.
Olho para ela e vejo-me com a mesma idade, só que a ver todos os episódios seguidos das séries que quiser, e ensaio dizer-lhe tudo o que está a fazer de errado, indicar-lhe um caminho de gente que espera uma semana para ver Ficheiros Secretos, mas isso não faz lá muito sentido.
Ainda por cima não se ensina a saber esperar, digo eu que estou aqui em ânsias a poucas horas de ir ao aeroporto ter com o Jaime.
45
5.4.18
A ironia de ter vindo parar à minha cidade de origem aos 45 anos, quando nunca quis viver aqui, deve ter um significado qualquer, provavelmente relacionado com a falta de ar, que voltou, e o medo de ceder ao establishment. Mas talvez tenha estado enganada este tempo todo a achar que não fazia parte dele, daí a falta de ar.
Seja como for cheguei a uma idade que me põe a pensar como cheguei aqui e é estranho, porque olho para a miúda que tinha medo de anjos aos 8 anos, para a que achou que seria freira aos 12, a que viu a vida desmoronar-se aos 13, quando o pai morreu, a que se enojou com a sensação de uma pila na mão aos 16, a que julgou morrer de amor até aos 20, a que se apaixonou aos 23, a que foi mãe aos 28, a que descobriu os prazeres do sexo depois dos 30, a que encontrou o amor de uma vida e reconciliou-se com a maternidade depois dos 35, a que foi para Timor-Leste aos 42 e não tenho a certeza de ter sido sempre a mesma pessoa que está aqui agora.
É claro que isto para ser um post como manda a lei das redes sociais punha aqui uma foto do meu dia de anos, mas às vezes não há como evitar ser uma fora da lei.
Mãe
19.3.18
A minha avó, que continua agarrada à vida com unhas e dentes, ainda que as unhas estejam nuns dedos com osteoartrite e os dentes numa prótese acrílica, chama pela mãe quando delira.
É quase sempre antes do sol nascer, esse momento da madrugada que nos põe entre mundos, que se ouve a minha avó: Ó mãe, ó mãe, mãeeee.
Cresce uma aflição ouvi-la e depois a ver a filha, a minha mãe, a responder-lhe ao chamamento.
É dia do pai, eu sei, mas a minha vida tem sido feita de mães.
É quase sempre antes do sol nascer, esse momento da madrugada que nos põe entre mundos, que se ouve a minha avó: Ó mãe, ó mãe, mãeeee.
Cresce uma aflição ouvi-la e depois a ver a filha, a minha mãe, a responder-lhe ao chamamento.
É dia do pai, eu sei, mas a minha vida tem sido feita de mães.
Cartas da Póvoa #1
5.3.18
Jaime,
Comecei por escrever "Querido Jaime" mas depois soou-me estranho. Serei assim tão pouco afectuosa, ao ponto de não me lembrar de te chamar querido, alguma vez? Bom, talvez seja melhor não responderes a esta pergunta.
Quando comecei esta coisa das cartas para encurtar a distância entre mim e a Bea estava longe de imaginar que estava a pouco tempo de ficar mais próxima dela e mais distante de ti.
Mas eis-nos aqui às voltas com mais um Cisne Negro. Confesso que depois do impacto deste acontecimento imprevisível, estou ansiosa pela "explicação que o faz parecer menos aleatório e mais previsível do que aquilo que é na realidade". Já vais avançado na leitura do livro, ou nem por isso?
É das poucas coisas que gosto em mim, a de continuar a acreditar piamente que os livros têm todas as respostas.
Faz hoje precisamente duas semanas que saíste daqui e ainda não conseguimos descobrir a hora certa para nos encontramos na pontas dos dedos. E isto quase que podia ser sensual se não metesse telemóveis e conversas desencontradas mas, bom, ele há gostos para tudo...
Parece que estás longe há imenso tempo e, no entanto, ainda não passou tempo suficiente para me sentir familiarizada com a tua ausência.
