A insónia não é novidade a esta hora da madrugada. Tem sido assim nos últimos dias deste longo mês de Agosto.
Agosto foi sempre o mês mais longo do ano, também isso não é novidade.
O hotel, sim, é novo. Novo para mim, porque o chão gasto e o cheiro a desodorizante deixam claro que de novo tem pouco.
Daqui a umas horas começa a longa viagem que nos levará para a casa nova. Não gosto muito da ideia de passar tanto tempo dentro de um avião, ou melhor, de três aviões, mas todos parecem calmos (e não é só porque estão a dormir) e isso tranquiliza-me.
Lisboa não parece a mesma, sem uma casa a que chamemos nossa, mas soube-me bem o caril de camarão com quiabos e o chacuti de frango, no meu restaurante preferido.
Não sei se já tinha dito que daqui a umas horas começa a longa viagem que nos levará para a casa nova. Não é bem uma mudança de casa como todas as outras, sobretudo com tantas lágrimas misturadas, mas no fundo é isso: vamos mudar de casa.
“Boa noite, não se preocupe. Boa sorte!”
19.8.15
Isto não está fácil. A minha mãe complicou, como sempre, a minha vida. Entrou num processo tal, nas últimas semanas, que se tornou incapaz de cuidar da minha avó (ela culpa a minha avó da vida miserável que tem, eu culpo a minha mãe de complicar a minha vida. Isto é tudo um ciclo, como se sabe).
Depois de arrumar a minha casa em Lisboa, no sentido literal, tenho estado a arrumar a casa da minha mãe nos dois sentidos – literal e figurado. Limpo a merda dos gatos, dos meus e não só, que vivem aqui; limpo a merda das galinhas; limpo a merda das sanitas. Procuro um Centro de Dia para a minha avó e vejo-a pedir à minha mãe, em desespero, que não a abandone.
Desespero com o desespero das duas.
Decido não me deixar abater, já que não é novidade para mim que esta casa tem a capacidade de deitar abaixo todos os filhos da minha mãe, menos (aparentemente) o meu irmão mais novo, que é o que vive mais distante, por enquanto.
Decido não me abater, dizia, e mantenho a ideia de marcar um jantar para me despedir dos meus amigos. No processo das mensagens, via telemóvel novo, isto é, smartfone usado, engano-me num receptor e, depois de corrigir o erro, recebo a seguinte resposta: “Boa noite, não se preocupe. Boa sorte!".
Choro compulsivamente. Não sou de ferro, foda-se!
Depois de arrumar a minha casa em Lisboa, no sentido literal, tenho estado a arrumar a casa da minha mãe nos dois sentidos – literal e figurado. Limpo a merda dos gatos, dos meus e não só, que vivem aqui; limpo a merda das galinhas; limpo a merda das sanitas. Procuro um Centro de Dia para a minha avó e vejo-a pedir à minha mãe, em desespero, que não a abandone.
Desespero com o desespero das duas.
Decido não me deixar abater, já que não é novidade para mim que esta casa tem a capacidade de deitar abaixo todos os filhos da minha mãe, menos (aparentemente) o meu irmão mais novo, que é o que vive mais distante, por enquanto.
Decido não me abater, dizia, e mantenho a ideia de marcar um jantar para me despedir dos meus amigos. No processo das mensagens, via telemóvel novo, isto é, smartfone usado, engano-me num receptor e, depois de corrigir o erro, recebo a seguinte resposta: “Boa noite, não se preocupe. Boa sorte!".
Choro compulsivamente. Não sou de ferro, foda-se!
Sabedoria popular
12.8.15
Visto isso o problema da minha mãe está relacionado com o momento da concepção, e eu não vou entrar em detalhes, porque a minha avó contou-me o sucedido muito envergonhada, acrescentando que nunca tinha falado do assunto a ninguém.
Mas nem tudo está perdido, porque se o médico da cabeça que eu sugeri for bom e ela tomar os remédios pode ser que as coisas se componham.
Mas nem tudo está perdido, porque se o médico da cabeça que eu sugeri for bom e ela tomar os remédios pode ser que as coisas se componham.
