Mentir é pecado?*

25.2.11
Senhora mãe das gémeas peço muita desculpa, mas menti-lhe quando nos encontramos, no parque infantil, e me disse que eu também ia ser quase mãe de gémeos e eu respondi que, ainda assim, é melhor com alguma diferença de idades do que nenhuma, porque nem imagino como deve ser difícil dois da mesma idade ao mesmo tempo. Menti, porque raramente me encontro com mães tão despenteadas como eu, que tratam os filhos por tu e genuinamente simpáticas. Porque a verdade é que acho que tem muita sorte por ter tido dois filhos e apenas nove meses de gravidez.

* Reparem que nem os pecados capitais, nem os mandamentos da lei de Deus ("não levantar falsos testemunhos" não é bem a mesma coisa que mentir) referem a mentira como pecado.

Do comer

24.2.11
ratatouille com vinho tinto e manchego
(o individual e o tapete foram feitos no tear da minha mãe)

Comer é, definitivamente, umas das grandes compensações da existência.

Donas de casa

23.2.11
Dizia, então, que não levei comigo o Mrs Dalloway para o hospital e como tal não tinha nada inteligente a acrescentar. A verdade é que quando as maleitas se achegam vai-se toda a espirituosidade (e assim de repente não sei de onde surgiu semelhante palavreado, mas agora fica) e, além disso, não tenho a certeza de estar a gostar do livro. Mas, há que dizê-lo, a senhora Woolf tem-me pelo beicinho e não há coisa que leia dela que não fique a marinar na alma.
Logo no início do livro, por exemplo, quando a Mrs. Dalloway vai comprar flores, dei por mim a pensar numa personagem de um conto da Clarice Lispector (fantástica a coincidência do nome, certo?). Já procurei o livro em todas as estantes e não o encontro, mas lembro-me perfeitamente da mulher desse conto (Amor), a Ana, que vai às compras com um saco feito de rede e às tantas os ovos que vão lá dentro acabam esmagados, tal como ela perante a visão de um cego a mastigar chiclete. E acho que me lembrei disso, enquanto lia o Mrs Dalloway, porque ambas as mulheres são donas de casa e servem-se das rotinas associadas a esse modo de vida para não enlouquecer. E acho extraordinário que ser dona de casa no Brasil (Rio de Janeiro?), nos anos 50/60; em Londres, nos anos 20 e em Lisboa no início do século XXI seja quase a mesma coisa.

Na caixa de correio 2

23.2.11
Está visto, tenho de parar com esta mania de dizer que não tenho amigos. Obrigada, PJ. Quando sair daqui o primeiro projecto (é lindo chamarmos projectos às nossas costuras, não é?) serás a primeira a saber.

Afinal

22.2.11
não fiquei descansadinha. A tensão subiu e o palavrão pré eclampsia instalou-se em vários recantos do cérebro. Lá fui, então, enfaixar-me em cintos e gelatinas, tirar sangue e outros fluídos menos nobres, medir a tensão e coisas assim. E como deixei o Mrs. Dalloway em casa não tenho coisas inteligentes para dizer.
A boa notícia é que anda aí um blog como nunca vi.

A começar as 32 semanas

21.2.11
Para não variar acho que o Nicolau vai nascer prematuro. É claro que estou aqui descansadinha agarrada aos rins (que apertam e desapertam), porque dos outros dois  achava o mesmo e depois foi preciso obrigá-los a sair, tadinhos, quando já passava das 40 semanas, já que não havia meio de entrar em trabalho de parto. E, não, não estou preocupada por não ter absolutamente nada de nada preparado. Preocupa-me que ele não seja forte o suficiente para aguentar tanta trapalhada se resolver sair tão pequenino.

Da intimidade, ou da privacidade

17.2.11
Pode ser por estar doente. Por estar grávida. Ou pelas duas coisas. Mas há dias em que isto - a minha vida, não faz sentido nenhum. Passa-se um dia e depois outro, eu prostrada no sofá com a banda sonora do Baby TV, o Isaac a esfregar a escova de dentes no chão, ou a comer a caixa do Ben-u-ron, ou a rasgar livros, e eu a pensar numa forma de sair disto - da minha vida (e agora sou eu a pensar): «A Bea podia ficar com o pai, mas ele não teria como ir buscá-la à escola, levá-la ao conservatório... e como é que ela ia estar com os irmãos? O Jaime tinha de arranjar uma ama para o Isaac, para poder ir trabalhar. E há o Nicolau. Tenho de o parir e amamentar primeiro. Depois posso sair disto. E como é que eu vivia sem eles? E eles sem mim, viveriam melhor? Talvez, talvez...»
E eu a pensar, aqui, em voz alta, é expor-me demasiado. Não tenho quaisquer problemas em mostrar as mamas na praia, ou num bar depois de alguns copos (diz que já aconteceu). Não tenho problemas em mostrar fotos minhas (tirando o facto de não gostar de me ver nelas), ou dos meus, ou de minha casa. Não tenho problemas em arrotar postas de pescada sobre um ou outro assunto. Não sinto a minha privacidade invadida, sinceramente. Agora revelar a voz (ou as vozes) que tenho dentro da minha cabeça, isso é outra história. Abro, hoje, a excepção, porque sou magnânima e é provável que esteja um bocadinho desequilibrada, pelas razões que já referi e porque descobri que a Vírgina Woolf teve um caso amoroso com a Vita Sackeville-West, em 1925 (nem parece meu não saber de uma coisa desta antecipadamente, i.e, antes de começar a ler o Diário dela).

Na caixa de correio 1

16.2.11


















Chegou ontem. Já li. Que histórias maravilhosas esta mulher conta! Obrigada Inês.

O patchwork é kitsch 7

15.2.11

Quilt3, originally uploaded by panados e arroz de tomate.