O que mais me custa é não saber o que estás a pensar, a sentir, o que te faz rir, o que te exaspera, o que te enternece. Ou seja, o que me custa na tua ausência é a falta da tua presença. Não gozes, a gramática nem sempre está preparada para o que queremos dizer.
Às vezes, muitas vezes, consigo estar um bocadinho contigo nas coisas que me escreves mas tens escrito pouco, contado pouco.
O que mais me custa é não saber o que estás a pensar, a sentir, o que te faz rir, o que te exaspera, o que te enternece. Ou seja, o que me custa na tua ausência é a falta da tua presença. Não gozes, a gramática nem sempre está preparada para o que queremos dizer.
Às vezes, muitas vezes, consigo estar um bocadinho contigo nas coisas que me escreves mas tens escrito pouco, contado pouco.
No outro dia, depois do Correntes d' Escrita, dei por mim a pensar no monte de banalidades que teria partilhado contigo. Sabias que o João Tordo é gago? E o Valério Romão, sabes, que escreve sobre família é um gajo, pareceu-me, que apreciaria jantar cá em casa. Não mais do que nós apreciaríamos jantar com ele, obviamente. A Isabela é diferente do que imaginava e o texto que o Sandro William Junqueira leu surpreendeu-me.
Sobre o evento só te disse que tinha gostado muito e não me demorei no assunto, mas se estivesses aqui provavelmente tinha inventado uma relação entre os cactos da Isabela, o escaravelho do Valério, as mulheres do Mû Mbana e o Mar da Ana Margarida de Carvalho. Contei-te que a audiência do Cine-Teatro Garret começou a cantar espontaneamente "O mar enrola na areia"? Os poveiros se não existissem tinham de ser inventados (e nunca esta expressão fez tanto sentido)!
Os miúdos estão bem, parece-me que cisnes negros são uma coisa muito mais natural para eles. Eu é que continuo às voltas com as escolhas e as decisões que tomamos a pensar neles, mas o Nicolau tem dado umas pistas com aquela do "nós só queremos ter uma mãe feliz!" e a outra, "o problema é nós não sabermos que coisas te vão chatear".
Na semana passada fiz uma massa de frango que terias apreciado, apesar de ser uma especialidade tua. Hoje vou cozinhar amêijoas, mas daquelas congeladas que já vêm sem casca. Deve resultar bem num arroz malandro.
Sobre o evento só te disse que tinha gostado muito e não me demorei no assunto, mas se estivesses aqui provavelmente tinha inventado uma relação entre os cactos da Isabela, o escaravelho do Valério, as mulheres do Mû Mbana e o Mar da Ana Margarida de Carvalho. Contei-te que a audiência do Cine-Teatro Garret começou a cantar espontaneamente "O mar enrola na areia"? Os poveiros se não existissem tinham de ser inventados (e nunca esta expressão fez tanto sentido)!
Os miúdos estão bem, parece-me que cisnes negros são uma coisa muito mais natural para eles. Eu é que continuo às voltas com as escolhas e as decisões que tomamos a pensar neles, mas o Nicolau tem dado umas pistas com aquela do "nós só queremos ter uma mãe feliz!" e a outra, "o problema é nós não sabermos que coisas te vão chatear".
Na semana passada fiz uma massa de frango que terias apreciado, apesar de ser uma especialidade tua. Hoje vou cozinhar amêijoas, mas daquelas congeladas que já vêm sem casca. Deve resultar bem num arroz malandro.
O tempo que faz lá fora
28.2.18
Ontem comecei este post:
Suponho que era uma questão de tempo até este blog se tornar novamente na caixa de lamentos de uma mãe neurótica.
É da chuva de certeza, desta chuva que cai em pingas mortiças a lamentar-se, e deste cinzento do ar.
Hoje, dei por mim a sair da cama e a barafustar baixinho com a pressão da água que sai do chuveiro, com a roupa espalhada no chão, com as crianças que insistem em ignorar-me olimpicamente - aqui já não tão baixinho assim.
Iogurtes ao pequeno-almoço e eu a olhar para eles a pensar, vocês acham isto tudo normal, não é?
