O nosso dia-a-dia

7.8.14



Estamos há uma semana em Timor e ainda não subi ao Cristo Rei nem fui ao cemitério de Santa Cruz, porque a minha vida tem sido uma canseira: as manhãs são passadas na praia da areia branca, que durante a semana está praticamente deserta, e as tardes a passear a pé no centro de Dili. Pelo menos já fui ao mercado dos tais, mas tenho de lá voltar (com o Jaime, para me impedir de trazer tudo o que lá está), porque esqueci-me de levar a máquina fotográfica.
Os miúdos sentem-se em casa, passam o dia descalços, seminus e dentro de água, quando não estão no mar, estão na piscina. Acho que tanta liberdade e tanta natureza transtornou o Nicolau, ao ponto de ele ter começado a odiar sanitas e preferir fazer cocó no chão.
Os mosquitos, esses, adoram-me, por isso ando cheia de bolhas nos braços e nas pernas, como qualquer malai que se preze.
Amanhã seguimos para Baucau.

P.S Hoje a Beatriz ia tendo um chelique, e eu também, com uma formiga dentro do ouvido. Consegui sacar a gaja, felizmente.

Devagar se vai ao longe

5.8.14



Com tão poucas coisas a preocupar-me neste momento, ponho-me a pensar no que pode correr mal para este país. Os timorenses são profundamente simpáticos e parecem saber aproveitar o que a ilha deles tem de melhor. Aproveitam a praia, gostam de ficar sentados à sombra a ver quem passa e quando andam aos magotes em cima de camiões, ou de motas, olham à volta com prazer. E acenam a sorrir, claro. Acho que é por isso que não consigo evitar comprar-lhes coisas, eu que nunca compro nada. Ele é maracujás, ele é colares, ele é crocodilos em madeira, enfim, tudo o que me apresentam à frente.
Mas dizia que penso no que pode correr mal, sobretudo quando vejo o trânsito caótico na avenida principal, os resorts em construção, ou os montes de lixo espalhados pela cidade, pelas praias e pelos ribeiros.
Não será mesmo possível começar-se um país por aí? pelo saneamento básico e aterros sanitários, logo a seguir às escolas e hospitais?
Seja como for, é como diz a Miranda, uma das cozinheiras aqui de casa: "as coisas para serem bem feitas têm de ser feitas devagar" (ela misturou algum tetum pelo meio, mas o sentido era mais ou menos este).
A mim apetece-me muito ver este país crescer devagar e bem, porque é evidente que há alguma coisa de muito especial neste canto português da Ásia.

Primeiras impressões de Díli

4.8.14






Estamos em Díli há três dias e já vi mais sorrisos neste tempo do que em três meses em Lisboa. E não são só as crianças que sorriem nesta cidade (apesar de terem os sorrisos mais bonitos que alguma vez vi), quase todos os adultos sorriem como elas e acenam à nossa passagem.
Ainda assim, não se pode dizer que a capital de Timor Leste seja particularmente bonita, mesmo com todo este oceano a entrar-nos pelos olhos e que nos faz relativizar a "arquitectura". No entanto, não se pense que há prédios por aqui, nada disso, o que há é uma mistura de barracas fashion, que são os restaurantes e bares dos ricos - onde se come mesmo muito bem (sim, aqui somos ricos!) -, e há as barracas forradas a zinco, que são as casas de muitos timorenses.
Também há as vivendas dos embaixadores e empresários, como a casa em que estamos instalados, mas pelo menos há a garantia, por enquanto, de que nada disto pertence a estrangeiros. Não é permitido a nenhum não timorense comprar terrenos ou habitações nesta ilha. Espero que isso nunca mude.
Dá-se ainda o caso (completamente surreal para mim) de ter criadas para cozinhar, lavar a roupa e limpar. Criadas que me chamam "senhora" e me apresentam sorrisos como nunca vi. A sério, estou para a minha vida! Mas quero acreditar, do fundo do meu ser, que não é por isso que me sinto tão em paz com o mundo e que deixaram de me doer as partes do corpo que me doíam até aqui.
Além disso, acordo várias vezes com sons maravilhosos de pássaros e até as osgas daqui (os tekis) cantam.
Resumindo, está-se mesmo bem, apesar de estarmos todos com horários de sono diferentes e de eu continuar sem perceber muito bem qual o meu lugar nisto tudo.

