O nascimento de uma borboleta

30.6.26


Ando a tentar acompanhar o processo de transformação de uma lagarta que vive no meu vaso de arruda. Pelos vistos já passaram quase três semanas, desde que ela começou a alimentar-se, porque a crisálida está quase completa. Daqui a mais três semanas, se tudo correr bem, vai nascer uma borboleta-cauda-de-andorinha, na varanda de uma rua movimentada do Porto, e essa possibilidade alegra-me muito. Não deixa de ser curioso que esta capacidade de sentir alegria com uma coisa tão simples também tenha acontecido ao longo de um processo de transformação. Bem, na verdade eu sei que sempre tive essa capacidade, sobretudo a de ficar maravilhada com a Natureza (pode parecer, mas não fui assistir à conferência de Byung-Chul Han), só que deixei-me distrair pelas coisas mundanas. Por isso, acho que o grande objetivo para a segunda metade da minha vida é dar atenção ao que importa.  

É ridículo eu passar a maior parte do tempo num trabalho de que não gosto particularmente para ter um salário que só dá para pagar a renda da casa? É, mas tenho uma borboleta a nascer na varanda, uma cama nova e o Egon Schiele voltou a estar pendurado numa parede que é nossa, a nossa décima parede. Eu considero-me uma pessoa bastante desprendida, mas não vale a pena negar a necessidade de termos a nossa casa e a sensação que tenho é essa, a de que acabei de regressar a casa depois de uma longa caminhada, ou uma série de longas caminhadas. 

Por falar em caminhadas, lembrei-me do livro de Erling Kagge (pensei que tinha escrito aqui alguma coisa sobre A Arte de Caminhar, mas afinal não) e da capacidade deste norueguês passar por situações extremamente desafiantes em travessias pela Antártida para experienciar que viver com pouco é muito compensador e, ao mesmo tempo, ser um colecionador de arte. Com isto, quero dizer que podemos ser minimalistas e o seu contrário ao mesmo tempo. Também podemos argumentar que a arte não deveria ser vista como um bem material, mas não deixa de ser, pois não? 

Gosto de viver na cidade, apesar de precisar de espaços verdes para me sentir bem, mas esses espaços também existem aqui, ainda que em muito menos quantidade do que deveriam. Depois, aquilo que mais me preocupava - mudar-me para um apartamento com dois adolescentes que só se lembram de viver em moradias, dois gatos e uma cadela, não se revelou tão dramático como isso. Nos primeiros dias a viver aqui tínhamos a sensação que estávamos a tentar meter o rossio na betesga, mas tudo se encaixou. Só continuo a estranhar o ruído. De todas as coisas boas de se viver numa aldeia, não tenho dúvidas que o silêncio é a melhor de todas.


2 comentários:

  1. Já que mencionas o Erling Kagge, não resisto a recomendar-te outro livro dele, que parece dialogar diretamente com o teu parágrafo final: "Silêncio na Era do Ruído". É um ensaio pequenino, quase cirúrgico, onde ele explora como o silêncio não é a ausência de som, mas sim a presença de nós mesmos — algo precioso quando se tenta encontrar o eixo no meio do ruído urbano e de uma nova rotina.

    Criei recentemente um espaço que partilha muito desta urgência de abrandar e dar atenção ao que importa. Convido-te a conhecer e, quem sabe, a participares na Revista Pendura (revistapendura.pt). Acho que te vais sentir em casa entre as nossas páginas de "leitura lenta".

    Boa sorte com a cauda-de-andorinha na varanda!

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    1. Olá, Daniel, também li o "Silêncio na Era do Ruído" e gostei muito. Vou ver a Revista Pendura, obrigada pela sugestão!

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