Ponte

30.4.14
A verdade é que quase não leio, não planeio viagens, não adormeço nua, não visto um vestido bonito, não como jardineira com batatas fritas quando estou de ressaca, não corro, não canto.
Bebo vinho tinto, escrevo de vez em quando, passeio de mãos dadas, conto e leio histórias, dispo-me na cama, deito-me na relva, faço estrugidos, durmo mais do que preciso, sonho com os preços dos sapatos.
A verdade é que estou no meio de uma ponte e em vez de continuar a travessia deixo-me estar a ver as vistas, o que até seria uma coisa boa se as soubesse apreciar.
A verdade é que, em português correcto, não fodo nem saio de cima.

Abril festas mil

28.4.14
Há qualquer coisa muito semelhante a um milagre nisto de ver um filho crescer. O Nicolau, que adora ser bebé, já é um rapazinho (muito feminino).

13 anos

27.4.14

A minha filha mais velha fez 13 anos. 13 anos. Não tenho fotografias dela em recém-nascida, não sei como descrever este amor e nem sempre sei o que é melhor para ela.
Sei que quero que ela aprenda que pode fazer a diferença. Que jamais deixe de sonhar. E que continue a bater o pé para conseguir aquilo que quer.
Da minha parte espero conseguir mostrar-lhe coisas como esta, esta e mais esta, porque mesmo no meio de tanta miséria, a todos os níveis, a palavra aliada à inteligência é, talvez, a nossa única salvação.

Tentativa falhada

24.4.14
Para quebrar rotinas nocivas, começar a mudar comportamentos, iniciar uma espécie de processo de cura e essas coisas todas, hoje vesti-me decentemente: Umas calças azuis e uma camisola castanha com riscas coloridas e nuvens.
A camisola estava guardada na caixa da roupa de verão e por isso cheira a mofo. Vou trocar de roupa.

Entre Lisboa e o Porto

23.4.14
Uma vez mais adiado o regresso ao Porto, talvez fosse sensato deixarmo-nos de mudanças e ficar nesta casa (com as obras a terminar) até ver. Talvez.
Ou então podíamos ver se arranjávamos uma casa que nos agradasse numa zona de Lisboa completamente diferente das que temos vivido até agora. Talvez.
Escolhida a segunda hipótese e encontrada a casa, fizemos uma proposta e fomos conhecer os proprietários.
Antes disso, e como era cedo, entrei pela primeira vez n' A Vida Portuguesa do Intendente. Encontrei uma amiga que não via há anos, que pelos vistos trabalha lá e conheci a Inês, que me disse que o ideal era isso mesmo: viver entre lá e cá, entre o Porto e Lisboa. Saí da loja mesmo contente com este encontro e reencontro.
Depois, tive uma conversa muito simpática com os proprietário da tal casa e fiquei a saber que ele é organista e ela dirige um coro.
Parece-me evidente que o Universo está-me a dizer, assim tipo aos gritos, VAI, VAI PARA LÁ e nós vamos, claro, se eles não conseguirem vender a casa, que é o que pretendem. Portanto, vamos esperar. E eu acho que começo a aprender a saber esperar (mas estou um bocadinho desesperada com as escolas dos meninos, não saber onde matriculá-los e assim).

Os caracóis mudam de casa?

20.4.14

Temos em casa cinco casas de caracóis vazias que apanhamos dentro das muralhas de um castelo. De um magnífico castelo. Não temos mais, porque precisei de partir uma das casas para libertar uma vespa que zumbia cansada. O Nicolau adorou a experiência e passou grande parte do tempo a partir todas as casas de caracóis que encontrava.
Não sei se os caracóis que viviam naquelas casas morreram (muita delas eram ainda pequenas), ou se até estes bichos, que levam a casa às costas, decidiram que estava na hora de virar lesmas.
Sei é que tantos esqueletos espalhados por terra, à vista de todos (e um deles com uma vespa presa no seu interior), pareceu-me poesia.

O lado bom

15.4.14
A parte fixe do negócio é fazer coisas giras, como esta mesinha de cabeceira.

Privilégios

13.4.14
Mesmo não sabendo ao certo o que quer dizer aquilo de "ser mãe/pai é a melhor coisa do mundo", há qualquer coisa de extraordinário nisto de criar os filhos, há que admiti-lo.
Uma pessoa acorda às 4:00h da manhã com o mais novo a pedir: "É um leitinho quentinho para a mesa cinco, por favor" e, em vez de praguejar como costume, dá por si a sorrir e a achar incrível ver o humor do pai replicado em meio metro de gente.
Depois, descobre que o do meio tem algumas mazelas no corpo provocadas pelo muro que encontramos quando fomos ver o mundo e, ao perceber a riqueza do mundo interior daquela criança, sorrio.
Primeiro perguntei-lhe onde tinha feito certo arranhão e ele falou-me no muro com tanta convicção que eu senti-me na obrigação de dizer "ah, pois, já me lembro". Uma semana mais tarde perguntou o pai que nódoa negra era aquela na outra perna e ele contou a mesma coisa. Obviamente o pai quis saber tudo sobre que muro era esse, mas ele não avançou com muitos detalhes, olhou para mim e eu lá expliquei ao pai que era o muro que tínhamos visto - "não te lembras", questionei?
Bem, hoje fiquei a saber que esse muro existe no mundo e é um muro que nos impede de cair lá para baixo. E nessa viagem (ele nunca usou o termo viagem, diz sempre "quando fomos ver o mundo") eu não percebi nada do mundo. O meu filho de quatro anos disse-me isto mesmo: "Tu não percebeste nada do mundo".
Já a minha filha mais velha, exactamente com a mesma idade, me tinha dito: "A tua realidade não é nada fixe".
As criancinhas dão-nos cabo da vida (é uma realidade nada fixe, eu sei, mas é uma realidade) mas, caramba, que seres extraordinários nos são dados a conhecer. Que privilégio.