A paragem de Bali

1.8.14


Bali, a paragem de avião como lhe chamou o Isaac, acolheu-nos muito mal.
Depois de 19 horas de voo e muita turbulência nas últimas três, que fez o Nicolau vomitar em cima de mim, naturalmente, aterrámos na Indonésia. Íamos entusiasmados, apesar de tudo, mas os procedimentos para entrar no País foram um pouco desmotivantes. Depois, bom, depois aconteceu o pior que podia acontecer: o hotel, que estava reservado e pago, recusou receber-nos, porque estava cheio.
Estávamos com ar de animais abandonados (sim, fomos informados na rua, não chegámos sequer a entrar na Villa), mas tanto o taxista, como o moço do staff pareciam divertidos a falar um com o outro.
Conseguimos chegar a um sítio que nos recebeu, uma espécie de hotel Marigold para turistas indonésios. Nada luxuoso, mas muito confortável. Bebemos uma garrafa de vinho Aga Red.
Talvez Bali valesse a pena, apesar de tudo.

Foi por volta das 4h30 am que tive a sensação que Denpassar se queria redimir. Os galos cantaram, cantaram uns atrás dos outros, como nunca tinha ouvido. Parecia que começavam numa ponta da cidade e acabavam na outra. Os galos queriam dizer qualquer coisa e como se calaram quando abri as cortinas, suponho que era para mim que cantavam.
E depois houve a tentativa de pequeno-almoço num terraço que ninguém diria poder existir naquele prédio. Parecia um espaço sagrado, com todas as mesas ocupadas por muçulmanos. Disseram-nos para tomar o pequeno-almoço no piso 1 e ficámos sem perceber se era por estar cheio, ou se por não pertencermos àquele sítio. Durante os breves segundos que demorei a atravessar o terraço com os meus filhos pela mão, com todos os olhos pousados em nós, senti-me na pela da mulher com burka que atravessou o aeroporto para ser identificada num sítio à parte.

Agora, instalados em Dili, espero pacientemente que os pequenos durmam tudo o que têm para dormir e que acertem o relógio biológico para podermos aproveitar Timor Leste, um país que me parece já tão familiar. A Bali voltamos no final do mês.

Resumindo

28.7.14
Daqui a algumas horas apanhamos o primeiro avião rumo a Timor Leste e eu já estou tão cansada que nem sei que diga.
Bom, o baptizado foi lindo! e o Milhões de Festa  foi... interessante.

Os meus três filhos

23.7.14
Na hora de vacinar as crias contra a hepatite e febre tifóide foi sem grande surpresa que assisti às reacções deles, por esta ordem:
Cria mais velha pede-me a mão, cheia de medo, com os olhos rasos de água, mas sem verter lágrimas.
Cria mais nova, ansiosa para ir "para dentro da tenda" (para trás das cortinas), salta para o meu colo e arregaça as mangas. Depois da picada choraminga e no fim abraça-me meio sentido, meio orgulhoso.
Cria do meio grita, esperneia, transpira, grita, grita, esperneia e diz que não quer vacinas, que não quer ir para Timor. Fazemos um ligeiro intervalo a ver se acalmava e se saía daquele estado de loucura. Nova investida e mais gritos, muitos gritos, mas desta feita sem demasiados esperneanços, o que permitiu sairmos de lá sem agulhas partidas, tal é a força desta criatura nestas situações.

