BRAUTIGANS

Uma história japonesa de amor


Quando vi o filme da Sue Brooks fiquei impressionada. Não sei explicar porquê, mas fiquei com aquelas personagens a rondar-me os pensamentos durante muito tempo. Acho que foi a contenção, toda a intensidade que aquela contenção exigia. Havia todo um universo na distância entre os dois personagens, nos silêncios, nos olhares (fui rever o trailer e não se parece nada com o que digo, mas é como me recordo do filme). E os atores, claro. Acho que foi o primeiro filme da Toni Collette que vi e achei-a incrível, tal como o Gotaro Tsunashima. Tenho a impressão que fiquei um bocado apaixonada por ele, ou melhor, pelo personagem dele. Ao ponto de, na altura, ter ficado nervosa a ligar para a embaixada do Japão, em Lisboa, para pedir umas fotografias para o Jornal. 
Eu estava a substituir a secretária da revista Fugas - sim, o meu percurso profissional podia ter sido como o de quase toda a gente que conhecia naquela época (pois, foi no século passado): acabar o curso, estagiar e ficar a trabalhar como jornalista, só que eu tenho Saturno não sei onde e por isso preciso de escalar o Kilimanjaro, em vez de só atravessar a rua, para chegar a algum lado. Como dizia, eu estava na Fugas e precisava de uma fotos para ilustrar uma notícia sobre a Expo 2005, na província de Achi, no Japão, e liguei para a embaixada, porque muito provavelmente fui eu que escrevi esse artigo - eu era um bocado fascinada pelas exposições internacionais, depois de ter visitado a Expo 98 e, sobretudo, a de Hannover em 2000, esta enquanto jornalista da Forum Ambiente, e não tinha outra forma (ou orçamento) para arranjar imagens.
Liguei, então, para a embaixada algo nervosa, como referi, não só por estar a falar ao telefone, que é uma coisa que sempre me deixou desconfortável, como por saber que do outro lado estava alguém como o Hiromitsu, alguém que partilhava a mesma cultura. Eu sei que é parvo, mas que querem? 
E lembrei-me disto porque me cruzei com a palavra komorebi, lá está, não podemos dizer só mal das redes sociais, quando estas permitem que nos cruzemos com palavras. Li o significado de komorebi e pensei que é preciso ser uma língua, nós somos a(s) língua(s) que falamos*, muito especial para ter uma palavra assim.

