O milagre da fruta

28.6.13
"Estou tão fodida", pensei eu sei lá quantas vezes, hoje. Isto porque fui ter com a mais velha, que vinha de uma festa pijama, e fiquei a saber que não tinha dormido. Depois lembrei-me que hoje é dia do Isaac não dormir a sesta na escola, o que torna, normalmente, as nossas sextas-feiras muito animadas, e ainda que o Nicolau tinha mandado a chupeta pela janela fora do eléctrico, quando os fui levar à escola.
Assim sendo, para evitar tiques de impaciência desnecessários e, por conseguinte, traumatizar ainda mais as crianças decidi comprar uns daqueles bombons pequeninos, embrulhados em prata colorida, que costumam (ou costumavam, que já não vejo disso) acompanhar o café em alguns sítios.
Além disso, e como estava cheia de bolhas nos pés derivado a uns novos chinelos, achei que podíamos vir de taxi, uma vez que ontem, dia de greve geral, não precisei de o fazer, por ter encontrado uma amiga que me deu boleia. Eu sempre a queixar-me que em Lisboa não tenho amigas e no mesmo dia almocei com uma e apanhei boleia de outra.
Então, os bombons foram recebidos com muito entusiasmo mas não impediram que o Nicolau viesse a gritar, como se estivesse possuído pelo demónio, o caminho todo. Fiquei verde e vi a minha vidinha toda a andar para trás e o "estou tão fodia" sempre ali a martelar, mas eis que se deu um milagre: Quando cheguei a casa sentei-os na mesa pequena com um prato de fatias de meloa e uma taça de cerejas e os meus filhos transformaram-se em anjos. A mais velha, essa, estava aterrada a dormir no sofá.
Entretanto deixei queimar a sopa.

A lógica aos (quase) quatro anos

26.6.13
"Tu não podes ficar sempre a trabalhar em casa, mamã, tens de ir para o teu trabalho!", isto dito em tom impaciente, depois de quatro dias a ouvir a mesma resposta para a pergunta: "Vais para o teu trabalho?"

É bem feita

24.6.13
Tornei-me numa dessas pessoas que ficam felizes por ser segunda-feira para poder largar os filhos na escola. Não é que eu alguma vez tenha pensado mal dessas pessoas, achava era que se não queriam estar com os filhos que não os tivessem.

Dez coisas completamente escusadas

22.6.13
1- O bolo de chocolate que fiz hoje e, por causa disso,
2- O ovo desfeito no chão;
3- Brincar aos médicos com o Isaac e ele escolher tratar-me os dentes;
4- Lembrar-me do vinho, no supermercado, e esquecer-me do leite de soja;
5- Perder um dia a limpar a casa que eles demoraram dez minutos a imundar;
6- Fantasiar mil e uma formas de me desfazer da barriga sem deixar de comer e beber;
7 -Tentar tirar fotografias com uma máquina xpto;
8 - Segurar nas mamas a imaginar como seriam no seu estado normal;
9 - Ver vídeos pornográficos;
10 - Vestir as mesmas calças de ganga de sempre;
11 - (Partindo do princípio que a 9.º coisa não é assim tão escusada) Beber a garrafa de vinho toda.

Constatação

22.6.13
Fazer entrevistas é muito melhor do que dar entrevistas.

Assim se fazem revoluções

21.6.13
Escolher certo

Em 1978 Joaquim Benite, com o seu Grupo de Campolide, sai do Teatro da Trindade e instala-se numa colectividade almadense. Abandona uma das mais belas salas do País e vem para o meio de operários. Estreia um autor comunista desconhecido, José Saramago. Cria uma mostra de teatro amador, que se transforma num dos mais importantes festivais da Europa - trinta edições depois, verificamos que escolheu certo.

Apostando na diversidade estética, pautada pela excelência artística, o Festival de Almada tem sido um local de encontro - de encontro entre artistas, mas sobretudo de encontro entre artistas e público. Como tal, numa recente época de relativa abundância, durante a qual pulularam luminárias fátuas e vazias de sentido, nessa época em que a Cultura foi também um negócio, o Festival apostou no fortalecimento de laços com os teatros seus parceiros (aqueles geridos por artistas) - e com a sua Cidade.

Nesta 30.ª edição apresentamos de novo os grandes criadores e intérpretes do teatro europeu; regressa a mais importante Companhia portuguesa independente, a Cornucópia; há duas óperas, um concerto sinfónico, seis estreias e um ciclo de teatro nórdico - e, não por acaso, há também espectáculos de cada um dos PIIGS. Sabíamos o que aí vinha: o desinvestimento na Cultura não começou com este Governo, não se trata desta ou daquela cor política, deste ou daquele governante - é outra coisa. Sabíamos que a ideologia liberal não encara o livre acesso dos cidadão à Cultura como um direito, embora ele esteja consagrado na Constituição. Sabemos que a uma classe dirigente inculta e mal preparada não lhe convém uma população bem formada e com poder reivindicativo. Aos jovens formados pelo Estado, em cuja educação o mesmo Estado tanto investiu num passado recente, é-lhes agora sugerido que emigrem. E, como prevíamos o que aí vinha, reunimo-nos àqueles que pensam como nós e preparámo-nos para resistir, apresentando uma das melhores programações dos últimos anos.

Em 2013 a subvenção estatal diminuiu ainda mais - mas apresentamos mais dez espectáculos do que no ano passado, com a garantia de qualidade, por exemplo, do Odeón - Théâtre de l'Europe, ou Théâtre de la Ville. Acreditamos, porque no-lo ensinaram, que um público mais informado e mais exigente reivindicará num futuro próximo aquilo que lhe é devido.

Podíamos ter ficado a chorar sobre o leite derramado - mas a gente não escolhe assim.

Rodrigo Francisco
Director Artístico

Na rede

20.6.13
Há uma pessoa que eu não conheço (não conheço, pois não alexandra g.?) que me convidou a participar neste blog. Depois de ler vários posts, para trás e para a frente, e de ter ficado bastante intrigada com o convite, lá comecei muito timidamente a escrever umas coisas, ainda que continue sem perceber o que terá a alexandra g. visto em mim.
A verdade é que eu também não sei muito bem o que vi no "imprecisões", mas quando uma pessoa lê num mesmo post "Viaggio in Italia" (não sei se ela se refere ao filme do Rossellini, mas foi esse que li) e petinga em conserva de tomate com picante, fica completamente rendida. Digo eu.

Declaração de amor

20.6.13
"Gaja. Tu és isto. Vi este vídeo dez vezes. És tu. Perfeito mas atrapalhado, mal filmado. Belo mas envergonhado pela forma de ver..."

O mundo está mesmo a mudar

20.6.13

Sei que, sendo a mesma pessoa de sempre, estou diferente quando a notícia do dia (de ontem) que me faz um comprar um jornal é a fractura tectónica em formação perto da costa portuguesa.
Eu não sei se sabem, mas daqui a 220 milhões de anos não vai existir oceano Atlântico.

Greve dos professores

19.6.13
Não me pronuncio sobre a greve dos professores da mesma maneira que não me pronunciei sobre a greve dos empresários de diversão, porque TODOS os profissionais dedicados merecem o meu respeito e têm os mesmo direitos. Fazer greve é um deles.
Ah, e tal mas os professores são mais importantes para a sociedade do que os empresários de diversão. Pois, é exactamente isso que não me apetece discutir.