Cuidar
11.8.15
Andamos uma vida inteira a correr atrás do Amor, esse mesmo com maiúsculas, o verdadeiro e único. Acreditamos, mesmo quando não acreditamos, que existe a pessoa certa para nós. Ou talvez até mais do que uma. Não sei se porque está escrito em todo o lado, em palavras e não só, ou se os nossos átmos estão programados para isso.
Seja como for, é bonito quando acontece, mesmo quando não acontece e nós achamos que sim. Uma pessoa fica feliz. Uma pessoa encontra sentido nesta confusão toda. Uma pessoa brilha e sorri muito mais. Se calhar brilha, porque sorri.
E isso é tudo muito bonito. Muito bonito mesmo. Mas, aqui entre nós que ninguém nos ouve, o verdadeiro achado, a verdadeira felicidade é juntarem-se pessoas que gostam de ser cuidadas a pessoas que gostam de cuidar.
Ou então ser como Elisabeth de York.
Seja como for, é bonito quando acontece, mesmo quando não acontece e nós achamos que sim. Uma pessoa fica feliz. Uma pessoa encontra sentido nesta confusão toda. Uma pessoa brilha e sorri muito mais. Se calhar brilha, porque sorri.
E isso é tudo muito bonito. Muito bonito mesmo. Mas, aqui entre nós que ninguém nos ouve, o verdadeiro achado, a verdadeira felicidade é juntarem-se pessoas que gostam de ser cuidadas a pessoas que gostam de cuidar.
Ou então ser como Elisabeth de York.
Do que eu gosto é de vinho, mas há execpções
6.8.15
Acordei, na segunda-feira, completamente em pânico, porque me tinha esquecido de enviar o texto para a semana da cerveja do Lifecooler. Nunca me tinha acontecido tal coisa na vida e até saltei da cama (coisa rara, sobretudo àquela hora da manhã).
Depois de trocados alguns SMS, percebi que estava no timing, que era esta semana que deveria enviar o texto, e abracei o meu superego. Acho que o achei espectacular e tudo.
É claro que esta alegria e auto-valorização duraram pouco tempo, por não ter conseguido escrever o texto que gostaria, e ainda por cima cheio de gralhas (obrigada Nelson, pela edição), mas acho que, mesmo assim, vou continuar a ter em boa conta este meu nível de consciência.
E nem sequer quero saber se é completamente ultrapassado citar Freud, sei é que o meu superego, ou o referente mais actual, tem feito algumas coisas por mim bastante interessantes, como mostrar-me erros ortográficos em sonhos, que me passaram despercebidos quando os escrevi acordada, corrigidos pela minha professora de História do 11.º ano.
Sim, já me aconteceu acordar uma manhã completamente em pânico, depois de ver num sonho uma antiga professora escrever no quadro preto, com a sua letra magnífica de professora primária, uma palavra que eu tinha escrito mal num e-mail, e que na altura nem sequer me tinha apercebido.
Depois de trocados alguns SMS, percebi que estava no timing, que era esta semana que deveria enviar o texto, e abracei o meu superego. Acho que o achei espectacular e tudo.
É claro que esta alegria e auto-valorização duraram pouco tempo, por não ter conseguido escrever o texto que gostaria, e ainda por cima cheio de gralhas (obrigada Nelson, pela edição), mas acho que, mesmo assim, vou continuar a ter em boa conta este meu nível de consciência.
E nem sequer quero saber se é completamente ultrapassado citar Freud, sei é que o meu superego, ou o referente mais actual, tem feito algumas coisas por mim bastante interessantes, como mostrar-me erros ortográficos em sonhos, que me passaram despercebidos quando os escrevi acordada, corrigidos pela minha professora de História do 11.º ano.
Sim, já me aconteceu acordar uma manhã completamente em pânico, depois de ver num sonho uma antiga professora escrever no quadro preto, com a sua letra magnífica de professora primária, uma palavra que eu tinha escrito mal num e-mail, e que na altura nem sequer me tinha apercebido.
No fundo, eu sou a Paris Hilton
30.7.15
Tenho andado muito ocupada com as arrumações da casa, como se nota, e tenho dado por mim envolta em nostalgias estranhas, do género: "é a última vez que estendo roupa neste estendal (suspiro)", ou, "amanhã é a última vez que os meninos tomam banho nesta casa (suspiro)", e "só vou subir e descer estes três andares, que parecem seis, mais meia dúzia de vezes" (suspiro, ou melhor, yupiiiiiii!).