* E as escolhas que fazemos

Pedras e abacates



Hoje sonhei que estava ao telefone com uma amiga, a Inês, a falar sobre a minha tia. Estava a descer o escadório e a falar ao telemóvel, coisas que raramente faço. Subo aquelas escadas com alguma frequência, mas nunca, ou raramente, as desço e não me lembro quando foi a última vez que peguei no telemóvel para ligar a alguém, quanto mais para desabafar sobre um assunto que me anda a perturbar. Também é cada vez mais raro lembrar-me dos sonhos, por isso achei que devia ficar registado.
Eu estava já nos últimos lanços das escadas, a ver o mar ao longe, com o pinheiro manso em primeiro plano, a falar com a Inês, que estava sentada à secretária, na redação, rodeada de papéis e com ar bastante preocupado, não por causa do que lhe estava a dizer (adoro esta omnisciência nos sonhos), sobre sentir-me muito mal por não poder fazer nada pela minha tia, que teve um AVC e foi para um lar. O meu tio, o marido dela, que tem uma forma rara de Parkinson, também está, estão juntos, mas eu só falava na minha tia. Estava bastante emocionada, chorei ao telefone (eu que não falo ao telefone, quanto mais chorar) e a Inês parou uns momentos o que estava a fazer. Entretanto, já era noite e vi que estava a subir uma procissão de velas, eram imensas pessoas com velas acesas e achei tão bonito que interrompi o que estava a dizer para exclamar: ''Oh, é uma procissão de velas, Inês!''
Comecei a descer a rua e fiquei com medo de não conseguir passar pelo meio das pessoas para chegar a casa, acelerei o passo e vi que no meio da estrada estava uma espécie de brasão desenhado com pedras de diferentes tamanhos, mais ou menos como se costuma ver nos tapetes de flores, mas aqui eram pedras. Estranhamente a procissão parou mesmo antes da entrada da minha casa, por isso eu pude chegar sem grandes complicações. Só que, assim que me vi em frente à casa, a procissão eclipsou-se. Ou passou muito rápido sem eu dar conta, porque estavam algumas pessoas à minha volta, os que ficam sempre para trás, talvez. Eu estava a olhar para as paredes escavacadas da casa, aparentemente as pedras usadas para o tal brasão, ou lá o que era, saíram da minha casa, mas não me parecia mal. Parecia o início de qualquer coisa. 
Lembrei-me do sonho quando estava a fazer a minha habitual caminhada das folgas e assim que cheguei a casa pus-me a olhar para as paredes (de outra cor que não brancas, como no sonho), mas o que me prendeu a atenção foi o abacateiro, plantado pela minha mãe sete anos antes de a minha avó morrer, portanto há 10 anos, e que ainda não deu um único abacate. É verdade que está plantado num sítio inusitado, mas está bastante frondoso e já foi podado. Talvez não veja razão para o fazer uma vez que a minha avó, para quem o abacateiro foi plantado, já não está aqui para comer abacates. Como se as árvores decidissem se querem dar frutos, ou não, como se não seguissem o curso natural da vida. 
 

Sem assunto

Fotografia de uma pós-festa partilhada numa das últimas festas

Há muito tempo não me acontecia achar que tenho de escrever sem ter um assunto sobre o qual falar. Deve ser o efeito Ano Novo misturado com ressaca do pós-festas (e foram muitas, além do Natal, Passagem d'Ano e duas festas de aniversário, festejámos os Reis),  mais o regresso às rotinas dos horários escolares. Seja o que for aqui estou sem saber o que dizer, mesmo com tanto a acontecer no mundo. Na verdade, o mundo não me interessa, estou demasiado enterrada na trincheira do metro-bulot-dodot para me interessar pelo que quer que seja. 
Há coisas que me fazem levantar os olhos, claro, os meus filhos, obviamente, que agora não dão autorização para publicar as minhas fotos favoritas onde eles aparecem; entrevistas a pessoas fora do comum, que também parece que passaram pelo mundo sem se interessarem muito pelo que as rodeava; as respostas de André Pestana durante a entrevista aos 11 candidatos presidênciais - eu já fui assim, uma defensora apaixonada daquilo em que acredito, mas parece que, hoje, as muitas que fui estão mais distantes do que habitualmente; os textos da Sónia, que por mais de uma vez me fizeram querer pagar-lhe um café, mas deu sempre erro, deve ser o Universo a lembrar-me que sou pobre; preparar um almoço especial¹ para a minha família, a que eu criei, e vestir um vestido em vez das habituais calças de fato-de-treino, mesmo que seja um vestido que já foi confundido com um robe; A playlist "What's your name" que o Rei, ou melhor, o Imperador² das playlists do Spotify está a fazer com a colaboração da família e que consiste em escolher uma música com o nome de uma pessoa por ordem alfabética, por exemplo, neste momento estamos na letra J e a música mais votada até agora foi a James Bond, do Iggy Pop (eu votei no Bowie, apesar de ter ficado na dúvida em relação à "Jesus was a social drinker"); O último espectáculo do Ricky Gervais, "Mortality", apesar de não ser tão bom como o anterior.
Bem, agora reparo que não ando assim tão apática e entrincheirada como me parecia. É para isso, sobretudo, que servem os blogs, para nos vermos, mais do que para nos mostrarmos.


¹ Quinoa com batata doce e avelãs caramelizadas, massa com pesto de pistacios, cheesecake basco e pudim
² Também conhecido como Jaime, ou pai