Quando saímos não chovia, fomos a pé para a escola a dizer a tabuada. Hoje foi dia da tabuada do 4 e eu a olhar para eles a pensar, as pessoas trabalham, mandam os filhos para a escola e depois eles crescem para trabalhar e mandar os filhos para escola. Podem não ter filhos, é certo, mas em princípio terão de trabalhar. Ou não, o mundo está a mudar. Mas enquanto não muda é assim e acordamos todos os dias para fazer a mesma coisa. E às vezes, muitas vezes, chove e o dia está cinzento. Já não me lembrava que os dias podiam ter esta cor.
Acabei por não publicar o post porque li qualquer coisa sobre a Síria e pareceu-me insultuoso estar a falar do tempo.
Entretanto, hoje, comecei a ler o Expresso Curto escrito pelo Ricardo Marques e pareceu-me que ele começou o texto com uma boa conclusão para o meu: "Há poucas coisas tão simples e tão complicadas como o tempo que faz lá fora numa manhã como esta. É o inverno, e o inverno é assim. É feito de chuva, de neve, de vento forte e de mar bravo, de trovoadas e granizo e frio. Há escolas fechadas, estradas cortadas, acidentes de trânsito e pessoas a quem acontecem coisas más. Muito más. Mas olhamos pela janela como quem olha para o mundo. E aceitamos. Faz parte da vida."
Com a continuação da leitura do Expresso Curto percebe-se que o assunto do tempo é bem mais grave do que pode parecer à primeira vista, mas não era do tempo que eu queria falar.
Caiu uma tristeza em mim
22.2.18
Ontem, não sei se a sonhar se acordada, estava em Díli. Foi tão real a visão da rua da nossa casa, das buganvílias a sair pelas grades, das motas a circular, dos alunos da escola do Farol a comerem no passeio, que me assustei. Abri muito os olhos e pensei que se calhar o Jaime estava finalmente em Timor, depois de uma viagem atribulada, e que eu conseguia ver o que ele via. Não foi nada disso, claro.
Depois, "caiu uma tristeza em mim", foi como lhe descrevi o meu estado, não sei se por estarmos outra vez longe um do outro, se por sentir falta de Timor.
Com este recomeço em Portugal, e tudo o que isso tem implicado, não tenho pensado muito no que ficou para trás. Penso nas pessoas, no cão, na força daquela natureza que vai ficar para sempre entranhada em mim, mas agora estou aqui. E estou bem.
Mesmo assim, "caiu uma tristeza em mim", ainda antes do Jaime me descrever como foi entrar em nossa casa com a árvore de Natal por desfazer, porque os miúdos queriam que eu a visse quando chegasse, com os desenhos deles nas paredes, os brinquedos no quarto e as nossas roupas penduradas.
Gostava mesmo de perceber como é possível termos tantas casas. Casas realmente habitadas por nós, ou partes do nós. Também gostava de perceber a matéria da terceira classe, ou melhor, do terceiro ano, mas não se pode ter tudo, não é? (eu sei que parece mas não é uma pergunta de retórica)
"Caiu uma tristeza em mim" e por isso não fiz nada do que queria, ou precisava de fazer. Bem, fiz o bolo de iogurte com raspa de limão para a lição 100 das turmas deles e não me esqueci de o levar para escola, pus a lavar e estendi dezenas de máquinas de roupa para aproveitar o sol e fiz quiche para não deitar fora os cogumelos murchos. Mas ainda não fui assistir a uma mesa do Correntes d' Escrita, não mudei o header do blog, não dei seguimento às histórias começadas.
As tristezas podem cair ou ficar lá onde costumam estar que eu, pelos vistos, não deixo de fazer listas.
O sítio das coisas preciosas
14.2.18
Há uns anos escrevi um conto que se chamava "O sítio das coisas preciosas" (e eu que achava que até tinha jeito para títulos!). Lembrei-me dele porque em conversa com uma amiga da Bea, que vive na mesma casa desde que nasceu, apercebi-me que até sair de casa também vivi sempre na mesma, excepto quando foi deitada abaixo para ser construída uma melhor.