Enfim, esse tipo de coisas e mais as outras que nos assaltam o pensamento quando estamos a fazer actividades mecânicas e aborrecidas.
A mim, por exemplo, acontece-me pensar que preciso de perder barriga, e que tenho de comprar um dente (o pré-molar que parti na passagem de ano 2013), e que se houvesse uma forma de levantar as mamas é que era. Depois, pergunto-me a que propósito e, por mais que queira culpar a sociedade, os estereótipos, a modernidade, a frivolidade, e sei lá quantas mais coisas acabadas em "dade", a verdade é que uma parte de mim gosta de ser objecto de desejo, de cobiça. É um bocadinho parvo, eu sei, apesar de natural, no sentido em que faz parte do ser humano querer ser desejado - os bebés são adoráveis por uma questão de sobrevivência, ponto.
É um bocadinho parvo, dizia, porque eu não preciso propriamente de "arranjar marido", e não faz parte de mim precisar de atributos físicos para me sentir valorizada como pessoa, mas a verdade é que é para aí que o meu pensamento corre, quando se liberta nas tarefas mecânicas.
Acho que é por isso que os exercícios de escrita automática sempre me aterrorizaram. No fundo, no fundo eu sou a Paris Hilton.
Enfim, esse tipo de coisas e mais as outras que nos assaltam o pensamento quando estamos a fazer actividades mecânicas e aborrecidas.
A mim, por exemplo, acontece-me pensar que preciso de perder barriga, e que tenho de comprar um dente (o pré-molar que parti na passagem de ano 2013), e que se houvesse uma forma de levantar as mamas é que era. Depois, pergunto-me a que propósito e, por mais que queira culpar a sociedade, os estereótipos, a modernidade, a frivolidade, e sei lá quantas mais coisas acabadas em "dade", a verdade é que uma parte de mim gosta de ser objecto de desejo, de cobiça. É um bocadinho parvo, eu sei, apesar de natural, no sentido em que faz parte do ser humano querer ser desejado - os bebés são adoráveis por uma questão de sobrevivência, ponto.
É um bocadinho parvo, dizia, porque eu não preciso propriamente de "arranjar marido", e não faz parte de mim precisar de atributos físicos para me sentir valorizada como pessoa, mas a verdade é que é para aí que o meu pensamento corre, quando se liberta nas tarefas mecânicas.
Acho que é por isso que os exercícios de escrita automática sempre me aterrorizaram. No fundo, no fundo eu sou a Paris Hilton.
Rose te vá bien
28.7.15
Este desenho, feito em Montmartre quando estive em Paris pela primeira vez, correu praticamente todas as casas onde vivi, ou seja oito casas (sem contar as que dividi quartos), e nunca esteve pendurado/colado numa parede. Nem sei bem porquê, talvez por toda a gente o achar feio.
Eu sei que não é lá grande retrato mas não consigo desfazer-me dele. Lembra-me o quanto fiquei fascinada com o ambiente de Montmartre e o espanto de me ver tão bonita num desenho (e parecida com a Kirstie Alley do Cheers), para logo a seguir ouvir a minha professora de Psicologia dizer que eu eu era muito mais bonita na realidade. A mesma professora do "rose te vá bien", sobre a camisola que tinha vestido nesse dia. Tenho de vestir mais vezes cor-de-rosa.
E o desenho vai voltar para o sótão da minha mãe.
Eles
25.7.15
Além disso, não terão de falar com o pai através de um computador, ele vai estar ali connosco.
Podíamos fazer o mesmo no Minho, ou no Alentejo, com buganvílias e uma figueira? Podíamos, mas não era a mesma coisa.
Acaso
23.7.15
"No ano passado, um menino de dois anos de West Chester, na Pensilvânia, morreu depois de uma cómoda de seis gavetas da gama Malm ter caído em cima dele."
"Uma menina de 12 anos morreu hoje, sexta-feira, após ter sido atingida por um raio enquanto se encontrava ao ar livre na região de Campelles, em Girona, na Catalunha."
"Uma criança com cerca de três anos morreu esta madrugada junto a um poste de alta tensão no recinto das festas de Odivelas."
Às vezes, acho que se reunisse todas as notícias deste género, e fizesse uns cálculos complicados, encontraria uma justificação para estes acontecimentos aleatórios e absurdos.