Não é muito meu costume

21.7.14
mas neste momento parece-me mais fácil traduzir os últimos dias com imagens, não só porque os últimos dias têm sido um bocado surreais, mas também porque às vezes é mesmo difícil explicar certas coisas, mesmo para quem tem uma escrita mais sensorial do que cerebral (digo eu, que não sei se isto será exactamente assim, mas saiu-me).

Tudo o que temos,ou melhor, as nossas coisas, que felizmente estão muito longe de ser a única coisa que temos, couberam num camião pequeno e foram para um armazém.
Apesar de haver um baptizado para organizar e de a minha avó ter metido na cabeça que vai morrer quando eu estiver em Timor, não têm faltado momentos de pura diversão, ternura e amizade por estes dias.
Nem tão pouco de horror, que também é uma coisa que faz parte da vida. Não sei de que morreu esta vaca, mas é capaz de ter sido a parir, como a da semana passada, pelos vistos.

Mudanças

14.7.14



Por causa destas andanças as minhas alergias estão no auge e o meu humor anda bastante estragado, não mais do que o habitual, dizem certas e determinadas pessoas, mas sabem lá o que é viver comigo 24 horas por dia, ouvir tudo o que penso, ver tudo o que faço, sentir tudo o que sinto e etc. etc.. Ainda esta noite fiz uns quantos exercícios físicos extraordinariamente executados, estava ofegante e orgulhosa de mim própria por ter ultrapassado umas quantas barreiras, mas depois apercebi-me que estava a dormir.
Mas não era disto que eu estava a falar, credo, perdi-me no raciocínio.
Gostava de escrever sobre mudanças como a Helena (e gostava de ter a casa dela, já agora), mas estou a suar e cheia de dores de cabeça o que, como toda a gente sabe, não é o estado ideal para se escrever alguma coisa de jeito.
Bom, continuando, a casa para onde nos vamos mudar não está pronta, portanto as nossas tralhas vão para um armazém e nós, olha, nós vamos para o outro lado do mundo. Vamos viver um mês em Timor. Por esta não esperavam, hein? Pois bem, este blog vai passar a ter posts sobre picadas de mosquitos, praias paradisíacas, bintangs em esplanadas e tal. Um regalo. Mas não se preocupem, temos 40 e muitas horas de viagem para lá chegar e muitos dias com os três miúdos numa terra desconhecida, enquanto o pai trabalha, para relatar. Ou seja, haverá espaço para o meu habitual realismo,chamemos-lhe assim.
Entretanto, temos de ir num instante à Póvoa baptizar os miúdos. Eu sei, eu sei, são demasiadas coisas surpreendentes, mas eu sou mesmo assim, que hei-de fazer? A cerimónia já estava marcada há algum tempo, não se trata de nenhum pré-requisito para viajar, caso alguém esteja a pensar nisso.

Nada

11.7.14
"Durante o jantar, alguém me pergunta o que faço. Não sei o que responder e depois digo: nada. Ela está sentada ao lado do embaixador do outro lado da mesa e ouve a palavra: nada. Diz em voz alta: é formidável o que acabou de dizer, é preciso que não se esqueça disso. Já não sei para quem olhar, como comer. Ela continua a falar com o embaixador. E depois acrescenta falando comigo: é magnífico, é preciso ter coragem para dizer estas coisas, você não faz nada é exactamente isso." Yann Andréa.

A formiga e a cigarra que habitam em mim

9.7.14
Ao longo das sucessivas mudanças de casa fui-me livrando de muitas coisas. Os lençóis de flanela foram, talvez, as maiores vítimas desta minimização natural. Mesmo assim guardei dois conjuntos para um inverno mais rigoroso. Nunca os usei. Agora estou ali a olhar para eles, a pensar se os levo para a próxima casa (nunca se sabe quando virá o tal inverno), ou se os mando para a reciclagem.
Ah, e entretanto não temos onde viver, mas isso logo se vê.