Primeiro foi o nariz que se encheu de ranho; depois os olhos de lágrimas e por fim a garganta de duas belas amígdalas inchadas. Suspeito que andarei nisto nos próximos dois meses...hmmm, mas não era nada disto que eu ia falar. O que eu queria dizer é que terminei este projecto. Sim, desde o início a ideia era fazer dois quilts para cobrir o sofá, uma vez que os gatos o estragaram com as unhas. E optei por fazer dois,  porque: a) o sofá tem uma mariquice que permite recostar apenas um lado e b) porque me parecia (e continua a parecer) difícil acolchoar à máquina um quilt daquele tamanho.
Ora essa solução parece-me, agora, de uma estupidez sem fim, porque repetir o mesmo padrão para um quilt é completamente "anti-quilt". Não teve piada nenhuma fazer outro igual e a tarefa foi sendo sistematicamente adiada. Depois, como mudámos de casa e temos agora aquele papel de parede na sala, usar os quilts no sofá torna o ambiente num cenário psicadélico tal que nem o Kubrick alcançaria conseguir nos seus momentos mais inspirados, digamos assim.
Seja como for, está pronto. É um projecto concluído. Menos uma frustração acumulada.
Já disse que estou doente outra vez?

Nós, as mães normais

10.2.11
Temos os espelho sujos; tiramos fotografias desfocadas, porque há mãos pequeninas a pedir-nos colo, e outras escuras, porque as divisões da casa não têm todas a mesma luz. Nós, as mães normais, e grávidas, gostamos de fatos-de-treino (sim, FATOS-DE-TREINO e não me venham com merdas que há uns anos ninguém ousaria sair à noite de chinelos de dedo e de repente as havaianas passaram a fazer parte dos outfits mais cool), mais do que isso, precisamos deles como os piolhos de cabeças humanas. Nós, as mães normais não temos, sempre, lençóis a condizer com edredons e cobertores; toalhas de mesa bordadas e outras coisas que tais. Nós, as mães normais temos pijamas ridículos.
E para mostrar isso mesmo acordei um dia destes (na segunda-feira passada) com a ideia fixa de registar o dia com imagens. A ideia era clicar de hora em hora estivesse eu a fazer o que estivesse, mas essa parte não se revelou fácil, porque me esquecia de confirmar as horas. Por isso, fui fotografando algumas das rotinas diárias sem grande preocupação com o relógio. O dia acabou por se revelar atípico, porque a Bea não esteve em casa (estava excepcionalmente com o pai num dia da semana), o Isaac não fez cocó e o Jaime não trabalhou nessa tarde. Ainda assim decidi que devia publicá-lo, por nós, as mães normais. Podem vê-lo aqui.

P.S Devo só acrescentar que há mães normais que fotografam melhor, nas mesmas condições. E que não se dão a este tipo de exibicionismos.

Optimismo

8.2.11
O Isaac ainda não dorme de noite, o que é óptimo porque assim já estamos encarreirados para o próximo.
Começo a ter alguma dificuldade em manter-me acordada durante o dia, por isso vivo numa espécie de limbo onírico muito propício à esquizofrenia, o que pode ser bastante criativo, um dia destes.
E pareço um hipopótamo (com 29 semanas, o tamanho da minha barriga corresponde às 35 semanas de gravidez do Isaac), portanto animo o dia a várias crianças quando corro (ou tento correr) atrás do pequeno no parque.

Orgulho e Preconceito

6.2.11
Jane Austen que me perdoe por lhe roubar o título mas é bastante adequado ao que quero dizer. Numas papeladas que tive de preencher escrevi na profissão: doméstica. E ri-me. Mas depois senti assim quase que uma espécie de vergonha.

Resoluções

4.2.11
Seguir os mandamentos destes moços e aprender a ler poesia. Se este ano só fizer estas duas coisas, fico contente. Juro.
(Também queria começar a dar umas horas num emprego; tricotar até cair para o lado; ler para cima de duas dezenas de livros; aprender a desenhar as nuvens-casa, uma assombrada, outra abandonada, outra um palacete, que vi enquanto dormia; fazer brotar ervas aromáticas, legumes, flores e árvores do jardim; apresentar comidas novas na mesa; escrever coisas com muito interesse... mas já fico muito satisfeita com as corridas e a poesia, porque assim como assim trato do corpo e da mente e pode ser que consiga acordar grande parte dos dias com vontade de me levantar)

Dela 2 (um presente)

4.2.11
Liberdade

agora, aprendi a ser livre,
no museu de arte,
ensinaram-me,
aprendi a ter.

algum planeta a que me leva,
o teu sorriso.
espreme-me.

guardaste o coração dentro de ti,
mas eu sinto-o.
gemes em silêncio,
mas eu ouço.

É esta a nossa Liberdade!!

Beatriz
05/04/2010

Sair

2.2.11
Acho sempre que sair de casa nos abre os horizontes, nem que seja para ir à padaria. Ora, uma vez que sou dada a tédios fáceis, preciso, de vez em quando, de ir um bocadinho mais longe do que até ao outro lado da rua. Assim sendo atravessámos a ponte e fomos dar um passeio até à Arrábida. De lá vim consoladinha com umas ovas e um peixe espada na grelha que comemos em Setúbal; com o primeiro livro que li do Gonçalo M. Tavares; e com a ideia para um patchwork inspirada nos azulejos do quarto-de-banho do sítio onde ficámos.

Outra?

1.2.11
Alguém por favor diga a estas pessoas* que não podem fazer isto. É que nós, as mães normais, estando grávidas e tudo, podemos começar a desenvolver um estado psicótico, que pode ir do ligeiro ao grave, e, tendo acesso a armas de fogo, começar a disparar.

* surripiado daqui