Faz o que tens a fazer e deixa acontecer o que tem de acontecer

11.4.14
Sempre me pareceu tão simples e tão óbvio. Por isso é que isto há dois meses não era uma coisa assim tão de loucos como nos diziam, mas a verdade é que ainda aqui estamos, em Lisboa, sem saber onde inscrever os miúdos, sem conseguir decidir se mudamos de casa, sem saber que rumo dar à Oporto Lobers...
Enfim, vou fazer o que tenho a fazer e depois venho contar, em vez de contar e depois não fazer. Ou então não vou fazer merda nenhuma. Vou tomar um chá e ouvir música a ver os carros passar.

Figura pública

10.4.14
Apercebi-me hoje, ainda agora há bocado, que não nasci para o estrelato. Faço umas figuras tão tristes quando me encontro frente a frente com pessoas que se dizem minhas "fãs"!
Não me queiram conhecer, por favor.

41

6.4.14
Acho que pela primeira vez na minha vida acordei no dia seguinte ao meu aniversário com vontade de fazer anos outra vez. Eu achava que nada bateria a festa do ano passado, mas fui agradavelmente surpreendida com um dia quase mágico. Foi assim, sem planos, ao sabor das vontades:




 Piquenique na praia+banho no mar

 Bolo caseiro + flores apanhadas na serra da Arrábida
Jantar feito pela Beatriz

Querido diário

4.4.14
Estou com uma amigdalite muito feia e amanhã faço anos. Tu sabes que eu não gosto muito de fazer anos, não sei se tem a ver com o facto de criarmos demasiadas expectativas à volta das datas importantes, mas a verdade é que nunca gostei muito de fazer anos. Aliás, há pouco tempo perguntei à minha mãe porque é que não me lembrava das minhas festas de aniversário em criança e ela disse-me que era porque nunca tinha tido nenhuma. Se calhar é por isso que não gosto de fazer anos, mas não faz muito sentido, porque depois cresci e tive várias festas de aniversário fantásticas.
Enfim, vou fazer anos e, imagina tu, são 41. Pois, quando foi a última vez que escrevi aqui? Bem, tens razão, eu queimei tudo, portanto na verdade "aqui" nunca escrevi, mas tu sabes o que quero dizer. Sim, também é verdade que nunca mantive um diário no verdadeiro sentido da palavra, era mais do tipo de escrever em bocados de papel e nas costas das fotografias.
Bem, resumindo, vou fazer 41 anos e vou acordar com os meus filhos em cima de mim a cantar os parabéns e vou ter um jantar preparado pela minha filha mais velha e vou beber um bom vinho tinto com o gajo da minha vida.
Sim, são 41 anos, 41 anos vividos a sério. É o que tenho para te dizer, querido diário.


(lembro-me que sofria verdadeiramente naquela altura, mas só consigo rir à gargalhada a olhar para isto)

Não há famílias perfeitas

1.4.14

Foi ela que disse, a minha filha de quase treze anos. "Não há famílias perfeitas". Não? 
Não há filhos perfeitos, ou sempre perfeitos, não há mães e pais perfeitos, mas não haverá essa coisa de todos juntos formarem um conjunto perfeito? Em abstracto, essa coisa existe, obviamente, caso contrário a ideia de perfeição não figuraria no nosso pensamento, mas estou a divagar.
Eu, tirando ocasiões excepcionais, vejo-me(nos) cheios de imperfeições. Imperfeições que deviam ser vistas como a nossa parede: riscos + sujidade + Resende = combinação única. Mas a nossa combinação única nem sempre é fácil de gerir.
Por exemplo, no jardim, a caminho de casa, os meus rapazes cavam buracos com as mãos, enquanto um pai pede ao filho, que entretanto se aproximou dos meus, para não sujar as mãos na terra. Apetece-me logo agarrar nos meus meninos e fugir para casa, onde não são julgados, mas lá fico a olhar para eles, a vê-los imundos e felizes. O outro menino também está feliz, apesar de brincar com um pau e não com as mãos e conseguir manter-se impecavelmente limpo. 
Depois, o pai diz vamos embora e o menino vai. Eu digo vamos embora 345 vezes e vem um deles, o outro fica para trás. Tenho de o chamar mais 227 vezes. Portanto, são mais de 500 vezes a dizer vamos embora até que eles venham. 
Sim, a minha família é uma combinação única, como todas as famílias, podia era combinar-se mais discretamente.