Depois comecei a contar as casas onde já viveram os meus filhos e desisti a meio. Virei costas à angústia que vinha instalar-se e ouvi a poupa que frequentava o quintal da casa provisória onde vivemos até a outra ficar pronta.
Lembro-me desse período, que durou uns dois anos, nem isso, como um dos mais felizes da minha infância, mas não foi essa a casa que incluí no tal conto.
Não há como saber o que levarão eles da infância, pois não?
"Na casa havia escadas. As escadas de fora e as de dentro. As de fora, em cimento, davam para um pequeno patamar com três portas: a da sala, a da cozinha e a da retrete. As de dentro, em madeira, ligavam a cozinha ao coberto. Todos os que viviam na casa tinham caído nas escadas de dentro. Nunca ninguém se aleijou.
A casa tinha uma sala, dois quartos e a cozinha, em cima. Em baixo, o coberto com os teares e os farrapos.
Havia sempre caruma, porque era preciso acender o lume para aquecer água e cozinhar.
Caruma e pinhas.
Havia também os copos da cristaleira e as cobertas de pôr à janela quando passa a procissão.
E havia canteiros com flores: dálias, malmequeres e cravos. As flores eram para o cemitério.
Havia a pá para tirar a borralha.
E um secador do cabelo. Não havia banheira, porque nem sequer existia um quarto de banho, mas havia um secador de cabelo. Ela detestava que a mãe lhe secasse o cabelo com o secador, porque lhe queimava as orelhas. Isto antes de lhe cortar o cabelo curto.
Em casa havia ainda muitos baldes, bacias e cântaros.
E um pipo com vinho dentro, que saía por uma torneirinha. Às vezes não tinha vinho.
Ao lado da casa estava o anexo, onde viviam a tia e as primas. Em cima do anexo secava o milho.
Um dia chegaram os camiões e os caterpillars e outros que não sabia o nome para deitarem a casa abaixo.
Ela chorou. A mãe disse que era para construírem uma casa melhor, mas ela não queria uma casa melhor. Queria aquela."
Depois comecei a contar as casas onde já viveram os meus filhos e desisti a meio. Virei costas à angústia que vinha instalar-se e ouvi a poupa que frequentava o quintal da casa provisória onde vivemos até a outra ficar pronta.
Lembro-me desse período, que durou uns dois anos, nem isso, como um dos mais felizes da minha infância, mas não foi essa a casa que incluí no tal conto.
Não há como saber o que levarão eles da infância, pois não?
"Na casa havia escadas. As escadas de fora e as de dentro. As de fora, em cimento, davam para um pequeno patamar com três portas: a da sala, a da cozinha e a da retrete. As de dentro, em madeira, ligavam a cozinha ao coberto. Todos os que viviam na casa tinham caído nas escadas de dentro. Nunca ninguém se aleijou.
A casa tinha uma sala, dois quartos e a cozinha, em cima. Em baixo, o coberto com os teares e os farrapos.
Havia sempre caruma, porque era preciso acender o lume para aquecer água e cozinhar.
Caruma e pinhas.
Havia também os copos da cristaleira e as cobertas de pôr à janela quando passa a procissão.
E havia canteiros com flores: dálias, malmequeres e cravos. As flores eram para o cemitério.
Havia a pá para tirar a borralha.
E um secador do cabelo. Não havia banheira, porque nem sequer existia um quarto de banho, mas havia um secador de cabelo. Ela detestava que a mãe lhe secasse o cabelo com o secador, porque lhe queimava as orelhas. Isto antes de lhe cortar o cabelo curto.
Em casa havia ainda muitos baldes, bacias e cântaros.
E um pipo com vinho dentro, que saía por uma torneirinha. Às vezes não tinha vinho.
Ao lado da casa estava o anexo, onde viviam a tia e as primas. Em cima do anexo secava o milho.
Um dia chegaram os camiões e os caterpillars e outros que não sabia o nome para deitarem a casa abaixo.
Ela chorou. A mãe disse que era para construírem uma casa melhor, mas ela não queria uma casa melhor. Queria aquela."
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