No largo
19.7.15
"Não, não tive filhos e não me arrependo, sabe porquê? porque, eu tenho um irmão mais novo do que eu 12 anos, fui eu que o criei e parece que nem existo para ele. A minha mãe era enfermeira no Estefânia e a minha avó costurava para as senhoras ricas. Tinha cinco pessoas a trabalhar com ela. Então, eu ia levar o meu irmão ao hospital para a minha mãe lhe dar de mamar e cuidava dele apesar de só ter 12 anos. Agora, passam-se meses sem que me telefone. Mas, tudo bem, é só o meu irmão, já viu se fosse um filho? Não, não conseguia viver com isso.
Do que eu me arrependo é de não ter casado com um oficial da marinha que gostava muito de mim. Mas eu andava nas danças, sabe, nas danças de salão, e não tinha interesse nenhum em namorar (está quieta boneca, não te coces, que depois fazes ferida, a dona põe-te pó talco quando chegar a casa). Sim, era bailarina, pois, e até ganhei quatro troféus. Dois na Apolo e outro dois aqui [no Sport Clube do Intendente], mas este agora está desactivado. Tenho pena de não ter ficado com ele, ele ia chorar lá para casa, com a minha avó. Agora está viúvo e tem filhos casados e netos, mas se o vir não o reconheço.
Nós as pessoas de Lisboa falamos muito, não é? Então as que têm uma costela algarvia como é o meu caso, muito mais. Não conhece muitos lisboetas? Pois, os lisboetas vivem mais nestes bairros antigos, em Alfama, na Bica, no Bairro Alto, aqui no Intendente...eu gostava muito mais deste bairro como era antigamente. Ainda no outro dia fui entrevistada para a Renascença, nem sei se "ela" [Presidente da Junta de Freguesia] ouviu, e disse isso mesmo. Sim, havia droga, mas agora também há. E a droga nunca me trouxe problemas, nem as prostituas (ui, o Luís já está tão bêbedo a esta hora!). Antigamente era melhor, eu acho.
Eu nasci aqui há 70 anos, na casa onde ainda hoje vivo e na cama onde durmo. Tenho um hóspede lá em casa, mas, coitado, a reforma dele mal dá para pagar o quarto. No outro dia foi buscar comida às carrinhas, mas depois roubaram-lhe os sacos com a comida, enquanto ele foi fazer a folga de um conhecido no estacionamento do Saldanha. E era muita comida, e boa."
Do que eu me arrependo é de não ter casado com um oficial da marinha que gostava muito de mim. Mas eu andava nas danças, sabe, nas danças de salão, e não tinha interesse nenhum em namorar (está quieta boneca, não te coces, que depois fazes ferida, a dona põe-te pó talco quando chegar a casa). Sim, era bailarina, pois, e até ganhei quatro troféus. Dois na Apolo e outro dois aqui [no Sport Clube do Intendente], mas este agora está desactivado. Tenho pena de não ter ficado com ele, ele ia chorar lá para casa, com a minha avó. Agora está viúvo e tem filhos casados e netos, mas se o vir não o reconheço.
Nós as pessoas de Lisboa falamos muito, não é? Então as que têm uma costela algarvia como é o meu caso, muito mais. Não conhece muitos lisboetas? Pois, os lisboetas vivem mais nestes bairros antigos, em Alfama, na Bica, no Bairro Alto, aqui no Intendente...eu gostava muito mais deste bairro como era antigamente. Ainda no outro dia fui entrevistada para a Renascença, nem sei se "ela" [Presidente da Junta de Freguesia] ouviu, e disse isso mesmo. Sim, havia droga, mas agora também há. E a droga nunca me trouxe problemas, nem as prostituas (ui, o Luís já está tão bêbedo a esta hora!). Antigamente era melhor, eu acho.
Eu nasci aqui há 70 anos, na casa onde ainda hoje vivo e na cama onde durmo. Tenho um hóspede lá em casa, mas, coitado, a reforma dele mal dá para pagar o quarto. No outro dia foi buscar comida às carrinhas, mas depois roubaram-lhe os sacos com a comida, enquanto ele foi fazer a folga de um conhecido no estacionamento do Saldanha. E era muita comida, e boa."
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